terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Shainee Gabel – “Uma Canção de Amor” / “A Love Song For Bobby Long”




Shainee Gabel - "Uma Canção de Amor" / "A Love Song To Bobby Long"
(EUA – 2004) – (119 min. / Cor)
John Travolta, Scarlett Johansson, Gabriel Match, Deborah Kara Unger.

Quando Mike Figgis nos ofereceu “Morrer em Las Vegas” / "Leaving Las Vegas", encontrámos a personagem interpretada por Nicolas Cage a naufragar no álcool de livre vontade, esperando ansioso pelo anjo da morte, o seu desempenho era extraordinário, valendo-lhe o Oscar, porém alguns anos depois John Travolta decide dar cartas no “género” ao protagonizar Bobby Long, um ex-professor de literatura transformado em farrapo humano, através do álcool e do tabaco, vivendo numa “estrumeira” na companhia de um ex-aluno, seu alter-ego, que se dispusera a escrever um livro relatando a vida do seu mentor, só que tal como ele também se deixou cair na miséria, sendo ambos uma espécie de “sem-abrigo”, vivendo numa casa deixada por uma amiga entretanto falecida. Naquele mundo (im) perfeito conviviam a miséria e a literatura, essa literatura que lhes enchia a alma, servindo de alimento espiritual à sua vida.


“Uma Canção de Amor” / “A Love Song For Bobby Long”, diga-se desde já, é um filme extraordinário, com uma direcção de actores rara para uma estreante na realização e aqui temos um John Travolta de cinco estrelas, na figura de Bobby Long, reparem no seu cabelo branco desgrenhado, a barba sempre por fazer, o cigarro ao canto da boca, a voz empastelada, os seus pés feridos arrastando uns velhos chinelos de dedo, bastando até olharmos com atenção para as suas roupas para sentirmos o cheiro que sai do seu corpo, esse corpo abatido e doente à espera da morte, consumindo cigarro atrás de cigarro e garrafa atrás de garrafa, a sua presença no filme é um verdadeiro murro no estômago e depois temos todo um conjunto de citações literárias que nos enchem a alma, porque a memória do passado é o único elo que os liga ao mundo real. E, como não podia deixar de ser, a acção decorre no sul dos Estados Unidos, mais concretamente em New Orleans, convocando desta forma para o seu interior nomes como Carson McCullers e Tennessee Williams, basta recordarmos as personagens de “A Balada do Café Triste” (essa Miss Amélia a quem Vanessa Redgrave deu vida) e “Coração Caçador Solitário” (um dos livros mais tristes e desesperantes que li na minha vida) da primeira, como todas as novelas e contos passados no sul, escritos pelo segundo, para descobrimos que tanto Bobby Long (John Travolta) como Lawson Pines (Gabriel Macht) poderiam ter nascido perfeitamente na escrita destes dois nomes grandes da Literatura.


Depois temos a grande questão do filme ou seja a jovem Purslane Hominy Will (Scarlett Johansson), representante perfeita dessa espécie intitulada “white trash”, que decide abandonar o namorado e partir para New Orleans, para assistir ao funeral da mãe, uma cantora que vira o brilho fugir cedo, a protectora de Bobby Long e Lawson Pines, já que todos habitavam a mesma casa, à beira do abismo humano. Quando Pursy Will chega à casa da mãe e encontra aqueles dois “vagabundos” no seu interior decide expulsá-los apesar de todas as explicações deles, para fazer da casa de sua mãe a sua nova habitação e recomeçar uma nova vida longe de uma outra já distante. Ali Pursy não tinha nada a perder e até possuía um tecto. O problema seria aquelas duas almas abandonadas à sua sorte e aqui começa esse estranho jogo da vida, chamado sedução, neste caso concreto, personificado através dos livros existentes no interior da casa. Pursy começa a lê-los e depois de travar conhecimento com Georgianna (a fabulosa Deborah Kara Unger), reconsidera e decide compartilhar o espaço com Bobby e Lawson, como fizera a sua mãe.


Scarlett Johansson surge em “A Love Song For Bobby Long” muitos furos acima do habitual, já que a jovem estrela ao ter uma entrada de leão no cinema, gerindo de forma perfeita a sua carreira, por vezes corre demasiado atrás da fama, que lhe tem sido proporcionada pela imprensa, assinando interpretações excelentes como é o caso desta sua Pursy Will, ao contrário da personagem criada em “A Good Woman”, a Meg Windemere, numa adaptação “muito livre” da famosa peça de Oscar Wilde. Mas se querem mesmo conhecer os primeiros grandes passos da Scarlett, procurem esse fabuloso filme de Robert Redford “O Encantador de Cavalos” / “The Horse Whisperer” e também essa obra secreta de Eva Gardós “Uma Rapsódia Americana” / “An American Rhapsody”, onde Scarlett deambulava pelas ruas de uma cidade chamada Budapeste, possuindo já esse olhar que iremos descobrir nas ruas de Tóquio, ao ser dirigida por outra mulher, esta americana e chamada Sofia Coppola.


“Uma Canção de Amor” / “A Love Song For Bobby Long” surge assim no interior da produção norte-americana contra a corrente, tendo no seu elenco um nome incontornável, John Travolta e outro seguro, Scarlett Johansson, sendo Gabriel Macht a grande revelação, já que Deborah Kara Unger está igual a si própria ou seja sempre excelente. Poderemos assim dizer que estamos perante um filme de actores, oriundos dessa vinha fabulosa chamada Hollywood, que nos tem oferecido ao longo da vida muitos momentos de felicidade, passados numa sala escura. Mas deveremos reter na memória o nome de Shainee Gabel, porque não é todos os dias que se assinam primeiras obras desta qualidade e ainda por cima contando com actores desta nomeada.
“A Love Song for Bobby Long” / “Una Canção de Amor” obriga-nos a olhar de outra forma para quem nos passa ao lado nas artérias do quotidiano, porque quantos deserdados da vida não esconderão no seu interior essa personagem chamada Bobby Long? Um filme que se recomenda a todos os amantes da Literatura!

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