sábado, 23 de setembro de 2017

Filme do dia: AXN Black – “Estado de Sítio” / “The Siege” – Edward Zwick


“Estado de Sítio” / “The Siege”
Denzel Washington, Annette Bening, Bruce Willis.
(EUA – 1998) – (112 min./Cor)
Edward Zwick
AXN Black – 23h34

Pode ver aqui o trailer do filme.

Edward Zwick é um cineasta oriundo da televisão, tendo-se estreado nas séries em 1976, mas foi com a série “Thirty Something” / “Os Trintões”, que passou na nossa televisão com enorme sucesso, que deu nas vistas e após a feitura desse portentoso filme sobre a guerra civil norte-americana, intitulado “Tempo de Glória” / “Glory” (1989), todos terminámos por lhe fixar o nome.

Ao realizar em 1998 “Estado de Sítio” / “The Siege”, o cineasta nunca pensou que, quase vinte anos depois, a película pudesse estar a acompanhar a actualidade destes tempos difíceis que vivemos infelizmente, em algumas cidades da Europa, onde os atentados se repetem, perpetrados por organizações terroristas ou lobos solitários, fazendo inúmeras vítimas inocentes.

Tudo começa com um autocarro armadilhado a explodir em Brooklyn, que quase mata o agente do FBI Anthony Hubbard (Denzel Washington), depois é a investigação e a descoberta que outra Agência está a lidar com o “problema” de outra forma, quando Hub conhece a agente Elise Kraft, que até “dorme com o inimigo” e depois temos o General William Devereaux (Bruce Willis), que tem a “solução” para resolver o problema, só necessita do aval da Presidência.

Por tudo isto será interessante revermos esta película, que conta com excelentes interpretações no trio de protagonistas constituído por Denzel Washington, Annette Bening e Bruce Willis, sobre este mundo em que vivemos.

A Memória da Rádio – “Encontro Para Dois”


Quando passava as manhãs a ouvir rádio (as aulas eram de tarde), no início da década de setenta do século xx, um dos programas que escutava era o excelente e divertido programa da Rádio Renascença “Enquanto For Bom Dia” do Pedro Castelo e da Dora Maria, mas dele falarei depois porque, quando o meio-dia chegava, iniciava-se o “Encontro Para Dois”, um programa das Produções Sérgio, com o António Sérgio a oferecer um disco a quem acertasse numa determinada música que iria passar, só se tinha depois que ligar, mas o problema é que estava sempre impedido, eram muitos à procura da oferta e só dois seriam os contemplados.

A música era variada mas excelente e depois consegui a tão desejada ligação e acertei no disco, que era o David Bowie e “Life on Mars?”, que permanece o meu tema favorito de David Bowie, andei para aqui a fazer umas contas com as memórias e datas de lançamento de dois discos, relacionados com o meu “encontro”, proporcionado por este programa de rádio, com uma jovem do Alentejo, ela até me escreveu uma carta e enviou foto, tinha 17 anos e eu andava pelos 11 e o encontro ficou por essa breve correspondência, depois fui levantar o disco a que tinha direito à loja do Arnaldo Trindade, na Rua do Carmo e recebi o single “Orange” dos Pop Five Music Inc., que tinha sido lançado, a montra era bem original com um cesto com laranjas e diversas cópias do single em destaque (pode escutar aqui este grupo rock português, no tema “Orange”).

Quando me falam nas grandes vozes da rádio, é inevitável referir o nome incontornável de António Sérgio, que infelizmente já nos deixou, pelos programas que fez ao longo da vida, formando inúmeras gerações através do seu excelente gosto musical. Optei por escolher este “Encontro Para Dois”, de todos os programas de rádio que ele realizou, porque está repleto de gratas memórias.

Podem escutar aqui o tema “Life on Mars” do David Bowie!

Bob Clark – “O Rebelde Misterioso” / “Turk 182”


Bob Clark – “O Rebelde Misterioso” / “Turk 182”
(EUA - 1985) – (102 min. / Cor)
Timothy Hutton, Kim Cattrall, Paul Sorvino, Peter Boyle.


Quem se lembra do Timothy Hutton? Ontem estivemos a recordar o filme "Turk 182" / “O Rebelde Misterioso” de Bob Clark, cineasta que nos deixou em 2007, e decidimos deixar aqui uma pequena nota deste nosso amigo de Malibu, não sabemos se conhecem o seu restaurante do outro lado do continente, o "P.J.Clarke's" em Nova Iorque (temos sempre este problema com a escrita de New York...ufa!), mas o que nos interessa aqui é o homem, que ainda adolescente ou quase adulto arrecadou um Oscar para o melhor actor secundário no primeiro filme do Robert Redford... “Ordinary People", que aqui no burgo se chamou "Gente Vulgar"... depois ele viu a sua carreira cinematográfica e a sua vida amorosa disparar no bom caminho...casou-se com a Debra Winger, mas com o passar do tempo perdeu-se no firmamento estrelar..


Todos nos lembramos dele em "French Kiss" / "O Beijo", ao lado da Meg Ryan e do Kevin Kline, por terras de França, e não nos esqueçamos que ele se divorciou da Debra para se casar com a Aurore, sobrinha do Giscard d'Estaing, mas isto já é falar demasiado da vida privada, se não tenho cuidado ainda me puxam as orelhas; outros movies que lhe deram fama foram o "Taps" / "Clarim da Revolta" do Harold Becker, "O Jogo do Falcão" / “The Falcon and the Snowman”, com aquela música maravilhosa do Pat Metheney e o David Bowie a cantar o tema principal para além dos filmes que regularmente faz com o Sidney Lumet e depois no pequeno écran ele foi o Archie Goodwin, o célebre adjunto de Nero Wolfe, assim como era o Nathan Ford de “Jogo de Audazes”, mas já é tempo de falar de "O Rebelde Misterioso".


Quando reparamos que o realizador de "Turk 182" / “O Rebelde Misterioso” é Bob Clark ficamos de pé atrás, porque ele realizou aquela "coisa" chamada "Porkys", onde muitos anos depois os "American Pie" foram buscar "inspiração", mas "O Rebelde Misterioso" é uma película destinada aos jovens, na época em que foi realizada, com uma grande dose de humor e um sentido crítico, no domínio social, humano e político, bastante profundo.
"Turk 182" (o “nick name” de Timothy Hutton) vai espalhar o caos na Big Apple, ou seja New York, a razão é simplesmente o conflito que o opõe ao Mayor da cidade. No meio de tudo isto há uma futura assistente social, Kim Cattrall ("O Sexo e a Cidade") e um polícia fabuloso, o calvo Peter Boyle no seu melhor.
Jimmy Lynch (Timothy Hutton) termina por conseguir o seu objectivo chamando a atenção da população da Big Apple, para a política levada a efeito pelo Mayor Tyler. Ele vai estar presente em todos os locais, sabotando, divertidamente, a campanha eleitoral de Tyler, permanecendo a sua identidade desconhecida.


"O Rebelde Misterioso" / “Turk 182” é a prova cabal de como é fácil reunir num filme para adolescentes, os ingredientes necessários a um olhar sobre o mundo que nos rodeia, sem cair na idiotice pura e simples, em que na maioria das vezes o mau gosto impera, como sucede demasiadas vezes nas actuais produções destinadas ao público mais jovem, sendo bastante curioso o facto de ter sido "Bob Clark" o autor da proeza. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A chegada do Outono: David Darling - "Cello Blue - Morning"

David Darling - álbum "Cello Blue"
Tema: "Morning"
Etiqueta: Hearts of Space - (2001)

Filme do dia: RTP-2 – “Paris, Texas” – Wim Wenders


“Paris, Texas”
Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Dean Stockwell, Aurore Clément, Hunter Carson.
(França/Alemanha/Inglaterra – 1984) – (147 min./Cor)
Wim Wenders
RTP-2 – 22h55

Pode ver aqui o trailer do filme.

Pode ler aqui o que escrevemos sobre o filme.

A exibição oportuna desta película de Wim Wenders, no pequeno écran, surge como uma bela homenagem ao actor Harry Dean Stanton e ao escritor Sam Shepard, responsável pelo argumento do filme, recentemente desaparecidos.

A Memória da Rádio – “Clube à Gô-Gô”


Quando o Rádio Clube Português se tornou a Radio Comercial, um dos programas mais aliciantes do horário nocturno do famoso FM (Frequência Modulada), que escutava com enorme prazer, era o “Clube à Gô-Gô”, emitido entre as 22h00 e as 24h00, onde todos os géneros musicais conviviam na mais ampla liberdade, sem choques ou intempéries.
Fernando Quinas e João David Nunes são duas das vozes que me recordo de ouvir neste espaço radiofónico, mas certamente haveria outras. O que se passava nesta emissão era o bom gosto e a criatividade musical na condução de uma emissão de rádio e recordo que o indicativo era o tema “Kometenmelodie 2” dos Kraftwerk, pertencente ao álbum “Autobhan”.

Por aqui tínhamos rock, mas também Nat King Cole, a folk e a country, mas também Tony Bennett, o jazz, mas também Edgar Froese e Wim Mertens.
Guardo especialmente na memória o dia em que escutei pela primeira vez o tema “Aqua” de Edgar Froese, líder dos Tangerine Dream, a solo, tendo ficado profundamente fascinado com o que escutava, mais tarde iria comprar o disco, que ainda se escuta aqui em casa. Outro momento importante na formação do meu gosto musical deu-se quando neste programa descobri o músico e compositor belga Wim Mertens.
Tudo se passava na mais perfeita harmonia e nunca sabíamos o que iríamos encontrar em cada emissão do “Clube à Gô-Gô”, simplesmente uma inevitável agradável surpresa musical. Estas são as minhas pequenas memórias da rádio que decidi partilhar.

Poderão escutar aqui o indicativo do programa  “Clube à Gô-Gô”, o tema “Kometenmelodie 2”, retirado do álbum “Autobahn” dos Kraftwerk.

Jérome Salle – “Anthony Zimmer”


Jérome Salle – “Anthony Zimmer”
(França - 2005) - (90 min. / Cor)
Yvan Attal, Sophie Marceau, Sami Frey.

Anthony Zimmer faz branqueamento de dinheiro na alta-roda e decide alargar a sua zona de acção, colaborando com a Máfia Russa. Mas isso será fatal porque acaba por saber demais, sendo condenado por estes. Opta então por fazer uma operação plástica complexa, para alterar profundamente o rosto. A polícia francesa persegue o célebre Anthony Zimmer já lá vão longos anos, assim como outras forças policiais.


São as célebres operações de branqueamento de dinheiro a partir das famosas “offshore”, um processo simples, como nos relata na película um dos coordenadores da operação “Anthony Zimmer”: uma companhia sedeada num paraíso fiscal, envia determinada mercadoria para um cliente em França, a companhia francesa diz que não recebeu a mercadoria, o caso vai a tribunal e evidentemente a companhia francesa ganha o processo, recebendo a respectiva indemnização, está branqueado o “Money”!


O inspector que coordena toda a operação sabe que Anthony Zimmer possui um ponto fraco, ou seja, “como sempre”, a mulher amada, atacando também por essa vertente, no meio de tudo isto há sempre o inocente ou de “Wrong Man” (não o Henry Fonda de “Falso Culpado”, mas o Cary Grant de “Intriga Internacional”). Estamos a falar de Alfred Hitchcock, porque este magnífico policial francês, realizado por Jérome Salle, é uma pura homenagem ao Mestre do Suspense, numa verdadeira partida de poker a dois com Brian de Palma!!!


Películas como “Intriga Internacional” e “Ladrão de Casaca”, têm citações tão explícitas, que vão desde a casa refúgio de Anthony Zimmer, idêntica em termos arquitectónicos à de James Mason, embora a contemporaneidade esteja presente, até ao célebre Hotel Carlton onde se hospedava Grace Kelly, aliás há um encontro na praia dentro de água, usando uma plataforma flutuante idêntica à que vimos em “To Catch a Thief”, já para não falar no guarda-roupa de Sophie Marceau que, forçosamente, recorda pelo extremo bom gosto o de Grace Kelly, para além das panorâmicas da cidade e arredores idênticos aos que foram utilizados pela segunda equipa de Hitchcock, depois ainda temos a música muito Bernard Herrman para não falar que, ao se entrar num comboio, temos sempre presente “O Desconhecido do Norte-Expresso”!!!


Como se pode verificar até ao momento, neste artigo muito pouco sabemos acerca de “Anthony Zimmer”, quais os dados em nosso poder?
Assim continuaremos porque ele é o verdadeiro MacGuffin!!!! (Sabem o que é???) O Mestre Hitch explicou isso a François Truffaut no célebre livro/entrevista “Hitchcock por Truffaut”.


Quanto ao género policial francês, ele está de volta e de boa saúde. Poderemos afirmar que Jean-Pierre Melville já possui os seus herdeiros e ali está, saindo da penumbra, um rosto/corpo indefinido de chapéu na cabeça e cigarro aceso, chamado Alain Delon!


Yvan Attal, Sophie Marceau e Sami Frei são o verdadeiro trio Hitchcockiano porque, como todos sabemos, o Mestre era mesmo um bocadinho perverso, que o diga a Tippi Hedren, durante as filmagens de “Os Pássaros”…

Mas quem é Anthony Zimmer????

Nota: Alguns anos depois foi feito pelo cineasta alemão Florian Henckel von Donnersmarck o "remake" deste filme, com o título "O Turista" / "The Tourist" com Johnny Depp e Angelina Jolie nos protagonistas, mas após o vermos, continuamos a preferir este original francês de Jérome Salle!

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sylvain Chomet – “O Mágico” / “L’Illusionniste”


Sylvain Chomet – “O Mágico” / “L’Illusionniste”
(França/Inglaterra – 2010) – (79 min. / Cor)

Sylvain Chomet que já tinha surpreendido meio-mundo com o seu “Belleville Rendez-vous” e que mais tarde irá assinar o segmento de animação, incluído no filme colectivo “Paris Je T’aime”, volta a surpreender o universo cinematográfico com “O Mágico” / “L’Illusionniste”, partindo de um argumento escrito pelo célebre cineasta francês Jacques Tati em 1956, que acabaria por nunca realizar a película.


Em “O Mágico” reconhecemos na principal personagem a figura bem conhecida de Jacques Tati, na pele de um ilusionista ou Mágico se preferirem, que em finais dos anos cinquenta vê a sua profissão em risco, nas grandes Salas de Variedades de França e após uma actuação num casamento, em que poucos lhe dão atenção, será convidado por um dos convidados, um escocês ébrio, para mostrar os seus truques de magia, na ilha que este habita na Escócia.


Decidido a dar um novo folgo à sua vida, o impassível Mágico Tatischeff decide partir com os seus truques de magia, acompanhado pelo seu fiel coelho, que ele faz sair da cartola nos palcos e quando chega ao seu destino, irá encontrar na jovem e pobre Alice, que trabalha na pensão onde ele irá residir, temporariamente, uma fan que fica fascinada com a sua magia e quando ele lhe oferece uns sapatos novos para ela substituir os velhos sapatos, sujos e rotos, ela fica maravilhada com ele e decide segui-lo quando este parte para Edimburgo.


Como não podia deixar de ser os espectáculos de Tatischeff já não atraem o público, que prefere escutar os grupos de rock, que começam a surgir na época, mas ele continua a levar a sua bela Arte aos palcos, ao mesmo tempo que tenta encontrar um segundo emprego, que lhe permita continuar a fascinar a jovem Alice, que se sente a viver num verdadeiro país das maravilhas. Assim ele oferece-lhe aquele vestido belo, que ela viu na montra de uma loja, mantendo-a fascinada com a sua arte de magia. Mas os tempos são cada vez mais difíceis para Tatischeff, até que chega esse momento em que ele parte e lhe deixa uma carta revelando-lhe que a magia não existe.


“O Mágico” / “L’Illusionniste” de Sylvain Chomet revela-se como uma verdadeira obra-prima do cinema de animação contemporâneo, demonstrando a sua infinita genialidade perante muitos desses produtos, de baixa qualidade, saídos das três dimensões e dos computadores, que têm invadido as salas de cinema.
Um dos momentos mais fascinantes da película é quando o mágico Tatischeff entra numa sala de cinema e encontra no écran o seu duplo, Jacques Tati, na película “O Meu Tio” / “Mon Oncle”, revelando-se um dos momentos mais belos da película.
“O Mágico” / “L’Illusionniste” é uma obra-prima do cinema de animação, que todos os adultos devem ver na companhia das crianças, para elas voltarem a acreditar na magia da animação a duas dimensões e descobrirem a genialidade desse outro mágico chamado Sylvain Chomet.

A Memória da Rádio – “5 Minutos de Jazz”


Foi com o programa de rádio ,“5 Minutos de Jazz” de José Duarte, que comecei a escutar jazz, durante cinco minutos, mas que me ofereceu nomes e títulos que mais tarde iria procurar. Tínhamos dobrado a década de 60 e mal sabia eu que os anos 70 se iriam revelar uma época inesquecível e um rádio com gira-discos e a célebre FM (Frequência Modulada) deu entrada lá em casa. De imediato passei as noites a escutar essa maravilhosa máquina que me oferecia música de forma infinita e rapidamente me esqueci dessa Onda Média que debitava o meu pequeno transístor de bolso.

Era na Rádio Renascença/FM, no programa “23ªHora”, que se encontrava na época ancorado os “5 Minutos de Jazz” e seria quase sempre quando se atingia metade da emissão, conduzida pelo José Corte-Real, que surgia o saxofone de Lou Donaldson a tocar o tema “Lou’s Blues” a abrir o programa, que ainda tinha espaço para uma publicidade à cerveja Cuca, se a memória não me trai, e depois surgia a voz convidativa de José Duarte, “um, dois, três, quatro… cinco minutos de jazz”, que rapidamente nos preparava em breves palavras, mas repletas de significado e informação, para o tema que iríamos escutar.

Durante anos escutei este programa na Rádio Renascença, quando ele se encontrava na boa companhia da “23ª Hora”.
Obrigado José Duarte pelo gosto que me transmitiste na descoberta dessa música sem fronteiras onde os homens são todos iguais, conhecida por Jazz!

Podem escutar aqui o indicativo do programa "5 Minutos de Jazz".

Nota: O álbum “My Favorite Things” de John Coltrane foi um dos trabalhos discográficos descoberto por mim no programa de Rádio, “5 Minutos de Jazz”, de José Duarte. Assim regressa hoje aos “Manuscritos da Galaxia”, as crónicas de “A Memória da Rádio”, que se tinham iniciado anteriormente com o programa “Dois Pontos” de Jaime Fernandes e João David Nunes.

Arthur Penn – “Perseguição Impiedosa” / “The Chase”


Arthur Penn – “Perseguição Impiedosa” / “The Chase”
(EUA – 1965) – (133 min. / Cor)
Marlon Brando, Robert Redford, Jane Fonda, James Fox, Angie Dickinson, E. G. Marshall, Robert Duval.

Arthur Penn é um cineasta que neste novo século se encontra um pouco esquecido, mas se falarmos que ele é o autor (porque se trata de um verdadeiro autor) de “Bonnie and Clyde”, esse casal de gangsters que fez história, de imediato todos se recordam dele.
Como muitos, iniciou a sua actividade no Teatro, passando depois para a Televisão (NBC), onde na prática fez os seus estudos, tendo tido o seu baptismo de fogo em “Vicio de Matar” / “The Left-Handed Gun” e de imediato ficou associado a uma certa violência no cinema, embora distante daquela que nos iria oferecer Sam Peckinpah, um outro cineasta célebre e pertencente à mesma geração, também ele, infelizmente, um pouco esquecido..


Se olharmos para a filmografia de Arhur Penn, encontramos obras como “O Pequeno Grande Homem” / “Little Big Man”, uma revisão da história do Oeste Americano ou esse “western” nostálgico intitulado “Duelo no Missouri” / “The Missouri Breaks”, para já não falar nessa película espantosa chamada “Quatro Amigos” / “Four Friends”, que maravilhou a minha geração. Com ele trabalharam actores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman, Warren Beaty, Robert Redford e Dustin Hoffman.
Marlon Brando, o célebre actor do método, foi um dos repetentes e quando o encontramos em “Perseguição Impiedosa” / “The Chase” ele está no auge da sua brilhante carreira, sendo a sua interpretação extraordinária e inesquecível.


“The Chase” é um daqueles filmes que retrata de forma profunda a América interior dos anos sessenta, do século xx, essa América onde o racismo, o ódio e a violência convivem de forma subterrânea e onde um simples fósforo serve para atear a violência, da qual iremos ser espectadores ao longo da película.
Partindo de um argumento de Lilian Hellman, argumentista e dramaturga, companheira de Dashiell Hammett, cuja vida já foi retratada no cinema por Fred Zinneman, no célebre “Júlia”, entramos na vida de uma pequena cidade dominada por um magnata chamado Val Rogers (E. G. Marshall), dono do banco local, mas também de longos territórios onde o petróleo corre e no entanto ele é muito mais do que isso, porque é dono de todas aquelas vidas, até o xerife (Marlon Brando) lhe deve o lugar. E será nesta paz podre que um homem chamado Bubber Reeves (Robert Redford), nascido na cidade, irá servir de rastilho para uma explosão de selvajaria perfeitamente incontrolável.


Bubber Reeves é um daqueles jovens a quem a vida foi sempre madrasta, logo aos seis anos foi acusado de roubar cinquenta dollars, tendo sido enviado para o reformatório, depois de ser obrigado pela mãe a confessar o roubo que não fez, seria o seu amigo Edwin Stewart (Robert Duvall) o autor do pequeno roubo, que irá viver o resto da vida sem remorsos pelo acto praticado. Saído do reformatório, Bubber será sempre um “outsider” e embora conviva com a sua geração na cidade que o viu nascer, acabará por ir para a prisão, porque o seu destino estava traçado à muito, apesar da inocência viver sempre no seu interior.


A fuga de Bubber da prisão e o seu regresso à “pacata” cidade irá despoletar uma série de acontecimentos, que terminarão da pior forma possível, porque a sua presença destabiliza a vida de uma série de famílias.
Será este o retrato poderoso que nos é dado ao longo de um dia e de uma noite, oferecido por Arthur Penn. Aqui iremos encontrar a violência e o racismo no seu estado mais “puro”, onde a justiça é feita sempre pelos detentores do capital, e acompanhamos ao longo da película a verdadeira via-sacra de Bubber Reeves.
Marlon Brando representa aqui o homem que pretende impor a lei, mas a sua acção será sempre condicionada por Val Rogers que domina tudo e todos. Inicia-se uma verdadeira caça ao homem quando se sabe da presença do fugitivo na cidade; e se o xerife o pretende proteger e a única forma é a sua prisão, já toda uma população sedenta de sangue irá impedir por todos os meios que isso aconteça.


Anna Reeves (Jane Fonda) é a única pessoa que pode proteger Bubber Reeves, como ele bem sabe, mas até ela o traiu porque mantém uma relação com o filho do magnata. Porém, tanto Anna como Jake Rogers (James Fox) irão fazer tudo para o salvar de ser linchado, pagando o segundo com a própria vida pelo seu gesto, porque a multidão fica incontrolável ao saber que Bubber se encontra refugiado num cemitério de automóveis, uma das sequências mais perturbantes do filme.
Mais uma vez a interpretação de Marlon Brando é espantosa, tendo dado até diversos contributos para a realização, embora por vezes Arthur Penn não tenha aceitado as suas sugestões, ficando célebre a sequência em que o xerife é violentamente agredido na esquadra por três dos homens que pretendem saber o local onde Bubber se esconde e onde descobrimos uma das famosas assinaturas de Arthur Penn.


Depois temos todas as histórias das pequenas e mesquinhas vidas de uma população que vive virada para si própria, desde o adultério à divisão de classes, passando pelo pequeno valor que tem a diferença da cor da pele, (ou seja nenhum, como veremos, já que o xerife Calder é obrigado a prender o negro que esconde Bubber, para lhe salvar a vida). Por outro lado encontramos também aqui aquelas personagens que, com a “melhor das intenções”, vão espalhando a intriga em busca da violência, tudo a bem da comunidade.
E quando o xerife Calder (Marlon Brando) se encaminha para a esquadra, levando preso Bubber, rodeado pela multidão que sedenta de sangue assiste aos acontecimentos, iremos assistir à sua morte por um dos homens que anteriormente tinha agredido selvaticamente o xerife. Assassinato que imita o de que foi alvo Lee Oswald o “assassino oficial” de John Kennedy.


Em “The Chase” Arthur Penn oferece-nos esse sul que tantas vezes serviu de tema a Tennesse Williams e que tão bem Richard Brooks levou ao écran em filmes como “Corações na Penumbra” / “Sweet Bird of Youth ou “Gata em Telhado de Zinco Quente” / “Cat on a Hot Tin Roof”.
Se alguns falaram na época em intervenções do produtor Sam Spiegel (um dos mais importantes dos anos sessenta, recorde-se a sua colaboração com David Lean), ela nunca irá alterar a força que este filme possui, a qual se mantém passado meio-século sobre a sua feitura.



Descobrir “The Chase” / “Perseguição Impiedosa” é entrar pela porta grande do cinema.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Filme do dia: AMC – “Duelo de Gigantes” / “Night Passage” – James Neilson



“Duelo de Gigantes” / “Night Passage”
James Stewart, Audie Murphy, Dan Duryea.
(EUA – 1957) – (90 min./Cor)
James Neilson
AMC – dia 21/9 – quinta-feira – 8h04m

Pode ver aqui o trailer do filme.


Embora o ideal seja vermos os filmes em directo na televisão, para não termos a surpresa de a película ser retirada da programação, o canal AMC tem cumprido com os filmes que anuncia e por isso mesmo sugerimos, tendo em conta o horário de exibição, que grave este filme, porque ele é um excelente exemplo desse género cinematográfico denominado “Western”, por onde passaram os mais diversos cineastas e realizadores, muitos que fizeram do “Western” uma Arte, como John Ford, Howard Hawks e Anthony Mann, mas por onde andaram também realizadores cujos nomes foram apagados pela memória do tempo e eles bem merecem ser recordados.

James Neilson é precisamente um desses realizadores, que fez a maior parte da sua profissão na televisão, participando em mais de 50 séries, incluindo algumas bem famosas como “Alfred Hitchcock Apresenta”, “Bonanza”, “O Fugitivo”, “Ironside” e “Longstreet”, só para citar aquelas que eu conheço, mas também fez inúmeros telefilmes e cinema para o grande écran onde se destaca precisamente este magnifico “western” intitulado “Duelo de Gigantes” / “Night Passage”, com James Stewart e Audie Murphy (sem bigode), a nos oferecerem o seu enorme talento, ao protagonizarem a figura de dois irmãos bem diferentes, um que é encarregado de transportar o dinheiro dos ordenados para os trabalhadores do caminho–de-ferro, enquanto o outro é líder do bando que aterroriza a região. Mas o argumento é mais complexo, do que parece e James Neilson, é senhor de uma forte direcção de actores e realiza um magnifico western, onde não faltam a presença feminina e a emoção.

“Duelo de Gigantes surge assim como um belo retrato dos “westerns” que se faziam na década de cinquenta, do século passado, nessa Hollywood, que começava a lutar com a concorrência do pequeno écran.

Chantal Akerman – “A Cativa” / “La Captive”


Chantal Akerman – “A Cativa” / “La Captive”
(França/Bélgica – 2000) – (118 min. / Cor)
Stanislas Merhar, Sylvie Testud, Olivia Bonamy, Liliane Rovère, Aurore Clement
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A cineasta belga Chantal Akerman deu nas vistas, pela primeira vez, ao realizar em 1975 a película “Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles”, em que nos oferece o quotidiano de uma mulher de forma intensa nos seus pequenos gestos, onde a solidão é bem presente.
E no ano seguinte, 1976, irá surpreender o mundo com “Je, Tu, Il, Elle” (que passou no nosso país numa semana sobre a égide dos Cahiers du Cinema”, no Palácio Foz), vestindo a pele da protagonista, sem pudores, oferecendo-nos toda a sua nudez, numa obra dilacerada pelo amor e o desejo.


Navegando sempre num registo onde a ficção e o documentarismo são abordados de forma serena, quase sempre nas margens da distribuição cinematográfica, irá mais uma vez surpreender tudo e todos ao realizar, em 1996, “Um Divã em Nova Iorque” / “Un divan à New York”, já aqui abordado, com William Hurt e Juliette Binoche nos protagonistas, numa comédia amorosa, passada em Paris e New York, que brinca (é o verdadeiro sentido do termo) com a psicanálise, tornando-se esta aventura na ficção mais convencional, no seu maior êxito comercial.


Em virtude de possuir um olhar muito pessoal sobre esse território do amor, é com naturalidade que a iremos encontrar a mergulhar no universo de Marcel Proust, adaptando para os dias de hoje, de forma bastante livre, o quinto volume de “Em Busca do Tempo Perdido”, intitulado “A Prisioneira”, nascendo assim a película “A Cativa” / “La Captive”. Entramos assim nesse território da obsessão pelo ser amado, levado até ao seu extremo, com o ciúme a dilacerar a alma.


Simon (Stanislavs Merhar) vive perdidamente apaixonado por Ariane (Sylvie Testud), seguindo-a para todo o lado, porque no seu íntimo pensa que é vítima de traição. Decide então saber mais do passado do ser amado, desconfiando que ela em tempos tivera uma relação amorosa com outra mulher, a bela Andrée (Olívia Bonamy).
Roído pelo ciúme avassalador que o atinge, começa a transformar a pessoa amada num simples objecto de prazer, que não pode fugir ao seu controlo, para não voltar a cair na tentação proibida, transformando assim a vida em comum num verdadeiro inferno, ao mesmo tempo que a mantém prisioneira do seu ciúme cada vez mais avassalador.

Chantal Akerman

“A Cativa” / “La Captive” de Chantal Akerman oferece-nos assim o universo Proustiano, em toda a sua essência, observado através de um olhar contemporâneo que contagia o espectador, graças à sensibilidade que respira em cada fotograma, onde a subtileza dos movimentos de câmara e a própria construção dos planos, são reveladores do intimismo de uma cineasta, possuidora de um saber transgressor, onde a beleza nos surge de forma verdadeiramente cativante.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Filme do dia: AMC – “Na Sombra e no Silêncio” / “To Kill a Mockingbird” – Robert Mulligan


“Na Sombra e no Silêncio” / “To Kill a Mockingbird”
Gregory Peck, Mary Badham, Brock Peters, Philip Alford, Robert Duvall.
(EUA – 1962) – (123 min. – P/B)
Robert Mulligan
AMC – dia 20/9 (quarta-feira) – 9h49.

Pode ver aqui o trailer do filme.

Pode ver aqui o trailer do filme da edição comemorativa dos 50 anos.


Tendo em conta o horário a que este filme está programado pelo canal AMC, 9h49 da manhã, antecipámos a crónica do filme do dia, porque a maioria não estará em casa a essa hora, podendo assim programar a box e gravar a película. Sempre que os horários forem matinais iremos proceder desta forma.


A sensibilidade que Harper Lee transmitiu à escrita do seu romance “To Kill a Mockingbird”, foi passada ao cinema de forma genial pelo dramaturgo Horton Foote, que aliás irá receber o Oscar por este seu fabuloso trabalho de reescrita, que nos conduz ao Sul dos EUA, em plena época da depressão, para conhecermos o respeitável advogado Atticus Finch (Gregory Peck, que irá conquistar o Oscar de Melhor Actor pela sua memorável interpretação), que vive com os dois filhos, Jem (Philip Alford) e Scout (Mary Badham) e será através do olhar e da narração de Scout, que iremos conhecer os habitantes desta cidade, incluindo o “temível” Boo (Robert Duvall numa composição inesquecível), até chegar esse dia em que uma jovem acusa um negro de a tentar violar e antes de se proceder ao julgamento, o veredicto já está ditado, mas Atticus Finch (Gregory Peck), o mais respeitável cidadão da comunidade, aceita fazer a sua defesa e de imediato irá ter esse pequeno e tranquilo mundo em que vive a persegui-lo.


A forma como o cineasta Robert Mulligan nos oferece os diversos passos da preparação do julgamento, captando os sentimentos da população, tanto branca como negra, capta de forma perfeita o clima racista que se vivia na época, no Sul dos Estados Unidos da América, o qual nos é oferecido pelo olhar das crianças, que também irão ser protagonistas de todo este processo, chegando a salvar o pai e o acusado de um linchamento.
Nunca como neste filme a voz da narradora se revelou tão fundamental, sempre suave e meiga, à medida que nos conduz à descoberta dos piores instintos da raça humana: a intolerância e o racismo. Não perca este filme e leia também o inesquecível livro de Harper Lee!!


Nota: O dvd comemorativo dos 50 anos do filme “Na Sombra e no Silêncio” / “To Kill a Mockingbird”, que desde já recomendamos, está disponível no nosso país, em cópia restaurada, com um extenso documentário, verdadeiramente fabuloso, de cerca de duas horas, onde podemos escutar os actores, o cineasta, o autor da maravilhosa banda sonora, o produtor Alan Pakula, também ele cineasta, para além de outros extras, uma verdadeira pérola de um filme incontornável da Sétima Arte.

Filme do dia: AMC – “Negócio de Família” / “Family Business” – Sidney Lumet


“Negócio de Família” / “Family Business”
Sean Connery, Dustin Hoffman, Matthew Broderick.
(EUA – 1989) – (110 min./Cor)
Sidney Lumet
AMC – 18h01

Pode ver aqui o trailer do filme.


Sidney Lumet pertence a essa geração de cineastas oriundos da televisão que deram o salto para o cinema e de que maneira ele o fez, ao transpor para o grande écran, em 1957, a peça de Reginald Rose “Doze Homens em Fúria” / “12 Angry Men”.
Durante a sua longa carreira cinematográfica, Sidney Lumet elegeu o género policial como a sua casa e são diversas as variantes que encontramos ao longo da sua filmografia, revelando-se este “Negócios de Família” / “Family Business” um olhar repleto de humor sobre uma família irlandesa, que decide um dia fazer uma fácil golpada, roubando um milhão de dollars.
O cérebro é o neto (Matthew Broderick), o pai (Dustin Hoffman) está contra, porque finalmente, pela primeira vez na vida, possui um negócio sério e rentável, mas o avô (Sean Connery) é o entusiasmo em pessoa e assim eles partem para o assalto, mas o profissionalismo não abunda por aquelas paragens e… 
Sidney Lumet filma com a eficácia habitual, sempre com uma excelente direcção de actores e Sean Connery está como peixe na água!

Jonathan Mostow – “Exterminador Implacácel 3 – Ascensão das Máquinas” / “Terminator 3 : Rise of the Machines”


Jonathan Mostow – “Exterminador Implacácel 3 – Ascensão das Máquinas” / “Terminator 3 : Rise of the Machines”
(EUA/Alemanha/Inglaterra – 2003) – (109 min. / Cor)
Arnold Schwarzenegger, Nick Stahl, Claire Danes, Kristanna Loken, David Andrews.

James Cameron, ao criar o primeiro filme da saga “O Exterminador Implacável”, ofereceu a Arnold Schwarzenegger a oportunidade de o actor figurar para sempre nesse belo género que é a ficção-cientifica. E se no primeiro filme ele era a máquina que vinha do futuro para impedir o nascimento do futuro líder da resistência, já na segunda película ele surge para proteger esse mesmo líder chamado John Connor (Edward Furlong) e a sua mãe Sarah Connor (Linda Hamilton), ficando para sempre na memória de todos o seu “hasta la vista baby”, pronunciado momentos antes de se autodestruir, depois da missão cumprida.


A luta da máquina com o ser humano e a sua tendência para se superiorizar ao seu criador já nos tinha sido oferecida por Stanley Kubrick, nessa obra-prima chamada “2001 – Odisseia no Espaço”, quando assistimos à tentativa de Hal 9000 de controlar a nave espacial, quando percebe que os seus tripulantes decidiram desligá-lo/matá-lo, e como estamos todos recordados ele revolta-se provocando a morte de um dos tripulantes. Este duelo máquina/homem surge assim, cada vez mais presente, no nosso horizonte, à medida que a humanidade vai evoluindo.


Perante o sucesso estrondoso dos dois filmes anteriores Andrew Vajna e Mário Kassar, dois produtores bem conhecidos no universo de Hollywood, decidiram unir esforços e criar o terceiro filme da saga, ainda com Arnold Schwarzenegger como protagonista, já que a sua presença era sem dúvida uma mais-valia em termos de bilheteira. E apesar da realização ter sido atribuída a Jonathan Mostow, que tinha dado nas vistas com “U-571”, poderemos dizer que o saldo é positivo, embora esteja longe da genialidade de James Cameron.


A história deste terceiro capítulo começa dez anos depois desse duelo infernal entre máquina e homem, em que foi evitada a destruição da humanidade. Sarah Connor entretanto morrera no Novo México e o seu filho John Connor (Nick Stahl) vive à margem da sociedade, escondido na noite, sempre com o receio que as máquinas regressem para o liquidar. Os anos passam e ele mais parece um jovem delinquente do que um salvador da humanidade, como lhe dirá Kate Brewster (Claire Danes), até que o temido momento acaba por chegar com essa máquina mortal chamada T-X (espantosa Kristana Loken), a mais mortífera máquina criada pela poderosa Skynet.

Kristanna Loken

Desta vez a sofisticada máquina irá adquirir uma identidade feminina, de rosto inexpressivo e olhar gelado, que irá fazer arrepiar todos os humanos que se cruzarem com ela, iniciando de imediato a sua perseguição aos alvos que trazia seleccionados, sendo John Connor o prioritário. Mas como não podia deixar de ser, irá chegar também um novo Terminator (Arnold Schwazenegger) para o proteger, de forma a evitar a sua morte.


Mais uma vez o filme surge pontuado com diversas cenas de humor, como a chegada de Arnold e a sua entrada naquele "night-club", num dia especialmente dedicado ao sexo feminino. Por outro lado as cenas de acção que preenchem grande parte do filme surgem devidamente inseridas na película, demonstrando a aplicação de Jonathan Mostow na feitura deste terceiro capítulo, em que John Connor se irá encontrar com a sua futura mulher Kate Brewster (Claire Danes), filha do director do poderoso GCI, cujas instalações abrigam essa entidade mortífera chamada Skynet. E nunca é demais recordar que tudo começa com um vírus informático, que atinge o mundo, obrigando os militares a passarem a defesa da humanidade para as mãos da Skynet, que só espera essa oportunidade para tudo dominar e assim poder aniquilar a humanidade.


Se gosta de ficção-científica talvez tenha chegado o momento de rever estes três filmes, com as personagens criadas pelo grande James Cameron e recordar essa época, em que o Governador da Califórnia era um Exterminador Implacável.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Filme do dia: AXN Black – “Austrália” / “Australia” – Baz Luhrmann


“Austrália” / “Australia”
Nicole Kidman, Hugh Jackman, Bryan Brown.
(Inglaterra / Australia / EUA – 2008) – (165 min./Cor)
Baz Luhrmann
AXN Black – 22h00

Pode ver aqui o trailer do filme.


Quando Baz Luhrmann, o cineasta de “Moulin Rouge”, decidiu encetar a grande aventura de filmar “Australia”, o principal objectivo eram os Oscars da Academia de Hollywood. No entanto a película nem chegou às nomeações, no verdadeiro sentido da palavra - (teve apenas uma e secundária) - mas este épico, onde são bem visíveis as marcas que definem o cinema de autor de Baz Luhrmann, merece ser redescoberto, porque embora ele nos apresente dois registos bem diferentes ao longo do filme: primeiro a chegada de Lady Sarah Ashley (Nicole Kidman) à Austrália, para tomar conta do rancho do seu marido que fora assassinado e o seu encontro com esse homem chamado Drover (Hugh Jackman), por quem se irá apaixonar; depois a guerra, com os japoneses a bombardearem Darwin e o registo da película a mudar de forma abrupta, surpreendendo de forma bem positiva o espectador, porque aqui se respira cinema por todos os fotogramas.
Baz Luhrmann integra em “Australia” um conjunto de elementos que se revelam perfeitos: o romance, a guerra, a história do pequeno aborígene Nullah (Brandon Walters), o narrador dos acontecimentos e a luta do poderoso King Carney (o sempre excelente Bryan Brown) para se apoderar das terras e do gado de Lady Ashley. Em “Australia” de Baz Luhrmann respira-se cinema, algo cada vez mais raro de se encontrar nos caminhos da Sétima Arte.

Anthony Asquith – “A Importância de se Chamar Ernesto” / “The Importance of Being Earnest”


Anthony Asquith – “A Importância de se Chamar Ernesto” / “The Importance of Being Earnest”
(Inglaterra – 1952) – (95 min. / Cor)
Michael Redgrave, Michael Denison, Joan Greenwood, Dorothy Tutin, Edith Evans.

Anthony Asquith desde muito cedo se interessou pelo cinema, tendo em 1925 criado com a colaboração de Bernard Shaw, H. G. Welles e Julien Huxley, a “Film Society” com o intuito de divulgar a Sétima Arte, tendo depois decidido partir para Hollywood, para aprender o ofício.
Durante um ano por lá andou, sempre atento a tudo o que se passava, recorde-se que então o cinema mudo tinha atingido o seu ponto mais alto. Ao regressar a Londres fez a tarimba habitual, passando pelas áreas de argumentista, montagem e assistente de realização, tendo dirigido o seu primeiro filme intitulado “Shooting Stars” / “Nos Bastidores do Cinema” em 1928, iniciando assim uma carreira imparável onde pontificaram as adaptações cinematográficas de peças bem famosas.


Como não podia deixar de ser, as suas qualidades artísticas chamaram a atenção dos produtores Michael Bacon (que descobriu Alfred Hitchcock) e Alexander Korda, que lhe ofereceram os meios necessários para ele atingir a fama.
O famoso “Pigmalião” baseado na obra de Bernard Shaw, fez o seu nome ultrapassar as fronteiras da famosa ilha, tornando-o num dos nomes sonantes da indústria cinematográfica britânica.


Quando em 1952 Anthony Asquith decidiu levar ao grande écran, a famosa peça de Oscar Wilde, “A Importância de se Chamar Ernesto” / “The Importance of Being Earnest”, decidiu apresentá-la como uma peça teatral em que vimos os espectadores na sala e quando o pano de cena se abre, entramos no universo cinematográfico, para descobrirmos o espantoso Michael Redgrave (Jack Worthing), a vestir a falsa identidade de Earnest, assumida por ele sempre que visita Londres, estando perdidamente apaixonado pela bela Gwendolin Fairfax (Joan Greenwood).


Estamos na sequência inicial, ou se preferirem no primeiro acto da peça, na residência do esperto Algernon Moncrieff (Michael Denison), primo de Gwendolin, mas quando tudo parece bem encaminhado após a jovem confessar nutrir o mesmo amor por ele, o falso Earnest irá sofrer um terrível interrogatório por parte da sua futura sogra, Lady Augusta Brackwell, que ao saber as suas origens, um órfão encontrado no interior de uma mala, numa estação ferroviária, decide de imediato riscá-lo da lista dos pretendentes da filha.
Por outro lado a jovem Gwendolin, que não esconde o que sente por ele, confessa-lhe como é importante para ela o facto de ele se chamar Earnest, ela nunca conseguiria amar alguém que não se chamasse Earnest, encontrando-se o pobre John Worthing inibido de lhe confessar o seu verdadeiro nome, porque de imediato iria perder o seu amor.


No segundo acto da peça a bela infanta Cecily Cardew (Dorothy Tutin) de quem John Worthing é Tutor e que vive na sua propriedade irá cruzar-se com o esperto Algernon Moncrieff, que pretende descobrir a sua identidade, após ter encontrado na cigarreira de John uma dedicatória dela, que lhe despertou a curiosidade, ficando de imediato fascinado pela jovem, apresentando-se na propriedade como o irmão mal comportado de John, o famoso Earnest, personagem de ficção criada por John, para justificar as suas idas a Londres, para se divertir e escapar ao ambiente bucólico do campo.


O humor e a Arte de Oscar Wilde que tão bem conhecia a alta sociedade inglesa e que tão bem a caracterizou nas suas obras, oferece-nos um texto de um humor profundamente irreverente, onde a identidade de uma personagem inexistente irá originar um conjunto de equívocos perfeitamente maravilhosos, sendo a importância de se chamar Earnest fundamental para o coração das duas jovens, já que tanto Cecily como Gwendolin se encontram ambas apaixonadas pelo nome, desconhecendo que os dois homens possuem nomes de baptismo bem diferentes.
A direcção de actores de Anthony Asquith é irrepreensível, destacando-se entre todos Michael Redgrave numa interpretação memorável.

Anthony Asquith

“A Importância de se Chamar Ernesto” é um verdadeiro convite cinematográfico para conhecermos o universo dramatúrgico de Oscar Wilde, tantas vezes adaptado ao cinema, ao longo dos anos, sempre com enorme sucesso. Ainda recentemente Oliver Parker nos ofereceu uma nova versão contando como protagonistas Colin Firth, Rupert Everett, Reese Witherspoon e Judi Dench entre outros, demonstrando mais uma vez a grandeza e genialidade de Oscar Wilde.