quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

David Lean – “Lawrence da Arábia” / “Lawrence of Arabia”


David Lean – “Lawrence da Arábia” / “Lawrence of Arabia”
 (ING – 1962) – (187 min./ 216 min. – Cor)
Peter O’Toole, Omar Shariff, Alec Guiness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, Anthony Quayle, Claude Rains, Arthur Kennedy.


Quando se possui um blogue e se escreve sobre a sétima arte, pelo simples prazer de se divulgar a maravilhosa arte das imagens, muitas vezes o cinema confunde-se com a própria vida de quem escreve e por vezes há filmes que nos marcam para sempre. “Lawrence da Arábia” é precisamente um desses casos, porque quando vi a película de David Lean pela primeira vez tinha apenas onze anos e nessa tarde faltei às aulas para ir ao Cinema Europa ver o filme e nunca mais me esqueci dele. Quinze anos depois, voltei a encontrá-lo no seu esplendor dos 70 mm no cinema Monumental e muito recentemente retornei a ele, numa cópia de 35 mm e tanto anos passados a magia de David Lean permanece inalterada.


Curiosamente, em Portugal, já não existem salas de cinemas que possibilitem a visão de filmes nesse écran mágico de 70 mm, que enchia a vida de sonhos. E apesar de já ter sido editado em dvd a versão restaurada do filme com a duração de 216 minutos, o célebre “Director’s Cut”, uma película como “Lawrence of Arábia” só respira em toda a sua grandeza numa sala de cinema com o écran para que foi pensado, porque por muito grande que seja o plasma existente na nossa casa, é na sala de cinema que se convive de forma mais apropriada com o universo da Sétima Arte.

David Lean

Passando esta longa introdução, entremos neste filme do cineasta britânico David Lean, que encontrou no americano Sam Spiegel o produtor por excelência. Recorde-se que estes dois homens já tinham assinado, antes da feitura desta obra-prima, o célebre “The Bridge of River Kwai” / “A Ponte do Rio Kwai” com enorme sucesso. E convém também não esquecer que nesta época, inícios de sessenta, o célebre “écran azul” onde hoje tudo é permitido era ainda uma miragem, essa miragem que muitas vezes nos assalta quando percorremos o deserto, esse território em que a natureza possui a última palavra.


A rodagem do filme foi das mais atribuladas, na Jordânia e Marrocos sempre em luta com as condições climatéricas, onde por vezes à sombra a temperatura atingia os 55 graus e David Lean e os seus actores ultrapassaram todos os obstáculos surgidos.
“Lawrence da Arábia” baseia-se no livro “Os Sete Pilares da Sabedoria”, escrito pelo próprio T. E. Lawrence e que Robert Bolt transformou num argumento espantoso, narrando-nos a história de um oficial britânico que, um dia, teve como missão unir as tribos do deserto para combater os turcos, oferecendo-lhes em troca a posse da sua própria terra. Iremos assim encontrar Lawrence no Cairo a ser informado da sua escolha para tão penosa missão e, após conhecermos os detalhes da operação, assiste-se a um dos mais belos raccords da história do cinema quando Peter O’Toole apaga o fósforo com um ligeiro sopro e de imediato nos encontramos sobre o calor escaldante do deserto, um verdadeiro toque de magia só possível a um grande cineasta. E por falar em raccord genial, aqui deixamos outro, realizado por Stanley Kubrick, quando em “2001-Odisseia no Espaço”, o símio atira o osso ao ar e ele nos transporta rumo ao espaço numa beleza inesquecível.


Voltando a “Lawrence da Arábia”, convém recordar também os seus intérpretes porque Peter O’Toole era um perfeito desconhecido na época (oriundo do teatro), tal como Omar Shariff que, apesar de já ser conhecido no seu país, o Egipto, apresentou-se no “casting” em busca de um pequeno papel, em virtude de falar inglês, acabando por dar vida a essa personagem sempre cheia de lucidez chamada All Ibn el Kharish, o verdadeiro coração da nação árabe. Já Alec Guiness (Príncipe Feyçal) e Anthony Quinn (Auda Abu Tayl) eram nomes famosos do firmamento estelar de Hollywood.
A edição em dvd do “Director’s Cut” oferece-nos um fabuloso “making off” que só por si vale a aquisição do filme, mas adiante.
A missão de Lawrence no deserto dá frutos, precisamente os frutos pretendidos pelos Britânicos, mas pouco e pouco ele irá ultrapassar as directivas tornando-se num verdadeiro árabe em busca do seu território e a forma como Peter O’Toole nos oferece essa transformação é sublime, porque o deserto passa a ser a casa fascinante que Lawrence deseja habitar, esquecendo-se da sua própria identidade, passando a ser o líder de uma futura nação em construção, enquanto o Príncipe Faisal (um Alec Guiness espantoso e quase irreconhecível) vai negociando com os ingleses de forma diplomática, mas sem concessões, a criação do seu reino.


Mas quando falamos de “Lawrence da Arábia”, nunca nos podemos esquecer desse outro intérprete que nos acompanha ao longo de mais de três horas, imperturbável e silencioso, chamado deserto. Nunca como ninguém David Lean filmou as areias do deserto, sendo possível sentirmos o calor, agarrando-nos à cadeira para seguirmos o trajecto do seu herói e das tribos que o seguem. Se uns apenas desejam o saque, como é o caso de Aura (Anthony Quinn), outros buscam algo mais profundo como é o desejo da sua própria independência, como sucede com All Ibn (Omar Shariff) e assim desta forma iremos descobrir as fracturas do nascimento de uma nação.

T. E. Lawrence e Peter O'Toole

Como não podia deixar de ser, a história será “cozinhada” nos bastidores da(s) política(s) e Lawrence, ao longo da sua missão, torna-se um desconhecido para aqueles que conviviam com ele no exercito Britânico, a sua indumentária árabe com que se apresenta aos seus superiores termina por dar lugar ao seu uniforme e a pouco e pouco o desejo de regressar a casa surge quando percebe, após a conquista de Damasco (1), como é difícil unir as várias tribos devido às diversas rivalidades existentes.
Por outro lado, o prazer de matar que começou a sentir na luta contra os turcos tomou conta dele e só havia uma maneira de o liquidar, partir para sempre das areias inóspitas e maravilhosas do deserto e regressar a casa, para nunca mais voltar.
Quando revemos hoje o filme de David Lean, “Lawrence of Arabia”, não podemos dizer apenas que é uma obra-prima, mas acima de tudo que Isto é Cinema!!!

(1) - As filmagens foram feitas em Sevilha.

4 comentários:

  1. É minha convicção que as coisas que mais nos marcam (livros, filmes...) ocorrem entre o princípio da adolescência e o fim dos 30 anos de idade.
    Assim, e usando a fórmula de Benard da Costa, os filmes da minha vida terão sido: o "8 1/2", de Fellini, e "Tomado do poder por Luís XIV", de Rossellini. O "Lawrence...", de Lean, ocupa, no entanto, uma boa posição na lista dos meus favoritos. Até por uma frase ("My name is for my friends!") dita por Lawrence, e que eu só vim a compreender, inteiramente, mais tarde.
    Um bom dia!

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    1. Quando revejo um filme, releio um livro ou escuto uma música, sou sempre assaltado por pequenas memórias de um primeiro encontro ou descoberta, desse mesmo filme, livro ou música e é claro que depois tenho os filmes da vida, os livros da vida e as músicas da vida, esses eternos companheiros que levaria para a tal ilha deserta, nesse jogo de cinéfilos, de que João Bénard da Costa por vezes falava nas suas conversas com o público, fosse na Gulbenkian ou na Cinemateca. Boas recordações:)
      Obrigado pela visita e comentário.
      Uma Boa Tarde!

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  2. Respostas
    1. A filmografia de David Lean é simplesmente fabulosa, mas este "Lawrence da Arabia", atrevo-me a dizer, revela-se o maior de todos os legados que ele ofereceu à Sétima Arte!
      Beijinhos!

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