sábado, 3 de dezembro de 2016

Mike Leigh – “Segredos e Mentiras” / “Secrets and Lies”


Mike Leigh – "Segredos e Mentiras" / "Secrets and Lies"
(ING/FRA – 1996) – (142 min. / Cor)
Timothy Spall, Brenda Blethyn, Phyllis Logan, Marianne Jean-Baptiste.

Se Ken Loach é o último cineasta marxista da História do Cinema, já Mike Leigh, ao longo da sua obra, tem eleito a classe trabalhadora britânica como o elemento preponderante dos seus filmes, revelando de forma bem crua e fria a Inglaterra saída do “consulado” de Margareth Teacher, para anos depois ver o “remake” da História pela mão de David Cameron..
Em “Segredos e Mentiras” / “Secrets and Lies”, vamos mergulhar mais uma vez no interior das classes mais desfavorecidas e muito em particular na história de uma mãe que deu uma criança para adopção e que muitos anos depois a irá conhecer, descobrindo que ela é negra, o que motiva desde logo a escrita cinematográfica de Mike Leigh para nos convidar a conhecer como são profundas as raízes do racismo nas sociedades contemporâneas, sem qualquer distinção de classe.


Cynthia Purley (Brenda Blethyn, em mais uma extraordinária interpretação) no primeiro encontro com a filha que deu para opção quando apenas se tratava de uma recém-nascida, nem queria acreditar no que viam os seus olhos e só perante a insistência de Hortense Cumberbatch (Marianne Jean-Baptiste, que muitos conhecem da série de televisão “Sem Rasto”) decide conversar um pouco com ela. Aquele segredo da sua vida, já esquecido, nunca poderia ver a luz do dia, mas como também se encontra amargurada por o seu irmão Maurice Purley (Timothy Spall sempre a dar-nos o seu melhor nas películas dirigidas por Mike Leigh) não aceitar encontrar-se com ela, nem a convidar para conhecer a nova casa, depois de ter subido no escalão social, através da sua firma de fotografia que lhe proporcionou mudar-se para uma zona de elite de Londres, acaba por voltar a encontrar-se com a filha, para assim estreitar os seus laços familiares.


“Segredos e Mentiras” / “Secrets and Lies” revela-nos todo o saber do cineasta de “Naked” / “Nú” que, mais uma vez, nos oferece um retrato sem contemplações da Inglaterra contemporânea, verdadeiramente confrangedor, mas que também se aplica a qualquer outra sociedade Ocidental.
Mike Leigh transmite ao espectador o ódio e desamor dos personagens deste filme através dos diversos diálogos, à beira do abismo, sendo as discussões o espelho do seu quotidiano e quando a família Purley e em particular a outra filha de Cynthia Purley, descobrem que têm uma irmã negra, o caos nas relações com a mãe instala-se definitivamente.
Por outro lado a mãe biológica começa a sentir um especial carinho pela filha que abandonou após o parto, dando-a para adopção. E Hortense acaba por ser aceite, após uma inteligente luta, no interior daquela que é a sua família, sendo finalmente reconhecida como uma Purley.

Mais uma vez Mike Leigh assina uma película memorável, que é urgente redescobrir.

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