sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Peter Weir - "The Truman Show: A Vida em Directo"


Quando a ficção se torna realidade!


Peter Weir – “The Truman Show: A Vida em Directo” / “The Truman Show”


Peter Weir – "The Truman Show: A Vida em Directo" / "The Truman Show"
(EUA – 1997) – (102 min. / Cor)
Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone.

No início dos anos oitenta (séc. xx), o continente australiano assistiu à partida para o Novo Mundo dos seus mais importantes representantes na arte cinematográfica. Peter Weir, Bruce Beresford e os dois George Miller (que tanta confusão espalharam na época, porque ambos assinam as suas obras da mesma forma) e actores como Mel Gibson (“The River”/ “O Rio) e Judy Davies (“Passagem para a Índia”) encontraram no continente americano a sua nova casa. Recorde-se que Mel Gibson nasceu nos EUA tendo ido para a Austrália em criança. Este quarteto de cineastas seria acompanhado por uma estrela cadente chamada Gillian Armstrong, uma cineasta cuja obra necessita de ser descoberta.


Peter Weir, que se iniciou no cinema em início dos anos setenta, começou a dar nas vistas quando assinou “Picnic at Hanging Rock”, surgindo depois “A Última Vaga” / “The Last Wave” e “Gallipoli”, já contando no elenco com Mel Gibson. Seria aliás a presença do actor um dos trunfos de “O Ano de Todos os Perigos” / “The Year of Living Dangerously”, sendo os outros Sigourney Weaver e a extraordinária Linda Hunt, que recebeu o Oscar pela sua interpretação neste filme. E pela primeira vez todas as atenções se debruçaram sobre Peter Weir; três anos mais tarde nasce “A Testemunha” / “Witness”, revelando a outra faceta de actor de Harrison Ford e oferecendo ao mundo do cinema uma loura transformada em morena chamada Kelly McGillis, enquanto penetrávamos no universo da comunidade Amish e na história de amor dessa viúva chamada Rachel Lapp.


Chegamos assim com este filme a um dos trunfos de Peter Weir, a profunda dedicação que oferece aos seus actores e personagens construídas por eles, repare-se como em “A Costa do Mosquito” / “The Mosquito Coast” descobrimos que o homem da cidade nunca poderá vestir a pele do bom selvagem, quando Harrison Ford decide ser um Robinson Crusoe com família, virando as costas à civilização.
Quando Peter Weir realiza “O Clube dos Poetas Mortos” / “Dead Poets Society” já está perfeitamente integrado no sistema dos Estúdios, embora nunca abandonando a sua independência, escolhendo os projectos e trabalhando neles sem pressas. Todos nós desejámos ter um professor de Literatura chamado John Keating, infelizmente Robin Williams nunca se cruzou connosco e muitos anos depois da sua feitura continuamos a admirar este filme. Depois foi o fabuloso “Green Card”, com essa personagem criada de forma soberba por Gerard Depardieu, em luta pelo famoso visto que lhe proporcione viver na América e quando no final ele se perde nas palavras e cai ingenuamente no erro proferindo a frase fatal, somos obrigados a sentir como ele a perda de uma vida e quando um cineasta nos consegue transmitir um sentimento desta forma, só pode ser senhor de uma verdadeira arte cinematográfica


Quando foi anunciado que o próximo projecto de Peter Weir seria um filme chamado “The Truman Show”, nem os Estúdios nem os actores revelaram à imprensa o argumento do filme e só em cima da estreia os executivos dos Estúdios fizeram a respectiva apresentação da película à crítica, exprimindo o desejo de o seu argumento só ser revelado após a estreia. E poderemos dizer que o argumento de Andrew Niccol é espantoso de criatividade, ele mergulha no interior da caixa que mudou o mundo e invade o território das “soap” ou telenovelas se preferirem, apresentando-nos a história de Truman Burbank (Jim Carrey surpreendente), que um dia nasceu nos Estúdios da poderosa “OmniCam Corporation”, uma gigantesca estação de televisão que decide com esse génio da manipulação chamado Christof (Ed Harris soberbo) criar um novo tipo de espectáculo.
A partir do momento em que Truman nasce, ele passará a ser o próprio espectáculo, acompanhando o espectador todos os seus momentos, desde as primeiras palavras proferidas, até aos primeiros passos dados, passando pela adolescência e a amizade com Marlon (Noah Emmerich), até a esse encontro apaixonante com Meryl (Laura Linney) que se irá tornar sua esposa. A vida de Truman Burbank desenrola-se assim na sua cidade natal Seahaven (maravilhoso nome), trabalhando numa companhia de seguros e fazendo da sua vida uma profunda rotina. Todos os dias se cruza com os vizinhos da frente, são sempre as mesmas pessoas que passam por ele e se nos debruçarmos um pouco sobre o quotidiano de cada um de nós, acabamos por descortinar rotinas que partilhamos diariamente com outras pessoas e aqui está um dos segredos do argumento tão bem trabalhado.


Estamos assim no melhor dos mundos, o mundo de Truman Show, como explica nas suas conferências e “talk shows” Christof (Ed Harris), o grande manipulador e o mundo inteiro segue diariamente o quotidiano de Truman, da mesma forma que algumas pessoas colocaram câmaras nas suas casas para transmitirem a sua vida íntima na Internet, mediante um pagamento e todos sabemos como algumas dessas pessoas amealharam boas maquias ou aqueles que gastam horas da sua vida a seguirem a vida de outros no pequeno écran.
Como não podia deixar de ser, “The Truman Show” utiliza, através da personagem criada por Laura Linney, a publicidade indirecta aos diversos produtos que os Truman possuem em casa e ficamos deliciados como tudo se processa, mas como não podia deixar de ser no melhor dos mundos também acontecem tragédias, umas programadas, como a morte do pai de Truman, para lhe criar a fobia do mar, impedindo-o de sair de Seahaven ou outras acidentais como quando o actor que fazia de pai surge a fazer figuração muitos anos depois, na figura de um mendigo e Truman o reconhece como sendo o seu pai, de imediato assistimos à estratégia do Estúdio para controlar a situação, da mesma forma que controla as tentativas de Truman de viajar, seja devido a voos cancelados para esse paraíso chamado ilhas Fiji, seja a impedir o avanço na estrada depois de ter atravessado a ponte.


No mundo secreto de Truman existe um rosto e essa imagem olhada de forma apaixonante por ele transforma-se em realidade. Ela é Lauren (Natascha McElhone) e como não podia deixar de ser as audiências assim o exigem, nasce o dia em que se cruza com ela em Seahaven, só que ela está decidida a mostrar-lhe a forma como o mundo o segue, confessando-lhe que tudo aquilo não passa de uma farsa, sendo a sua existência fruto dos desejos de um homem todo-poderoso. De imediato ela é retirada do Estúdio (despedida) por Christof, numa tentativa de controlar a situação. Porém o público televisivo assistiu a tudo porque “The Truman Show” é apresentado sem interrupções, dormindo muitos espectadores de televisão acesa durante as 24 horas do dia. E aqui será de nos interrogarmos quantas horas passamos em frente aos televisores fazendo “zapping”, até que ponto a televisão não controla as nossas vidas ou como muitos de nós alteramos o nosso dia em função dos programas televisivos. Todas estas equações estão no filme de Peter Weir e quando nos apercebemos como Truman decide saber o que se passa naquele mundo, sentimos também nós essa mesma angústia, quando pensamos no que existe para além da morte, sendo para Truman o equivalente ao que existe para além do mar e quando ele o descobre e encontra o seu criador, descobrimos que estamos perante uma obra-prima dos tempos modernos, esses tempos tão bem caracterizados por Charlie Chaplin em “Modern Times”.
Descobrir este filme de Peter Weir é uma verdadeira aventura, não só para quem já viu a película, como para todos aqueles que ainda a desconhecem e se repararem na estrutura do argumento de Andrew Niccol, acabamos por nos reconhecer neste mundo artificial feito de fibras ópticas.


“The Truman Show – A Vida em Directo” surge assim como a obra-prima de Peter Weir, revisitando o universo de Truman Burbank, tantas vezes idêntico ao quotidiano de milhões de pessoas na sociedade que habitamos, demonstrando, mais uma vez, que neste género cinematográfico denominado comédia também se dizem verdades muito inconvenientes.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ingmar Bergman – “Sonata de Outono” / “Hostsonaten”


Ingmar Bergman – "Sonata de Outono" /  “Hostsonaten”
( NORUEGA – 1978) – (92 min. / Cor)
Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lana Nyman, Halvar Bjork, Gunnar Bjornstrand, Erland Josephson, Georg Lokkerberg.

Quando alguém fala nos suecos mais importantes da História do Cinema, de imediato três nomes se destacam na nossa memória: o cineasta Ingmar Bergman e as actrizes Ingrid Bergman e Greta Garbo. Se o realizador é um dos nomes mais importantes da Sétima Arte já as duas estrelas, nascidas em décadas diferentes, foram de um brilho insuperável. Enquanto Garbo nasceu na época do Cinema Mudo, a bela Ingrid conheceu o sucesso durante o período sonoro, sendo uma das grandes estrelas do Cinema Clássico, como todos sabemos. E se Greta Garbo abandonou o cinema demasiado cedo, o célebre lema “Garbo Ri” já não surtia efeito perante as novas estrelas criadas em Hollywood, Ingrid Bergman trocou a capital do cinema em pleno apogeu, quando tinha o mundo a seus pés, partindo para Itália depois de se ter apaixonado perdidamente pelo pai do neo-realismo, Roberto Rossellini, regressando alguns anos depois a Hollywood que a recebeu de volta, de braços abertos.
Porém, durante largo tempo, foram muitos os que se interrogaram porque razão os dois suecos com o mesmo apelido, mas sem quaisquer laços familiares, não surgiam no mesmo filme? Os anos foram passando, até que surgiu um projecto na década de setenta, de seu título “Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, sendo a produção alemã, embora as filmagens tenham sido feitas na Noruega. A razão era simples: Ingmar Bergman encontrava-se na época a residir na Alemanha devido a um problema com o fisco sueco, que o acusava de fuga aos impostos.


“Sonata de Outono”/ “Hostsonaten” oferece-nos o encontro entre Ingrid Bergman e Liv Ullmann, num daqueles duelos em que ninguém sai vencedor nem derrotado, porque ambas são dirigidas brilhantemente por Ingmar Bergman. Na época, aliás, falou-se muito em desacordos entre Ingmar e Ingrid por causa da abordagem da personagem interpretada pela actriz sueca, ambos tinham posições diferentes, para não dizer antagónicas, mas quando se vê o filme ficamos perfeitamente cativados pela forma como Ingrid Bergman trabalha a sua Charlotte, essa pianista que continua, apesar da idade, mergulhada na sua arte. E aqui, mais uma vez, é-nos oferecida a música de câmara, muito em especial um Prelúdio de Chopin, que nos é apresentado primeiro por uma filha envergonhada pela sua inépcia e depois por uma mãe que, do alto da sua autoridade artística, explica os sentimentos que presidiram à criação dessa obra de Frederic Chopin. E aqui percebemos que aquelas duas mulheres estão ali para se degladiar.


Mas voltemos um pouco atrás no tempo para entrarmos nesta história fabulosa de Ingmar Bergman. Charlotte (Ingrid Bergman) é uma pianista famosa e no dia em que o seu amigo Leonard morre no hospital, recebe uma carta da filha mais velha Eva (Liv Ullmann) a convidá-la para uma estadia na sua casa situada numa pacata aldeia, onde vive com o marido, um pastor protestante (Halvar Bjork), tal como o pai de Ingmar Bergman. Mãe e filha não se falavam, já lá iam sete anos, e mesmo quando o filho de Eva morreu afogado, a avó não teve tempo para visitar a filha. Ficamos assim de imediato a saber como funcionam os sentimentos de Charlotte e a sua relação com a sua arte, verdadeira paixão e fuga do quotidiano.
Quando Charlotte (Ingrid Bergman) se encontra com Eva (Liv Ullmann), tudo nos indica que aquela estadia será benéfica para ambas e nos encontramos no melhor dos mundos, porém lentamente iremos verificar que o passado está bem presente na memória de Eva e esta, por debaixo da sua aparente fragilidade, pretende fazer um ajuste de contas com a mãe, indo buscar todos os acontecimentos perturbantes de uma vida para assim o poder efectuar, de forma consciente.


Assim, nesse momento em que o casal aguarda a descida de Charlotte para jantar, esperando encontrá-la a envergar roupas escuras devido à morte do seu amigo Leonard (Georg Lokkerberg), ela irá surgiu num maravilhoso vestido vermelho e cheia de vida. Começa então o duelo entre ambas. Eva possui um trunfo poderoso, porque na sua casa está a viver a sua irmã Helena (Lena Nyman), que ela foi buscar à casa de saúde onde a mãe a tinha internado anos antes, para cuidar dela. E será no encontro entre Charlotte e Helena que Eva irá começar a sua escala no ajuste de contas de uma vida com a mãe. Essa mesma mãe que a obrigara a fazer um aborto aos dezoito anos, já que não acreditava no amor de adolescentes.
Porém, no interior deste duelo, temos um espectador: o pastor protestante marido de Eva, que no início nos surge como narrador, irá confessar à sogra que o seu casamento com a filha foi uma união onde o amor estava ausente, ele sabia que não era amado e só quando perderam a criança esse amor teve o seu nascimento.


Durante a noite Charlotte, que ficara profundamente chocada com a visão de Helena, embora tenha conseguido disfarçar os seus sentimentos perante todos, acorda no meio de um pesadelo, pensando que a sua filha doente a estava a agarrar na cama, essa mesma filha mais nova que nutre um profundo amor pela mãe como veremos, ao contrário de Eva (Liv Ullmann), que de filha dócil e tímida se transforma numa personagem sedenta de sangue, porque o passado permanece bem presente nela e ao encontrar a mãe na cozinha a meio da noite, decide ali mesmo travar esse ajuste de contas tão desejado ao longo da vida.


Muitos viram este filme como um reflexo da relação que o cineasta teve com o pai, tão bem retratada por ele no seu livro autobiográfica “Lanterna Mágica”, mas o que nos interessa aqui é, na verdade, a forma maravilhosa como Ingmar Bergman nos apresenta estas duas actrizes, numa verdadeira sonata onde o dueto feminino é o movimento principal desta película.
Por outro lado, neste filme, iremos encontrar a arte do grande plano, já que tanto Ingrid Bergman como Liv Ullmann nos surgem em planos espantosos, criados pelo cineasta e com uma contenção maravilhosa, basta recordar como, logo no início, Charlotte (Ingrid Bergman) fala para a câmara sem nunca o seu olhar se cruzar connosco, embora ele esteja em constante movimento. Já Liv Ullmann consegue, ao longo do seu duelo, oferecer-nos uma transformação facial que nos deixa perfeitamente atónitos pelo ódio que vai transparecendo no seu rosto, à medida que as acusações de uma vida aumentam.


Ingmar Bergman e Ingrid Bergman numa pausa das filmagens

No final da película iremos encontrar uma pianista que permanece no seu mundo musical, a viajar de comboio na companhia do seu amigo Paul, enquanto Charlotte regressa ao seu pacato quotidiano, depois de ter expulsado todos os demónios que a atormentavam. E quando a terminar nos são oferecidos os rostos dos três protagonistas, o cineasta consegue o prodígio de nos retratar a alma dos protagonistas.


Ingmar Bergman, em “A Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, assina mais uma obra-prima do cinema e Ingrid Bergman deixa-nos um dos mais belos testamentos que uma actriz pode oferecer a essa Arte chamada Cinema.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

François Truffaut – “Grau de Destruição” / “Fahrenheit 451”


François Truffaut – "Grau de Destruição" / "Fahrenheit 451"
(ING. – 1966) – (112 min. / Cor)
Oskar Werner, Julie Christie, Cyrill Cusak, Bee Duffell.

Este texto é feito de memórias, memórias a duas vozes, memórias de livros e filmes. Como atrás escrevi, todos temos as nossas memórias (sei que é a quarta vez que escrevo a palavra) e as de infância são aquelas que nos oferecem um maior carinho, por essa mesma razão são dos livros e dos filmes que guardo um amor profundo. Desde que me conheço, sempre tive um livro na minha companhia e qualquer lugar servia para o “devorar”, depois o meu quarto secreto era a sala de cinema e aí vivia intensamente as aventuras e paixões dos meus heróis, da mesma forma que relia sempre os livros que mais amava.


Nessa época via ao fim-de-semana, no cinema, três a quatro filmes, a minha idade ainda só tinha um dígito, mas como era alto entrava nas sessões para maiores de 12 anos, acompanhado de um familiar nos cinemas ditos de “primeira” e já sozinho nos cinemas do bairro “Jardim Cinema" e "Paris” e naquele dia ali estava eu para ver mais dois filmes (reposições) de uma assentada. Do primeiro já não me recordo, a não ser que era um policial a preto e branco, mas o segundo chamava-se “Grau de Destruição” e nunca mais me esqueci dele, porque naquela sociedade era proibido ler livros e aquele universo meteu-me mesmo medo. Na época ainda não tinha lido o “1984” do George Orwell, mas a leitura de “Ilha de Verão” do Erskine Caldwell tinha-me aberto os horizontes literários.


Recordo-me que andei profundamente perturbado após o final do filme, falando com familiares sobre o assunto, até que algum tempo depois, quando comecei a ler sobre cinema e a fixar os nomes dos cineastas, descobri perplexo que o autor do filme era François Truffaut. Ao longo da vida tenho lido sobre os seus filmes e a sua vida, Paris é o lugar ideal para adquirirmos livros sobre ele, numa livraria situada nos Grands Boulevards junto ao Museu Grévin, avenida essa onde em tempos se situou uma das salas da Cinemateca Francesa, descobri, na primeira vez que fui a Paris, um universo de livros sobre este genial cineasta.


“451 Fahrenheit” / “Grau de Destruição” é baseado numa novela de ficção-cientifíca de Ray Bradbury, passando-se a acção numa sociedade totalitária dominada pelo audiovisual e onde os livros são proibidos, porque a sua leitura provoca a infelicidade do ser humano, por essa razão o dever é denunciar às autoridades todas as pessoas que sejam detentoras de livros para impedir que o mal transmitido por eles invada a sociedade. A televisão, com os seus programas transmitidos em écrans gigantes, especialmente os concursos, oferecem aos cidadãos todos os seus desejos, a felicidade é assim oferecida pelo Estado. E para combater o mal existe a polícia/bombeiros cuja acção é prender todos os cidadãos que possuam livros e queimar todas as publicações, à temperatura de 451º Fahrenheit.


Montag (Oskar Werner) é um desses bombeiros, ágil na manipulação do lança-chamas, que vive para o seu trabalho, enquanto a sua esposa Linda (Julie Christie) fica em casa a ver os programas da televisão, esse “Big Brother” controlador do pensamento.
Ao regressar a casa no metro-aéreo (linha inaugurada na época em Londres), Montag encontra uma rapariga chamada Clarisse (Julie Christie, a actriz interpreta as duas personagens no filme) e a pouco e pouco começam a conversar e um dia ela pergunta-lhe se ele não tem curiosidade em ler um dos muitos livros que queima. A questão é um verdadeiro tabu para Montag, mas o desejo do fruto proibido leva-o um dia a ficar com um dos muitos livros que queima e decide ler a obra que guardou "religiosamente", descobrindo um universo até então desconhecido para ele. Assim, através de Clarisse vem a saber que existem livros fabulosos e que algumas das pessoas que se cruzam com ele possuem bibliotecas em casa, escondidas no interior de falsos televisores, móveis e paredes falsas. A atracção de Montag pelos livros leva-o ao território da Literatura e um dia confessa em casa, numa reunião com amigas da mulher, o fascínio maravilhoso oferecido pela leitura. Linda, a sua mulher, de imediato ameaça denunciá-lo.


Alguns dias depois, em mais uma acção de extermínio de livros, Montag invade a casa de uma velha senhora (Bee Duffell), amiga de Clarisse e quando se preparam para queimar a enorme biblioteca que ela possui, um verdadeiro achado para o capitão (Cyrill Cusack), ela recusa-se a sair e morre queimada com os livros que tanto ama. Perante isto Montag revolta-se e termina por matar o chefe com o lança-chamas, partindo em fuga para um território desconhecido de todos, um local perdido onde habitam os homens-livros de que Clarisse lhe falou, local esse onde ela já se encontra refugiada. Aí ele irá encontrá-la e viver em Paz com os outros homens-livros. Cada um deles tem a missão de decorar o livro preferido, adoptando como seu o nome do título da obra que elegeu como a mais amada. Mas numa sociedade totalitária o Estado tem sempre que sair vencedor, mesmo que isso não suceda e assim a televisão transmite em directo a morte de Montag, para serenar as "boas consciências".


Ray Bradbury, ao escrever a sua obra “451º Fahrenheit”, partiu desses verdadeiros “autos de fé” feitos na Alemanha pelos Nacionais-Socialistas, após terem chegado ao poder, mas se olharmos para muitas das sociedades ainda existentes no mundo, infelizmente assistimos ainda a esta triste realidade, não só no Médio-Oriente, como em muitos outros lugares por esse planeta fora, porque a leitura faz-nos pensar e o mais importante é não pensar.


François Truffaut, que durante toda a sua vida “devorou” tanto livros como filmes, sentiu-se profundamente fascinado pelo livro de Ray Bradbury e seria em Inglaterra, no mesmo Estúdio onde Charles Chaplin rodava “A Condessa de Hong-Kong”, que ele iria adaptar ao grande écran esta obra fabulosa, entrando pela primeira e única vez no universo da ficção-cientifíca, recorde-se que no ano em que ele decidiu partir para este filme lhe foi oferecida a hipótese de adaptar para o grande écran “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, mas ele recusou porque era impossível “partir aos bocados a obra de Proust como se ela fosse uma madalena”.


A rodagem do filme foi de certa forma atribulada com o actor Oscar Werner, que já tinha trabalhado com François Truffaut em “Jules e Jim”, chegando ao ponto de não se cumprimentarem no local de filmagens, isto depois de alguém ter acendido um lança-chamas atrás do actor, sem o avisar. Uma aposta curiosa do cineasta foi ter oferecido a Julie Christie as duas personagens femininas, Linda e Clarisse, de forma a realçar o fascínio que Montag encontrava na desconhecida, tão parecida com a mulher com quem partilhava a vida.


Um dos problemas levantados pelos produtores, durante a rodagem, foram os títulos dos livros visíveis a serem queimados, mas François Truffaut contornou o problema e conseguiu que os seus livros mais amados e lidos ao longo de uma vida surgissem bem destacados, através do plano de pormenor usado. Durante a sua juventude muitos dos amigos se interrogavam se ele não iria enveredar por esse género denominado “jornalismo cultural”, mas Truffaut terminaria por optar pelo cinema como todos sabemos, depois dessa estranha aventura que foi o seu serviço militar, que culminou em prisão e tentativa de suicídio.
Para concluir, apenas uma curiosidade: quando Montag parte a pé através da linha-férrea abandonada que o irá levar a esse território de homens/mulheres livres ou homens/mulheres livros, ao sair do túnel começa a nevar, nesse território de liberdade. A neve não estava no “programa” e chegou devido às condições climatéricas, que foram alteradas de forma imprevista, como se o filme fosse de repente abençoado e o cineasta em vez de interromper as filmagens, decidiu continuar a rodagem naquelas condições, transmitindo uma magia perfeita.


Durante as filmagens, François Truffaut foi escrevendo um dos seus célebres diários de rodagem, mais tarde publicado na revista “Cahiers du Cinema” e editado há poucos anos em livro (acompanha o guião de “A Noite Americana”, também editado pelos “Cahiers du Cinema”), aqui fica uma montagem desse diário pela escrita/voz de François Truffaut:


“«Fahrenheit 451» é extraído dum romance de Ray Bradbury que eu li nos finais de 1960 e de que adquiri os direitos em meados de 1962. Porque é que tive de esperar três anos e meio antes de o filmar? Apenas por razões de dinheiro (…) Se o filme se pode fazer é graças ao apoio de Oscar Werner e de Julie Christie que, no decurso destes últimos meses se tornaram em grandes vedetas internacionais. (…)
Na verdade neste filme, como em todos os que são extraídos dum bom livro, metade pertence ao seu autor Ray Bradbury. Foi ele que inventou os incêndios dos livros que vou ter tanto prazer de filmar. Foi por causa deles que quis fazer este filme a cores. Uma velha que prefere morrer queimada com os seus livros a separar-se deles, o herói que “ama” o seu chefe são tudo coisas que gosto de ver no écran, que gosto de filmar, mas que a minha imaginação demasiado ligada ao real, não podia conceber. (…) Evidentemente será um bocado absurdo fazer de «Fahrenheit 451» um filme histórico e no entanto não deixo de me virar para esse lado. Retomei os telefones de Griffith, os fatos de Carole Lombard e de Debbie Reynolds, o carro de bombeiros de Mr. Deeds (1).
(…) Sabia que «Fahrenheit 451» ía ter inconvenientes, como qualquer filme. No caso em questão, personagens nem muito reais, nem muito fortes, devido ao carácter excepcional da situação. O principal perigo das obras de ficção científica é sacrificar todo o postulado. (…) A mim é que me cabe lutar contra isso, tentando organizar a vida no écran.
(…) Queria que «Fahrenheit 451» não parecesse nem um filme jugoslavo, nem um filme americano, de esquerda. Queria que fosse modesto, apesar do «grande assunto», um filme simples. (…) Aqui, no caso de «Fahrenheit 451», tratava-se de tratar de uma história fantástica com familiaridade, banalizando as cenas muito estranhas e anormalizando as cenas quotidianas. Não sei se o resultado dará a impressão dum filme normal rodado por um louco ou dum filme louco rodado por um homem normal, mas tenho a convicção que escrevendo um livro ou rodando um filme, somos anormais que dirigimos um discurso a pessoas normais. Às vezes a nossa loucura é aceite, outras vezes é recusada.”

François Truffaut


E assim nasceu uma das obras-primas desse amante do Cinema, mas também da Literatura,  chamado François Truffaut.


Nota: Se desejar conhecer melhor a vida e obra de François Truffaut recomendamos vivamente a leitura da obra “François Truffaut” publicada pela “Folio” e da autoria de Antoine de Baecque (Historiador dos Cahiers du Cinema) e Serge Toubiana (Director da Cinemateca Francesa), são cerca de 900 páginas que se devoram como um romance!

(1) – Filme de Frank Capra

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Frank Sinatra - "New York, New York"


A voz inconfundível de Frank Sinatra. num dos meus temas favoritos, o famoso "New York, New York"!

Boa audição!

Alfred Hitchcock – “Chamada Para a Morte” / “Dial M for Murder”



Alfred Hitchcock – "Chamada Para a Morte" / "Dial M For Murder"
(EUA – 1954) – (105 min. / Cor)
Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson.



“Chamada Para a Morte” / “Dial M for Murder” de Alfred Hitchcock é um daqueles filmes do Mestre que poucos tiveram a oportunidade de visionar da forma como foi pensado. E dizemos isto porque ele foi feito no sistema 3D, as célebres três dimensões, que possibilitava ao espectador viver sensações únicas no écran, embora Alfred Hitchcock tenha trabalho o sistema de forma diferente da usada por outros cineastas, já que estes o utilizaram acima de tudo para criar o medo no espectador, enquanto Hitch pretendeu dar mais ênfase à questão do suspense e composição do plano: veja-se a forma como ele nos oferece a conversa entre Ray Milland e Anthony Dawson, primeiro filmando-os de cima, para depois os captar ao nível do chão, criando para isso um pequeno fosso para o operador. Depois, como todos sabemos, o filme acabou por ser distribuído comercialmente, numa cópia normal, sem a magia das três dimensões, por todo o mundo.


Esta obra de Alfred Hitchcock marca também o seu encontro com Grace Kelly, essa loura “fria”, que tão bem escondia o “vulcão” que nela vivia, como nos “mostrou” o cineasta nessa noite de “fogo-de-artifício” em “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief”, sendo a outra colaboração entre os dois o célebre “Janela Indiscreta” / “Rear Window”.
Nunca saberemos quantos filmes faria Grace Kelly com Hitchcock, se um dia não tivesse querido ser Princesa, porque ela fez três filmes seguidos com ele e quando o projecto de “Marnie” surgiu, o cineasta lembrou-se dela e ela dele, mas o “povo do Mónaco” não deixou a sua Princesa regressar a esse “antro de perdição” chamado Hollywood.


“Dial M for Murder” / “Chamada Para a Morte” é baseado numa peça de teatro da autoria de Frederick Knott, que também assina o argumento, e Alfred Hitchcock decidiu apresentar-nos o filme nunca escondendo que se tratava de uma peça, sendo os únicos exteriores a entrada do prédio, com a respectiva rua, transeuntes e automobilistas. Nunca veremos o jardim da casa, e só conheceremos o interior do restaurante, onde decorre o jantar de Ray Milland com um grupo de americanos, nessa noite da fatal chamada telefónica.


Tony Wendice (Ray Milland) é um conhecido jogador de ténis que já deixou a carreira, embora seja ainda bastante recordado pelos seus sucessos. Casado com a linda Margot (Grace Kelly), dona de uma bela fortuna, irá descobrir um dia, por uma carta que encontra, que ela mantém um caso com o escritor americano Mark Halliday (Robert Cummings), que elegeu o romance policial como o seu género literário.
Mark é jovem, belo e romântico, a personagem perfeita para ela cometer adultério, mas quando ele regressa ao Novo Mundo, deixando-a a ela e Inglaterra para trás, o romance vai-se apagando como a chama de uma vela, começando as cartas dele a não terem resposta. Mas o marido volta a sentir-se traído e decide preparar a sua vingança, quando sabe que o escritor vai regressar a Inglaterra, sendo natural que o adultério seja retomado.


A forma como Hitchcock nos apresenta Margot Wendice (Grace Kelly) no início da película, no seu vestido vermelho, diz bem do fogo do pecado que por ali vive: o reencontro dos dois amantes será fatal para um deles.
Tony Wendice (Ray Milland) é o cavalheiro por excelência, senhor de uma inteligência muito acima da média, que consegue contornar os obstáculos que lhe irão surgir pelo caminho. Veremos isso na sua abordagem ao capitão Lesgate (Anthony Dawson), que ficaremos a saber chamar-se Charles Swann, não passando de um elegante e pobre vigarista, que abandona os quartos onde vive, depois de deixar de pagar a renda.
Charles Swann (Anthony Dawson), que fora colega de Tony Wendice na faculdade, ao ver a sua identidade descoberta, decide sair imediatamente de casa de Tony, mas curioso com a proposta do ex-colega acaba por ficar na sala, para perceber melhor o intuito daquele marido traído. E aqui temos um verdadeiro show da arte de representar, que nos é oferecido por esse grande actor chamado Ray Milland. A sua personagem nada tem a ver com esse desconhecido do norte-expresso, de seu nome Bruno Anthony (o fabuloso Robert Walker), porque este Tony não está à beira da loucura, ele é simplesmente o marido traído que deseja ajustar contas com a mulher que o atraiçoou.


Como iremos ver, o seu plano é perfeito, mas o sinal para o pôr em marcha será sabotado pelo seu relógio de pulso, que entretanto parou, impedindo-o de ligar à hora combinada para Charles Swann agir e matar a sensual Margot Mary Wendice.
A partir de então a sua vingança irá estar suspensa no arame, começando a agir de acordo com os acontecimentos, sempre de forma inteligente para incriminar a sua mulher da morte de Charles Swann. Porque na verdade o “feitiço virou-se contra o feiticeiro”, já que o assassino contratado, ao tentar matar Margot, acaba por ser ele próprio morto, com a célebre tesoura de costura, que se encontrava junto do telefone, quando ela atendeu o telefonema feito pelo marido, o sinal para Swann agir, que chegou tarde demais. A forma como Alfred Hitchcock nos oferece a sequência, com Ray Milland do outro lado do telefone a escutar o assassínio da mulher é soberba e depois ao ver que ela sobreviveu, irá agir de forma a incriminá-la, parecendo que a está a defender. No entanto no seu caminho irá surgir esse gentleman da polícia londrina, o inspector Hubbard (John Williams), que tudo irá fazer para deslindar este caso intrincado, começando por tentar perceber como é que o assassino entrou na casa, nascendo assim o mais célebre elemento do filme: a chave!


(Re)ver “Chamada para a Morte”/ “Dial M for Murder” é um maravilhoso convite a entrar no universo Hitchcockiano, e conhecer a sua relação com o teatro. Se programarmos este filme com “Rope” / “A Corda”, iremos ter uma sessão dupla memorável.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Yasujiro Ozu – “Viagem a Tóquio” / “Tokyo Monogatari”

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Yasujiro Ozu – "Viagem a Tóquio" / "Tokyo Monogatari"
(JAPÃO – 1953) – (134 min. - P/B)
Chishu Ryu, Chieko Higashiyama, So Yamamura, Hruko Sigimura

Quando se fala em cinema japonês e nos seus grandes Mestres, de imediato um quarteto surge no horizonte e ele é constituído por Yasujiro Ozu, Mikio Naruse, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi. 


Yasujiro Ozu desde muito cedo mostrou interesse pela Sétima Arte, ele era um verdadeiro cinéfilo, gostando em especial de cinema norte-americano, sendo extremamente curioso o facto de, no início de carreira, assinar os argumentos que escrevia com o pseudónimo de James Miki. Durante a adolescência foi o que se chama um jovem “mal-comportado”, depois ao ingressar nos Estúdios Sochiku, através de um tio, irá passar a dedicar a sua vida ao cinema. Será, aliás, nesses mesmos Estúdios que vai trabalhar ao longo da sua vida, mantendo uma forte amizade com o cineasta Mikio Naruse. Yasujiro Ozu inicia assim a sua vida no cinema, fazendo a habitual tarimba da profissão, primeiro assistente de realização, depois argumentista e por fim realizador, ao dirigir o filme mudo: “Zange no Yaiba” / “A Espada da Penitência”. Depois desta sua primeira obra cinematográfica irá assinar inúmeros filmes, abordando todos os géneros tornando-se nos anos trinta (do século xx), um cineasta profundamente respeitado pela crítica japonesa, mas ainda desconhecido do mundo ocidental.


No ano de 1936 assina a sua primeira obra sonora (recorde-se que o cinema mudo se manteve durante alguns anos no Japão, após o surgimento de “O Cantor de Jazz” / “Jazz Singer” nos Estados Unidos da América), intitulada “Hitori Musuko” / “Filho Único”. Participa na guerra do Japão contra a China, que antecede a entrada do Japão na 2ª Grande Guerra, encontrando-se em Singapura quando as tropas americanas derrotam os japoneses, tendo ficado prisioneiro das forças aliadas durante seis meses. Depois, como todos sabemos, deu-se a ocidentalização da sociedade japonesa e Yasujiro Ozu regressa ao cinema com “Nagaya Shimboroku” / “História de um Proprietário Rural”, mas será com o fabuloso “Banshun” / “Primavera Tardia” (já exibido comercialmente no nosso país), que o grande Mestre Japonês regressa ao lugar que lhe é devido entre os grandes do cinema do seu país. Recorde-se que, após a guerra, os temas abordados por Yasuiro Ozu navegam sempre no interior da família, sendo este o tema de eleição do seu cinema de autor.


Será com o sucesso estrondoso de “Rashomon” / “Às Portas do Inferno” de Akira Kurosawa, vencedor do Festival de Veneza, que o Ocidente irá olhar pela primeira vez para os ventos que sopram da Ásia. E nunca é demais salientar o papel de Donald Richie, um americano a viver no Japão, que irá dar a conhecer através das suas crónicas de cinema esse imenso Universo do Cinema Japonês, ao publicar os seus escritos em diversas revistas cinematográficas no Ocidente. E será durante a década de setenta (do século xx), que a visibilidade do Mestre Japonês surge, através de diversas retrospectivas. Recorde-se que em Portugal ele chegou em 1980, num ciclo memorável exibido na Fundação Gulbenkian; curiosamente, os filmes mais exibidos são os de final de carreira. Ainda recentemente foi possível ver na RTP 2 um ciclo do Mestre Japonês, a par de diversas reposições em sala e edição em dvd. E nunca é demais referir que só em 1958 o cineasta introduziu pela primeira vez a cor no seu cinema, com o espantoso “Flores do Equinócio” / “Higanbana”, sendo a sua última obra o belo “No Aji” / “O Gosto do Saké”. Yasujiro Ozu faleceu a 12 de Dezembro de 1963, tinha apenas 60 anos.


Ao ser descoberto pelo Mundo Ocidental, foram inúmeros os livros escritos sobre a sua obra cinematográfica e método de filmar, com os seus célebres raccord, usando sempre imagens fixas e neutrais para fazer a ligação dos planos, o célebre estilo Ozu, para já não falar nessa particularidade de filmar com a câmara ao nível do chão, quase sempre com a mesma equipa técnica, porque eles formavam a verdadeira família de Yasujiro Ozu, que manteve sempre uma vida muito “pacata”, ao contrário do seu colega de profissão Kenji Mizoguchi. Para além desse trabalho espantoso levado acabo por Donald Richie, será sempre de destacar o livro do cineasta e conhecido argumentista Paul Schrader “Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer”. Recomendamos também a visão da pelicula rodada por Wim Wenders intitulada “Tokyo Ga”, datada de 1985 e dedicada precisamente a Yasujiro Ozu.


Yasujiro Ozu e a forma peculiar 
de nos oferecer o seu olhar intimista.

Em “Tokyo  Monogatori” / “Viagem a Tóquio”, Skukichi (Chishu Ryu – ”alter-ego” do cineasta) e Tomi (Chieko Higashiyama) vivem com a filha mais nova Kyoko (Kyoko Kagawa), uma professora primária solteira. Um dia decidem, já no outono da vida, visitar os restantes filhos que vivem em Tóquio, ficando em casa do filho médico, que tem uma esposa deliciosa e dois filhos bastante irrequietos, já fruto dos tempos, repare-se na forma como eles enfrentam a autoridade da mãe. Mas a vida citadina já não é o que era, Tóquio e o Japão assistem a uma época de desenvolvimento, possuidora de uma industrialização avançada, patenteada por Yasujiro Ozu quando filma as chaminés das fábricas.


Os filhos entregues às suas novas vidas e sempre com muito pouco tempo para os acompanhar, terminam por enviá-los para uma estância de Verão e aqui o idoso casal é confrontado com o comportamento de uma nova geração. De manhã têm sempre oportunidade de olhar o mar, através do seu silêncio contemplativo, mas as noites são mal dormidas devido ao barulho e à música dos jovens veraneantes que se encontram no hotel, acabando por decidirem abandonar o local e regressar a Tóquio. Será nesse regresso forçado que este casal, onde está bem patente o amor que dedicam um ao outro, irá terminar por se despedir dos filhos e regressar a casa.


Nessa viagem de volta a Tóquio, o velho patriarca da família irá encontrar um grupo de velhos amigos e de imediato “o gosto do saké” e as saudades de outros tempos nascem, como uma última despedida da vida na cidade.
Ao regressarem a casa da sua filha solteira, são obrigados a fazer uma paragem em Osaka, porque Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama), a mãe daquela numerosa família, sente nascer nela o cansaço da longa jornada e o peso da idade. Por fim chegam à sua casa em Onomiche, mas o seu coração não resiste e parte para sempre.


Será no funeral de Tomi Hirayama que iremos reencontrar toda a família a prestar a sua última homenagem. Nunca será demais salientar a tranquilidade expressa no rosto de Skukichi, o marido, perante os acontecimentos, porque na sua mensagem o cineasta relembra que  todos sabemos que um dia teremos de partir. Ele é o perfeito retrato da serenidade, essa mesma serenidade com que Yasujiro Ozu foi filmando, ao longo da sua vida, os pequenos dramas familiares.
“Viagem a Tóquio”/ “Tokyo Monogatori” é de uma beleza transcendental, uma obra-prima absoluta da Sétima Arte.

domingo, 25 de setembro de 2016

George Gershwin / Oscar Levant / Vincente Minnelli


George Gershwin - "Concerto in F"
Oscar Levant - piano
"Um Americano em Paris" / "An American in Paris"
Vincente Minnelli

Oscar Levant foi pianista e compositor, mas muitos se recordam dele como actor em diversos filmes e muito em especial na película de Vincente Minnelli "Um Americano em Paris" / "An American in Paris". Amigo de George Gershwin, o pianista Oscar Levant estudou com Arnold Schoenberg e foi convidado pelo próprio Aaron Copland para interpretar algumas das suas composições. Com programas na radio e também na televisão, Oscar Levant percorreu diversas áreas ao longo da sua carreira, mas uma das suas interpretações mais célebres no cinema é esta memorável sequência que aqui vos deixo de "Um Americano em Paris" / "An American in Paris", em que ele interpreta todas as personagens que vemos no écran.

Boa audição!

Jardim Cinema


"451º Fahrenheit" de François Truffaut

Foi num cinema de Bairro que vi uma curta-metragem de Lauro António intitulada “Vamos ao Nimas” e nela era-nos dado a conhecer esse ambiente tão característico do chamado Cinema de Bairro, que oferecia quase sempre dois filmes numa sessão.
Muitos desses filmes vinham num prolongamento ou continuação de estreia, após terem feito a sua passagem pelas salas de estreia da capital, muitas delas na época verdadeiras catedrais cinematográficas, como sucedia com o Monumental, o Tivoli e o Império, só para citar algumas.


 Jardim Cinema

Morando eu na zona de S. Bento, tinha três salas que frequentava com regularidade: o Paris (já desaparecido), o Cinearte (hoje sala de Teatro) e o célebre Jardim Cinema (hoje em dia mais uma dessas lojas intituladas de "megastore"). E digo célebre porque ele tinha no seu interior um magnifico Salão de Jogos, com os seus bilhares, matraquilhos, entre outros jogos, nunca esquecendo a célebre pista de mini-carros onde se participava em verdadeiras competições, com a célebre moeda de vinte e cinco tostões. Eram 60 voltas com inúmeros despistes, chegando até muitos de nós a levar os seus próprios bólides, “religiosamente” tratados para essas fabulosas corridas, como fazia um primo meu.



As célebres cadeiras "palhinhas"  
e ao fundo da sala a zona das denominadas poltronas.

No entanto era o Cinema o meu principal ponto de interesse e aquela sala tinha um verdadeiro predicado, porque a maioria das cadeiras eram compostas por cadeiras de palha, as famosas palhinhas que na época custavam quatro a cinco escudos, existindo mais atrás uma outra zona onde se situavam as então chamadas poltronas (as cadeiras habituais nas salas de espectáculo) a seis escudos.
A sala era grande e possuía dois bares, um do lado direito quando se entrava na sala e o outro por debaixo da sala, muito mais extenso. E foram muitas as tardes em que eu entrava para a sessão das três horas e saía feliz às sete da noite, sempre maravilhado com filmes que ía descobrindo. É claro que nessa época ainda não fixava o nome dos realizadores, mas sim dos actores e como sempre fui bastante alto, lá passava, sozinho ou acompanhado pelo meio da multidão para ver os filmes para maiores de 12 anos.


"O Ouro de Mackenna" / "Mackenna's Gold"
de J. Lee Thompson, um filme descoberto no Jardim Cinema

Geralmente o nosso destino eram as poltronas, mas quando se gastava mais uma moeda nas corridas de carros, as célebres palhinhas esperavam por nós, até esse dia em que descobrimos que havia umas poltronas mais perto do écran, intituladas plano A, que passaram a fazer as nossas delícias.
Por vezes a fita partia-se e de imediato se ouvia burburinho na plateia, dirigido ao pobre projeccionista, mas o pior foi nesse dia em que estávamos todos agarrados a um policial, em que o herói estava sentado no avião e de súbito o célebre “mau da fita” saiu da casa de banho do avião de pistola em punho, dirigindo-se ao detective… e no écran surge a palavra intervalo!!!
Foi uma verdadeira revolta na “Bounty” no interior da sala e nós caladinhos, só não queríamos dar nas vistas, para vermos em paz o filme seguinte que era um desses “western” que faziam as nossas delícias, o que conseguimos, depois dos ânimos serenarem.


 Gregory Peck e Omar Shariff num western
que ofereceu a José Feliciano um hit memorável!

Mas se me perguntarem qual o filme que mais marcou nesta sala verdadeira mágica, ele foi o filme de François Truffaut intitulado “Fahrenheit 451”. Tinha na época nove anos e aquela história onde os livros eram proibidos marcou-me para sempre. Recordo-me que regressei a casa a meditar no assunto, eu que adorava livros e tinha a casa repleta de livros, nunca iria querer viver naquela sociedade e comecei a pensar qual o homem livro que iria desejar ser e rapidamente escolhi “Um Dia Diferente” do John Steinbeck, um livro que a minha mãe tinha comprado em edição da Bertrand, que ainda mora na minha companhia, um livro que Steinbeck escreveu para oferecer aos personagens do seu livro “Bairro da Lata” uma personagem feminina e lhes proporcionar uma nova vida. O cineasta/argumentista David Ward, irá levar ao cinema estes dois livros num único filme, através de um excelente argumento cinematográfico.


 Em "Fahrenheit 451" eu seria o homem livro
"Um Dia Diferente" de John Steinbeck

Dos actores que surgiam no filme de François Truffaut, “Fahrenheit 451”. só conhecia a Julie Christie que para mim, nessa época, representava a personificação de beleza, depois de a ter visto semanas antes no Cinema Monumental no “Longe da Multidão” / “Far From the Madding Crowd”, na companhia da minha mãe.
O facto de a Julie Christie, no filme, interpretar duas personagens surpreendeu-me no início, mas depois lá percebi a história. Muitos anos depois, “Fahrenheit 451” (adaptação ao cinema do famoso livro de Ray Bradbury) permanece um dos meus filmes preferidos do François Truffaut.


 Impossível esquecer a primeira vez que vi,
"Agente Secreto 007" / "Dr No", no Jardim Cinema!

E, com o passar dos anos, o Jardim Cinema passou a chamar-se Monte Carlo e as palhinhas desapareceram levando consigo as sessões de dois filmes, mais tarde o cinema partiu definitivamente e o Jardim Cinema passou a sala de espectáculos, mas já nada era como dantes. E mesmo quando ali assisti a um concerto da Suzanne Vega ainda no seu início de carreira, ao escutar as suas canções só me lembrava desses tempos em que se vivia o cinema como se ele fosse a mais bela e maravilhosa aventura de sempre. Hoje o extinto Jardim Cinema é mais uma dessas megastores que habitam Lisboa.