terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Claude Chabrol – “A Rapariga Cortada em Dois” / “Fille Coupée en Deux”


Claude Chabrol – “A Rapariga Cortada em Dois” / “Fille Coupée en Deux”
(FRANÇA-2007) – (115 min. / Cor)
Ludivine Sagnier, Benoit Magimel, François Berléand, Mathilda May.


Claude Chabrol, um dos fundadores da Nouvelle Vague, revelou-se sempre um autor por excelência, utilizando a sua câmara como um verdadeiro bisturi, para analisar a sociedade francesa contemporânea.


Em “Fille coupée en deux” / “A Rapariga Cortada em Dois” vamos conhecer a história de uma jovem apresentadora de televisão (faz o boletim meteorológico), cuja vida se irá cruzar com um célebre escritor de meia-idade, recluso na sua casa da província, alérgico aos média e ao sucesso. Charles Saint-Denis (François Berléand) leva, aparentemente, uma vida pacata na sua mansão moderna na companhia da sua mulher (Valeria Cavalli), mas esse casamento não passa de uma simples fachada, bem conhecida da sua amiga e editora Capucine (Mathilda May). E será na apresentação do seu último romance, na livraria dessa pequena cidade, que ele se irá cruzar por mero acaso com a jovem Gabrielle que de imediato o fascina.
Gabrielle (Ludivine Sagnier), filha da livreira, não possui grande ternura pela literatura mas a figura do escritor desperta-lhe interesse, ao mesmo tempo que o jovem milionário Paul Gaudens (Benoit Magimel), ao cruzar-se com ela nesse evento, decide tentar a sua sorte junto da jovem apresentadora.


Iremos assim entrar num duelo entre dois homens que se odeiam e que desejam ardentemente uma jovem mulher que inicialmente se inclina para a figura do escritor, com idade para ser pai dela, mas que a fascina e a convida a conhecer esse mundo de prazer onde ele gosta de navegar, em que tudo é permitido. Lentamente, Gabrielle entra no território do proibido, aceitando todos os desejos de Charles Saint-Denis, mas quando ela lhe pede para ele deixar a mulher tudo se complica, decidindo ela então aceitar o namoro incessante que Paul Gaudens lhe faz, afastando-se do escritor. Mas o jovem Paul conhece demasiado bem o mundo perverso de Saint-Denis e mais forte que o amor que ele possui por Gabrielle é o ódio que devota ao seu rival. E será esse mesmo ódio que irá decidir o destino de todos, após o seu casamento com Gabrielle, já que o ciúme lhe começa a devorar a alma.


Claude Chabrol oferece-nos mais uma vez, nesta película, o seu olhar profundo sobre a província francesa e as suas personagens, em que ninguém é inocente, fazendo um retrato trágico e mordaz de uma certa intelectualidade, ao mesmo tempo que olha sem piedade os habitantes da caixa que mudou o mundo.
Ludivine Sagnier, uma das grandes revelações do cinema francês descoberta por François Ozon, encontra-se neste filme como peixe na água e Benoit Magimel, que tínhamos visto em “A Pianista”, oferece-nos uma interpretação excelente, como se fosse um "dandy" saído da pena de Oscar Wilde, revelando ser um dos nomes a seguir no interior do cinema francês contemporâneo. Já François Berléand, na figura do escritor Saint-Denis, surge aqui com uma contenção espantosa, mergulhando de corpo e alma na personagem que interpreta.
Claude Chabrol, que também assina o argumento, oferece-nos mais uma vez toda a sua sabedoria de verdadeiro autor, revelando o seu olhar sobre a sociedade francesa ser de um brilhantismo absoluto, mas como sempre incómodo para muitos.


Apesar de Claude Chabrol nos ter deixado a 12 de Setembro de 2010, o seu cinema, tal como o seu nome, permanece bem vivo no interior da Sétima Arte!

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