sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ridley Scott – “Reino dos Céus” / “Kingdom of Heaven”



Ridley Scott - "Reino dos Céus" / "Kingdom of Heaven"
(EUA/MARROCOS – 2004) – (145 min. /194 min. - Cor)
Orlando Bloom, Eva Green, Liam Neeson, Jeremy Irons, Edward Norton.

Quando Ridley Scott realizou “Gladiador” / “Gladiator” em 2000, nunca se pensou que iríamos assistir ao regresso do “Peplum”, mas o sucesso obtido pela película, assim como os Óscares recebidos, levaram os Estúdios a olhar esse género esquecido com outros olhos, nascendo então “Troy” / “Tróia”, realizado pelo alemão Wolfgang Peterson, há muito radicado em Hollywood e “Alexander” dirigido por Oliver Stone, mas seria o reincidente Ridley Scott a triunfar mais uma vez com o seu “Reino dos Céus” / “Kingdom of Heaven”.


Este inglês, com provas mais que dadas e com uma assinatura inconfundível, já que o “background” da publicidade continua a fazer-se sentir, oferece-nos a sua visão da eterna luta entre cristãos e muçulmanos pela posse da Terra Santa, situando a acção no século XII, mais precisamente em 1184, quando o Rei Baldwin (Edward Norton) e os seus exércitos, apoiados pela Ordem dos Templários, lutavam com as forças do Príncipe Saladino pela posse desse território Sagrado para ambas as religiões. Mais uma vez os Estúdios situados em Marrocos deram o seu contributo fundamental para a rodagem da película, como já tinha sucedido em anteriores filmes do cineasta, como por exemplo “Gladiador” ou “Black Hawk Down” / “Cercados”.


Chegamos à Terra Santa acompanhando o trajecto de um jovem ferreiro chamado Balian (Orlando Bloom), que se irá tornar cavaleiro, quando após a morte da mulher e do filho encontra Sir Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), um nobre de Jerusalém que lhe irá revelar ser seu pai e detentor de terras na Cidade Santa, as quais irá herdar após a morte deste. Iremos então assistir à sua chegada ao Oriente, onde irá conhecer esse rei Leproso chamado Baldwin, que usa uma máscara de prata no rosto, para esconder as marcas deixadas pela doença, surgindo como a voz da moderação perante o espírito guerreiro e de pilhagem dos Cavaleiros da Ordem dos Templários, que combatem sem piedade os muçulmanos, sendo apresentados os seus excessos, sempre combatidos pelos cavaleiros fiéis ao rei, enquanto a Igreja abençoa os seus actos, como a luta contra o demónio muçulmano.


Será precisamente através da visão de Balian que o cineasta nos irá oferecer a sua mensagem, mas demos a palavra a Ridley Scott: “Balian é um agnóstico tal como eu. Não quer combater numa nova Guerra Sagrada. Eu tento demonstrar que nem todas as pessoas são boas no Ocidente e que nem todos os muçulmanos são maus. A tragédia é esta, nós nunca tivemos uma ponte de entendimento entre nós e novecentos anos depois das Cruzadas, nenhum de nós tenta efectivamente resolver as diferenças”.
As palavras do cineasta retratam perfeitamente a situação vivida ao longo dos anos com duas religiões vivendo de costas voltadas. Quando olhamos nos telejornais de todo mundo as imagens do quotidiano no Médio Oriente, somos sempre obrigados a interrogar-nos porque razão não é possível um entendimento entre Cristãos, Muçulmanos e Judeus, não só em relação à situação específica de Jerusalém, como no respeitante à Palestina e à existência do Estado de Israel, o caso do Líbano (outrora a Suiça do Médio Oriente) e a sua Guerra Civil, cujas feridas estão mais que abertas, daria para outro texto, falaremos disso quando falarmos de “O Círculo da Mentira” / "Die Falschung" de Volker Schlondorff. Estaremos sempre perante um daqueles conflitos em que nunca ninguém poderá responder pelo acto de ter atirado a primeira pedra, porque nesta guerra todos têm as suas razões e o que de melhor possui o filme de Ridley Scott é que ele nos oferece uma visão em que não há vencedores nem vencidos, não tomando nunca partido por uma das partes, talvez seja por essa razão que este filme foi amado por muitos e odiado por outros tantos.


A coexistência pacífica é a única solução, como me confessou um dia um jovem israelita com quem me cruzei na América, o grande problema no Médio Oriente são os extremismos e todos sabemos que eles habitam nos dois lados da barricada.
O cerco empreendido por Saladino a Jerusalém, em finais do século XII, é-nos mostrado de forma exemplar pelo cineasta, usando mais uma vez toda a sua sabedoria em conduzir o grande espectáculo cinematográfico, mas por outro lado também nos mostra como os interesses individuais por vezes são muito superiores aos dos Estados ou Religiões.


Mais uma vez Ridley Scott nos oferece, com este “Reino dos Céus” / “Kingdom of Heaven”, uma obra dirigida de forma perfeita e quando olhamos para o leque de actores convocados para a sua feitura, só podemos confessar que todos eles nos surpreenderam, desde Orlando Bloom, saído “ainda fresco” da trilogia de “O Senhor dos Anéis” / "Lord of the Rings", passando por Eva Green, que nos foi dada a conhecer por Bernardo Bertolucci no seu retrato de Maio de 68 em “Os Sonhadores” / “The Dreamers” e que aqui, ao interpretar a Princesa Sibylla, irmã do Rei Baldwin, nos oferece a sua melhor interpretação e depois temos esses valores sempre seguros e acima de qualquer suspeita chamados Jeremy Irons e Liam Neeson. Rever o “Reino dos Céus” / “Kingdom of Heaven” revela-se a perfeita magia dessa Arte chamada Cinema.

2 comentários: