terça-feira, 21 de novembro de 2017

Alfonso Cuaron - “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” / “Harry Potter and the Prisioner of Azkaban”


Alfonso Cuaron - “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” / “Harry Potter and the Prisioner of Azkaban”
(Inglaterra/EUA – 2004) – (141 min. / cor)
Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Alan Tickman
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Demorei bastante tempo a render-me ao fenómeno Harry Potter (bastava ver, na época, as filas de miúdos à porta das livrarias sempre que saía mais um volume para o classificar como tal).
Rapidamente, após a conquista, devorei todos os livros e ansiei, como todos os fãs, pela saída do volume seguinte.
Os temas do fantástico, quando (bem) transpostos para os filmes, tornam-se sempre apelativos. E se podemos pensar que a autora, J. K. Rowling, já escreveu estes livros a pensar na sua passagem ao cinema, não vejo mal nenhum nisso. Não me lembro, nos últimos anos, de ver a miudagem tão interessada por livros (e acho que não tenho andado distraída).


Falhei o primeiro e segundo filmes do Harry no cinema, terminando por  vê-los em DVD (realizados por Chris Columbus, realizador de sucessos como "Sozinho em Casa" / "Home Alone", "Mrs. Doubtfire" / “Papá Para Sempre”, com um espantoso Robin Williams e "Nine Months" / "Nove Meses" entre outros filmes). No entanto, mais uma vez, tenho que dar a mão à palmatória e, após ver "O Prisioneiro de Azkaban", reconhecer que ver filmes em ecrã grande, em sala de cinema, não tem comparação com vê-los em TV, sobretudo os de grande efeito, como sucede com os filmes das aventuras de Harry Potter, embora o dvd sirva sempre para os recordar.


Mais uma vez Harry volta à escola (Hogwarths), após as terríveis férias de Verão com os tios Muggles (humanos, sem poderes). Sem me alongar na história, sobejamente conhecida da maioria, o perigo ronda-o novamente, desta vez devido à fuga de Sirius Black (Gary Oldman) de Azkaban, a prisão para feiticeiros que, de alguma forma, romperam com o código do bem.


Para um apreciador das aventuras do Harry, basta-lhe ver o filme; para um verdadeiro apreciador de bom cinema, acho que o facto de alguns dos maiores actores ingleses estarem envolvidos nesta produção será suficiente para despertar o interesse. Exemplificando: Gary Oldman como Sirius Black; o sempre fabuloso Michael Gambon como Dumbledore (em substituição de Richard Harris, entretanto falecido); Emma Thompson – que afirmou que a filha não lhe perdoava se ela não fizesse uma "perninha" no filme/série mais amada do público juvenil surgindo na pele da míope Professora Trelawney; Maggie Smith como a Professora McGonagall; Alan Rickman – esse espantoso actor – como Professor Snape; e toda uma galeria de outros actores sobejamente conhecidos de séries e filmes ingleses. Harry Potter é o ídolo de uma geração, mas os mais velhos como eu também sonhamos a ver as suas maravilhosas aventuras, porque o cinema também nos possibilita o regresso à infância... basta recordar esse general que, em "1941-Ano Louco em Hollywood" / “1941” de Steven Spielberg, chora a ver o "Dumbo" de Walt Disney.



Daniel Radcliffe, o actor que deu vida a Harry Potter tem uma tarefa árdua pela frente com a série terminada, que é a de despir a personagem que se lhe colou ao corpo. É verdade que se ele tirar os óculos fica quase irreconhecível e o seu aparecimento na peça de teatro "Eqqus" faz parte já dessa mesma tentativa, embora a nudez exposta em palco possa pretender atingir outros fins, perante as fans do seu trabalho. É certo que poucos deram por ele em "o Alfaiate do Panamá", era um dos filhos do "casal" Geoffrey Rush/Jamie Lee Curtis, para já não falarmos do seu baptismo de fogo na televisão na pele do jovem David Copperfield. Já Emma Watson, a jovem feiticeira Hermione possui uma tarefa ainda mais árdua, ainda por cima depois de a sua relutância em continuar na série, após ter sido perseguida por um fan, a celebridade também possui o outro lado e ela já o descobriu. Veremos o que o futuro reserva a estes dois actores, porque nem todos possuem esse magnetismo cinematográfico desde crianças como sucedeu com Elizabeth Taylor (a menina da Lassie) e Jodie Foster (Bugsy Malone)... que o diga Shirley Temple!


Uma última palavra para o cineasta e argumentista Steve Kloves que assinou em tempo os maravilhosos "The Fabulous Baker Boys" / "Os Fabulosos Irmãos Baker", com uma sedutora Michelle Pfeiffer a cantar maravilhosamente ao lado dos irmãos Jeff e Beau Bridges, uma obra que recomendamos vivamente. Ele teve  um trabalho espantoso na adaptação dos livros ao cinema (os realizadores mudam, ele permanece), revelando-se o verdadeiro responsável pela passagem ao grande écran dos livros de J. K. Rowling, não sendo por acaso que nas entrevistas contidas nos dvds (extras), ele esteja sempre ao lado da escritora que, em tempos que já lá vão, iniciou a escrita da saga por mesas de café, enquanto esperava pela hora de ir dar aulas de inglês, estando hoje multimilionária graças ao enorme sucesso dos seus livros.

Paula Nunes Lima

The Beatles – “Beatles VI”


The Beatles
“Beatles VI”
LP / 33 RPM.

Sem qualquer falha de memória, posso afirmar que este álbum dos “The Beatles” foi o primeiro LP que tive na vida e surgiu “lá por casa” num aniversário de um digito nesse ano de 1966, oferta da minha mãe e que teve um enorme sucesso junto do filho, que estava doido de contente com a prenda.

O álbum “Beatles VI” esteve na época durante seis semanas em primeiro lugar na célebre tabela de álbuns do Billboard e ao ser lançado nos Estados Unidos encontrou uma excelente recepção, a que se deve também ao facto de o quarteto de Liverpool oferecer aqui três temas bem conhecidos dos norte-americanos, com novas roupagens ou seja três “covers” como é politicamente correcto, embora eu prefira a palavra versão, que certamente um dia destes deixa de existir na língua portuguesa, refiro-me aos temas “Bad Boy” e “Dizzy Miss Lizzy”, este último bem famoso da autoria de Larry Williams e a famosa canção “Words of Love” de Buddy Holly.

Pode escutar aqui o tema “Eight Days a Week”, da dupla Lennon e McCartney, que se tornou logo o meu favorito!

A Memória da Fotografia - Robert Capa - "Capucine"


"Capucine"
(em Roma)
Robert Capa, 1951.

Filme do dia: AXN Black – “O Deus da Carnificina” / “Carnage” – Roman Polanski


Filme do dia: “O Deus da Carnificina” / “Carnage”
Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly, Christoph Waltz.
(França, Alemanha, Polónia, Espanha – 2011) – (80 min./Cor)
Roman Polanski
AXN Black – dia 22 – 00h21

Pode ver aqui o trailer deste filme fabuloso.

Roman Polanski passou ao grande écran de uma das mais famosas peças de Yasmina Reza, com um saber e uma direcção de actores inesquecível e em “O Deus da Carnificina” / “Carnage” encontramos uma Jodie Foster como não víamos há muito, já Kate Winslet é soberba na figura da esposa desse homem que não larga o telemóvel e depois temos dois actores invulgarmente talentosos e se John C. Reilly sempre foi excelente nas personagens a que deu vida, já o austríaco Christoph Waltz, que muitos descobriram num filme de Tarantino, revela-se o actor perfeito para encarnar este Alan Cowan que, com a esposa, vai a casa dos pais do jovem que agrediu o seu filho no Brooklin Bridge Park, a fim de resolverem o incidente ocorrido entre as duas crianças que navegam nessa idade crítica da adolescência.

E aqui navegamos no universo do politicamente correcto que, ao longo do encontro, irá invadir territórios que nenhum dos casais estaria à espera, mas como todos sabemos palavra puxa palavra e uma palavra errada dita numa altura errada ou interpretada de forma diferente do que se pretendia ao pronunciá-la, por vezes faz rolar uma pequena bola de neve que termina por se tornar nessa avalanche e que, por vezes, transforma o ser humano no último dos selvagens ou o derradeiro sobrevivente, se assim o desejarem.

Vejam este filme, que nos oferece um dos melhores Roman Polanski de sempre!

domingo, 19 de novembro de 2017

Arthur Penn – “O Alvo” / “Target”


Arthur Penn – “O Alvo” / “Target”
(EUA - 1985) - (117 min. / Cor)
Gene Hackman, Matt Dillon, Brad Williams, Gayle Hunnicutt.

Arthur Penn é um daqueles cineastas que não carece de apresentações, porque os seus filmes falam por si, e se para alguns este nome é desconhecido, ele perde esse sentido se referirmos películas como "Bonnie and Clyde" e esse par fora-da-lei constituído por Warren Beatty e Faye Dunaway; "Duelo no Missouri" / "The Missouri Breaks" e o confronto "histórico" entre "os vizinhos" Jack Nicholson e Marlon Brando; "O Pequeno Grande Homem" / "Little Big Man", uma das melhores interpretações de Dustin Hoffman e um olhar sobre o Oeste Selvagem, fazendo uma certa revisão da história oficial ou essa obra-prima chamada "Quatro Amigos" / "Four Friends/Georgia's Friends"; muitos já viram certamente um destes filmes e amaram-no tanto como nós.


Cineasta oriundo da televisão, tal como Sydney Pollack, iniciou o seu trabalho na NCB, para mais tarde apanhar o comboio da Sétima Arte, abrindo a sua carreira com o famoso western "Vício de Matar" / "The Left-Handed Gun" (1958), abordando depois os mais diversos géneros. "Quatro Amigos" é a mais bela obra feita até hoje, acerca dessa geração que Lawrence Kasdan baptizou por "Os Amigos de Alex". E depois de "Four Friends" uma aposta se colocava a Arthur Penn: abandonar o cinema no máximo da sua glória ou prosseguir no seu interior. O segundo caminho foi o escolhido por este cineasta nascido a 27 de Setembro de 1922 e o resultado foi "Target" / "O Alvo", reunindo dois actores de gerações diferentes: Gene Hackman e Matt Dillon.


Arthur Penn

"Target" / “O Alvo” é um vigoroso "thriller" familiar, já que o centro da acção é a família de Duke, ex-agente da CIA, "reformado" da organização, que se vê repentinamente envolvido na memória da Guerra-Fria depois de lhe raptarem a mulher. Estamos assim perante a guerra de espiões que John Le Carré tão bem tem retratado na sua obra literária.



Este filme de Arthur Penn oferece-nos o ambiente por vezes claustrofóbico da guerra dos serviços secretos, com a respectiva intoxicação de informação e contra-informação, mas nem só deste vector vive o filme já que o clima atinge a instituição familiar, oferecendo-nos um duelo/colaboração de pai e filho em busca da esposa/mãe no território de Berlim. A inocência do filho e a experiência de Duke (Gene Hackman), ligados pelo amor, oferece-nos momentos comovedores, concluídos no reencontro final daquela família, por momentos perdida.


Gene Hackman, habituado a trabalhar com Arthur Penn oferece-nos mais uma excelente interpretação e Matt Dillon nesta época ainda em fase ascendente, surgia como forte candidato a estrela, com a sombra de James Dean a pairar ainda no ar, no entanto vinte anos depois, a estrela perdeu um pouco da sua intensidade, embora continue a brilhar, porque ele é um excelente actor faltando-lhe aquele sucesso que o (re)envie para a ribalta, mas deixando "sucessos" de lado, todos reconhecemos o excelente actor que vive no interior de Matt Dillon. "Target" / "O Alvo" de Arthur Penn revela-nos, uma vez mais, toda a sabedoria cinematográfica do seu realizador

W.A. Mozart - "Concerto Pour Flute et Harpe en Ut Majeur K.299" / "Les Petits Riens"



W.A. Mozart
Concerto Pour Flute et Harpe en Ut Majeur K.299
Les Petits Riens (Ballet)
Walter Koffman – Flute
Holga Lebowisch – Harp
Orchestre de la Société des Concerts de Vienne
Karl Ritter
LP / 33 RPM.

Este foi o meu segundo disco/álbum da denominada música erudita ou se preferirem música clássica que tive e foi comprado na companhia da minha avó na discoteca da Casa Africana, tendo pedido na altura à funcionária da discoteca se podia escutar o disco e ela, após ter sorrido, ofereceu-me esse pequeno prazer.

Como cheguei a esta obra do amigo Amadeus prende-se acima de tudo com o facto de ter começado, ainda com a idade de um digito, a escutar a hoje denominada Antena 2, na época era o posto da “música clássica” na gíria e andava fascinado com o som desse belo instrumento que é a harpa que tinha escutado numas peças que tinham transmitido, num desses dias em que esperava pela peça de teatro que era hábito ser transmitida ao domingo e assim, caro Amadeus, tanto podia ser este belo concerto como outro qualquer, mas confesso que fiquei apaixonado por este belo concerto para flauta e harpa e depois temos sempre esse belo “Les Petits Riens” de que nunca mais me esqueci.

Confesso que foi maravilhoso descobrir a capa do álbum na net e como devem calcular as memórias desse dia entraram em catadupa pela estrada da GaláxiaJ!

Pode escutar aqui um pouco deste maravilhoso concerto, por outros intérpretes, que se encontra disponibilizado no Youtube.

A Memória da Fotografia - Izis - "Place d'Alésia, Paris"


"Place d'Alésia, Paris"
Izis, 1950.

Filme do dia: RTP Memória – “O 4º Mandamento” / “The Magnificent Ambersons” – Orson Welles.


Filme do dia: RTP Memória – “O 4º Mandamento” / “The Magnificent Ambersons”
Joseph Cotton, Anne Baxter, Tim Holt, Dolores Costello, Agnes Moorhead.
(EUA – 1942) – (88 min – P/B)
Orson Welles
RTP Memória – dia 19 – 15h00

Pode ver aqui o trailer do filme.

Pode ler aqui o que escrevemos sobre a mutilação deste filme na crónica “Robert Wise versus Orson Welles”.

A segunda longa-metragem realizada por esse génio chamado Orson Welles revela-se uma verdadeira tragédia Shakespeariana, recorde-se que foi o próprio Orson Welles a escrever o argumento baseado no livro de Booth Tarkington e, possivelmente, nunca iremos conhecer na realidade o trabalho do cineasta na sua totalidade e grandeza, porque os Estúdios aproveitaram a ausência de Orson Welles no Brasil, a filmar um novo filme intitulado “It’s All True”, para o mutilarem e após uma dessas célebres “preview” decidiram ainda cortar uma hora do filme e rodar um final diferente.

Orson Welles
durante a rodagem do filme.

O homem que fez esse triste trabalho foi Robert Wise, que remontou o filme e filmou novas sequências assistido por Fred Fleck, mutilando de forma profunda a película “The Magnificent Ambersons” / “O 4º Mandamento” que, após ter sido terminada a rodagem por Orson Welles tinha 148 minutos de duração, quando foi apresentada na “preview” passou para 132 minutos e após inúmeros cortes e filmado um final diferente restou esta versão de 88 minutos, que é a que todos conhecemos.

Apesar dos esforços dos produtores e do Estúdio em destruir este filme de Orson Welles, “The Magnificent Ambersons” / “O 4º Mandamento” permanece um magnífico retrato da genialidade desse nome incontornável da Sétima Arte que, embora não esteja presente no filme, surge como narrador, oferecendo-nos a sua voz inconfundível e no final nos apresenta os protagonistas da película, membros do célebre “Mercury Theater”.

Orson Welles ao longo da sua vida lutou por fazer os seus filmes contra todas as vicissitudes e obstáculos com que sempre se confrontou, a partir do dia em que o magnata da Imprensa norte-americana William Randolph Hearst se viu retratado em “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés”.

Veja este magnífico filme de Orson Welles, ele ainda respira cinema por todos os poros, desde a fabulosa sequência inicial!

sábado, 18 de novembro de 2017

Dusan Makavejev – “O Rapaz da Coca-Cola” / “The Coca-Cola Kid”


Dusan Makavejev – “O Rapaz da Coca-Cola” / “The Coca-Cola Kid”
(Austrália - 1985) – (98 min. / Cor)
Eric Roberts, Greta Scacchi, Bill Kerr, Chris Haywood.

Jean-Luc Godard fala de uma imagem justa, ou justamente uma imagem e quando olhamos uma imagem, seja ela fixa/fotografia ou em movimento/cinema/vídeo, muitas vezes não sabemos as consequências futuras contidas no seu interior e uma das imagens que me ficou na memória, imagem essa em movimento, foi uma reunião de líderes, na então República Federativa da Jugoslava, eles eram apenas meia-dúzia, mas "ofereceram" a morte a milhares e destruíram uma nação. O drama Jugoslavo nunca o esquecerei, porque durante anos o cinema Jugoslavo foi chegando a Portugal nas suas mais diversas formas: o cinema de "libertação" ainda em voga (mas já longe das teses de Jdanov do realismo socialista), dando lugar ao cinema do quotidiano e às suas pequenas histórias de amor e neste panorama um nome se destacava era Dusan Makavejev. Hoje em dia todos conhecemos a obra de Emir Kusturica que obteve visibilidade internacional com "Recordam-se de Dolly Bell" / "Sjecas li se, Dolly Bell e "O Papa Foi em Viagem de Negócios" / "Otac na sluzbenon putu", mais tarde seria com o seu retrato pungente de "Underground" visão de uma nação/federação em ruínas que todos lhe fixaram o nome para sempre, apesar de anteriormente ter realizado o maravilhoso "Tempo de Ciganos" / "Dom za vesange" e a sua obra americana "Arizona Dream" com um quarteto de luxo (Johnny Depp, Jerry Lewis, Faye Dunaway, Vincent Gallo).


Todos aqueles que estiveram nos encontros de cinema de Avanca de 2002 (workshop) recordam-se do Dusan Makavejev; falemos um pouco dele, antes de beber a nossa Coca-Cola com o Eric Roberts.
“Um Homem não é um Pássaro” / ”Covek Nijetica” foi a obra que o projectou além fronteiras (1) e foi com “A Tragédia de uma Telefonista” / ”Ljubavni slucaj ili tragedija sluzbenice P.T.T.”, que deu à costa portuguesa, aportando no cinema Quarteto, então um dos refúgios da cinéfilia, ficando o seu nome gravado na mente de todos os que viram o filme.
Nessa época de libertações das mentes e corpos, Wilhelm Reich era um dos nomes sonantes e o seu livro “Escuta Zé-ninguém” (Ed. D. Quixote) de leitura obrigatória, sendo com uma certa naturalidade que o libertário Dusan Makavejev surgisse com “W.R.: Os Mistérios do Organismo” / ”W.R.: the Mysteries of the Organism”, “inaugurando”, de certa forma, um "novo género" denominado a "ficção documental".


Como era de se esperar, tendo em conta o seu olhar sobre a sociedade e as ideologias, Dusan Makavejev acabou por deixar o seu país, para realizar no Canadá “Um Filme Doce” / ”Sweet Movie” (2), contando no elenco com a bela Carole Laure (3) e Pierre Clementi e onde se interrogava de uma forma livre de condicionalismos as ideologias, fossem elas o socialismo ou o capitalismo, usando o humor como arma, já que nele encontramos o marinheiro Potemkine e o seu rato de estimação Nikita ou o Mr. Kapital.
Tendo em conta o caminho escolhido por Makavejev, não espantou ninguém que tenha sido convidado a participar num dos segmentos de “Wet Dreams”/”Sonhos Húmidos”, uma co-produção de 1975 holandesa/alemã (fruto da época), que se tornou um verdadeiro “cult-movie” e que possuía no seu interior um episódio que se tornou famoso, "The Janitor" realizado e /interpretado por Nicholas Ray (4), que desta forma renascia para o cinema.


Ao continuar na linha libertária traçada, Dusan Makavejev realiza na Suécia “Montenegro ou Pérolas e Porcos” / ”Montenegro eller Paerlor och Svin” e convida o actor Bergmaniano Erland Josephson para participar na película, o mesmo sucederia muitos anos mais tarde quando Andrei Tarkovski o convidou para protagonista da sua derradeira obra-prima "O Sacrifício" / "Offret". E o fim da estrada surgia no horizonte, a moda libertária, era chão que já tinha dado uvas e o seu humor ácido e erótico, necessitava de uma nova roupagem, onde as imagens e as palavras continuassem a possuir a mensagem do cineasta acerca das ideologias e do mundo em que vivemos, nascia assim “O Rapaz da Coca-Cola” / “The Coca-Cola Kid”.


O país escolhido foi a Austrália e os actores principais, Eric Roberts (irmão da Júlia Roberts, para quem não saiba) e Greta Scacchi.
Um jovem quadro da Coca-Cola, Beker (Eric Roberts) chega à Austrália em “busca de problemas”, que inicialmente pareciam inexistentes para os responsáveis locais da famosa marca, mas após um daqueles estudos, verificou-se que o produto não penetrava numa pequena região, totalmente dominada pela firma concorrente “McDowell”.

A “luta” está aberta e Becker, um daqueles eficientes funcionários das Multinacionais, vai ganhar a “guerra”, encontrando no seu caminho a jovem Terri (Greta Scacchi), que irá alterar a sua forma de olhar o mundo que o rodeia..


Ao longo desta película descobrimos mais uma vez, o humor e a ironia tão característicos de Dusan Makavejev, de uma forma muito mais refinada e nunca é demais de destacar a interpretação da dupla constituída por Eric Roberts e Greta Scacchi, que hoje em dia oferecem o seu enorme talento em telefilmes de baixo orçamento, embora esta situação atinga uma geração de actores e cineastas, a quem os Grandes Estúdios de Hollywood fechou as portas. Só par não ir mais longe, recordo que esse géno chamado Peter Bogdanovich anda a realizar episódios de séries de televisão e o seu nome nem é creditado.

Ao rever este filme recentemente. Graças a uma mão amiga, confesso que me diverti tanto, como quando o vi pela primeira vez no cinema e fiquei com enorme vontade de rever a obra cinematográfica desse libertário chamado Dusan Makavejev, que nos dias de hoje é um perfeito estranho para as plateias de cinema.

Dusan Makavejev

(1) - Ainda estavam longe os dias de Emir Kusturica, cujo filme "O Papá foi em Viagem de Negócios" continua por descobrir.

(2) - Anteriormente tinha participado na feitura de “I Miss Sonia Henie”, filme de episódios no qual participaram, entre outros, Milos Forman, Paul Morrisey e Frederick Wiseman.

(3) - Carole Laure, esposa do cineasta canadiano Gilles Carle e ex-Miss Mundo, foi durante longos anos (década de 70) o rosto do Novo Cinema Canadiano (oriundo do Quebec), onde se destacou pela força que transmitia às personagens que interpretava, para além da sua beleza.

(4) - Nicholas Ray um dos "mavericks" do cinema que iria surgir em “O Amigo Americano” de Wim Wenders e que com Wim daria origem a essa obra testamento intitulada “Nick’s Movie”. Curiosamente “We Can’t Go Home” de Nick Ray,” last movie” na primeira pessoa, continua uma obra de certa forma invisível.

Ludwig van Beethoven – “Sinfonia Nº.3 – Eroica”


Ludwig van Beethoven
Sinfonia Nº.3 – Eroica
Berlin Philarmonica Orchestra
Eugen Jochum
LP / 33 RPM.

Este foi o meu primeiro álbum de música clássica que comprei, na companhia da minha avó, na discoteca Melodia, na Rua do Carmo, no mesmo dia em que adquiri o single dos “The Beatles” com o “Let It Be” e o inenarrável “You Know My Name…”. Ainda andava com um digito na idade e no bolso tinha um dos volumes do “Guerra e Paz” de Tolstoi, na edição da Minerva, em cinco volumes e queria muito ter a “Heróica” do amigo Beethoven, que já tinha escutado na Rádio e achava profundamente belo, ouvindo a música no meu pensamento enquanto lia o Tolstoi, só não concordava que o Beethoven tivesse riscado a dedicatória da dita Sinfonia.

Fui para casa todo contente, nesse dia 23 de Junho e quando estávamos todos a lanchar, avós, mãe, tia e amigos da escola, decidi pôr a tocar o Beethoven e não ouve qualquer reacção, porque os doces eram bem convidativos, mas quando chegou ao segundo andamento da Sinfonia, fui convidado a mudar de disco, talvez porque não fosse o mais indicado para tocar na festa do meu aniversário, embora gostasse muito dele e assim fiz a vontade à minha querida avóJ!

Pode escutar aqui a maravilhosa 3ª Sinfonia de Beethoven, também conhecida por “Heróica”.

A Memória da Fotografia - Renè-Jacques - "Rue de l'Abbé-Rousselot, Paris"


"Rue de l'Abbé-Rousselot, Paris"
Renè-Jacques, 1935.

Filme do dia: Sundance TV – “Os Comandos da Morte” / “The Boys from Brazil” – Franklin J. Schaffner


Filme do dia: Sundance TV – “Os Comandos da Morte” / “The Boys from Brazil”
Gregory Peck, Laurence Olivier, James Mason, Lili Palmer, Steven Guttenberg, Denholm Elliott, Bruno Ganz.
(EUA/Inglaterra – 1978) – (125 min/Cor)
Franklin J. Schaffner
Sundance TV – dia 18 – 14:53
Sundance TV – dia 19 – 6:13
Sundance TV – dia 21 - 7:39

Pode ver aqui o trailer do filme.

Pode ver aqui outro trailer do filme, com sequências filmadas em Lisboa.


Filmado em Portugal, com longas sequências, onde logo a abrir descobrimos Belém e os seus jardins, para rapidamente percebermos que estamos no Paraguai. Na verdade Portugal, durante a rodagem deste filme magnífico de Franklin J. Schaffner (o cineasta de “Papillon” e “Patton”, entre outras películas), serve para retratar esse país da América Latina, onde procuraram refugio inúmeros nazis, sendo precisamente esse o tema deste filme intitulado “The Boys from Brazil” que nos oferece, para além de um elenco de luxo, uma das maiores interpretações da carreira de Gregory Peck, esse actor que sempre vimos a interpretar personagens carismáticas e que marcaram várias gerações de cinéfilos, surge aqui a interpretar a figura do maquiavélico médico nazi Josef Mengele, que ficou infelizmente bem conhecido do período mais negro da História do século xx, através de atrozes experiências genéticas que fez nos seres humanos prisioneiros no campo de concentração de Auschwitz.

Gregory Peck
Laurence Olivier
James Mason

Já a personagem interpretada por Laurence Olivier em "The Boys from Brazil", o caçador de nazis Ezra Lieberman, criado por Ira Levin, autor do livro em que se baseia o filme, baseia-se na figura bem conhecida de Simon Wisenthal, que dedicou uma vida em busca de membros do partido nazi fugidos à justiça. Recorde-se que o Dr. Josef Mengele, que é aqui retratado, nunca foi capturado, vivendo debaixo de outra identidade no Brasil desde inícios dos anos sessenta, do século xx, tendo falecido um ano após a feitura deste filme.

Uma breve nota à margem: quando virem a festa dos nostálgicos nazis, estejam com atenção e tentem descobrir esse grande jornalista chamado Fernando Pessa, que aqui tem uma curta aparição, ele que foi uma voz da BBC em Londres durante o período da 2ª Grande Guerra. E que saudades temos das suas reportagens... e esta hein! J!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Miley Cyrus - 50 Ways To Leave Your Lover


Michael Powell / Emeric Pressburger – “Sei Para Onde Vou” / “I Knew Where I’m Going”


Michael Powell / Emeric Pressburger – “Sei Para Onde Vou” / “I Knew Where I’m Going”
(Inglaterra - 1945) - (90min. - P/B)
Wendy Hiller, Roger Levesey, George Carney, Pamela Brown.

“Sei Para Onde Vou” é um dos mais belos filmes de Michael Powell e Emeric Pressburger, o primeiro inglês e o segundo húngaro, refugiado em Inglaterra, tornando-se mais “british” que os próprios ingleses, diz quem conviveu com ele. A sua associação a Michael Powell tornou esta dupla a mais famosa do cinema britânico. Criaram uma produtora, a “The Archers”, tornando esse símbolo constituído por um alvo e uma seta a atingir o seu centro um emblema inconfundível. Os argumentos eram escritos a meias, embora no caso concreto de “I Knew Where I’m Going”, esse trabalho tenha saído da pena de Emeric Pressburger, que em duas semanas escreveu a história. As razões devem-se ao facto de o filme que pretendiam realizar “Um Caso de Vida ou de Morte” / “A Matter of Life and Death”, com o inconfundível David Niven, estar com problemas de produção, mais concretamente a escassez de película colorida, o que levaria o filme a utilizar o preto e branco nas sequências passadas no céu e a cores as sequências passadas na terra. Assim nasceu “Sei Para Onde Vou”, fruto de um acaso que o iria transformar numa das mais belas histórias de amor.


Joan Webster (Wendy Hiller) é desde pequena uma criança cheia de personalidade, muitas vezes confundida com teimosia e logo na abertura, à medida que o genérico vai evoluindo, golpe genial dos cineastas, vamos tomando conhecimento da sua evolução desde os tempos do berço, passando pela adolescência até chegar à idade adulta e aqui tomamos conhecimento que ela se vai casar e não com um homem qualquer, porque o seu eleito também é seu patrão e aqui estamos perante um daqueles casos de ascensão social, bem patente na conversa com o pai, como na viagem que faz até chegar à costa, para se reunir ao seu amado que a espera na ilha de Killoran.


Ao chegar ao porto para partir na sua viagem o tempo torna-se seu inimigo, as brumas não deixam nenhum barco partir, apesar de todos os seus expedientes e do seu dinheiro, ninguém se atreve a enfrentar o mar revolto, aí trava conhecimento com outro passageiro, o capitão Torquil, por sinal dono do castelo onde se encontra o marido. A primeira noite é passada em casa da bela e selvagem Caitriona (Pamela Brown), possuidora de uma imagem muito próxima da de Jennifer Jones em “Gone to Earth”, mas aqui não há o Technicolor desse filme, nem dos restantes, célebre marca da dupla de cineastas, basta recordar “Sapatos Vermelhos” / “Red Shoes” e ficamos detentores da beleza que nos proporcionam os filmes de Michael Powell e Emeric Pressburger.
Mas ela não se dá por vencida e no dia seguinte tenta novamente partir na sua viagem, no entanto as brumas deram lugar à tempestade, ao mesmo tempo que a sua relação com Torquil se começa a aprofundar. A pouco e pouco toma noção da forma como vivem os habitantes da região, quase sem dinheiro, mas muito orgulhosos da sua condição, agarrados a um passado transformado presente.


Começa então a tomar consciência do homem que tem a seu lado e como não podia deixar de ser o amor nasce como uma pequena bola de neve lançada do cimo de uma montanha, a história de Torquil e dos seus antepassados começa a seduzi-la, feita de memórias e lendas, como o castelo que não podem visitar devido a uma maldição, por fim a sua ida para Killoran começa a surgir-lhe como uma fuga do amor nascente pelo companheiro de infortúnio e a paixão começa a queimar-lhe o corpo. Com o seu dinheiro ainda tenta comprar a vida de um jovem pescador e aqui assistimos a um dos momentos mais emocionantes da película quando ela tenta a viagem para a ilha no meio do turbilhão das ondas e ao deparar-se com o célebre remoinho de Carryvreckan é obrigada a ceder e a voltar para trás. Será Caitriona a alertar Torquil para o verdadeiro motivo da fuga de Joan e este então decide lutar por ela.

Michael Powell

“Sei Para Onde Vou” reflecte de forma mágica todo o cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger, se lhe falta a cor do Technicolor, o preto e branco que nos é oferecido é de uma beleza surpreendente e mais uma vez a dupla constrói uma obra-prima na sua filmografia. Quanto a Wendy Hiller ela entra no interior da personagem de uma forma maravilhosa, oferecendo-nos uma das mais belas histórias de amor do cinema. Descobrir “I Knew Were I’m Going” é encontrar a essência dos sentimentos numa época em que muitas vezes eles andam perdidos no turbilhão da vida.

A Memória da Fotografia - Martine Franck - "Ingmar Bergman"


"Ingmar Bergman"
Martine Franck, 1976.

Filme do dia: AXN White – “Gravidez de… Alto Risco”” / “9 mois ferme” – Albert Dupontel.


Filme do dia: AXN White – “Gravidez de… Alto Risco” / “9 mois ferme”
Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marie.
(França – 2013) – (82 min./Cor)
Albert Dupontel
AXN White – dia 17 – 12:03
AXN White – dia 17 – 15h45
AXN White – dia 17 – 18h38

Pode ver aqui o trailer do filme e prepare-se para se divertir!

Sandrine Kiberlain é uma dessas actrizes francesas que consegue oferecer-nos os mais diversos registos e a sua longa careira no cinema fala por si, mas para o/a leitor(a) que não lhe reconhece o nome, direi que se trata da “Professora do Menino Nicolau”, surgindo neste filme como uma temível e rígida Juíza, celibatária, como gostam de afirmar os franceses, que na passagem do ano irá beber demasiado e alguns meses depois irá descobrir que está grávida, não se recordando de nada e, pior ainda, desconhecendo a identidade do pai da criança que em breve irá nascer, sendo forçada a utilizar todos os meios ao seu dispor na policia, como juíza, para descobrir o que lhe sucedeu nessa noite de passagem de ano.

Num filme como este convém não dar mais pistas ao leitor(a), mas simplesmente recomendar vivamente esta deliciosa comédia, realizada por Albert Dupontel, conhecido actor do cinema francês, já com uma longa carreira, possivelmente alguns recordam-se dele, nesse filme choque intitulado “Irreversível” de Gaspar Noé, que dividiu a crítica e o público, mas que também gosta de realizar, escrevendo sempre os respectivos argumentos.
Vale a pena acompanhar as peripécias desta bem divertida comédia intitulada “Gravidez de… alto risco” e já agora uma deixa: o risco é bem diferente do que inicialmente possam estar a pensarJ!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sidney Lumet – “Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste” / “Before the Devil Knows You’re Dead”


Sidney Lumet – “Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste” / “Before the Devil Knows You’re Dead”
(EUA/Inglaterra – 2007) – (117 min. / Cor)
Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei, Rosemary Harris, Amy Ryan.

Era ainda criança quando vi na televisão um filme que recordei para sempre, conhecia o actor mas não sabia o seu nome, depois fixei-o: era Henry Fonda. E foi só na adolescência que voltei a encontrar essa película intitulada “Doze Homens em Fúria” / “Twelve Angry Men” e descobri que o cineasta se chamava Sydney Lumet e este era o seu filme de estreia. A partir de então segui a carreira deste realizador que nasceu para o cinema, como muitos outros, a trabalhar na televisão.


Quando se olha para a sua filmografia somos atraídos pelos nomes dos actores, mas ele sempre soube escolher argumentos que agarravam o espectador, para depois lhes introduzir todo o seu saber, deixando sempre a sua marca. Basta recordar obras como “Serpico”, “Dia de Cão”/ “Dog Day Afternoon” (estes dois com Al Pacino no protagonista), “Network” ou “O Príncipe na Cidade” / “Prince of the City”, para além do seu filme de estreia, para termos de imediato o retrato genial do cineasta. E curiosamente, este homem nascido em Filadélfia a 26 de Junho de 1924, voltou a surpreender-nos com a película “Antes Que o Diabo Saiba que Morreste”, que viria a ser o seu derradeiro filme.


Partindo de um argumento de Kelly Masterson, o cineasta Sydney Lumet vai contar-nos uma história que é uma verdadeira tragédia shakespeariana dos tempos modernos, com uma crueldade e frieza que retrata bem o mundo em que vivemos.
Andy (Phillip Seymour Hoffman) é um executivo que se encontra em pânico, devido a uma Inspecção das Finanças que vai ter lugar na empresa onde trabalha, ao mesmo tempo que se vai encontrando no apartamento do seu "dealer" para fazer “viagens de luxo”, já o seu irmão Hank (Ethan Hawke) é a ovelha negra da família, aquele que vive sempre à beira do abismo, sem dinheiro e divorciado da mulher com um filho para sustentar. Ambos estão em apuros e será Andy a descobrir a solução para os problemas que os atormentam. Assaltar a ourivesaria dos pais, num sábado de manhã em que não há ainda movimento de clientes, para depois venderem as jóias, conseguindo desde modo resolver os diversos problemas financeiras de que ambos padecem, já que as jóias estão cobertas pelo seguro e assim ninguém sai a perder.


Andy é o estratega e Hank o operacional. O irmão mais novo decide convidar um amigo para fazer o golpe ficando ele no carro à sua espera, mas tudo irá correr mal. Nesse dia o pai de ambos (Albert Finney) tem exame da carta de condução e a empregada da loja irá chegar mais tarde, pelo que será a sua esposa a abrir a loja. O assaltante não conhece a mãe de Hank e quando tudo se complica, não hesita em alvejá-la mortalmente.
A partir de então a tragédia é uma verdadeira bola de neve a descer a montanha e Andy, ao saber da morte da mãe, percebe que se encontra num beco sem saída, por outro lado Charles Hanson (Albert Finney) só quer apanhar os assassinos da sua mulher, disposto a fazer justiça através das suas próprias mãos, enquanto Hank só deseja desaparecer do cimo da terra, porque não consegue viver com os remorsos a baterem-lhe insistentemente à porta ele, que até mantém uma relação com Gina (Marisa Tomei) a mulher do irmão, não tem para onde fugir sem levantar suspeitas.

Sidney Lumet e Albert Finney
durante a rodagem do filme.

Desta forma Sidney Lumet oferece-nos um verdadeiro drama familiar do mundo contemporâneo, que nos agarra desde o primeiro minuto do filme, sempre com a tragédia a espreitar na esquina mais próxima (se preferirem, chamem-lhe diabo). Contando com interpretações espantosas de um quarteto de actores que não deixa os seus créditos por mãos alheias, “Antes que o Diabo Saiba que Morreste” é um verdadeiro “vintage” do cineasta, que olha o cinema com uma juventude e eficácia espantosa. “Before the Devil Know’s You’re Dead” respira cinema por todos os fotogramas e foi o último filme deste genial cineasta norte-americano que nos deixou em 2011..

Chicago - “Free” / “Free Country”


Chicago
“Free” / “Free Country”
Single / 45 RPM.

Um dos melhores exemplos de uma “rock and roll band” na história da música é precisamente os “Chicago”, esse grupo que nasceu no Illinois e que desde 1967 tem sido uma verdadeira Instituição, que nos tem oferecido uma das mais belas viagens musicais que conheço, tendo descoberto, curiosamente, este grupo nas célebres “Jukebox” que andavam por aí nas décadas de 60/70.

Tenho de confessar que o tema “Free” dos Chicago, da autoria de Robert Lamm, incluído no álbum “Chicago III” e fazendo parte da suite “Travel”, tal como o lado B do single intitulado “Free Country”, foi descoberto na “Jukebox” que havia nas instalações do Motel de Oeiras, hoje em dia pertencente ao Inatel e que se encontrava, na época, na zona de jogos. Colocava-se uma moeda e escolhia-se o disco/tema e quando entrei na sala para jogar estava a tocar o “Free” e pouco depois, quando a sala ficou de novo inundada pelos ruídos dos jogos vídeo, eu invadi o espaço com o “Free”!!!

Só me recordo de voltar a usar uma “Jukebox” para escutar as minhas músicas favoritas já no período liceal, quando íamos até ao Parque Mayer jogar matraquilhos e enquanto jogávamos ao “perde/paga”, íamos escutando as nossas músicas favoritas dos grupos rock dessa primeira metade da década de setenta do século xx.

Regressando aos Chicago, de referir que esta banda de Rock and Roll apenas numerava os álbuns ou seja havia o álbum de estreia “Chicago Transit Autority” e a partir de então foi sempre de “Chicago II” a “Chicago XXXVI” (datado de 2014) e pelo meio temos meia dúzia de outros títulos icónicos de álbuns como o célebre “Chicago Christmas”. Uma banda que nos ofereceu sempre o melhor do “rock and rol” com uma secção de metais fabulosa!!!

Pode escutar aqui o tema “Free” dos Chicago.

Pode escutar aqui o tema instrumental “Free Country”, dos Chicago. 

A Memória da Fotografia - Elliott Erwitt - "Sophia Loren"


"Sophia Loren"
(durante a rodagem do filme
"A Fronteira da Noite" / "Le couteau dans la plaie"
de Anatole Litvak, em Paris.)
Elliott Erwitt, 1962.

Filme do dia: Sundance TV – “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion” – Irwin Winkler



Filme do dia: Sundance TV – “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”
Robert de Niro, Annette Bening, George Wendt, Patricia Wetting, Sam Wanamaker, Chris Cooper, Martin Scorsese.
(EUA – 1991) – (105 min./Cor)
Irwin Winkler
Sundance TV – dia 16 – 19H41

Pode ver aqui o trailer do filme.

Foi na segunda metade dos anos 60 que Irwin Winkler iniciou a sua actividade no cinema como produtor e rapidamente iremos fixar o seu nome, especialmente quando começa a produzir os filmes de Martin Scorsese. Mas este homem, bom conhecedor do meio cinematográfico onde se movimentava, decidiu um dia abordar o período mais negro da História do Cinema de Hollywood e assim nasceu “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, tendo o argumento sido entregue a Abraham Polonsky, mas quando Irwin Winkler leu o trabalho do “ex-black list” não gostou e decidiu reescrevê-lo, alterando a personagem interpretada por Robert de Niro, tendo depois decidido ser ele próprio o realizador da película, tal foi o seu empenho em a concretizar.

Esta película constitui com os filmes “O Testa de Ferro” / “The Front” de Martin Ritt e “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” de George Clooney, a trilogia perfeita para conhecermos este período da história do cinema norte-americano. Por outro lado, Irwin Winkler encontrou em Robert de Niro o actor perfeito para encarnar o protagonista, já o amigo Martin Scorsese surge no filme como o cineasta Joe Lesser, evocando o realizador Joseph Losey, que fugiu para Inglaterra, tal como fez Sam Wanamker, que aqui veste a pele de Felix Graff (recorde-se que ele é o responsável pela ideia do teatro “The Globe” em Londres, bem como pai da conhecida Zoe Wanamaker, que interpreta a escritora Ariadne Oliver na série de televisão “Poirot”).

“Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion” encontra-se repleto de referências e revela-se como uma das mais espantosas películas realizadas sobre este negro período da história americana. Só para terminar, aproveito para referir apenas alguns casos relacionados com a perseguição encetada pelo senador Joseph McCarty e “Friends”:
1- Bertold Brecht foi convocado para se apresentar perante a temível comissão e nesse mesmo dia abandonou a América.
2 - O conhecido actor John Garfield (protagonista de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”), ficou sem trabalho e terminou por se suicidar.
3 - O célebre cineasta Joseph L. Mankiewicz, Presidente da Associação de Realizadores, viu a sua cabeça pedida por Cecil B. de Mille, num tumultuoso plenário de “caça aos vermelhos” em Hollywood e será o grande John Ford a sair em sua defesa e então todas as vozes se calaram.
4 - Elia Kazan, por seu lado, terminou por ceder na Comissão e assinou de cruz, tudo o que pretendiam os “cavalheiros” que o estavam a interrogar, daí o célebre “pandemónio” na cerimónia dos Oscars, quando a Academia de Hollywood lhe atribui um Oscar pela carreira.

Recorde-se que o temível Senador só foi destituído quando “esticou demasiado a corda” e acusou o próprio Presidente Eisenhower, como veremos no filme realizado por George Clooney.
Irwin Winkler, com “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, encetou uma carreira de realizador, paralela à de produtor, bem interessante, portanto fixem o nome, que nós em breve voltaremos a falar dele e não deixem de (re)ver este filme fabuloso!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Baz Luhrmann – “Moulin Rouge”


Baz Luhrmann – “Moulin Rouge”
(EUA/Austrália – 2001) – (127 min. – Cor - P/B)
Nicola Kidman, Ewan McGregor, John Leguizamo, Jim Broadbent, Richard Roxburg, Kyle Minogue.

Baz Luhrmann deu nas vistas ao realizar “Strictly Ballroom”, uma obra onde o “kitsch” era bem patente e a cor deslumbrava o espectador, mas seria com a sua adaptação da obra imortal de William Shakespeare, “Romeu e Julieta” / “William Shakespeare’s Romeo and Juliet”, que se iria tornar famoso, ao transportar a época para a actualidade ao mesmo tempo que introduzia a estética do “video-clip/MTV” na película, tendo sido muitos os que sentiram o coração apertado ao reviverem pela primeira vez a mais bela e conhecida história de amor de todos os tempos.


Como não podia deixar de ser, a genialidade do cineasta chamou a atenção de muitos, especialmente os grandes Estúdios Americanos e foi assim, com naturalidade, que surgiu “Moulin Rouge”, cujo argumento foi escrito pelo próprio realizador e Craig Pearce. E mais uma vez Baz Luhrmann irá furar as regras do jogo ao recriar canções bastante conhecidas, oferecendo-lhes novas orquestrações, que deixaram muitos perfeitamente estupefactos, tal foi magia que lhes foi introduzida ao situá-las num contexto profundamente diferente, já que toda a acção do filme se passa em finais do século XIX, em Paris, essa bela cidade que sempre soube atrair os artistas em busca da fama.


E será assim que iremos encontrar o escritor Christian (Ewan McGregor) em busca do sucesso, na célebre cidade das luzes. Na época o Moulin Rouge era o centro da noite Parisiense e por lá iam tanto ricos como pobres, gente honesta à procura do amor, como criminosos à procura das suas presas, artistas e candidatos ao estrelato, naquele espaço convivia de mãos dadas o “glamour” e a decadência, oferecendo ao amor nocturno a conquista da sua desejada presa.
Do encontro de Christian (Ewan McGregor) com Toulouse Lautrec (John Leguizamo, numa composição espantosa), nascerá a ideia de construírem um “show”, até então nunca visto, para fazer brilhar ainda mais a estrela da companhia do Moulin Rouge, a bela Satine (Nicole Kidman), que se encontra noiva do temível Duke (Richard Roxburg), um homem sem escrúpulos, que não olha a meios para atingir os seus fins.
E no meio de uma fauna nocturna, onde a Arte e o Espectáculo convivem com o sub-mundo, o “mestre-de-cerimónias” só poderia ser o empresário deste famoso espaço, Harold Zidler (Jim Broadbent), que iremos ver a cantar, para grande espanto de muitos, o “Like a Virgin” de Madonna, bem demonstrativo da sua ingenuidade e falta de saber nos negócios.


Christian irá conhecer Satine, a estrela do Moulin Rouge, e rapidamente ficam perdidamente apaixonados um pelo outro, embora esse amor tenha como obstáculo o temível Duke. O escritor irá escrever as canções para o espectáculo entretanto idealizado por Toulouse-Lautrec, desconhecendo que a sua amada irá ser em breve vítima da doença que então atormentava esses tempos, a infelizmente célebre tuberculose. O espectáculo encenado com brilhantismo será um estrondoso sucesso, mas os amantes não irão ter muito tempo para o viverem.


Baz Luhrmann cria um filme repleto de luz e cor, usando uma estética que nos deixa fascinados, utilizando uma montagem agressiva mas perfeita, numa verdadeira homenagem ao cinema musical, oferecendo-nos canções tão conhecidas e badaladas, como “Your Song”, “Up Where We Belong” e “Roxanne”, entre outras, com novas roupagens, juntando ao mesmo tempo clássicos como “Diamonds Are a Girls Best Friends”, numa contagiante musicalidade, deixando o espectador rendido ao “glamour” da película, ao mesmo tempo que nos oferece uma bela história de amor, que inevitavelmente não poderá ficar imune às nuvens da tragédia.


Na época da sua estreia muitos pensaram nos Oscars para este espantoso e inovador musical, mas a Academia não viu com bons olhos “Moulin Rouge” e, mesmo tendo Nicole Kidman contribuído com uma magnifica intee«rpretação, a Academia de Hollywood foi bastante reticente em lhe dar as mais ambicionadas estatuetas, decidindo atribuir-lhe apenas os Oscars para Melhor Guarda-Roupa e Melhor Direcção Artística. No entanto, quem viu “Moulin Rouge” de Baz Luhrmann nunca mais se esqueceu dele, porque na verdade é impossível ficar indiferente perante a magia de um musical deste calibre.