sexta-feira, 21 de julho de 2017

Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”


Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”
(EUA – 1999) – (89 min. / Cor)
Terence Stamp, Lesley Ann Warren, Peter Fonda, Luis Guzman, Melissa George, Barry Newman.



A história de Steven Soderbergh é conhecida de todos: entrou com o pé direito e venceu o Festival de Cannes com “Sexo, Mentiras e Vídeo” / “Sex Lies and Videotape”, uma película independente feita com meios bastante reduzidos, mas onde era possível detectar o génio que se encontrava ali. E de imediato todas as portas se abriram e ele atirou-se a um projecto fabuloso, criando essa obra extraordinária chamada “Kafka”. Mas os resultados de bilheteira foram os piores e as portas começaram a fechar-se lentamente, embora ele continuasse a trabalhar, introduzindo de forma sabedora as marcas da sua autoria, até que chega esse primeiro ano do novo milénio (2000) e a sua vida muda decididamente de figura, porque nesse ano realiza dois filmes que são estrondosos sucessos de bilheteira e da crítica: “Erin Brockovich” e “Traffic”.


Mas no ano anterior, em 1999, Steve Soderbergh realizou uma das suas melhores películas de sempre, intitulada “O Falcão Inglês” / “The Limey”, que foi recuperada e exibida após os estrondosos sucessos de 2000 e foi assim que descobrimos este filme então em exibição numa das salas do Cinema Mundial. E a primeira constatação é a descoberta da arte do “flash-back” e do emprego do tempo no cinema, que aqui surge como verdadeiro protagonista.
 “O Falcão Inglês” conta-nos a história de um gangster britânico que sai da prisão e decide partir para Los Angeles para saber quem matou a sua filha Jenny, para assim fazer justiça com as suas próprias mãos. Tudo o que sabe cinge-se a uns recortes de jornais que um antigo guarda-costas, de seu nome Eduardo Roel (Luís Guzman), amigo de Jenny lhe enviou, conseguindo depois, através de uma professora da filha chamada Elaine (Leslie Ann Warren), descobrir o território pantanoso habitado por Jennifer Wilson, sendo assim conduzido até Terence Valentine (Peter Fonda), o produtor discográfico de “sucesso”, com negócios muito pouco recomendáveis.


Durante a viagem de avião iremos conhecer as memórias de Terence Wilson (Terence Stamp), o gangster inglês de sotaque “cockney”, que possuía na filha o ser que mais amava no mundo. Ela que já em pequena não gostava das actividades do pai, ameaçando chamar a polícia, irá fazer o mesmo quando descobre que o seu namorado Terry Valentine (Peter Fonda) se encontra envolvido em negócios de lavagem de dinheiro da droga.
Wilson (Terence Stamp) é um homem duro, sem contemplações para ninguém, não hesitando em puxar do gatilho, como veremos no seu primeiro encontro com os traficantes de droga. Embora por outro lado seja um homem um pouco fora da realidade do mundo, devido ao tempo que passou na cadeia, aliás bem visível quando pensa que os homens que se encontram à porta da Mansão de Valentine, onde ele dá uma festa, são gangsters.


Já Terry Valentine (Peter Fonda) surge aqui a respirar um pouco a alma do protagonista de “Easy Rider”, como o produtor bem sucedido, tipicamente Californiano, com casa nas colinas de Los Angeles (de uma arquitectura espantosa) e outra luxuosa casa em Big Sur, possui bons carros e motas, ao mesmo tempo que gosta de contar histórias do seu passado à jovem com quem vive, ou seja a rapariga que substituiu Jenny no seu “coração”.
Curiosamente, um dos roubos que Wilson praticou foi o das receitas de um concerto dos Pink Floyd, enquanto Valentine foi um dos responsáveis por uma série de concertos do grupo nos States. Mas enquanto um irá praticar a justiça que acha justa, pelas suas próprias mãos, o outro possui em Avery (Barry Newman) o chefe de segurança, que o protege e de quem é sócio no esquema de lavagem de dinheiro, uma espécie de anjo protector contra todas as adversidades.


Ao longo da película, sempre com “flashbacks” a invadirem o filme e uma montagem descontínua e brilhante, iremos saber que Jenny foi morta por Valentine, quando decidiu denunciar à polícia o que se passava, pagando com a própria vida a sua eterna honestidade. E Wilson irá ajustar as contas com ele, depois de tirar do caminho todos os homens que o protegem na casa de Big Sur, agindo sempre de forma destemida, como se estivesse imune às balas que no final, já na praia, Valentine irá disparar sobre ele.


Steven Soderbergh filma todas as sequências do confronto entre Wilson e os seguranças de Valentine de uma forma brilhante, sem um plano a mais ou a menos, ao mesmo tempo que instala um clima perfeito de suspense, com uma eficácia extraordinária. Por outro lado decidiu inserir ao longo do filme imagens de uma película realizada em 1967 por Ken Loach, intitulada “Poor Cow”, onde Terence Stamp é protagonista, surgindo estas como o retrato perfeito de um passado, que Wilson ainda recorda, mas que certamente irá ser perdido na memória com a passagem dos anos. Aliás “O Falcão Inglês” termina precisamente com imagens retiradas desse filme, com Terence Stamp a tocar guitarra.
“The Limey” surge assim na carreira de Steven Soderbergh como um dos seus filmes mais brilhantes em que ele, mais uma vez, trata o cinema “por tu”, demonstrando ser um perfeito conhecedor dessa Arte intitulada de Sétima. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Otto Preminger – “Vidas Inquietas” / “Angel Face”


Otto Preminger – “Vidas Inquietas” / “Angel Face”
(EUA – 1952) – (90 min. - P/B)
Robert Mitchum, Jean Simmons, Herbert Marshall, Mona Freeman, Leon Arnes, Barbara O’Neil.

Otto Preminger, esse cineasta austríaco, que fez a maior parte da sua carreira cinematográfica na América, sempre gostou de não ficar preso dos produtores dos Grandes Estúdios e daí o vermos quase sempre a produzir os seus próprios filmes, única maneira de na época conseguir controlar todas as fases da produção, impedindo assim a intromissão de terceiros. E “Vidas Inquietas” / “Angel Face” não foge a essa regra sagrada do cineasta.


No início da película, em plena noite, uma ambulância parte do hospital, rumo às célebres colinas que rodeiam Los Angeles, essas mesmas colinas onde todos sabemos habitarem essas famílias detentoras de dinheiro e poder. E quando entramos na residência de Charles Tremayne (Herbert Marshall), percebemos de imediato que algo se passa naquela casa: a sua esposa, verdadeira detentora do capital, inalara inadvertidamente gás no seu quarto, situação, essa, que quase lhe provocara a morte. E só depois de toda sequência terminar iremos encontrar Diana Tremayne (Jean Simmons) a filha do escritor, que se encontra na sala a tocar piano, tratando-se evidentemente desse “Angel Face”, que dá título ao filme.


Na época alguns apontaram como um erro de casting a presença de Jean Simmons no elenco, já que ela não possuía visualmente esses atributos característicos da mulher fatal, mas todos estavam enganados! Porque na verdade Otto Preminger pretendia uma actriz, que revelasse no rosto, esse célebre olhar de anjo, tão desejado pelo realizador.
Ao fazer-se encontrada nessa mesma noite, no bar frequentado pelo condutor da ambulância, Diana (Jean Simmons) pretende conquistar o homem, que momentos antes a esbofeteara, quando ela tivera um ataque de histerismo, tendo ela replicado da mesma maneira. E rapidamente, o par se irá envolver, conseguindo Diana que Frank Jessup (Robert Mitchum) deixe a sua namorada e troque o seu emprego pelo de motorista da família.


Na verdade Diana possui uma profunda ligação ao pai, que concorda sempre com as suas opções, um escritor bloqueado na sua arte, a viver à custa da milionária com quem se casara em segundas núpcias, ao mesmo tempo que ela odeia a madrasta, detentora do capital que sustenta aquela casa.
Rapidamente Frank Jessup torna-se numa verdadeira marioneta nas mãos de Diana e quando ela descobre como será fácil matar a madrasta, coloca em acção o seu plano, que se irá revelar trágico, porque ao contrário do que ela supunha, o pai irá acompanhar a mulher, nesse arranque fatal em marcha atrás, rumo ao abismo.
De imediato tanto ela como Frank são acusados de assassínio premeditado, iniciando Diana, herdeira de uma fortuna enorme, um complexo jogo, assumindo as culpas perante o advogado de defesa, ao mesmo tempo que clama a inocência do homem que ama.

Otto Preminger

Tendo ao seu dispor um advogado famoso, Diana e Frank serão absolvidos, por um júri, que clama a sua inocência, perante os factos apresentados no tribunal, bastante influenciado por os dois acusados se terem casado na prisão, apesar das reticências de Frank, que percebe o jogo da jovem e, quando finalmente abandonam a sala do tribunal, regressando a casa, a Angel Face irá perceber, que o ser amado, nunca irá ficar ao seu lado e nesse preciso momento, decide agir, numa sequência memorável, bem demonstrativa do saber do cineasta.


Otto Preminger na época afirmou que “o argumento era um factor essencial nos seus filmes”, aliás bem demonstrativo nesta película, mas as interpretações também são memoráveis, conseguindo como o cineasta referiu numa entrevista “ajudar os intérpretes a descobrir formas de expressão sempre novas e a sair das tipificações convencionais, o que em Hollywood não é coisa fácil”, aliás bem demonstrou nesta película memorável, alcançando com eficácia os objectivos pretendidos ao realizar este filme.


“Angel Face” oferece-nos uma Jean Simmons de cabelo comprido, ainda muito nova, a fugir das interpretações, a que irá habituar as plateias de todo mundo, ao mesmo tempo, que esses secundários, em que Hollywood foi pródiga na época de ouro do cinema norte-americano, nos oferecem sempre o seu enorme talento, por muito breves que sejam as suas aparições e linhas de diálogo. Já Robert Mitchum encontra-se como peixe na água, como sempre nos habituou ao longo da sua memorável carreira.

“Vidas Inquietas” surge assim na filmografia de Otto Preminger, como uma das suas obras maiores, fruto da genialidade de um Mestre, que soube mergulhar no “film noir” oferecendo-nos sempre a sua essência.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Luis Mandoki – “As Palavras Que Nunca Te Direi” / “Message in a Bottle”


Luis Mandoki – “As Palavras Que Nunca Te Direi” / “Message in a Bottle”
(EUA – 1999) – (132 min. / Cor)
Kevin Costner, Robin Wright Penn, Paul Newman, John Savage.

“Message in a Bottle” antes de ser um filme foi o maior “best-seller” de Nicholas Sparks, autor norte-americano, senhor de uma escrita cativante, que soma sucesso atrás de sucesso com os seus livros, possuindo no seu continente e em todo o mundo uma imensa legião de leitoras. Falamos no feminino porque as suas obras profundamente românticas destinam-se primordialmente ao público feminino e não nos esqueçamos que cerca de 70% dos leitores são do sexo feminino. E começamos por falar em Nicholas Sparks, ao abordarmos este filme de Luís Mandoki, porque o argumentista introduziu na história uma figura preponderante em todo o desenrolar da acção do filme chamado Dodge Black ou seja Paul Newman, o verdadeiro “fiel da balança” da película, assim como introduziu alterações no final, transformando um simples naufrágio num acto de heroísmo.


Estarei a contar a história? Enfim, já todos a sabemos e eu até li o livro depois de ter visto o filme e confesso que gostei da escrita de Nicholas Sparks. Mas falemos de Luís Mandoki e de “Message in a Bottle”. O cineasta nasceu no México em 1954 e tem trabalhado tanto no seu país como nos Estados Unidos, começou a dar nas vistas na área do melodrama quando assinou “White Palace” / “Loucos de Paixão” com Susan Sarandon e James Spader nos protagonistas, estávamos aqui perante uma história de amor entre um yuppie e uma empregada de um “Diner”, onde o cheiro dos hambúrgueres se fazia sentir na rua. Perante o sucesso do filme onde Susan Saradon está fabulosa, um novo melodrama é-lhe oferecido pelos Estúdios, trata-se de “Quando Um Homem Ama Uma Mulher” / “When a Man Loves a Woman” com Andy Garcia e Meg Ryan num papel dramático pela primeira vez e aqui entramos num dos mundos mais complexos do amor, no interior do alcoolismo no feminino, perante o olhar perturbado das crianças e o amor de um marido que a deseja a todo o custo, revelando-se um filme brilhante, mas com um sucesso relativo a nível de bilheteiras.


Desta forma, com provas dadas na arte do romantismo no cinema, foi com naturalidade que vimos “Message in a Bottle” ser entregue a Luís Mandoki, no entanto surgiu um problema já que o actor principal era Kevin Costner, que tentava relançar a sua carreira, estava então na sua fase mais baixa e foi muito difícil encontrar a sua “partenaire”, todos os nomes badalados na época, pertencentes ao “top ten” feminino recusaram contracenar com Kevin Costner, achando-o um verdadeiro veneno de bilheteira, Robin Wright Penn foi então a opção e poderemos dizer que após tantas dificuldades, o papel ficou muito bem entregue.
Chegamos assim a Cape Code lugar onde se encontra de férias Theresa Osborne (Robin Wright Penn) uma jornalista do “Chicago Tribune”. Ao passear na praia irá encontrar uma garrafa na areia, mas esta garrafa é diferente tem uma carta lá dentro, uma maravilhosa carta de amor assinada por G. Quem seria o enigmático G? Disposta a encontrá-lo Theresa, que até é divorciada, conta o sucedido nas férias a um dos jornalistas, mostrando a carta e ele decide publicá-la na sua coluna. Enquanto Theresa trabalha na pesquisa do “Chicago Tribune” uma multidão de leitores decide colaborar com ela, sendo a redacção do jornal invadida por centenas de cartas.


Os dados da história estão lançados e Theresa irá fazer-se encontrada com Garrett (Kevin Costner) mas nunca lhe falará da carta, segredo bem guardado e de imediato os sentimentos de ambos começam a movimentar-se, embora os dele estejam em luta permanente com o passado e com a família da esposa morta. Repare-se em toda a sequência em que o cunhado e os sogros tentam recuperar os quadros da filha, a forma violenta como Garrett se opõe a eles, ou a luta no bar aquando do primeiro encontro entre Theresa e Garrett.
Durante essa semana Theresa conhece o mundo de Garrett e mais tarde será Garrett a conhecer o universo de Theresa em Chicago. Entretanto surge essa figura inesquecível da história, Dodge Black (Paul Newman) a quem o filho conta as cervejas existentes no frigorífico, estamos perante um daqueles velhos teimosos, mas donos da sabedoria de um mundo, será através dele que Theresa irá conhecer a verdade dos factos e será através dele que iremos encontrar os melhores momentos da película, a sua presença é uma mais valia de “As Palavras Que Nunca Te Direi”.
Como todos sabemos Garrett é um homem em luta com as memórias de um passado perdido para sempre e ao descobrir como Theresa o conheceu fica perfeitamente louco pela forma como foi construída a mentira. Aqui temos nos momentos de maior tensão um Kevin Costner no seu melhor, com uma Robin Wright a oferecer-lhe uma boa réplica e nesta altura do filme já nem pensamos nos nomes que recusaram ser Theresa Osborne.


Todas as histórias de amor nem sempre tem um “happy-end”, como sucedia na época do cinema clássico, mas sempre imaginámos que um dia Rick e Ilsa, o par romântico de “Casablanca”, depois da guerra se voltariam a encontrar, porque viveram a mais perfeita história de amor, Em “Message in a Bottle” não há lugar para um final feliz, mas o argumentista Gerald Di Pego decidiu escrever um final digno de Garrett Black.
“As Palavras Que Nunca Te Direi” relançaram a carreira de Kevin Costner e contribuíram imenso no aumento das vendas do livro de Nicholas Sparks, para além de ser um dos filmes mais vezes exibido nas televisões, portanto conseguiu atingir os seus objectivos. Quanto à matéria que nos interessa, a qualidade da película, somos obrigados a reconhecer o bom trabalho desenvolvido por Luís Mandoki na direcção de actores, mantendo o controlo da embarcação nas restantes áreas. Talvez por isso mesmo, “Message in a Bottle” continua a ser uma película que se vê com agrado, mesmo quando já sabemos a história, gostamos de olhar, mais uma vez todas aquelas personagens e seguir a sua história. Esse é o grande segredo do filme, cativar uma audiência e neste caso sabemos que Garrett e Theresa “regressaram a casa”, chegando a um “porto seguro”, no território do melodrama. Mas nunca é demais referir que a personagem interpretada por Paul Newman, sempre que surge no écran, respira cinema por todos os fotogramas e sentimos o pulsar da Sétima Arte!

terça-feira, 18 de julho de 2017

Clint Eastwood – “Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”


Clint Eastwood – “Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”
(EUA – 1971) – (102 min. / Cor)
Clint Eastwood, Jessica Walter, Donna Mills, John Larch.


Nos dias de hoje muitos são aqueles que referem Clint Eastwood como o último cineasta clássico do cinema norte-americano e ao olhar a sua já extensa obra como cineasta, somos obrigados a concordar com o título, mais que merecido. Três obras da sua filmografia, por vezes esquecidas, são disso exemplo, falamos de “Bird”, “Caçador Branco, Coração Negro” e “As Pontes de Madison County”. Mas se partirmos para inícios dos anos setenta ao encontro do intérprete Clint Eastwood, ninguém poderia prever que um grande cineasta iria nascer, apadrinhado pelo bom amigo Don Siegel.


Estávamos no ano de 1971 e Clint Eastwood decidiu passar para detrás das câmaras e realizar a sua primeira película “Play Misty For Me” / “Destino nas Trevas”, cuja acção se desenrola na sua cidade, Carmel onde seria Governador durante uns anos, oferecendo-nos uma história de amor, que se irá revelar uma verdadeira atracção fatal.
Aliás o argumentista do filme de Andrian Lyne, “Fatal Attraction”, viu de certeza a película de Clint Eastwood, tendo em conta tantos traços idênticos ao longo das duas obras.
Mas regressando ao filme há célebre frase/pedido telefónico de Evelyn (Jessica Walter) a Dave (Clint Eastwood) no seu programa de rádio, em Carmel, "Play Misty For Me" e assim o locutor responde positivamente ao pedido da ouvinte. Depois lentamente Evelyn irá cultivar o seu amor com Dave, através de uma fragilidade aparente, que a pouco e pouco se transforma em violência.


De um pequeno “flirt” transformado em simples “affair” nasce a destruição e a vingança. Evelyn após o fim do amor passageiro instala-se na casa da namorada de sempre de Dave Garland, usando outra identidade, dando assim início à sua chantagem e manipulação do locutor de rádio, perante a inocente Tobie (Donna Mils), imagem perfeita de uma geração. Por falarmos em geração será sempre de salientar a longa sequência do Festival de Jazz de Monterey introduzida por Clint Eastwood na película, já fruto do seu amor por este género musical, servindo ao mesmo tempo como a bonança que antecede a tempestade, como veremos no final do filme.


“Play Misty For Me” não é um filme datado, embora todos os tiques dos anos setenta, do século xx, estejam lá. E dizemos isto porque o cineasta Clint Eastwood nasceu com este filme. Ele oferece-nos o primeiro capítulo da obra de um grande autor de cinema e não podemos nunca olhar “Destinos nas Trevas” como uma obra-menor, porque se ele é o primeiro filme de um cineasta, que iria evoluir ao longo do tempo surpreendendo tudo e todos, nele encontramos todos os elementos característicos do cinema de Clint Eastwood. Descobrir “Play Misty For Me” é uma agradável surpresa, ao mesmo tempo que encontramos a ponte que ligou o intérprete dos filmes de Don Siegel ao cineasta Clint Eastwood.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Michael Patrick King - "O Sexo e a Cidade" / "Sex and The City"


Michael Patrick King – “O Sexo e a Cidade” / “Sex and The City”
(EUA - 2008) – (148 min. / Cor)
Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Chris Noth, David Eigenberg, Jason Lewis, Candice Bergen.



Nesse filme fabuloso realizado por Martin Scorsese e intitulado “Life Lessons” / “Lições da Vida”, no final da película, o pintor interpretado por Nick Nolte confessava no bar à futura aspirante a pintora que New York era a cidade, a única cidade onde o sucesso poderia espreitar ao virar da esquina e na verdade foi isso mesmo que aconteceu a Sarah Jessica Parker, quando decidiu protagonizar uma das séries que se tornaram mais famosas da história da televisão. Falamos de “Sex and the City” que durou diversos anos em regime de “prime-time” e fez as delícias de milhões de tele-espectadoras. E falamos no feminino porque o auditório desta série sempre foi composto maioritariamente por mulheres. Se irá ficar na história da televisão, o futuro o dirá, mas que fez de Sarah Jessica Parker um nome famoso no pequeno écran, lá isso é verdade.


Esta série, que surgiu nos écrans da caixa que mudou o mundo em 1998, arrastou multidões e quando o seu criador Darren Starr a deu por terminada, muito se falou na hipótese de se fazer o filme para o grande écran, para fechar algumas portas que a série deixou abertas: o casamento de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) com o charmoso Mr. Big (Chris Noth); o desejo de gravidez nunca alcançado por Charlotte York (Kristin Davis); o rumo definitivo da relação entre Miranda Hobes (Cynthia Nixon) e o seu inconstante marido Steve Brady (David Eigenberg); conseguiria Samantha Jones (Kim Cattrall) abdicar definitivamente da sua querida Big Apple, pelo sol da Califórnia, no El Dorado de Hollywood?


Todas estas questões irão ter resposta no filme realizado por Michael Patrick King, realizador de muitos dos episódios da famosa série. Assim, a película surge como um complemento perfeito da série, fechando todas as portas deixadas ainda abertas no pequeno écran. Mais uma vez o sistema adoptado é idêntico: Carrie Bradshaw, a famosa colunista, autora de sucesso e ícone da moda, surge como narradora, iniciando-se o filme precisamente com esse famoso pedido de casamento de Mr. Big, tão desejado por ela. Mas nem sempre os caminhos que vão dar ao altar são perfeitos e, quando menos se espera, as dúvidas e o medo assaltam o noivo que acaba por faltar à cerimónia, ficando assim os dados lançados para o desenrolar do filme, que surge não como uma obra pensada para o grande écran, mas sim como a antítese do chamado episódio piloto das séries.


Iremos navegar com estas quatro mulheres no grande écran, ao longo de duas horas e meia, para descobrirmos finalmente como irão culminar as suas vidas e, como não podia deixar de ser, elas irão encontrar inúmeros obstáculos pelo caminho na conquista da felicidade tão desejada, terminando a película com o regresso de Samantha Jones à grande cidade, para comemorar os seus cinquenta anos e decidir que New York é a única cidade que a pode possuir, já que na matéria do desejo o sol californiano não a fez mudar de intenções. Enquanto Charlotte, que já tinha encontrado o seu Mr. Right, engravida com sucesso, dando à luz a criança que sempre desejou ter. Já Miranda percebe como é difícil a vida com Steve, principalmente depois de este lhe ter confessado o adultério, mas uma relação a dois, como sabemos, por vezes possui os seus buracos negros e não há nada como descobrir a melhor forma da memória lidar com eles. Por fim, a famosa Carrie Bradshaw chega ao registo de uma Conservatória e casa-se com Mr.Big, longe dos holofotes dos média, porque o amor deve ser sempre um dos segredos mais bem guardados de um casal.


 “Sex and the City” surge assim não como um filme feito propositadamente para o grande écran, mas a conclusão de uma série famosa em termos de audiência, que surgiu no grande écran aplicando a linguagem televisiva, sem qualquer rasgo de génio, mas apenas pretendendo terminar uma história que cativou milhões de espectadoras em todo o mundo e os resultados das receitas falam por si.
O “O Sexo e a Cidade” pretendeu ser, ao longo do tempo, o retrato de um conjunto de mulheres na grande metrópole, mas quando falamos de retrato de mulheres é inevitável surgir no horizonte essa obra-prima intitulada “The Women” realizado por George Cukor, o famoso cineasta das mulheres, que melhor do que ninguém nos ofereceu o mais belo retrato do universo feminino no Cinema e não há nada como rever o dvd do filme de Cukor e perceber as diferenças que separam a genialidade da mediania.

domingo, 16 de julho de 2017

Ryan Murphy – “Recortes da Minha Vida” / “Runing With Scissors”



Ryan Murphy – “Recortes da Minha Vida” / “Runing With Scissors”
(EUA – 2006) – (116 min. / Cor)
Annette Bening, Brian Cox, Alec Baldwin, Joseph Fiennes, Even Rachel Wood, Joseph Cross, Jill Clayburgh, Gwyneth Paltrow.

Todos sabemos que Annette Bening gosta de projectos arriscados, onde é hábito arrancar grandes interpretações, como sucedeu com “American Beauty” / “Beleza Americana”. Desta vez ela decidiu dar corpo e voz a Deirdre Burroughs, numa espantosa interpretação, tendo recebido um globo de ouro pelo seu desempenho em “Runing With Scissors” / “Recortes da Minha Vida”, baseado na história verídica de Augusten Burroughs. Recorde-se que este romance choque, publicado em 2002 nos Estados Unidos, se transformou rapidamente num “best-seller”. E seria o realizador da série “Nip Tuck”, o responsável pela sua transposição para o cinema.


Iremos assim encontrar um dos filmes choque desse ano de 2006, em que Ryan Murphy optou por nos oferecer uma comédia demasiado negra, explorando sempre os pontos mais sórdidos e mórbidos do romance escrito por Augusten, aqui interpretado por Joseph Cross. Basta olhar para o elenco para sabermos que este filme tudo possuía para ser um sucesso, mas as opções do cineasta, sempre em busca do abismo, terminam por nos oferecer uma película em que a dor humana e a loucura prevalecem sobre os sentimentos.


Deirdre Burroughs (Annette Bening) é uma poetisa em busca do sucesso que lhe escapa, sendo o seu filho de sete anos, Augusten, o seu maior fan, enquanto o seu marido Norman (Alec Baldwin) se vai refugiando no álcool para esquecer o casamento de que é um simples habitante. Cinco anos depois decidem consultar o Dr. Finch, um psiquiatra conhecido pelos seus métodos modernos e revolucionários, para os ajudar a ultrapassar a sua crise matrimonial. Mas o Dr. Finch (Brian Cox), que inicialmente os recebe no seu consultório, passa as consultas para a sua mansão victoriana (devido a problemas com o fisco), ficando assim o jovem Augusten a conhecer a disfuncional família do psiquiatra, terminando por encontrar em Natalie Finch (Evan Rachel Woods), a filha mais nova do psiquiatra, a sua companheira de aventuras, enquanto a filha mais velha Hope (Gwyneth Paltrow) é já o espelho perfeito do pai. Augusten acompanha a mãe até às consultas, descobrindo estupefacto que naquela casa a loucura é um habitante permanente.


Mas o pior ainda estava para vir e quando descobre que os pais se decidiram divorciar, percebe o rumo que a sua vida irá tomar, embora não desconfie que ele irá ultrapassar todos os limites da sua imaginação. Deirdre decide nomear o Dr. Finch como tutor do filho e partir em busca da felicidade que nunca será encontrada, tal como o sucesso que tanto deseja. E será a esposa do Dr. Finch (uma interpretação excelente de Jill Clayburgh), essa mulher eternamente subjugada por todos, a oferecer a Augusten a saída/fuga daquele manicómio.



Ryan Murphy, ao optar pela descrição dos pormenores mais sórdidos dos anos passados por Augusten na casa do Dr. Finch (recorde-se que estamos perante um caso verídico), ultrapassa muitas vezes os limites da comédia negra, criando por vezes situações penosas de assistir, não conseguindo nunca entrar nesse universo perfeito da comédia negra que um dia nos foi oferecido por Wes Anderson em “The Royal Tenenbaums”, apesar deste “Recortes da Minha Vida” também possuir um elenco de luxo.


Nunca estreado em Portugal no grande écran, este “Runing With Scissors” surgiu directamente em dvd, com alguns extras bastante elucidativos e onde nos é oferecida uma entrevista com o próprio Augusten Burroughs, que nos relata a sua visão da transposição para o cinema deste filme baseado na sua obra autobiográfica.


“Recortes da Minha Vida” surge assim como mais um filme em que Annette Bening nos oferece uma excelente interpretação à beira do abismo, no verdadeiro sentido da palavra, demonstrando não possuir medo de interpretar personagens transgressoras. 

sábado, 15 de julho de 2017

Taylor Hackford – “Vidas em Jogo” / “Against All Odds”


Taylor Hackford – “Vidas em Jogo” / “Against All Odds”
(EUA -1984) – (128 min. / Cor)
Jeff Bridges, James Woods, Rachel Ward, Jane Greer, Richard Widmark.

Jacques Tourneur, cineasta injustamente esquecido, como referem muitos historiadores do cinema, foi um dos mestres dos filmes de Série-B, trabalhando na RKO, na qual abordou os géneros mais variados, acabando por morrer tal como viveu, ignorado pelo público e pela crítica. É precisamente com o “remake” de “Cat People”, levado a cabo por Paul Schrader, cineasta, argumentista e crítico, com obras escritas sobre Carl Dreyer, Robert Bresson e Yasujiro Ozu, entre outros, que o cinema de Jacques Tourneur foi finalmente revisto e descoberto em toda a sua grandeza, onde ocultar o visível se transforma numa autêntica arte de narrar.


Outro cineasta que fez um “remake” de uma obra de Jacques Tourneur foi Taylor Hackford, oriundo da televisão, tal como James Brooks ou David Ward, optando pelo célebre “Out of the Past”/”O Arrependido”. De referir que, ao contrário de Jacques Tourneur, Taylor Hackford viu o seu nome ser reconhecido por todos, graças à película “Oficial e Cavalheiro” / “An Officer and a Gentleman”, tendo sempre convivido muito bem com a Indústria.


“Vidas em Jogo”/”Against All Odds” de Taylor Hackford apresenta um elemento de ligação com “O Arrependido”/”Out of the Past” de Jacques Tourneur, extremamente interessante, na figura de Jane Green. Na película de Tourneur era a rapariga em fuga e, neste caso do “remake”, surge como a mãe dessa mesma rapariga, também ela em fuga (Rachel Ward). Robert Mitchum é “substituído” por Jeff Bridges, que já não é detective, mas sim um profissional de futebol “dispensado/despedido” da equipa. Quanto a James Woods, surge na figura que era ocupada anteriormente por Kirk Douglas.



Tal como no “original”, se assim se puder falar, o romance, desenvolve-se em parte na América Latina, mas o que Taylor Hackford questiona é a relação poder/corrupção e os meios que por vezes são necessários empregar, a fim de que determinados projectos sejam aprovados, neste caso a urbanização de uma das colinas de Los Angeles. Corrupção que se inicia com a “construção” de resultados desportivos, motivados pelo jogo de apostas que existe em seu redor, com a consequente utilização dos meios necessários à sua continuidade: chantagem, morte e a respectiva cumplicidade do silêncio. Estamos perante uma película que bem merece ser revista através de um olhar sem complexos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Martin Scorsese – “O Cabo do Medo” / “Cape Fear”


Martin Scorsese – “O Cabo do Medo” / “Cape Fear”
(EUA - 1991) – (125 min. / Cor)
Robert de Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck.

“Cape Fear” antes de mais é um “remake” do filme do mesmo nome realizado por J. Lee Thompson, com Gregory Peck e Robert Mitchum nos protagonistas, mais tarde interpretados na obra de Martin Scorsese por Nick Nolte e Robert de Niro, respectivamente, sendo aliás curioso o facto de Scorsese ter convocado os dois actores da película original para pequenos papéis, homenageando-os desta forma neste seu primeiro filme associado a dois grandes Estúdios, a Universal e a Amblim de Steven Spielberg. Por outro lado Martin Scorsese faz algumas alterações no argumento original, tornando o vilão Max Cody num violador psicopata.


Max Cody (Robert de Niro) foi condenado à prisão devido ao seu advogado de defesa Sam Bowden (Nick Nolte) não ter mexido um dedo em sua defesa, após lhe terem chegado provas incontestáveis da culpa de Max, esquecendo-se por completo do código deontológico da ordem dos advogados, fechando os olhos às alíneas que possibilitavam o surgir das palavras “not guilty” na boca dos jurados. Muitos anos depois, 14 anos mais precisamente, Max Cody sai da prisão e já não é o homem iletrado que estivera sentado no banco dos réus, já que durante esses anos passados no cárcere estudou, tanto direito como a Bíblia, tanto psicologia como a forma de construir a sua vingança, jurando nunca mais dar descanso a Sam Bowden. E assim se dá a conhecer, durante umas festas na cidade, ao advogado e à sua família, mostrando que ele estava ali e a vingança iria ser terrível.


Leigh Bowden (uma excelente Jessica Lange) é uma daquelas esposas sempre em luta com as infidelidades do marido, especialmente com a recente Lori Davis (Ileana Douglas), sua “partenaire” nos jogos sexuais, sendo esse mesmo desejo que irá ser fatal para Lori quando cai nos braços de Max, a forma como Martin Scorsese nos dá a ver a cena em toda a sua brutalidade é apenas um começo do que se irá desenrolar ao longo do filme. Depois temos a impotência de Sam Bowden (Nick Nolte) em lidar com a situação, a lei não o pode ajudar. Recorre então a um detective particular (Joe Don Baker) que contrata a escória da cidade para limpar o "sebo" a Max Cody, mas ele tinha aprendido na prisão a enfrentar situações dessas e segue em frente na sua vingança, ao ponto de se fazer encontrado por diversas vezes com Danielle (Juliette Lewis), a filha dos Bowen, em pleno despertar sexual, iniciado com ela um perfeito jogo de sedução, arrepiante para o espectador.

Robert Mitchum em "Cape Fear" de Martin Scorsese.

Curiosamente, a forma como Martin Scorsese filma “O Cabo do Medo” / “Cape Fear” e o uso dado à cor e aos planos evoca profundamente o Alfred Hitchcock dos anos cinquenta, repare-se como o azul e o vermelho são as cores predominantes, por outro lado a forma como ele nos oferece a angústia da família Bowden, refugiada no iate à espera do ataque de Max Cody, consegue criar um “suspense” digno de figurar na história do cinema. O espectador está de tal forma agarrado à cadeira que quase não respira, toda a sua atenção está virada para o que se passa no interior do iate e nasce então a violência no seu estado mais puro e sangrento. Se muitos ficaram surpreendidos com a violência de “Gangs of New York” foi só porque não se recordavam ou não conheciam “Cape Fear”.

Gregory Peck em "Cape Fear" de Martin Scorsese.

Mais uma vez a presença de Robert de Niro na obra de Martin Scorsese é fundamental, não conseguimos vislumbrar outro actor para o papel, ele vai buscar toda a sua energia a “Means Street” e a “Taxi Driver”, repare-se nesse momento em que ele faz flexões com o corpo cheio de tatuagens e frases Bíblicas escritas na pele e confronte-se com os preparativos de Travis em “Taxi Driver” antes da matança que o irá tornar num "herói".
Como ninguém Robert de Niro, actor herdeiro do método, aparece aqui em perfeito duelo com a figura interpretada por Nick Nolte, um homem carregando no corpo e na alma o peso da culpa, do adultério e até a (in) justiça, ele é o espelho do ser humano caído no abismo, sem possibilidades de redenção.

Gregory Peck e Robert Mitchum
em "Cape Fear" de J. Lee Thompson, (1962).

“O Cabo do Medo” / "Cape Fear" surge assim como uma daquelas obras de Martin Scorsese em que a violência e o terror nos deixam encostados à parede, com o medo a atravessar-nos o corpo, depois só quando as palavras “The End” surgem no écran é que voltamos a respirar. “Cape Fear” é uma obra extraordinária, realizada por um dos maiores cineastas americanos vivos e interpretada por um grupo de actores acima de qualquer suspeita, recordar este filme é um dever de qualquer cinéfilo.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Jean-Pierre Melville – “O Denunciante” / “Le Doulos”


Jean-Pierre Melville – “O Denunciante” / “Le Doulos”
(França – 1962) – (108 min. - P/B)
Jean-Paul Belmondo, Serge Reggiani, Jean Desailly, Michel Piccoli.

“Le Doulos” é o homem que usa chapéu, mas em calão o seu significado é, simplesmente, “o bufo”. É precisamente disso que trata este policial de Jean-Pierre Melville. Antes de chegarmos até essa personagem interpretada por Jean-Paul Belmondo, um gangster bufo no interior do submundo do crime, convém referir que, tal como sucedia no “film noir” norte-americano, todos os gangsters usam o inevitável chapéu, não como acessório, mas sim como peça fundamental da sua imagem havendo, como em tudo, a excepção que quebra a regra, neste filme ela chama-se Jean (Aimé de March), cujo ar de bom cidadão engana o próximo.


Esta película revela, para quem desconhecia a sua outra Arte, um actor fabuloso chamado Serge Reggiani na figura de Maurice Faugel, o gangster cujo golpe é denunciado. Curiosamente ele um homem da “chanson”, tal como Charles Aznavour que também é um excelente actor, surge aqui a vestir a pele de uma personagem a quem é estendida a teia mortífera pela aranha Silien (Jean-Paul Belmondo) e tudo devido à perda de um ente amigo, ou seja a amizade como sinónimo de lealdade num mundo de gangsters.
Logo no plano de abertura, um longo “take” do cineasta, que nos oferece de imediato o ambiente em que vai decorrer toda a película, a noite. Ela é o local preferido para os personagens do submundo se movimentarem, algo que “Bob le Flambeur” / “Bob o Jogador” já nos tinha ensinado.


Por outro lado, a forma como a acção vai decorrendo oferece-nos um argumento espantoso, baseado no romance de Pierre V. Lesou, que nos deixa perfeitamente agarrados à cadeira. Depois temos a forma brilhante como Jean-Pierre Melville trata o “flashback”, oferecendo-nos a mentira de forma tão real, que quase acreditamos nas falsas verdades narradas por Silien (Jean-Paul Belmondo) a Faugel (Serge Reggiani).
Ao vermos este “polar” somos obrigados a reconhecer em Jean-Pierre Melville o mais americano dos cineastas franceses, que até possui um filme rodado na Big Apple, “Deux Hommes dans Manhattan” / “Dois Homens em Manhattan”, para tal basta olhar a forma como ele monta o filme de forma rápida e concisa, sem um plano a mais ou a menos, excepto na sequência final, em que a vida das personagens é jogada de forma lenta mas precisa, terminando por o desejo de “Le Doulos” ficar ausente para sempre... “esta noite não irei estar contigo”.


Só para terminar, uma última palavra para a excelente direcção de actores. Serge Reggiani é a grande surpresa deste filme, mas nele existem mais e para tal basta comparar a forma como Jean-Paul Belmondo veste a personagem, bem distante da figura de “O Acossado” / “À Bout de Souffle” de Jean-Luc Godard; depois temos sempre a surpreendente interpretação de Jean Desailly na pele do “manhoso” inspector Clain, ele que seria o protagonista de “Angustia” / “La Peau Douce” de François Truffaut. Quanto a Michel Piccoli está como peixe na água e como “não há polar sem bela”, nunca é demais referir a forma sensual como Jean-Pierre Melville filma o corpo feminino. “O Denunciante” / “Le Doulos” foi um dos maiores sucessos de público de Jean-Pierre Melville.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

John Sayles – “Limbo”


John Sayles – “Limbo”
(EUA – 1996) – (126 min. / Cor)
David Strathairn, Mary Elizabeth Mastrantonio, Vanessa Martinez, Kris Kristofferson, Casey Siemaszko.


John Sayles ficou conhecido dos cinéfilos em Portugal, quando todos nós descobrimos essa obra-prima intitulada “Lone Star”, datada de 1996. Basta recordar a forma como ele construiu os “flashbacks” no interior do próprio plano sequência, para termos de imediato vontade de regressar a esse filme. Mas, como também todos sabemos, a sua obra não se reduz a um só filme, mas sim a um olhar sobre a América, essa região que alberga territórios tão diferentes e distantes, tão inóspitos e desconhecidos, como sucede com este Port Henry, situado no Alasca e onde decorre a acção de “Limbo”… que título espantoso!


Desde muito cedo, John Sayles começou a escrever short-stories e novelas, gostando de viver as experiências que narrava nos seus contos. E, como não podia deixar de ser, um dia a sua escrita despertou a curiosidade desse artesão chamado Roger Corman, que o convidou para trabalhar na sua produtora como argumentista, ao mesmo tempo que iria descobrir essa maravilhosa engenharia de fazer filmes com orçamentos minúsculos. E assim John Sayles ganhou o gosto pelo cinema, passando a adaptar ao écran os seus escritos, ao mesmo tempo que se ocupava da montagem, para além da inevitável realização, tornando-se assim um cineasta completo, tão completo que são de sua autoria os vídeo-clips de Bruce Springsteen “Born in the USA”, “I’m on Fire” e “Glory Days”.


 “Limbo” é uma obra que irá mudar de registo, quando menos o espectador espera, deixando-o perfeitamente perplexo pelo rumo dos acontecimentos. Esta película oferece-nos uma viagem pela vida, angústia e desejos de um conjunto de pessoas que, por breves instantes, pensaram encontrar a felicidade, para um dia depois descobrirem que se encontravam no limbo, à espera de regressarem ao Inferno ou Paraíso da Vida.


Port Henry situa-se no sudoeste do Alasca, essa região americana que só foi falada nos nossos écrans de televisão devido a Sarah Palin e à divertida série “O Amor no Alasca” / “Men in Trees”, como muitos devem estar recordados. E como não podia deixar de ser, iremos também descobrir esse bar onde muitos dos homens se reúnem ao fim de um dia de trabalho. Mas este Alasca de John Sayles é duro e isolado, as fábricas de salmão fecham, o desemprego chega, a poluição é enorme e os capitalistas fingem ser ecologistas, para aliciarem o turismo, programando o derrube de árvores ou melhor a desflorestação no interior e não junto à costa, para não darem nas vistas, enquanto planeiam criar um Alascaworld, baseando-se no sucesso da Disney, para desta forma aumentarem as suas fortunas.


Por outro lado temos as pequenas vidas, que se arrastam por esta povoação costeira e vamos lentamente conhecendo os seus habitantes, desde o casal de lésbicas que dominam com mão de ferro os negócios que possuem, passando por essa promessa do basquetebol chamada Joe Gastineau (David Strathaim) que, depois de se ter lesionado no joelho, regressou à sua terra natal para se dedicar à pesca, onde uma nova tragédia o aguardava, até chegar a essa cantora chamada Donna De Angelo (Mary Elizabeth Mastrantonio), que ali descobre o fim da sua carreira, sempre na companhia da filha Noelle (Vanessa Martinez), que odeia os seus namorados.
Iremos conhecer todas estas personagens num casamento: Noelle é empregada de mesa, Donna a cantora que anima o evento, rompendo o romance com o guitarrista do grupo em directo e Joe que organizou o espaço do evento.


“Limbo” irá depois conduzir-nos a um conhecimento mais profundo destas personagens: o naufrágio ingrato de Joe, que originou duas vítimas; a oportunidade de amar que Donna decide dar a si mesma ao conhecer a Joe; o desejo de Noelle de ser escritora e ter um lar.
Mas a chegada do meio-irmão de Joe, o fala-barato Bobby (Casey Siemaszko) irá mudar decididamente o rumo ao filme. Bobby irá pedir a Joe para ele o acompanhar no seu iate, numa pequena viagem para ir buscar um passageiro a uma das ilhas e Joe aproveita para convidar Donna e Noelle para irem com eles, desconhecendo que o negócio do irmão não se tratava de levar a passear turistas, mas sim um encontro com traficantes de droga. Iremos ficar assim surpreendidos pelo rumo dos acontecimentos, quando Bobby é morto, conseguindo Joe, Donna e Noelle refugiarem-se dos traficantes numa ilha deserta, que nos irá conduzir a um outro registo, em que a luta pela sobrevivência passará a ser o tema da película.


Entramos num dos momentos mais poderosos de “Limbo”, com John Sayles a oferecer-nos a vida de três seres humanos, perdidos e desesperados numa ilha, sem terem nada para comer. As possibilidades de serem encontrados são mais que escassas e Joe Gastineau (espantoso David Strathaim) não é homem para iludir ninguém, muito menos aquelas duas mulheres, que ele ama como se fossem a sua família de sempre. A descoberta de uma cabana abandonada, perdida naquela ilha inóspita, irá servir de refúgio, mas o facto de os traficantes saberem que eles se encontram na ilha porque os viram a nadar para lá, torna ainda tudo muito mais complicado. Mas como não há bela sem senão, Noelle irá encontrar um diário escrito pelos anteriores habitantes daquela cabana e começa a lê-lo todas as noites para Joe e Donna, e aqui mais uma vez iremos ser surpreendidos pelo cineasta/argumentista.


Um dia, um pequeno hidroavião aterra junto da ilha com Jack Johansson (Kris Kristofferson) a bordo e encontra aqueles três seres profundamente desesperados a quererem partir do limbo em que se encontram, mas o aparelho tem problemas mecânicos e não os pode transportar, partindo Jack com a promessa de no dia seguinte os irem buscar. Tudo aponta para um final feliz, mas Joe tem as suas dúvidas, porque se por um lado Jack é o irmão do homem que morreu no seu barco de pesca, por outro todos sabem que ele faz tráfego de droga. E por essa mesma razão, a noite que se avizinha não o irá deixar dormir e quando no dia seguinte vemos um avião a surgir nas nuvens, John Sayles reserva-nos uma nova surpresa.

John Sayles

“Limbo” é uma obra bem diferente daquelas que se podem descobrir hoje no cinema, mas bem enquadrada no espírito do cinema de autor de John Sayles, por outro lado possui interpretações memoráveis e cativantes, revelando-nos Mary Elizabeth Mastrantonio como uma excelente cantora. Não está dobrada e a sua voz possui timbres que nos deixam espantados, simplesmente magnífica. Depois temos sempre a forma como o cineasta decide mudar de registo, cativando o espectador de surpresa em surpresa, até ao final do filme. “Limbo” surge assim, nos tempos que correm, como uma verdadeira peça de artesanato que merece ser descoberta e amada, convidando à meditação sobre as pequenas tragédias que habitam as vidas com que nos cruzamos diariamente.