domingo, 31 de dezembro de 2017

Walter Hill – “Estrada de Fogo” / “Street of Fire”


Walter Hill – “Estrada de Fogo” / “Street of Fire”
(EUA - 1984) – (93 min. / Cor)
Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Amy Madigan.


«Queimei tudo!», disse ele, antes de ir para Rockland.”

Diane di Prima


Acendemos um cigarro na noite e uma chama ilumina a brisa que sopra do Norte. O cheiro a gasolina invade-nos as narinas e atravessa as estradas escaldantes do silêncio.
Do outro lado da noite, um jovem vigilante, solitário, caminha pela estrada fora. Leva vestida a camisola trocada em Tânger com o Bill e transporta rolos de telex do Jack na mochila.


Do outro lado da vida, em Richmond, a estrela rock Ellen Aim, celebra a passagem pela sua cidade natal. A luz e o néon libertam o espaço fechado do palco, enquanto a música nasce na voz do anjo negro, vestido de vermelho. Mas o espectáculo não chega ao fim, já que os “Bombers” invadem a sala e raptam a estrela rock. Raven possui agora o seu objecto de amor e retoma à combustão da vida.
Coddy, tal como Ellen, regressa ao ponto de partida para dormir no passado. No entanto é o passado que o conduz a “Battery”, o acampamento inimigo, de Raven e seus discípulos, morcegos de duas rodas, ocultos na luz nocturna.


Um novo sol nasce na escuridão da cidade inimiga, invadida pelas explosões mortíferas de chamas translúcidas de amor e ódio, fruto do encontro de Coddy com Ellen e Raven. As barreiras são levantadas para evitar o regresso de duas forças nascidas no sangue das ruas. Mas o duelo tal como no “western”, entre o bem e o mal, personificação de forças opostas, impossibilitadas de viverem isoladamente, renasce em Richmond como se a cidade estivesse à beira do abismo
Coddy é o herói típico, isolado, reflexo de uma colectividade que se teme a si própria. O seu comportamento é o de um líder solitário interrogado por um amor perdido e reencontrado no asfalto da vida. Já Raven é o chefe de uma tribo, que acredita no seu senhor, indestrutível e poderoso.


O duelo entre o bem e o mal nasceu com a matéria, sendo o resultado do seu confronto desconhecido de todos. Tom Coddy parte e McCoy acompanha-o. Ellen Aim, como todos os anjos perdidos na terra, espera pelo regresso ao território celeste.
Do outro lado da noite, sentado ao luar, nas Montanhas Rochosas olhando o oceano Pacífico, o cineasta Walter Hill escreve uma fábula do “Rock-n-Roll”, sem passado, nem futuro, nascendo assim os cristais de uma Estrada de Fogo.

sábado, 30 de dezembro de 2017

David Lynch – “Inland Empire”


David Lynch – “Inland Empire”
 (EUA/Polónia – 2006) – (172 min. - P/B - Cor)
Laura Dern, Jeremy Irons, Justin Theroux, Harry Dean Stanton, Diane Ladd, Julia Ormond.

“Tudo o que alguém 
alguma vez fez no mundo 
começou com uma ideia”

David Lynch


Será isto um filme ou uma vídeo-instalação?

Cinco anos depois de “Mulholland Drive”, David Lynch surgia no Festival de Veneza com este “objecto artístico” chamado “Inland Empire”. De imediato as opiniões se dividiram sobre o produto nascida da câmara Sony PD150, estávamos perante o digital (que fez as delícias do Artista) embora nada tenha a ver com o digital de Michael Mann em “Miami Vice”, porque o de David Lynch é granuloso, por vezes límpido, por vezes sujo, como se a superfície fosse uma simples tela e o pintor a usasse apenas como suporte.


David Lynch realizou a sua primeira película, “Alphabet”, aos 26 anos e por detrás dela estavam as suas origens, precisamente a pintura. Se por um lado há no Artista a influência de Francis Bacon, na forma como por vezes nos retrata o corpo ou, melhor, partes do corpo, já esses corredores e escadas sem luminosidade, onde habita a escuridão envia-nos para uma certa fase de Edward Hopper (“Stairway” – 1906), aliás não será por acaso que, quando Nikki Grace (Laura Dern) entra na sala de cinema em “Inland Empire”, descobrimos o “NewYork Movie" (1939) de Edward Hopper, pintor anteriormente citado por Wim Wenders em “The End of Violence” / “Crimes Invisíveis”, através da sua obra mais famosa “Nighthawks.


“Inland Empire” surge assim como uma obra síntese de todo o universo do Artista, já que nele reencontramos não só os sons e o ambiente surrealista e claustrofóbico de ”Eraserhead”, da mesma forma que todos os seus filmes anteriores são citados das mais diversa formas, ou não fosse o sonho um dos territórios privilegiados do autor. Quando vimos William Macy, temos a sequência “limpa” e “perfeita” de “Twin Peaks” / ”Laura Palmer”, mais tarde invadida por esse mundo povoado de quartos de luminosidade reduzida com o vermelho escondido no “interior” do candeeiro, depois não temos William Dafoe em “Coração Selvagem” a segurar literalmente as tripas, mas um órgão a sair de um corpo ferido, enquanto registos sonoros próximos de “Blue Velvet” nascem quase sem pontuação, invadidos por esse território de sonoridades próprio de “Eraserhead”, ao mesmo tempo que essas letras douradas de Hollywood surgem na paisagem oriundas de “Mulholland Drive”.


Ora se “Mulholland Drive” nasceu da necessidade de “rentabilizar” o episódio piloto de uma série, recusada pela ABC, fruto de David Lynch e do produtor Alain Sarde, já este “Inland Empire” nasceu de um encontro do Artista com Laura Dern, em pleno passeio junto de sua casa, quando a actriz lhe comunicou que era a sua nova vizinha e que tinha saudades de fazer um filme com ele (ela é co-produtora de Inland Empire). Recorde-se que ela foi protagonista de “Coração Selvagem” / “Wild at Heart” e “Blue Velvet” e este “Inland Empire” começa com uma vizinha a bater à porta da estrela de cinema Nikki Grace (Laura Dern), apresentando-se como a sua nova vizinha e de imediato entramos num dos filmes deste “Inland Empire”, recorde-se que David Lynch filmava as sequências logo após as ter escrito ou imaginado, sem um argumento definido. Mas qual é a história?


Kingsley Stewart (Jeremy Irons) pretende fazer um novo filme, intitulado “On High in Blue Tomorrows” (sempre o azul), e convida Nikki Grace para interpretar a figura de Sue Blue, ao lado de Devon Berke (Justin Terroux), que irá ser Billy Side (reparem nos apelidos). Este filme tem um segredo, já que ele é um “remake” de um filme que não chegou a existir, porque os seus protagonistas foram assassinados, como acaba por confessar o produtor falido Freddie Howard (Harry Dean Stanton), surgindo assim com uma certa aura de maldito (tão cultivada por David Lynch ao longo da sua carreira). Iremos assim ver os preparativos do filme com leituras de diálogos no “set”, onde é introduzida uma personagem que irá assombrar a película e as suas filmagens… e as inevitáveis entrevistas na televisão no “talk show” de Marilyn Levens (Diane Ladd - na vida real mãe de Laura Dern) e aqui temos a mordacidade de David Lynch, ao mesmo tempo que as “sitcom” são “retratadas” através desses três coelhinhos, primos do coelho de Alice, repare-se como escutamos as gargalhadas do público, só que o país deles não é das maravilhas, mas muito mais tenebroso, o dos pesadelos… até surgir esse momento em que Laura Dern encontra essa porta de entrada/saída…


Poderíamos dizer que é tudo uma questão de luz, como refere o realizador Kingsley Stewart, quando pretende que o operador coloque a luz um pouco mais abaixo e uma voz (de David Lynch) vai respondendo… o objectivo central não será encontrado, como neste filme o fulcro da história só será encontrado quando o cineasta grita “corta!” e o filme termina, mas neste filme nada está terminado, porque nele habitam vários filmes, como iremos descobrindo ao longo do tempo. Após ter abandonado o “set”, Nikki Grace entra na sala de cinema e descobre que a sua imagem continua a ser projectada no écran, ela permanece no filme, passando da tela para a caixa que mudou o mundo, num outro lugar olhado por uma outra espectadora que não ela… residindo aqui a questão da identidade, ou seja quantas personagens interpreta Nikki Grace?


Para além de Sue Blue, ela habita o corpo de um outro pesadelo Kafkiano, vindo do além? Ou bem presente nesse passeio da fama de Hollywood, que David Lynch abomina de forma encantada como o “maverick” que pretende ser? Só a morte poderá oferecer um lugar na História, como diria essa estrela de apenas um filme e de uma revista célebre, chamada Dorothy Stratten.


Do outro lado da fama, nessa cidade chamada dos anjos, habitam outros anjos e demónios que fazem da noite o seu território de predadores. No final, o passado funde-se com o presente esquecido do futuro, porque o dia de ontem pode ser o dia de amanhã como diz a vizinha de Nikki no início de “Inland Empire”.
Esta obra de David Lynch deveria ser projectada em sessões contínuas sem interrupção, possibilitando ao espectador a sua entrada e saída da sala, para beber o café orgânico do Artista e fumar o inevitável cigarro, navegando no seu interior como se fosse o fantasma confessor de todas as personagens convocadas para essa Mansão, chamada cinema ou então passar de forma ininterrupta no nosso leitor de dvd qo longo de um fil-de-semana, para irmos vendo de acordo com a disponibilidade de cada um.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Sergio Leone – “Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”


Sergio Leone – “Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”
(EUA - 1984) – (229 min. / Cor)
Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams.

A América esse Paraíso que nos acorda nas noites de sonho para a Estrada 66 e as viagens “cost to cost” do Jack Kerouac, teve sempre um comportamento original em relação ao desenvolvimento do cinema, desde o seu início, criando teorias e mitos que por vezes o nosso olhar Europeu, e muitas vezes antiamericano, não consegue atingir. E a origem de tudo isto, está necessariamente nesses homens, antigos pesquisadores de ouro, com a fortuna coberta de pó, de mãos rudes, que construíram nas feiras pequenos teatros, onde se exibiam filmes para divertimento do público. Estes homens eram verdadeiros "Vendedores de Sonhos" (1) que ofereciam o espectáculo em troca de um nickel, nascendo assim os "Nickleodeons", repletos de multidões que se deslumbravam com as imagens em movimento.


Fascínio de todos os cineastas Europeus, a América e a sua história têm sido retratados no cinema dos mais variados prismas, (2) surgindo finalmente um dos retratos mais belos e cruéis através do olhar de Sergio Leone.
Criador do Western Spaghetti, onde pontificou Clint Eastwood e mais tarde Charles Bronson no admirável "Era Uma Vez no Oeste" / “Once Upon A Time in The West”, com Henry Fonda a personificar um admirável vilão, Sergio Leone foi sem dúvida alguma o mais americano dos cineastas europeus e não é certamente por acaso que assinou inicialmente, como Bob Robertson a película "Por Um Punhado de Dollars" que o tornaria célebre.
"Era Uma Vez no Oeste" é um dos mais belos e melancólicos westerns realizados, com uma banda sonora que nos ficou no ouvido para sempre e depois temos sempre a beleza de Claudia Cardinalle a perturbar o olhar de Charles Bronson, no seu melhor papel e aqui estamos no território da edificação de uma nação, cuja continuação será de certa forma o portentoso "Era Uma Vez na América".


Era uma vez, assim começam todas as histórias que os nossos avós nos contavam. "Era Uma Vez" um filme sobre a América, olhada do outro lado do oceano.
Como todas as histórias, esta é baseada na amizade entre homens, num universo onde as mulheres têm um papel secundário. Sendo um dos segredos da película, as elipses nas passagens do tempo, revelando-se a mais bela, a que nos é oferecida na Central Station: uma elipse de 25 anos!.
Viajando no tempo, vertiginosamente e contando com Robert de Niro e James Woods nos protagonistas, numa história de amizade e traição, Sergio Leone constrói uma das mais belas narrativas que o cinema nos ofereceu. E se Robert de Niro um dos maiores actores de sempre está excelente, já James Woods possui aqui uma das suas mais deslumbrantes interpretações.


Quando escutamos em casa a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone de imediato as imagens do filme surgem na nossa memória, acompanhando a infância, adolescência e amizade de um grupo de amigos que se irá desmoronar, ao mesmo tempo que o corpo da pessoa amada navega sem destino nos braços de quem detém o poder.


Rever "Era uma vez na América" é um dos momentos mais gratificantes da História do Cinema e graças ao DVD podemos também fazer sessão dupla com as duas Américas de Sergio Leone, a do Oeste e a da Cidade, em ambas navega essa velha questão chamada... o poder.

Sergio Leone


(1) - Procurem o fabuloso "O Vendedor de Sonhos" / “Nickleodeon” de Peter Bogdanovich.
(2) - "As Portas do Céu" / "Heavens Gate" do Michael Cimino, que levou à falência a United Artists e que nos ofereceu uma visão da América sem contemplações.
(3) - Se gosta de Sergio Leone não perca o livro editado pelos Cahiers du Cinema, sobre a obra do cineasta.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Stanley Kubrick – “2001 – Odisseia no Espaço” / “2001: A Space Odyssey


Stanley Kubrick – “2001 – Odisseia no Espaço” / “2001: A Space Odyssey”
(EUA/Inglaterra - 1968) – (140 min. / Cor)
Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Daniel Richter.


Passado quase meio-século sobre a estreia de “2001: Odisseia no Espaço”, a película de Stanley Kubrick permanece como o mais maravilhoso e perfeito filme de ficção-cientifíca até hoje realizado.
Rodado no mais profundo segredo com a colaboração de técnicos da Nasa, o cineasta irá oferecer-nos uma história profundamente visual e musical (baseada no livro de Arthur C. Clarke), desde os primórdios do planeta azul como refere no início, ao assistirmos à famosa alvorada, para depois descobrirmos uma tribo de símios que vive na terra. Iremos assim assistir à sua vivência, com o inevitável terror das noites e as lutas pela posse do território. Mas um dia tudo irá mudar quando surge um estranho monólito negro no local onde eles vivem. A curiosidade e o famoso medo apoderam-se deles e, um dia, um dos macacos pega numas ossadas para as usar como arma, para impor o seu poder e lançando depois o seu grito vitorioso atira o osso pelo ar, criando Stanley Kubrick nesse preciso momento, um dos mais famosos “racord” da Sétima Arte, porque com ele fazemos uma viagem de quatro milhões de anos que nos irá conduzir ao ano 2001 e ao interior de uma estação espacial ao som do Danúbio Azul.


A bordo da estação espacial os cientistas preparam, no maior segredo, uma expedição cujo destino será a lua para tentarem descobrir o significado de um monólito negro que se encontra numa cratera, que se pensa estar ali enterrado há milhões de anos, desconhecendo-se a sua origem. Recorde-se que quando o filme foi estreado o homem ainda não tinha pisado o solo lunar, embora estivesse muito próximo esse passo decisivo da humanidade.
Depois de chegados à lua, os astronautas dirigem-se num veículo lunar para a cratera de Tycho, mas quando se aproximam finalmente do estranho monólito, este começa a emitir um som ensurdecedor.


Dezoito meses depois iremos encontrar a nave Discovery a rumar para Júpiter, com dois astronautas e três cientistas a bordo. Nesta missão a viagem é controlada a bordo pelo Hal 9000, o mais perfeito e sofisticado computador alguma vez criado pelo Homem, já que também ele possui sentimentos e fala com os seus companheiros de viagem num tom pausado, que ficou célebre.
Mas durante a missão, Hal 9000 irá dar uma “informação errada” e a única solução é desligá-lo, surgindo assim a célebre luta entre o Homem e a Máquina, pelo comando da nave espacial. A máquina perfeita irá então revoltar-se, matando no espaço o astronauta Frank Poole (Gary Lockwood), porque sabe que a missão dele é desligá-lo, ao mesmo tempo que tenta impedir o regresso de David Bowman (Keir Dullea) a bordo. Estamos perante a luta pela sobrevivência do computador, que irá também desligar os sinais vitais dos cientistas a bordo que se encontram a hibernar para não consumirem oxigénio.
A forma como Stanley Kubrick nos mostra o quotidiano dos tripulantes e nos oferece o silêncio no espaço é de uma beleza absoluta.


Iremos mais tarde saber que só Hal 9000 tinha conhecimento do verdadeiro sentido da missão da nave Discovery: encontrar o monólito que se encontra perto de Júpiter.
Ao aproximar-se do destino, o único astronauta a bordo mergulha numa espiral espaço-tempo, num dos momentos mais visuais do filme (uma longa sequência que foi filmada no Grande Canyon e depois trabalhada pelos técnicos de efeitos visuais), para mais tarde irmos encontrar o astronauta, envelhecido, num quarto e descobrirmos perplexos ao fundo da sua cama, o imponente e misterioso monólito negro que nos irá conduzir para o espaço, em mais um momento assombroso da película, ao encontro de um feto a navegar no cosmos, rumo a esse destino ainda desconhecido pelo Homem.


Aquando da estreia da película e perante os mais diversos juízos e especulações que foram feitas e ainda permanecem sobre o sentido e significado de “2001: A Space Odyssey”, Stanley Kubrick afirmou: “Todos são livres de especular à vontade sobre o significado filosófico e alegórico do filme. Tentei criar uma experiência visual, que contorna o entendimento para penetrar directamente no inconsciente, com o seu conteúdo visual.”.
“2001: Odisseia no Espaço”, a obra-prima mais-que-perfeita de Stanley Kubrick continua a interrogar o sentido da nossa existência.


De onde viemos?

Para onde vamos?

Quem nos criou?

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Paul Thomas Anderson – “Jogos de Prazer” / “Boogie Nights”


Paul Thomas Anderson – “Jogos de Prazer” / “Boogie Nights”
(EUA – 1997) – (155 min. / Cor)
Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, William H. Macy, John C. Reilly, Heather Graham, Nina Hartley, Joanna Gleason.

Serão poucos os que se recordam de “Sydney” / “Hard Eight”, o primeiro filme realizado por Paul Thomas Anderson, estreado em 1996, mas se falarmos de “Jogos de Prazer” / “Boogie Nights”, surgido no ano seguinte, de imediato são inúmeros os que viram esta película, que aborda de forma directa a Industria do Cinema Pornográfico, na América, no final dos anos setenta e inícios de oitenta, do século xx, onde iremos acompanhar a ascensão de um jovem Californiano, Eddie Adams (Mark Wahlberg), no ramo cinematográfico, em virtude de possuir, não um talento enorme, mas sim de ser dono, dos atributos mais que necessários para triunfar no meio.


Paul Thomas Anderson realiza assim uma película cheia de coragem retratando esta indústria, que continua a facturar milhões de dollars por ano, em todos os seus aspectos, desde os financiadores, aos produtores, passando pelas estrelas. Por outro lado iremos descobrir Burt Reynolds a interpretar a figura de Jack Homer, que nos oferece a melhor interpretação de sempre da sua carreira, numa espécie de mentor, desse grupo que nos é dado a conhecer por Paul Thomas Anderson.


Ao seguirmos a carreira de Eddie Adams(Mark Wahlberg) cujo nome será mudado para Dirk Diggler, iremos perceber como são frágeis as vidas de todos os que por ali andam, convidados a caírem perdidamente, na tentação da droga, que irá arruinar a carreira do protagonista, assim como os dilemas das suas vidas, ao seguirmos o drama da estrela porno Amber Waves (Julianne Moore) na luta em tribunal pela custódia da filha.


O olhar de Paul Thomas Anderson, límpido, mas sem contemplações, veja-se logo no início da película a jovem que é vítima de “overdose”, oferece-nos sem rodeios a vida de alguns dos membros desta Industria, que atingiu o ponto alto da popularidade, entre a classe média, em meados dos anos setenta, do século xx, ao surgirem filmes como “Garganta Funda” / “Depp Throat”, “Por Detrás da Porta Verde” / “Behind The Green Door” e “O Diabo em Miss Jones” / “The Devil in Miss Jones”, nos cinemas, mas que rapidamente iria sofrer uma transformação, com a chegada do vídeo, ao mesmo tempo que desaparecia da maioria das salas de cinema e a classe média, terminava por desistir dela, após usufruir da novidade, preferindo a privacidade do lar para o seu visionamento, através do dvd e dos canais por cabo.

Paul Thomas Anderson
durante a rodagem de "Boogie Nights".

Paul Thomas Anderson realiza uma película que nos convida a acompanhar as vidas das suas personagens, sem qualquer pudor, mas evitando fazer qualquer juízo de intenções, preferindo contar-nos a história desta Indústria através da ascensão e queda dessa estrela conhecida no meio por Dirk Diggler, uma interpretação memorável de Mark Wahlberg ao lado dessa actriz fabulosa chamada Julianne Moore.
“Boogie Nights” / “Jogos de Prazer” de Paul Thomas Anderson oferece-nos um retrato da Indústria Porno, verdadeiramente surpreendente.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Robert Harmon – “Terror na Auto-Estrada” / “The Hitcher”


Robert Harmon – “Terror na Auto-Estrada” / “The Hitcher”
(EUA - 1986) - (97 min. / Cor)
Rutger Hauer, C. Thomas Howell, Jennifer Jason-Leigh.



Quando Steven Spielberg realizou "Duel"/"Um Assassino Pelas Costas", desconhecia-se que tinha nascido o "wonder-boy" do cinema americano. E falamos em Spielberg porque Robert Harmon, cineasta oriundo e “residente na TV”, construiu com "Terror na Auto-Estrada" / “The Hitcher” um dos mais conhecidos “cult-movies” das últimas décadas, onde a emoção se encontra na passagem de cada fotograma.


Os Estúdios que nunca deixam passar nada ao lado, no que toca a receitas/audiências criou o “remake”, mas a falta de Rutger Hauer (o assassino) e do próprio Robert Harmon, demonstraram bem que são eles os detentores do sucesso da película. Aliás, em 2003, Jorg Bauer juntou intérpretes e cineasta, realizando o excelente documentário "The Hitcher – How Do These Movies Get Made".


Jim Halsey (Thomas Howel) quando parou a sua viatura e ofereceu boleia a John Rider (Rutger Hauer) desconhecia que tinha acabado de entrar no maior pesadelo da sua ainda curta vida, nascendo um duelo mortífero com um homem, cuja identidade e razão de existência se tornam isentos de dados, que originem a criação do perfil psicológico do assassino.
John Rider vive em busca do herói que lhe faça frente e o entregue definitivamente ao sossego eterno. Na sua viagem pelo território mortífero de deserto texano, Jim Halsey (Thomas Howel) encontra Nash (Jennifer Jason Leigh) que o irá ajudar, pagando com a própria vida o seu auxílio.
Filme de emoções fortes, "Terror na Auto-Estrada" / “The Hitcher” possui cenas inesquecíveis para o imaginário cinéfilo, de tal forma que alguns ainda se recordam do filme quamdo entram numa casa de hamburguers.



O “cult-movie” de Robert Harmon foi a grande oportunidade de Thomas Howell se afirmar como actor da primeira divisão, mas este "marginal" de Francis Ford Coppola acabou por deixar fugir a oportunidade, apesar de muitos anos depois participar no “remake”, sem espessura, que foi realizado. Já Rutger Hauer revela aqui, mais uma vez, todo o seu valor, como o grande actor que sempre se revelou. E não falamos só dos seus filmes de acção, mas também dessa pérola desconhecida intitulada "A Lenda do Santo Bebedor" ou o esquecido “Mulher Entre cão e Lobo” de André Delvaux.
Quanto a Jennifer Jason Leigh, na época em que foi rodada a película a viver com o Rutger Hauer, dá boa conta do recado, embora ainda longe das personagens psicóticas com que deu nas vistas.

Robert Harmon e Rutger Hauer
durante a rodagem do filme.

Robert Harmon desde 2005 que se "retirou-se", para o pequeno écran, mas deixou-nos este fantástico “cult-movie”, para além de outras películas, para nunca nos esquecermos como no cinema se pode criar emoção e suspense, agarrando o espectador à cadeira e sem necessitar de usar os efeitos especiais e a uma banda sonora repleta de sonoridades explosivas como personagem.

domingo, 24 de dezembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Carlos Saldanha – “A Idade do Gelo 2: Descongelados” / “Ice Age 2: The Meltdown”


Carlos Saldanha – “A Idade do Gelo 2: Descongelados” / “Ice Age 2: The Meltdown”
 (EUA – 2006) – (91 min. / Cor)


A dupla Chris Wedge e Carlos Saldanha começou a dar nas vistas no universo da animação quando, em 1998, assinaram a curta-metragem “Bunny”, uma espantosa animação para adultos, com música de Tom Waits, que deixa o mais comum mortal apaixonado por aquela história de amor, tendo o filme obtido o Óscar da categoria (Melhor Curta-Metragem de Animação) em 1999, para além de diversos prémios em Festivais. E aproveitamos para informar, que esta obra-prima foi incluída, como extra, no dvd “A Idade do Gelo”, editado no nosso país.


E seria precisamente com “A Idade do Gelo” / “Ice Age”, que esta dupla formada por um americano e um brasileiro saltariam decididamente para a ribalta, quando a Twenty Century Fox Animation decidiu oferecer-lhes todos os meios necessários para a feitura do tão desejado filme. Como todos sabemos as aventuras de Manny (o Mamute), Sid (o Preguiça) e Diego (o Tigre) foram um sucesso de bilheteira, mas o que também ficou de imediato na memória de pequenos e graúdos foi essa luta infinita de Scrat com a bolota. E o sucesso deste roedor foi tão grande que, no segundo filme da série, ele possui muito mais “tempo de antena”, ou seja aparece perfeitamente integrado no filme, chegando a esse momento mais desejado, em que no Paraíso descobre a eterna felicidade. Mas, como não podia deixar de ser, Sid irá estragar-lhe os planos.


Após o estrondoso êxito de “A Idade do Gelo”, a dupla Chris Wedge e Carlos Saldanha partiram para uma outra aventura e criaram “Robots”, mas o sucesso a que aspiravam não se concretizou. E como em equipa vencedora não se toca, Saldanha e Wedge atiraram-se à feitura de uma sequela de “A Idade do Gelo”, convocando os nossos bem conhecidos protagonistas do mundo animal, deixando de lado os humanos. Iremos assim descobrir como era a felicidade no reino animal antes desse degelo que iria aumentar o tamanho dos oceanos e invadir a terra. Estamos assim perante esse acontecimento que se traduziu nas mudanças climáticas, devido ao aquecimento global e que levaram à extinção de inúmeras espécies, como todos sabemos.


O nosso conhecido trio, ao ver que o seu vale vai ser invadido pelas águas, decide pôr-se a caminho de um lugar seguro, acompanhando a viagem de todos aqueles que habitavam o vale. Mas, como não podia deixar de ser, ao longo dessa viagem o irrequieto Sid (voz fabulosa de John Leguizamo) irá fazer das suas, ao mesmo tempo que iremos descobrir que o heróico Diego (voz de Denis Leary), tem medo da água porque não sabe nadar. Já o nosso bom amigo Manny (voz de Ray Romano), que pensa ser o último mamute ao cimo da terra, irá descobrir que afinal não está só, quando encontra Ellie (voz de Queen Latifah), mas o problema é que ela não se reconhece com um mamute.


Mais uma vez o sucesso deste segundo capítulo de “A Idade do Gelo: Descongelados” não se fez esperar e Carlos Saldanha e Chris Wedge, em vez de partirem para um novo projecto, decidiram continuar a contar-nos as aventuras de Manny, Sid e Diego, que como todos sabemos é um falso trio, porque só com Scrat (voz de Chris Wedge sempre delirante), poderemos descobrir um dos mais famosos quartetos do universo animado.


“A Idade do Gelo: Descongelados” conseguiu, mais uma vez, levar-nos de regresso até esse mundo mágico chamado infância.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Boas Festas de "Memórias e Imagens"!


Oriundo de um do mais fascinantes blogues dedicados à Arte, recebemos este belo postal de Natal enviado pela M. E. do blogue "Memórias e Imagens". Aqui deixamos os nossos sinceros agradecimento e desejamos-lhe um maravilhoso Natal para si e todos os que a rodeiam nesta época Festiva.

Paula e Rui Lima

Brad Bird / Jan Penkava – “Ratatui” / “Ratatouille”


Brad Bird / Jan Penkava – “Ratatui” / “Ratatouille”
(EUA – 2007) – (111 min. / Cor)

“Ratatouille” é a oitava longa-metragem da Pixar, produtora criada por John Lesseter, que se associou ao gigante Disney e depois de se ter dado muito bem com a parceria, terminou por partir com a Pixar para o Universo Disney. E tudo graças a esse génio chamado John Lesseter que, em 1995, surpreendeu o mundo com o seu “Toy Story” e que desde então, nunca mais parou. Basta recordar as obras que têm saído desta verdadeira fábrica de magia para ficar tudo dito: “Toy Story”, “Vida de Insecto” / “A Bug’s Life”, “Toy Story 2”, “Monstros” / “Monsters Inc.”, “À Procura de Nemo” / “Finding Nemo”, “The Incredibles – Os Super Heróis”, “Carros” / “Cars”, “Ratatui” / “Ratatouille”, “Wall-E” e “À Procura de Dory” / “Finding Dory”.



John Lesseter, ao longo dos anos, tem sido o grande dinamizador da companhia, mas para o seu enorme sucesso contribuiu também o seu encontro com Brad Bird, esse menino-prodígio que, aos 13 anos de idade, terminou o seu primeiro filme de animação, o qual depois de ter sido visto por alguns, despertou os apetites dos Estúdios Disney.
Brad Bird trabalhou na famosa série “Os Simpsons” / “The Simpsons”, antes de realizar a longa-metragem “The Iron Giant” em 1999. Mas seria com “The Incredibles” / “Os Super-Heróis” (2004), que irá conhecer a fama. Seguindo-se três anos depois este maravilhoso filme intitulado “Ratatouille”.


Mais uma vez temos na história do cinema de animação um rato como personagem principal, sendo o mais famoso de todos, como todos sabemos, o conhecido Rato Mickey (Mickey Mouse), que um dia Walt Disney criou, depois de ter reparado no rato que andava pelo local onde fazia os seus desenhos. Já os leitores da minha geração certamente se recordam do “Super-Rato”, que nos animava as tardes de televisão, aos fins-de-semana, nessa época em que o preto e branco era a única “cor” disponível. E sempre que íamos ao cinema em crianças, lá estavam os nossos amigos "Tom e Jerry", criados por essa dupla fabulosa constituída por Joseph Barbera e William Hanna. Depois tivemos o espantoso Fievel de “The American Tail” / “Fievel – Um Conto Americano”,ficando na nossa memória, aquele “Somewhere”, tão delicioso no final da película. Até que chegamos a este candidato a Super-Chefe da Cozinha chamado Remy.


Remy não é um rato qualquer, que come tudo o que encontra, ele é alguém que adora juntar dois sabores na boca e descobrir um novo paladar. Ele recusa-se a comer os restos que andam pelo campo, como faz a sua família e em especial o seu irmão. Mas no dia em que descobriu uma casa onde podia inventar novas receitas, com produtos de qualidade, percebeu que estava fadado para ser um verdadeiro Maitre. E será nessa mesma casa que a sua vida irá mudar para sempre, ao ler o livro de receitas do famoso August Gusteau, que lhe irá abrir para sempre, as portas da alta cozinha. Porém tudo se complica ao ser descoberto pela dona da casa, sendo obrigado a fugir juntamente com a sua enorme família. Porém tudo corre mal e no meio da confusão é levado pelas águas do Sena, através dos famosos canais subterrâneos que banham a cidade das luzes.


Quando menos espera descobre que está em Paris e rapidamente descobre o restaurante do falecido August Gusteau, o seu idolatrado Mestre. Decididamente tinha encontrado a sua casa. E será ali, que se irá cruzar-se com o jovem Linguini, o filho incógnito de August Gusteau. Mas o rapaz nada sabe de cozinha e será Remy que, escondido no seu cabelo, lhe irá dar as indicações para a feitura das suas famosas criações. No entanto esta dupla irá ter de se confrontar com o poderoso Chefe Skinner, que só se interessa por novas criações de "fast-food", sempre com o fito do dinheiro. E como um mal nunca vem só, as criações de Remy, despertam a curiosidade do temível e poderoso crítico gastronómico Anton Ego, uma personagem com a voz de Peter O’Toole, que deixa o espectador fascinado. Esta dupla irá ter assim dois adversários para derrotar, embora na sua batalha conquiste uma aliada em Colette, a jovem que não percebe a razão dos melhores Chefes de Cozinha serem todos homens, quando são as mulheres que passam lá a vida.


“Ratatouille” é uma película para crianças e adultos, como já é hábito dos Estúdios Pixar, e desta feita poderemos dizer que estamos perante uma obra-prima do género. Brad Bird, Jan Pinkava e os seus colaboradores criaram um conjunto de personagens verdadeiramente fascinantes.
Se for a Paris, não se esqueça de provar esse famoso prato tradicional chamado “Ratatouille”, feito exclusivamente à base legumes, esse mesmo prato que levou o mais que famoso crítico gastronómico Anton Ego a recordar os seus tempos de infância.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

As Boas Festas da Literatura!


A Literatura e os livros fazem parte do nosso quotidiano e no Natal eles ainda estão mais presentes e assim foi com grande satisfação que recebemos este belo Postal de Natal, bem original, enviado pelo R.A.A., do blogue "Abencerragem", evocando um dos escritores mais queridos aqui de casa, desde esse dia em que ainda adolescentes lemos "A Missão". Aqui fica o nosso sincero agradecimento e o desejo de um excelente Natal, para si e restante família, rodeados de livros.

Paula e Rui Lima