terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Nicolas Roeg – “Eureka”



Nicolas Roeg - "Eureka"
(EUA/ING - 1984) - (130 min. / Cor)
Gene Hackman, Theresa Russell, Rutger Hauer, Mickey Rourke.

Nicolas Roeg é um dos muitos nomes que não possui referências imediatas no imaginário cinematográfico; no entanto, será interessante deixar aqui algumas notas para uma futura pesquisa do marido de Theresa Russell, antigo director de fotografia do cineasta britânico David Lean.


"Performance", produzido nos anos áureos de David Puttnam, é considerado por muitos um cult-movie. O seu cinema baseia-se essencialmente no ritmo vertiginoso da montagem e nos travellings que a invadem, não confundir com o zoom. Ao mesmo tempo, os argumentos apresentam-se portadores de inúmeras referências e citações que tornam a sua visão num verdadeiro jogo para cinéfilos. O nome de Nicolas Roeg encontra-se também interligado ao de David Bowie, através de "O Homem Que Veio do Espaço" / “The Man Who Fell to Earth”(1976), onde as potencialidades desse genial e inesquecível "homem-camaleão"/Ziggy Stardust, como actor, são reveladas pela primeira vez na celulóide, transformando-se no principal elemento do filme. Depois tivemos  o polémico filme dos nus frontais para as grandes audiências, intitulado "Aquele Inverno em Veneza" / “Don’t Look Now”, baseado no famoso livro da autora de "Rebecca", Daphne du Maurier, com a Julie Christie e o Donald Sutherland a darem corpo às personagens.


Outro caso de transposição de um corpo do musical para o grande écran é Art Garfunkel, surgido em "Bad Timing" / “Fora de Tempo”, o seu melhor trabalho, recorde-se que o célebre cantor/compositor/poeta se estreou no cinema na película “Catch 22” / “Artigo 22” de Mike Nichols. "Bad Timing" é a imagem possuída pela maturidade da personificação esmagada pelo desejo do corpo da pessoa amada, num mau sonho da realidade, que a memória impede de regressar. E a música de Keith Jarrett (o célebre "Kohl Concert" a abrir o filme) é portadora de imagens impossíveis de captar pelo olhar.


Em "Eureka", Nicolas Roeg leva até ao limite o ritmo de montagem em conjugação com as referências cinematográficas a duas obras-primas do cinema, uma da época do mudo, a outra do sonoro, o célebre filme de Charles Chaplin, "A Quimera de Ouro" / “The Gold Rush”  e  "O Mundo a Seus Pés" / “Citizen Kane” de Orson Welles, onde terminamos por descobrir na personagem de Jack McCann (Gene Hackman), o poder individual e megalómano da luta de um homem contra os mecanismos da Sociedade e do Estado, que termina com a solidão da derrota inevitável.
Nicolas Roeg, que possui sempre aquela "entrada" em todos os dicionários de cinema, merece ser descoberto, não só pelo ritmo da montagem mas também pelo trabalho de Theresa Russel, um nome que esconde um daqueles enormes talentos, infelizmente tão esquecidos pelo grande público. Quem se lembra dela em "O Fio da Navalha" / “The Razor’s Edge” de John Byrum ou na última película de Kazan, “O Grande Magnata” / “The Last Tycoon”!?

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