domingo, 31 de dezembro de 2017

Albert Lebourg - "Notre-Dame de Paris, sous la neige"


Albert Lebourg - "Notre-Dame de Paris, sous la neige", 1895.

Keith Jarrett - “Sun Bear Concerts”


Keith Jarrett
“Sun Bear Concerts”
ECM Records

Foi através de um programa de Rádio, o célebre “Forum” de Jorge Lopes, que escutei pela primeira vez na íntegra os célebres “Sun Bear Concerts” de Keith Jarrett em piano-solo. Ao longo de várias semanas, foram passados um lado de cada LP dos 10 discos de vinil que constituíam a caixa e se havia alguma dúvida da genialidade de Keith Jarrett, aqui perdiam-se as dúvidas sobre a capacidade criativa do pianista.

Durante anos Keith Jarrett praticou este género de concerto-solo, até que foi atingido pelo síndroma da fadiga crónica, que o afastou da música durante largo tempo e após o seu regresso, que muitos já consideravam improvável, incluindo os seus companheiros do trio Standards, ele conseguiu retomar os seus concertos a solo, mas nunca mais com a envergadura e extensão destes.

Por estas razões “Sun Bear Concerts” revela-se como o melhor testemunho da genialidade de um pianista e compositor chamado Keith JarrettJ!


Keith Jarrett – Piano.

10 LPs

Kyoto – November, 5th 1976

Part I a – 25:13
Part I b – 14:44
Part II a – 17:03
Part II b – 18:31

Osaka – November, 8th 1976

Part I a – 19:58
Part I b – 19:27
Part II a – 21:29
Part II b – 9:40

Nagoua – November 12th 1976

Part I a – 17:30
Part 1 b – 18:50
Part II a – 20:02
Part II b – 24:19

Tokyo – November 14th 1976

Part I a – 24:34
Part I b – 16:07
Part II a – 22:08
Part II b – 21:50

Sapporo – November 18th 1976

Part I a – 22:07
Part I b – 19:16
Part II a – 25:24
Part II b – 19:14



6 CDs

Kyoto – November 5th 1976

1 – 1 – Part I – 43:49
1 – 2 – Part II – 34:03

Osaka – November 8th 1976

2 – 1 – Part I – 38:53
2 – 2 – Part II – 31:09

Nagoya – November 12th 1076

3 – 1 – Part I – 35:30
3 – 2 – Part II – 39:55

Tokyo – November 14th 1976

4 – 1 – Part I – 40:19
4 – 2 – Part II – 35:21

Sapporo – November 18th 1976

5 – 1 – Part I – 40:59
5 – 2 – Part II – 33:55

Encores

6 – 1 – Sapporo – 10:48
6 – 2 – Tokyo – 8:16
6 – 3 – Nagoya – 4:02

Duração: 06:36:59
Ano: 1978
Edição: LP/K7/CD

Gravado ao vivo no Japão em 1976 por Okihiko Sugano e Shinji Ohtsuka. Fotografias de Akira Aimi e Klaus Knaup. Design de Barbara Wojirsch. Produção de Manfred Eicher.
A edição em vinil é composta por uma Box Set de 10 LPs e a edição em CD é composta por 6 CDs, já a edição em cassete-audio é constituída por 5 cassetes-audio. Todas as composições são da autoria de Keith Jarrett.

Bernard Plossu - "Café de Montparnasse"


"Café de Montparnasse"
Bernard Plossu, 1978.

Chick Corea - “Piano Improvisations, Vol. 2”


Chick Corea
“Piano Improvisations, Vol. 2”
ECM Records

A Arte de Chick Corea encontta-se bem expressa nos dois volumes que constituem a obra “Piano Improvisations”.

Chick Corea – Piano

1 – After Noon Song – 2:49
2 – Song For Lee Lee – 2:42
3 – Song For Thad – 2:00
4 – Trinkle, Tinkle – 2:03
5 – Masqualero – 5:36
6 – Preparation 1 - 2:37
7 – Preparation 2 - 0:53
8 – Departure From Planet Earth – 7:35
9 – A New Place – 13:20
(Arrival/Scenery/Imps Walk/Rest)

Duração: 40:06
Ano: 1972
Edição: LP/CD

Gravado no Arne Bendiksen Studio, Oslo nos dias 21 e 22 de Abril de 1971 por Jan Erik Kongshaug. Design de B& B Wojirsch e Fotografia de Valerie Wilmer. Produção de Manfred Eicher.
Todos os temas de “Piano Improvisations, Vol. 2”, são da autoria de Chick Corea, excepto os temas “Trinkle, Tinkle” pertencente a Thelonious Monk e “Masqualero” assinado por Wayne Shorter.

Chick Corea - “Piano Improvisations, Vol. 1”


Chick Corea
“Piano Improvisations, Vol. 1”
ECM Records

“This music was created out of the desire to communicate and share the dream of a better life with people everywhere.”

Chick Corea


Chick Corea – Piano

1 - Noon Song – 4:00
2 – Song for Sally – 3,45
3 – Ballad for Anna – 2:25
4 – Sonf of the Wind – 3:10
5 – Sometime Ago – 8:20
6 – Where Are You Now – A Suite of Eight Pictures – 20:03

Duração: 42:50
Ano: 1971
Edição: LP/CD

Gravado no Arne Bendiksen, Oslo nos dias 21 e 22 de Abril de 1971 po Jan Erik Kongshaug e produzido por Manfred Eicher. Design de B & B Wojirsch e Fotografia de Valerie Wilmer. O ciclo “Piano Improvisations” de Chick Corea irá ter um segundo volume.
Todos os temas são da autoria de Chick Corea, excepto o famoso “Sometime Ago”, que é assinado por Chick Corea e Neville Potter.
Por outro lado, o tema “Where Are You Now – A Suite of Eight Pictures”, preenchia a totalidade do lado B do álbum em vinil.

Pierre-Auguste Renoir - "Patineurs au Bois de Boulogne"


Pierre-Auguste Renoir - "Patineurs au Bois de Bologne", 1868.
Óleo sobre tela, 72,1 x 89,9 cm.

Walter Hill – “Estrada de Fogo” / “Street of Fire”


Walter Hill – “Estrada de Fogo” / “Street of Fire”
(EUA - 1984) – (93 min. / Cor)
Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Amy Madigan.


«Queimei tudo!», disse ele, antes de ir para Rockland.”

Diane di Prima


Acendemos um cigarro na noite e uma chama ilumina a brisa que sopra do Norte. O cheiro a gasolina invade-nos as narinas e atravessa as estradas escaldantes do silêncio.
Do outro lado da noite, um jovem vigilante, solitário, caminha pela estrada fora. Leva vestida a camisola trocada em Tânger com o Bill e transporta rolos de telex do Jack na mochila.


Do outro lado da vida, em Richmond, a estrela rock Ellen Aim, celebra a passagem pela sua cidade natal. A luz e o néon libertam o espaço fechado do palco, enquanto a música nasce na voz do anjo negro, vestido de vermelho. Mas o espectáculo não chega ao fim, já que os “Bombers” invadem a sala e raptam a estrela rock. Raven possui agora o seu objecto de amor e retoma à combustão da vida.
Coddy, tal como Ellen, regressa ao ponto de partida para dormir no passado. No entanto é o passado que o conduz a “Battery”, o acampamento inimigo, de Raven e seus discípulos, morcegos de duas rodas, ocultos na luz nocturna.


Um novo sol nasce na escuridão da cidade inimiga, invadida pelas explosões mortíferas de chamas translúcidas de amor e ódio, fruto do encontro de Coddy com Ellen e Raven. As barreiras são levantadas para evitar o regresso de duas forças nascidas no sangue das ruas. Mas o duelo tal como no “western”, entre o bem e o mal, personificação de forças opostas, impossibilitadas de viverem isoladamente, renasce em Richmond como se a cidade estivesse à beira do abismo
Coddy é o herói típico, isolado, reflexo de uma colectividade que se teme a si própria. O seu comportamento é o de um líder solitário interrogado por um amor perdido e reencontrado no asfalto da vida. Já Raven é o chefe de uma tribo, que acredita no seu senhor, indestrutível e poderoso.


O duelo entre o bem e o mal nasceu com a matéria, sendo o resultado do seu confronto desconhecido de todos. Tom Coddy parte e McCoy acompanha-o. Ellen Aim, como todos os anjos perdidos na terra, espera pelo regresso ao território celeste.
Do outro lado da noite, sentado ao luar, nas Montanhas Rochosas olhando o oceano Pacífico, o cineasta Walter Hill escreve uma fábula do “Rock-n-Roll”, sem passado, nem futuro, nascendo assim os cristais de uma Estrada de Fogo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Paul Signac - "Neige, Boulevard de Clichy"


Paul Signac - "Neige, Boulevard de Clichy", 1886.
Óleo sobre tela, 73 x 92 cm.

Eberhard Weber - “Fluid Rustle”


Eberhard Weber
“Fluid Rustle”
ECM Records

“Fluid Rustle” é um dos mais belos álbuns de Eberhard Weber, que aqui nos oferece o seu trabalho mais cristalino, no verdadeiro sentido do termo, graças ao vibrafone de Gary Burton e à guitarra eléctrica de Bill Frisell, mas quando ambos trocam os seus instrumentos habituais, ao longo do tema que dá precisamente nome ao álbum, e nos surgem a tocar marimba e balalaika, devidamente secundados por esse belo instrumento que são as vozes de Bonnie Herman e Norma Winstone, é o Paraíso Musical que descobrimos em todo o seu esplendor. Estamos assim perante um dos mais belos trabalhos discográficos de Eberhard Weber, intitulado “Fluid Rustle”J!

Aproveitamos para sugerir uma comparação entre este “Fluid Rustle” de Eberhard Weber e o “Music For Airports” de Brian Eno e rapidamente percebemos que quem sai a ganhar é o Universo Musical, porque estamos perante dois álbuns geniais, que bem merecem ser redescobertos pelas novas gerações.


Bonnie Herman – Voice.
Norma Winstone – Voice.
Gary Burton – Vibraharp, Marimba.
Bill Frisell – Guitar, Balalaika.
Eberhard Weber – Bass, Tarang.

1 – Quiet Departures – 17:23
2 – Fluid Rustle – 7:24
3 – A Pale Smile – 9:06
4 – Visible Thoughts – 4:59

Duração: 38:52
Ano: 1979
Edição: LP/K7/CD

Gravado em Janeiro de 1979 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Martin Wieland. Capa e design de Maja Weber. Fotografias de Signe Mahler. Produção de Manfred Eicher Todos os temas são da autoria de Eberhard Weber.

Jan Garbarek - “Sart”


Jan Garbarek
“Sart”
ECM Records

Quatro dos membros deste quinteto irão formar as suas próprias bandas de jazz, tornando-se nomes incontornáveis no interior do Jazz Europeu, fazendo nos dias de hoje já parte da sua História.
O Jan Garbarek Group, o Bobo Stenson Trio, Terje Rypdal & The Chaser, o Arild Andersen Quartet e o baterista Jon Christensen, que tem viajado entre todos estes agrupamentos, são verdadeiras instituições do jazz e o álbum “Sart” conta-nos a história de como tudo se iniciou. Um álbum que bem merece ser redescoberto J!

Jan Garbarek  Tenor e Bass Saxophones, Flute.
Bobo Stenson – Piano, Electric Piano.
Terje Rypdal – Guitar
Arild Andersen – Double-Bass.
Jon Christensen – Drums.

1 – Sart (Jan Garbarek) – 14:15
2 – Fountain of Tears (Jan Garbarek) – Part I and II – 6:03
3 – Song of Space (Jan Garbarek) – 9:39
4 – Close Enough for Jazz (Arild Andersen) – 1:59
5 – Iir (Jan Garbarek) – 7:15
6 – Lontano (Terje Rypdal) – 2:12

Duração: 41:52
Ano: 1971
Edição: LP/CD

Gravado a 14 e 15 de Abril de 1971 no Arne Bendiksen Studio, Oslo, por Jan Erik Kongshaug. Design de B & B Wojirsch e Fotografia de Bjorn A. Fossum. Produção de Manfred Eicher.

Steve Kuhn and Ectasy - “Motility”


Steve Kuhn and Ectasy
“Motility”
ECM Records

Steve Kuhn, com o seu quarteto “Ectasy”, oferece-nos mais uma vez uma deliciosa viagem pelo interior da sua música, onde se destacam os temas “Oceans in the Sky” e “Deep Tango”, para além do, hoje em dia mais que célebre, “The Rain Forest”. O álbum “Motility” viu a luz do dia numa das épocas mais criativas do pianista norte-americano. Vale a pena descobrirem a Arte de Steve Kuhn, seja qual for o formato em que ele se apresente: solo duo, trio ou quarteto J!


Steve Kuhn – Piano.
Steve Slagle – Soprano Saxophone, Alto Saxophone, Flute.
Harvie Swartz – Double-Bass.
Michael Smith – Drums.

1 – The Rain Forest – 6:20
2 – Oceans in the Sky – 5:07
3 – Catherine – 5:33
4 – Bittersweet Passages – 4:55
5 – Deep Tango – 7:28
6 – Motility / The Child is Gone – 7:21
7 – A Danse For One – 3:00
8 – Places I’ve Never Been – 4:53

Duração: 44:31
Ano: 1977
Edição: LP/CD

Gravado em Janeiro de 1977 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Capa e Design de Maja Weber. Layout de Dieter Bonhorst. Produção de Manfred Eiche. Todos os temas foram compostos por Steve Kuhn excepto os temas 3 e 8 da autoria de Steve Slagle.

Gustave Caillebotte - "Toits sous la neige"


Gustave Caillebotte - "Toits sur le neige", 1878.
Óleo sobre tela,  64 x 82 cm.

David Lynch – “Inland Empire”


David Lynch – “Inland Empire”
 (EUA/Polónia – 2006) – (172 min. - P/B - Cor)
Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, Julia Ormond.

“Tudo o que alguém 
alguma vez fez no mundo 
começou com uma ideia”

David Lynch


Será isto um filme ou uma vídeo-instalação?

Cinco anos depois de “Mulholland Drive”, David Lynch surgia no Festival de Veneza com este “objecto artístico” chamado “Inland Empire”. De imediato as opiniões se dividiram sobre o produto nascida da câmara Sony PD150, estávamos perante o digital (que fez as delícias do Artista) embora nada tenha a ver com o digital de Michael Mann em “Miami Vice”, porque o de David Lynch é granuloso, por vezes límpido, por vezes sujo, como se a superfície fosse uma simples tela e o pintor a usasse apenas como suporte.


David Lynch realizou a sua primeira película, “Alphabet”, aos 26 anos e por detrás dela estavam as suas origens, precisamente a pintura. Se por um lado há no Artista a influência de Francis Bacon, na forma como por vezes nos retrata o corpo ou, melhor, partes do corpo, já esses corredores e escadas sem luminosidade, onde habita a escuridão envia-nos para uma certa fase de Edward Hopper (“Stairway” – 1906), aliás não será por acaso que, quando Nikki Grace (Laura Dern) entra na sala de cinema em “Inland Empire”, descobrimos o “NewYork Movie" (1939) de Edward Hopper, pintor anteriormente citado por Wim Wenders em “The End of Violence” / “Crimes Invisíveis”, através da sua obra mais famosa “Nighthawks.


“Inland Empire” surge assim como uma obra síntese de todo o universo do Artista, já que nele reencontramos não só os sons e o ambiente surrealista e claustrofóbico de ”Eraserhead”, da mesma forma que todos os seus filmes anteriores são citados das mais diversa formas, ou não fosse o sonho um dos territórios privilegiados do autor. Quando vimos William Macy, temos a sequência “limpa” e “perfeita” de “Twin Peaks” / ”Laura Palmer”, mais tarde invadida por esse mundo povoado de quartos de luminosidade reduzida com o vermelho escondido no “interior” do candeeiro, depois não temos William Dafoe em “Coração Selvagem” a segurar literalmente as tripas, mas um órgão a sair de um corpo ferido, enquanto registos sonoros próximos de “Blue Velvet” nascem quase sem pontuação, invadidos por esse território de sonoridades próprio de “Eraserhead”, ao mesmo tempo que essas letras douradas de Hollywood surgem na paisagem oriundas de “Mulholland Drive”.


Ora se “Mulholland Drive” nasceu da necessidade de “rentabilizar” o episódio piloto de uma série, recusada pela ABC, fruto de David Lynch e do produtor Alain Sarde, já este “Inland Empire” nasceu de um encontro do Artista com Laura Dern, em pleno passeio junto de sua casa, quando a actriz lhe comunicou que era a sua nova vizinha e que tinha saudades de fazer um filme com ele (ela é co-produtora de Inland Empire). Recorde-se que ela foi protagonista de “Coração Selvagem” / “Wild at Heart” e “Blue Velvet” e este “Inland Empire” começa com uma vizinha a bater à porta da estrela de cinema Nikki Grace (Laura Dern), apresentando-se como a sua nova vizinha e de imediato entramos num dos filmes deste “Inland Empire”, recorde-se que David Lynch filmava as sequências logo após as ter escrito ou imaginado, sem um argumento definido. Mas qual é a história?


Kingsley Stewart (Jeremy Irons) pretende fazer um novo filme, intitulado “On High in Blue Tomorrows” (sempre o azul), e convida Nikki Grace para interpretar a figura de Sue Blue, ao lado de Devon Berke (Justin Terroux), que irá ser Billy Side (reparem nos apelidos). Este filme tem um segredo, já que ele é um “remake” de um filme que não chegou a existir, porque os seus protagonistas foram assassinados, como acaba por confessar o produtor falido Freddie Howard (Harry Dean Stanton), surgindo assim com uma certa aura de maldito (tão cultivada por David Lynch ao longo da sua carreira). Iremos assim ver os preparativos do filme com leituras de diálogos no “set”, onde é introduzida uma personagem que irá assombrar a película e as suas filmagens… e as inevitáveis entrevistas na televisão no “talk show” de Marilyn Levens (Diane Ladd - na vida real mãe de Laura Dern) e aqui temos a mordacidade de David Lynch, ao mesmo tempo que as “sitcom” são “retratadas” através desses três coelhinhos, primos do coelho de Alice, repare-se como escutamos as gargalhadas do público, só que o país deles não é das maravilhas, mas muito mais tenebroso, o dos pesadelos… até surgir esse momento em que Laura Dern encontra essa porta de entrada/saída…


Poderíamos dizer que é tudo uma questão de luz, como refere o realizador Kingsley Stewart, quando pretende que o operador coloque a luz um pouco mais abaixo e uma voz (de David Lynch) vai respondendo… o objectivo central não será encontrado, como neste filme o fulcro da história só será encontrado quando o cineasta grita “corta!” e o filme termina, mas neste filme nada está terminado, porque nele habitam vários filmes, como iremos descobrindo ao longo do tempo. Após ter abandonado o “set”, Nikki Grace entra na sala de cinema e descobre que a sua imagem continua a ser projectada no écran, ela permanece no filme, passando da tela para a caixa que mudou o mundo, num outro lugar olhado por uma outra espectadora que não ela… residindo aqui a questão da identidade, ou seja quantas personagens interpreta Nikki Grace?


Para além de Sue Blue, ela habita o corpo de um outro pesadelo Kafkiano, vindo do além? Ou bem presente nesse passeio da fama de Hollywood, que David Lynch abomina de forma encantada como o “maverick” que pretende ser? Só a morte poderá oferecer um lugar na História, como diria essa estrela de apenas um filme e de uma revista célebre, chamada Dorothy Stratten.


Do outro lado da fama, nessa cidade chamada dos anjos, habitam outros anjos e demónios que fazem da noite o seu território de predadores. No final, o passado funde-se com o presente esquecido do futuro, porque o dia de ontem pode ser o dia de amanhã como diz a vizinha de Nikki no início de “Inland Empire”.
Esta obra de David Lynch deveria ser projectada em sessões contínuas sem interrupção, possibilitando ao espectador a sua entrada e saída da sala, para beber o café orgânico do Artista e fumar o inevitável cigarro, navegando no seu interior como se fosse o fantasma confessor de todas as personagens convocadas para essa Mansão, chamada cinema ou então passar de forma ininterrupta no nosso leitor de dvd qo longo de um fil-de-semana, para irmos vendo de acordo com a disponibilidade de cada um.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Paul Gauguin - "La Seine au pont d'Iéna"


Paul Gauguin - "La Seine au pont d'Iéna", 1875.
Óleo sobre tela, 65,4 cm x 92,4 cm.

The Gary Burton Quintet with Eberhard Weber - “Ring”


The Gary Burton Quintet
with Eberhard Weber
“Ring”
ECM Records

Este encontro entre o quinteto liderado por Gary Burton, com o contrabaixista alemão Eberhard Weber irá saldar-se por uma relação musical bem duradoura, já que ambos irão gravar juntos, nos álbuns um do outro e nos dois concertos de homenagem a Eberhard Weber, Gary Buton será um dos músicos presentes, tal como Pat Metheny, que foi o autor e anfitrião da bela homenagem ao músico alemão.

Mas regressando ao que nos interessa aqui, para referir que este fabuloso “Ring” possui a curiosidade de termos dois baixos a tocar em diálogo, ou seja o baixo eléctrico de Steve Swallow e o conhecido contrabaixo de Eberhard Weber, que foi construído de acordo com indicações do próprio músico, para assim obter as célebres sonoridades que o tornaram famoso.
E será curioso compararmos a leitura que em “Ring” se faz do tema “The Colours of Chloe”, com o original, incluído no álbum com o mesmo nome do contrabaixista alemão.

Metade dos temas são da autoria do compositor sul-africano Michael Gibbs que já tinha colaborado com Gary Burton no famoso álbum “Seven Songs for Quartet and Chamber Orchestra”, por outro lado a inclusão de um tema de Carla Bley já anunciava o futuro trabalho de Gary Burton,”Dreams So Real”, que seria dedicado a esta célebre compositora.
O álbum “Ring”, do Gary Burton Quintet com Eberhard Weber, oferece-nos dos mais belos momentos do denominado jazz de câmaraJ!

Gary Burton – Vibraharp.
Mick Goodrick – Guitar.
Pat Metheny – Guitar, Electric 12- String Guitar.
Steve Swallow – Bass.
Bob Moses – Percussion.
Eberhard Weber – Bass.

1 – Mevlevia (Mick Goodrick) – 6:00
2 – Unfinished Sympathy (Michael Gibbs) – 3:04
3 – Tunnel of Love (Michael Gibbs) – 5:33
4 – Intrude (Michael Gibbs) – 4:52
5 – Silent Spring (Carla Bley) – 10:35
6 – The Colours of Chloe (Eberhard Weber) – 7:12

Duração: 37:10
Ano: 1974
Edição: LP/CD

Gravado nos dias 23 e 24 de Julho de 1974 no Studio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Fotografia da capa de Tadayuki Naitoh. Layout e  Design de Frieder Grindler. Produção de Manfred Eicher.

Terje Rypdal - “Descendre”


Terje Rypdal
“Descendre”
ECM Records

Terje Rypdal em trio, ainda sem os famosos The Chaser e com o incontornável Palle Mikkelborg no trumpete, cuja virtuosidade até chamou a atenção de Miles Davis, que irá gravar o álbum “Aura”, totalmente preenchido com temas de Mikkelborg. Por outro lado este fabuloso “Descender”, que bem merece ser reeditado, foi gravado entre os famosos álbuns do guitarrista norueguês, também em trio, com Miroslav Vitous (ym dos fundadores dos Wheather Report) e Jack DeJohnette. “Descendre” de Terje Rypdal respira criatividade por todas as cordasJ!

Terje Rypdal – Guitar, Keyboards, Flute.
Palle Mikkelborg – Trumpet, Flugelhorn, Keyboards.
Jon Christensen – Drums, Percussion.

1 – Avskjed – 5:42
2 – Circles – 11:13
3 – Descendre – 3:10
4 – Innseiling – 7:57
5 – Men Of Mistery – 8:23
6 – Speil – 8:23

Duração: 44:52
Ano: 1980
Edição: LP/K7/CD

Gravado em Março de 1979, no Talent Studios, Oslo, por Jan Erik Kongshaug. Fotografia da capa do álbum de de Dieter Rehm. Fotografia de Gérard Amsellem. Produção de Manfred Eicher. Todas as composições são da autoria de Terje Rypdal.

Ralph Towner with Glen Moore - “Trios / Solos”


Ralph Towner with Glen Moore
“Trios / Solos”
ECM Records

Este álbum intitulado com enorme simplicidade de “Trios/ Solos”, marca a estreia do guitarrista Ralph Towner na ECM Records, um músico e compositor que tem permanecido, até aos dias de hoje, na editora de Manfred Eicher e um nome incontornável na editora de Munique, já lá vão mais de quatro décadas. Por outro lado os quatro participantes na feitura deste álbum: Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e Colin Walcott, irão constituir a célebre Banda Oregon, que produz uma musicalidade sem fronteiras e onde todos os géneros convivem em perfeita harmonia.

No tema de abertura deste álbum encontramos Colin Walcott com a sua tabla, na companhia de Ralph Towner e Glen Moore, criando um certo ritmo mágico, que marca decididamente este trabalho discográfico, tal é a forma como ele nos fica na memória. Por outro lado iremos encontrar Ralph Towner a solo em 4 temas e Glen Moore em apenas um, havendo ainda um dueto entre estes dois músicos no tema de autoria desse grande pianista chamado Bill Evans. Já as faixas “Noctuary” e “Raven’s Wood” marcam o encontro de Ralph Towner e Glen Moore, com Paul McCandless e o seu oboé, colorindo os acordes nascidos da guitarra e do contrabaixo.

Estamos decididamente numa das mais belas salas de estar do jazz de câmara, um desses locais onde sentimos o respirar dos instrumentos na mais profunda serenidadeJ!

Ralph Towner – Guitar, Piano.
Glen Moore – Bass.
Paul McCandless – Oboe.
Colin Walcott – Tabla.

1 – Brujo (Ralph Towner) – 5:34
2 – Winter Light (Ralph Towner) – 3:35
3 – Noctuary (R. Towner/ P. McCandlesse/ G. Moore)– 2:22
4 – 1X12 (Ralph Towner) – 2:48
5 – A Belt of Asteroids (Glen Moore)– 6:37
6 – Re: Person I Knew (Bill Evans) – 6:19
7 – Suite 3X12 (Ralph Towner) – 7:12
8 – Raven’s Wood (Ralph Towner) – 5:20
9 – Reach Me, Friend (Ralph Towner) – 3:26

Duração: 36:01
Ano : 1973
Edição: LP/CD

Gravado a 27 e 28 de Novembro de 1972 no Sound Ideas Studio, New York, por George Klabin e misturado no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Martin Wieland. Produção de Manfred Eicher. Fotografias de H. Paysan e Design de B & B Wojirsch.

René Burri - "Wim Wenders"


"Wim Wenders"
(durante a rodagem do filme,
«Até ao Fim do Mundo» / «Bis ans Ende der Welt»)
René Burri, 1990.

Sergio Leone – “Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”


Sergio Leone – “Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”
(EUA - 1984) – (229 min. / Cor)
Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams.

A América esse Paraíso que nos acorda nas noites de sonho para a Estrada 66 e as viagens “cost to cost” do Jack Kerouac, teve sempre um comportamento original em relação ao desenvolvimento do cinema, desde o seu início, criando teorias e mitos que por vezes o nosso olhar Europeu, e muitas vezes antiamericano, não consegue atingir. E a origem de tudo isto, está necessariamente nesses homens, antigos pesquisadores de ouro, com a fortuna coberta de pó, de mãos rudes, que construíram nas feiras pequenos teatros, onde se exibiam filmes para divertimento do público. Estes homens eram verdadeiros "Vendedores de Sonhos" (1) que ofereciam o espectáculo em troca de um nickel, nascendo assim os "Nickleodeons", repletos de multidões que se deslumbravam com as imagens em movimento.


Fascínio de todos os cineastas Europeus, a América e a sua história têm sido retratados no cinema dos mais variados prismas, (2) surgindo finalmente um dos retratos mais belos e cruéis através do olhar de Sergio Leone.
Criador do Western Spaghetti, onde pontificou Clint Eastwood e mais tarde Charles Bronson no admirável "Era Uma Vez no Oeste" / “Once Upon A Time in The West”, com Henry Fonda a personificar um admirável vilão, Sergio Leone foi sem dúvida alguma o mais americano dos cineastas europeus e não é certamente por acaso que assinou inicialmente, como Bob Robertson a película "Por Um Punhado de Dollars" que o tornaria célebre.
"Era Uma Vez no Oeste" é um dos mais belos e melancólicos westerns realizados, com uma banda sonora que nos ficou no ouvido para sempre e depois temos sempre a beleza de Claudia Cardinalle a perturbar o olhar de Charles Bronson, no seu melhor papel e aqui estamos no território da edificação de uma nação, cuja continuação será de certa forma o portentoso "Era Uma Vez na América".


Era uma vez, assim começam todas as histórias que os nossos avós nos contavam. "Era Uma Vez" um filme sobre a América, olhada do outro lado do oceano.
Como todas as histórias, esta é baseada na amizade entre homens, num universo onde as mulheres têm um papel secundário. Sendo um dos segredos da película, as elipses nas passagens do tempo, revelando-se a mais bela, a que nos é oferecida na Central Station: uma elipse de 25 anos!.
Viajando no tempo, vertiginosamente e contando com Robert de Niro e James Woods nos protagonistas, numa história de amizade e traição, Sergio Leone constrói uma das mais belas narrativas que o cinema nos ofereceu. E se Robert de Niro um dos maiores actores de sempre está excelente, já James Woods possui aqui uma das suas mais deslumbrantes interpretações.


Quando escutamos em casa a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone de imediato as imagens do filme surgem na nossa memória, acompanhando a infância, adolescência e amizade de um grupo de amigos que se irá desmoronar, ao mesmo tempo que o corpo da pessoa amada navega sem destino nos braços de quem detém o poder.


Rever "Era uma vez na América" é um dos momentos mais gratificantes da História do Cinema e graças ao DVD podemos também fazer sessão dupla com as duas Américas de Sergio Leone, a do Oeste e a da Cidade, em ambas navega essa velha questão chamada... o poder.

Sergio Leone


(1) - Procurem o fabuloso "O Vendedor de Sonhos" / “Nickleodeon” de Peter Bogdanovich.
(2) - "As Portas do Céu" / "Heavens Gate" do Michael Cimino, que levou à falência a United Artists e que nos ofereceu uma visão da América sem contemplações.
(3) - Se gosta de Sergio Leone não perca o livro editado pelos Cahiers du Cinema, sobre a obra do cineasta.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Keith Jarrett - “In The Light”


Keith Jarrett
“In The Light”
ECM Records

Nos dias de hoje é por demais conhecida a apetência pela escrita musical, muito em especial a denominada música de câmara e seria neste duplo álbum, intitulado simplesmente “In the Light”, que Keith Jarrett iria reunir algumas dessas peças, dando a conhecê-las a um vasto auditório. Este trabalho discográfico de Keith Jarrett oferece-nos um texto do músico/compositor, que nos relata o nascimento e a construção das diversas peças que constituem este duplo álbum.

Se na época da sua edição, Manfred Eicher já tivesse criado a ECM New Series, este trabalho discográfico seria certamente incluído nesse selo, mas como ainda vinha longe o nascimento da outra faceta da ECM Records e o encontro do produtor alemão com o compositor Arvo Part, “In the Light” de Keith Jarrett surgia assim naturalmente na edição da ECM Records, estávamos no ano de 1974 e a editora de Munique começava a dar os primeiros passos como referência no universo da edição discográfica, começando a expandir os seus horizontes e a derrubar fronteiras musicais.   



1 – Metamorphosis – 19:19 - A
A - Will Freivogel – Flute.
String Section of the Sudfunk Symphony Orchestra, Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha.

2 - Fughata for Harpsichord – 2:56 - B
B - Keith Jarrett – Piano.

3 – Brass Quintet – 20: 53 - C
C - The American Brass Quintet (Eric Reed.John Rojak, Kevin Cobb, Louis Hanzlik, Michael Powell)

4 – A Pagan Hymn – 7:27 - D
D - Keith Jarrett – Piano

5 – String Quartet – 16:37 - E
E - The Fritz Sonnleitner Quartet (Fritz Sonnleitner/Violin, Gunter Klein/Violin, Siegfried Meinecke/Viola, Fritz Kiskatt/Cello)

6 – Short Piece for Guitar and Strings – 3:52 - F
F - Ralph Towner – Guitar
String Section of the Sudfunk Symphony Orchestra, Sttutgard, dirigida por Keith Jarrett.

7 – Crystal Moment - 4:54 - G
G - Piece for four Celli and two Trombones/ (Sudfunk Symphony Orchestra, Stuttgard).

8 – In the Cave, In the Light – 12:18 - H
H - Keith Jarrett . Piano, Gong, Percussion.
String Section of the Sudfunk Symphony Orchestra, Sttuttgart, dirigida por Keith Jarrett.

Duração: 01:30:49
Ano: 1974
Edição: LP/CD

Gravado em Fevereiro de 1973 por Kurt Rapp, Martin Wieland e M. Scheuermann. Produzido por Manfred Eicher e Keith Jarrett, Design e Layout de B & B Wojirsch. Fotos de R. Truckenmuller (capa) e Georgyves Braunschweig.