terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Douglas Sirk – “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”


Douglas Sirk – “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”
(EUA – 1957) – (91 min. - P/B)
Rock Hudson, Robert Stack, Dorothy Malone, Jack Carson.

O nome de Douglas Sirk está, decididamente, ligado a esse género chamado melodrama, do qual foi um dos maiores expoentes e “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels” oferece-nos de novo o trio de protagonistas de “Escrito no Vento” / “Written on the Wind” (já por aqui abordado), tendo desta feita o Mestre optado por um preto e branco soberbo, quase de tirar a respiração e usando o "scope" em toda a sua grandeza. A opção deixou muitos boquiabertos, mas basta vermos o filme numa sala de cinema e em cópia nova para percebermos de imediato a opção de Douglas Sirk.


Iremos assim entrar pela porta grande desse mundo arriscado das acrobacias aéreas e corridas de avião, por sinal muito em voga nos dias de hoje, até com direito a transmissão directa pela televisão.
Roger Shumann (Robert Stack) é um herói da guerra que se tornou num desses pilotos, vivendo no fio da navalha, sempre acompanhado pela sua bela mulher Laverne (Dorothy Malone) e o seu amigo e mecânico de sempre Jiggs (Jack Carson), para além do seu pequeno filho, que vê no pai o maior herói de todos os tempos. Mas aquele trio de aventureiros do ar quase não tem dinheiro para comer, vivendo dos prémios que ganha nas competições, o que demonstra bem como é difícil a sua vida.
E será essa mesma vida que irá despertar o interesse de um jornalista chamado Burke Devlin (Rock Hudson), que pretende escrever a história daquele famoso trio da aviação.


Mal as primeiras imagens surgem no écran, ainda com o genérico a correr, ficamos fascinados pela sensualidade de Dorothy Malone no seu vestido branco a realçar as formas do corpo e não somos só nós que reparamos nela, todos os presentes na pista não tiram os olhos dela e quando a vemos mais tarde a saltar de pára-quedas, com aquele mesmo vestido, fica tudo dito. Mas por detrás daquele corpo esbelto vive uma história de amor eterno, porque como iremos perceber mais tarde, os que morrem permanecerão sempre vivos entre nós, desde que sejam recordados.


Burke Devlin, que tem um problema enorme com a bebida, irá deparar-se com um novo dilema ao acompanhar esse trio da aviação, porque rapidamente se apaixona por aquela mulher bela e sensual que ama perdidamente o seu marido Roger, apesar de este ter decidido casar com ela só depois de saber da sua gravidez. Por esta mesma razão são muitos os que se interrogam sobre quem de facto é pai do pequeno Jack, já que tanto pode ser Roger como o seu mecânico Jiggs, que possui uma paixão bem evidente por Laverne.


Estamos assim decididamente no território do melodrama e Rock Hudson, um dos actores mais brilhantes da constelação Sirk, possui aqui uma das suas mais espantosas interpretações na figura do jornalista alcoólico, apaixonado por Laverne, mas também pela sua profissão, ao ponto de ser despedido da redacção do jornal, quando se recusa a cobrir outro evento, já que o director do jornal acha uma perda de tempo acompanhar a competição de forma intensa, meia-dúzia de linhas para ele é suficiente. Mas quando a tragédia surge, de imediato a primeira página é dedicada ao sucedido, embora numa escrita sem chama, o que levará o despedido Burke Devlin a invadir a redacção do jornal onde outrora trabalhara para demonstrar ao seu superior como se escreve a verdadeira história da família Shumann e nesta sequência espantosa temos um verdadeiro tratado do que deve ser o jornalismo.


Ao vermos “O Meu Maior Pecado” / “The Tarnished Angels”, nunca nos poderemos esquecer que este fabuloso argumento nasceu de uma novela de William Faulkner, que nos oferece a respiração do seu génio em cada fotograma da película. Se ainda não viram o filme, procurem o dvd que já se encontra editado no nosso país e preparem-se para descobrir uma das mais belas obras-primas do melodrama, assinada por esse Mestre do género, chamado Douglas Sirk.

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