sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Douglas Sirk – “Escrito no Vento” / “Written on the Wind”


Douglas Sirk – “Escrito no Vento” / “Written on the Wind”
(EUA – 1956) – (99 min. / Cor)
Rock Hudson, Lauren Bacall, Robert Stack, Dorothy Malone, Robert Keith.

“Escrito no Vento” / “Written on the Wind” foi o primeiro filme que vi de Douglas Sirk (tinha oito ou nove anos), ainda numa televisão a preto e branco, nesses finais dos anos sessenta, do século xx, em que comecei a devorar filmes no pequeno écran e nunca mais me esqueci do título, ao mesmo tempo que fixava os nomes dos actores na minha memória.

Quando o reencontrei décadas depois, já numa sala de cinema, conhecia parte da obra do cineasta, vista no pequeno e grande écran e ao (re)descobrir as famosas cores, fiquei simplesmente maravilhado.
Depois foi o recordar da história e rever o filme com outros olhos e na verdade o portentoso início do filme, com aquela corrida de automóvel de Kyle Hadley (Robert Stack), rumo à Mansão paterna para se defrontar com os seus demónios, possui um dos momentos mais sublimes da Arte cinematográfica de Douglas Sirk.


Iremos então saber, depois desse tiro fatal que termina com uma vida, como tudo começou nesse mundo em que o dinheiro do petróleo era a lei.
Mitch Wayne (Rock Hudson) e Kyle Hadley (Robert Stack) eram mais que amigos, na verdade eles eram irmãos, tal a forma como as suas vidas se cruzavam. E se Mitch adorava o pai de Kyle, já Kyle sempre desejou ter um pai como o de Mitch. E se Mitch era o “bom rapaz”, Kyle era o “estroina”, que encontrava no dinheiro o veículo para conquistar as mulheres que desejava, ao mesmo tempo que convivia com a bebida de forma muito pouco sóbria.


No dia em que ambos se cruzaram com Lucy (Laureen Bacall), as suas vidas ficaram separadas para sempre por um abismo, porque nesse dia descobriram que amavam a mesma mulher, porque ela era diferente de todas as outras que conheciam. Mas o destino e o dinheiro terminou por convencer Lucy que Kyle Hadley era o tal, acabando por se casar com ele. Nos primeiros tempos conseguiu que o álcool se ausentasse da vida do marido, até chegar aquele dia em que ambos perceberam que o seu amor não conseguia gerar o fruto tão desejado, essa criança que ambos tanto ambicionavam. Seria Lucy estéril ou era Kyle Hadley que era impotente? Nem uma coisa nem outra, como iremos saber mais tarde. Mas a opinião do médico da família, fatal e incerta terminaria por destruir aquele lar.


Por outro lado Marylee Hadley (Dorothy Malone), a irmã de Kyle, sempre nutriu uma paixão avassaladora por Mitch Wayne (Rock Hudson) desde os tempos em que os três brincavam junto ao lago, paixão essa que não iria ser correspondida, chegada a idade adulta, levando-a a refugiar-se também ela no álcool e no sexo, usando a seu belo prazer os homens que escolhia ao correr do tempo, numa tentativa de fazer ciúmes a Mitch e assim o reconquistar. No entanto foi ela a primeira a perceber os sentimentos de Mitch por Lucy, encetando então uma caminhada destruidora de tudo e de todos.


“Written on the Wind” é um espantoso melodrama de Douglas Sirk, que consegue ludibriar todos os códigos vigentes, oferecendo-nos mais uma obra-prima profundamente enraizada nesse Sul, onde o petróleo se confunde com o poder, um poder por vezes tão frágil e complexo como os sentimentos que conduzem as personagens até à beira do abismo, como veremos na sequência do tribunal.
“Escrito no Vento” surge assim como uma das pérolas da filmografia de Douglas Sirk, que mais uma vez nos oferece uma direcção de actores na área do sublime, assim como a sua famosa cor, sempre bem patente na obra do cineasta, a iluminar uma montagem em que cada plano nos surge como absoluto. Estamos perante mais uma obra-prima deste cineasta, que escolheu a América como território de eleição para nos oferecer a sua Arte.




Nota: O filme está editado no nosso país numa cópia que respeita o formato e com boa transcrição. 

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