sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Federico Fellini – “O Sheik Branco” / “Lo Sceicco Bianco”


Federico Fellini – "O Sheik Branco" / "Lo Sceicco Bianco"
(ITA -1952) – (84 min. - P/B)
Alberto Sordi, Brunella Bovo, Leopoldo Trieste, Giulietta Massina.

Quando a Segunda Guerra Mundial, terminou a Itália era um país em ruínas, a bela Cinecittá criada pelo Duce estava completamente destruída e os cineastas vieram para a rua com as suas câmaras, porque não havia Estúdios para rodar as suas películas. De imediato nasceu o neo-realismo através da escrita de Zavattini e das imagens de Rossellini, De Sica, Visconti e muitos outros contra esse cinema implantado outrora por Mussolini. Antes de mais, convém referir o papel do ditador italiano no cinema que antecedeu a Guerra porque ele, seguindo o caminho traçado pelos famosos Estúdios alemães, UFA, decidiu oferecer a Itália o seu cinema, com os seus “peplum” e os melodramas dos "telefones brancos", através da figura do seu filho Vittorio Mussolini, o todo poderoso estratega do cinema italiano, com o seu célebre Festival de Veneza, os Estúdios da Cinecittá e fundando até a revista "Cinema", onde iriam colaborar os futuros nomes do cinema italiano saído do pós-guerra e que foram sempre protegidos pelo filho do Duce, que amava o Cinema e fingia ignorar as suas actividades políticas anti-fascistas.


Podemos assim afirmar que Mussolini, tal como Hitler, deu uma atenção muito especial à Sétima Arte, mais para o mal do que para o bem, compreendendo perfeitamente a força do Cinema, criando desta forma o cinema do poder. Curiosamente, passados tantos anos, a morte do ditador continua a ser um mistério, porque nunca ninguém reivindicou a autoria do seu assassínio. Após o fim da célebre “Republica de Saló” (retratada por Pasolini no cinema), o ditador foi encontrado pendurado numa praça de cabeça para baixo, já morto, atingido por diversas balas, mas mostrando ter sido difícil a sua captura, em virtude de haverem inúmeros sinais de violência física. O dedo foi apontado aos "partisans", mas mais tarde falou-se também nos serviços secretos ingleses, devido a uma "famosa pasta" que o Duce transportava com ele com elementos comprometedores. A seu lado, pendurada da mesma forma e apresentando sinais evidentes de tortura, estava a sua amante. E aqui o leitor dirá, porque estou a falar do Duce? Pois a razão é simples, ele até foi alguém que se interessou pelo cinema, tal como esse outro célebre ditador, chamado Estaline, que adorava ver os musicais norte-americanos (retrato feito pelo grande Andrei Konchalovsky em "The Inner Circle" / "O Círculo do Poder" (*)), ou seja os ditadores também gostam de cinema.


Entremos no assunto que nos interessa ou seja Federico Fellini e o seu “O Sheik Branco”, mas antes convém referir que o baptismo de fogo do grande cineasta italiano surgiu através de Alberto Lattuada, com quem realizou “Luci del Varietá”, tendo anteriormente participado na feitura de “Paisá” / “Libertação” de Roberto Rossellini, sendo natural que o jovem Federico Fellini seguisse os caminhos do neo-realismo, ao construir a sua primeira obra “Lo Sceicco Bianco”. Tal porém não sucedeu e aqui damos a palavra ao cineasta para ele nos explicar as suas razões: “o neo-realismo tivera um impulso enorme, ele era uma indicação verdadeiramente sagrada e santa para todo o Mundo. Mas em breve surge a confusão. Se a sua humildade perante a vida continuasse perante a câmara, então deixava de haver necessidade de realizadores. Ora para mim o cinema assemelha-se muito ao circo”, e recorde-se como a sua atracção pelo circo se manteve ao longo da vida, bem patente em “Clowns” e por sinal também neste maravilhoso “Sheik Branco”.

Federico Fellini

Ivan (Leopoldo Trieste) e Wanda (Brunella Bovo) vão em viagem de núpcias a Roma para uma audiência Papal e também para conhecerem os tios, representantes de um bom futuro, desta forma nós damos com eles a chegar à estação de comboios de Roma e logo aqui, mal deparamos com as personagens, encontramos nos seus rostos a expressão do ridículo. Se Ivan olha essa viagem como a preparação de um bom futuro, já Wanda só pretende encontrar-se com o Sheik Branco (Alberto Sordi), a grande estrela das revistas de fotonovelas, ela até trás consigo um desenho do seu rosto para lhe oferecer e, mal tem oportunidade, abandona o marido no hotel e parte para a sede da revista, uma cena de antologia. Vamos assim deparar ao longo da película com um Ivan perdido na grande cidade em busca da esposa, ao mesmo tempo que tem de explicar a ausência dela perante os tios, que começam a ficar incrédulos com o que lhes conta o sobrinho.


Todos sabemos como a ficção não corresponde à realidade e será isso mesmo que irá descobrir Wanda durante o dia que permanece na companhia do Sheik Branco, sendo levada para a zona onde se passa a rodagem (tira-se fotografias, como se tratasse de um filme), após ter estado na sede da editora. Aqui, Federico Fellini apresenta-nos uma galeria de personagens perfeita, desde o dito cujo realizador da fotonovela, como a bela de serviço, passando pela mulher do Sheik. No meio de tudo isto Wanda continua, apesar da dura realidade que lhe é apresentada, a viver num mundo de fantasias, que Alberto Sordi (o célebre Sheik Branco) lhe vai apresentando durante a viagem de barco que faz com ela, para grande desespero dos restantes elementos da fotonovela.


Perdida e abandonada nos arredores de Roma, Wanda irá tentar o suicídio, ao mesmo tempo que o marido, Ivan, que também não o consegue concretizar devido ao aparecimento de duas prostitutas, sendo uma delas a célebre Cabíria (Giulietta Massina) e aqui percebemos perfeitamente o amor oferecido por Federico Fellini a estas duas mulheres, através da forma como as retrata, enquanto Wanda e Ivan nos são apresentados como personagens não amadas pelo cineasta. Aliás, basta olhar para o ar desamparado de Wanda e Ivan para nos rirmos, sem piedade, residindo aqui toda a sabedoria de Federico Fellini, virando as costas ao neo-realismo. “O Sheik Branco” / “Lo Sceicco Bianco” é uma obra-prima perfeitamente delirante, oferecendo já todos os elementos que irão constituir o futuro Universo Felliniano. Uma película que merece ser descoberta por todos os que amam a Sétima Arte!

(*) - Curiosamente o actor Tom Hulce, o célebre "Amadeus" de Milos Forman, durante a rodagem do filme "The Inner Circle" / "O Círculo do Poder" encontrou-se com o homem que foi o projeccionista de Staline, que ele retrata na película, para perceber melhor como era a relação dele com o cinema, recorde-se que Staline adorava ver os musicais norte-americanos Este filme teve na época edição nacional no formato de video, desconheço se foi editado em dvd em Portugal.

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