quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sydney Pollack – “A Intérprete” / “The Interpreter”


Sydney Pollack - "A Intérprete" / "The Interpreter"
(EUA/GB/FR - 2005) - (128 min. / Cor)
Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Yvan Attal.

O cinema de Sydney Pollack é herdeiro do cinema clássico e, mais uma vez, com “A Intérprete” / ”The Interpreter”, Sydney Pollack reitera essa mesma herança. Desta feita estamos de regresso ao policial no seu melhor estilo e tal como sucedia em “Os Três Dias do Condor” / “The Three Days of Condor”  não há lugar para o romance, repetindo-se a história do par Robert Redford/Faye Dunaway, aqui é a intérprete da O.N.U. Silvia Broome (Nicole Kidman) e o agente Tobin  Keller (Sean Penn), cujo destino traçou que os seus desejos (in)conscientes estivessem em margens opostas, com um rio de permeio.


Ao realizar “A Intérprete” / “The Interpreter”, Sydney Pollack oferece-nos mais uma das suas aparições. Mas também regressa ao filme político, desta feita a questão tratada é na verdade o regime de Robert Mugabe e o seu Zimbabué, que é apresentado debaixo do nome de Zuwanie e a trama é simples: o líder máximo do país, antigo vencedor da guerra colonial, elimina os seus adversários políticos sem contemplações, usando palavras que respiram ódio e morte, aqui também encontramos os célebres meninos-guerrilheiros na sua luta cega, tal como sucede hoje em dia em muitos países Africanos, nos quais as crianças são consideradas os melhores combatentes, infelizmente.


Será esta personagem, outrora libertador e nos dias de hoje ditador, que será recebido nesse território neutral, no coração da América, chamado Nações Unidas ou O.N.U. se preferirem, sendo acusado de crimes de genocídio por muitos e que pretende oferecer uma nova imagem perante o mundo, mas tudo se irá complicar ou melhor o plano traçado por ele, quando uma intérprete, conhecedora de um dos dialectos usados no Zuwanie, escuta sem querer uma breve conversa em que se planeia o seu atentado. Outrora profundamente envolvida na luta política no Zuwanie, a branca e loura Silvia Broome (Nicole Kidman), informa as autoridades da conversa escutada e o duro agente Tobin Keller (Sean Penn) é encarregado de acompanhar o caso, ao mesmo tempo que se torna responsável da segurança do político africano mal-amado.


Ao longo da película Sydney Pollack, à melhor maneira do cinema clássico, vai introduzindo na história um clima de tensão, em que não se sabe quem é o rato e o gato, por outro lado, o motivo da trama, esse célebre “MacGuffin” criado por Alfred Hitchcock em inúmeros dos seus filmes, lá nos vai piscando o olho, mas é toda a tensão que é criada à medida que a película vai avançando que nos agarra à cadeira, sem ser necessário grandes perseguições ou atentados, já que sabemos que eles vão acontecer, mas quando? A qualquer momento podem surgir, porque Silvia tornou-se uma personagem incómoda para muitos, mas por outro lado também não sabemos quais as suas verdadeiras intenções e será na descodificação da própria linguagem e no seu significado que iremos descobrir a pouco e pouco as razões de cada um dos personagens, porque no fundo todos eles têm as suas razões e o destino de quase todos eles será alterado ao longo do desenrolar da película.


“A Intérprete” / “The Interpreter”, de Sydney Pollack, marcou também o reencontro do cineasta com Nicole Kidman, já que ambos trabalharam juntos em “Eyes Wide Shut” / “De Olhos Bem Fechados” dirigidos por Stanley Kubrick e ninguém como Nicole Kidman poderia interpretar a personagem de Silvia Broome, sem qualquer espécie de artificio, apresentando-se tal como é ou foi, nunca saberemos nos dias de hoje, tais são as transformações fisícas/visuais encetadas pela actriz de filme para filme, como se de uma busca da personagem perfeita se tratasse e uma película que merece ser descoberta é o filme de Gus Van Sant “To Die For” / ”Disposta a Tudo”, porque o filme é ela, para muito pesar de Matt Dillon, depois temos essa obra-prima que são “As Horas” / ”The Hours”, mas aqui achamos que o Oscar só poderia ir para as três Damas, tal como sucedeu com o Prémio de Interpretação Feminina no Festival de Berlim. Mas regressando ao filme de Sydney Pollack, ele é na verdade magnífico, no sentido de uma sabedoria que só os grandes Mestres da Sétima Arte são possuidores, tentem descobrir esta magnifica película e não se esqueçam desse outro grande actor chamado Sean Penn, existem nele momentos únicos neste filme de Sydney Pollack, que merecem ser cuidadosamente revistos, reparem bem como a sua personagem, torturada pela perda da mulher que o tinha abandonado, o levam a respirar solidão por todos os poros e não se esqueçam de ver a forma como ele trabalha o olhar, expressando o silêncio e o desespero.


“A Intérprete”/”The Interpreter” é na verdade uma daquelas películas que uma segunda visão oferece leituras muito mais profundas do que se possa pensar e o Cinema, por vezes, é composto por filmes em que um segundo visionamento é na verdade uma verdadeira surpresa. Pelo Cineasta, pelos Actores, pelo Argumento, pela Montagem clássica “A Intérprete” merece a nossa visita!



Nota – Na edição em dvd, num dos extras, o cineasta explica e demonstra, usando o filme em questão, como o "pan and scan" destrói por completo o plano, chegando a eliminar personagens fulcrais na acção, ao mesmo tempo que comete um "adultério demasiado perigoso" cinematograficamente falando. 

4 comentários:

  1. Um excelente filme, muito actual e que nos mantem presos ao ecran desde o primeiro momento!

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    1. Concordo em absoluto, até a Nicole Kidman está excelente!
      Beijinhos

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  2. Excelente filme, com dois actores que gosto bastante. Muito, mesmo.

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    1. Como já deu para perceber sou fan do cinema de Sydney Pollack e este seu último trabalho de ficção é excelente e depois temos os actores que são magníficos e eu que até não sou um grande apreciador da Nicole Kidman, gostei imenso da sua interpretação, ao lado do sempre excelente Sean Penn.
      Bom domingo!

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