segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Douglas Sirk – “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”


Douglas Sirk – “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”
(EUA – 1955) – (89 min/Cor)
Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorehead, Conrad Nagel, William Reynolds, Gloria Talbott.


Um dos maiores cineastas do melodrama foi, como todos sabemos, Douglas Sirk, um dos valores mais seguros da Universal Studios durante os anos cinquenta do século xx. E nunca é demais também recordar que foi ele o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, um camionista que um dia decidiu tentar o cinema, tendo-nos oferecido interpretações inesquecíveis, desde as comédias com Doris Day, até aos melodramas de Douglas Sirk, deixando também a sua marca em obras como “O Gigante” / “Giant”, ao lado de Elizabeth Taylor e James Dean.


Quando em 1954 Douglas Sirk juntou Jane Wyman (que foi esposa desse mau actor chamado Ronald Reagan), com Rock Hudson, as plateias da América ficaram em êxtase com o par. E se olharmos bem para Jane Wyman, até nem descobrimos nela essa beleza estonteante que foi marca da idade de ouro do cinema. As mulheres americanas viram na época uma história que as perturbou por um lado, enquanto por outro desejavam vivê-la na vida real. Depois tínhamos também a marca do cineasta, a deixar todas a suspirar por mais filmes do género, de forma a puderem projectar para o écran os seus desejos mais secretos.


Por tudo isto, o produtor Ross Hunter decidiu juntar novamente o par Rock Hudson/Jane Wyman no ano seguinte e convidar Douglas Sirk para realizar “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”, nascendo assim outra obra-prima do melodrama.
Ross Hunter pretendia sempre que o cineasta nos oferecesse o máximo de glamour, fosse através do guarda-roupa dos actores, ou dos interiores das casas habitadas por eles, sempre com as famosas escadas. Basta olhar para Jane Wyman na película e fica tudo dito. Por outro lado Sirk usa o argumento de acordo com as suas necessidades estéticas, controlando sempre a montagem para evitar o corte de terceiros. Recorde-se que uma das marcas do cineasta é fazer a montagem no interior do próprio plano, usando de forma soberba o plano-sequência. E para finalizar temos sempre essa maravilhosa direcção de actores, feita sempre com poucas palavras, mas muita paciência, como nos conta William Reynolds “com Sirk as filmagens eram sempre tranquilas”.


Logo a abrir temos essas cores outonais tão do apreço do cineasta, que nos convidam a visitar uma little town e conhecer o universo de Cary Scott (Jane Wyman), uma viúva com dois filhos que se movimenta muito bem no interior do “jet-set” local (se nos permitem a expressão). Mas lentamente vamos percebendo que aquela mulher vive a sua vida de acordo com o desejo de terceiros, desde os filhos, até aos amigos, habitando uma viuvez eterna. Basta ver a reacção dos filhos, logo no início da película, quando a encontram vestida de vermelho para ir a uma festa. Mas ao saberem que o acompanhante é o velho Harvey (Conrad Nagel), ficam mais tranquilos.

Iremos assim seguir a vida desta mulher de meia-idade, carente de amor, que um dia irá descobrir num homem quinze anos mais novo do que ela, uma razão para renascer das cinzas.
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Ron Kirby (Rock Hudson) é o filho do antigo jardineiro, que cuidava das casas da zona e revela-se um homem que vive acima dos preconceitos, optando por uma vida em que é dono da sua própria alma, ao mesmo tempo que possui Walden como referência. Aquele ano será o último em que se dedica a trabalhar nos quintais da zona, porque na escola agrícola descobrira o interesse pela plantação de árvores e decidira investir todo o seu saber nessa nova área, vivendo numa estufa, com os seus pequenos haveres.
A generosidade dele e a sua forma de estar na vida despertam a curiosidade de Cary e, depois de conhecer um casal amigo de Kirby que vive de acordo com os mesmos princípios, Cary deixa-se cair nas malhas do amor, esquecendo-se que os filhos nunca irão aceitar que ela case com um homem bem parecido e muito mais novo do que ela, para além de ser de outra condição social, embora Kirby pretenda viver com Cary no moinho, que está a reparar, junto da estufa.


Se a reacção dos filhos é a pior possível, ameaçando-a de nunca mais lhe falarem, já a atitude dos seus famosos amigos é de um cinismo atroz, com a inevitável má-língua a deixar marcas pela cidade fora.
Cary Scott (Jane Wyman) decide então aceitar o destino imposto por terceiros, vivendo exclusivamente para os filhos e as aparências, até que no Natal percebe o erro cometido. Os filhos vão partir para sempre, Ned (William Reynolds) em trabalho, para um outro Estado, enquanto Kay (Gloria Talbott) informa a mãe que se vai casar. E como filhos “perfeitos” que são, não se esquecem da “cereja no topo do bolo”, e oferecem à mãe uma televisão para lhe “aquecer as noites de solidão”.


Finalmente, Cary Scott (Jane Wyman) entende a tragédia da sua vida e decide voltar atrás no tempo, em busca desse amor recusado por ela, em virtude de Ron Kirby (Rock Hudson), pertencer a uma condição social inferior à sua e comungar com a vida, de forma diferente do habitual.
“O Que o Céu Permite”/ “All That Heaven Allows” oferece-nos, deste modo, um dos melodramas mais sublimes da história do cinema. Um filme que nunca nos cansamos de ver, descobrindo sempre, em cada visionamento, um novo elemento da genialidade de Douglas Sirk.

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