domingo, 11 de dezembro de 2016

Manoel de Oliveira : o Homem e o Cineasta! (1908 – 2015)


A minha avó sempre me disse que os grandes homens muitas vezes se conhecem pelos pequenos gestos “sem importância” e foi na verdade isso mesmo que um dia conheci, ao cruzar-me com Manoel de Oliveira na Cinemateca Portuguesa.

Foi num dia frio, mais concretamente 25 de Fevereiro de 1983, uma sexta-feira. Nessa época morava muito perto desse Templo do Cinema de então, chamado Cinemateca e todos os dias ali me encontrava a cultivar a minha cinéfilia militante. Estávamos em pleno ciclo do Cinema Dinamarquês, o qual incluía uma retrospectiva da obra desse grande cineasta chamado Carl Dreyer. E como habitualmente ali estava por volta das 20 horas para quando abrisse a bilheteira, às 20h30, conseguir comprar o tão desejado bilhete. Comigo estava um amigo e os habituais companheiros de aventura desses tempos, que diariamente ali iam amar a Sétima Arte. Mas esse dia foi diferente para todos nós, porque na fila para comprar bilhete também se encontrava Manoel de Oliveira.


Quando a porta se abriu entrámos todos para junto da bilheteira, no intuito de nos refugiarmos do frio que se fazia sentir e, quando a bilheteira abriu, foi de imediato colocada a placa de lotação esgotada. Ninguém queria acreditar no que estava a acontecer. Nenhum bilhete foi vendido e a lotação estava esgotada?
Recordo que na época os bilhetes eram só vendidos uma hora antes da sessão se iniciar e por este motivo decidimos todos não arredar pé dali, até perceber o que se passava. Entretanto começaram a chegar pessoas à bilheteira que diziam “uma palavra mágica” e recebiam em troca um bilhete.

Como não podia deixar de ser os protestos começaram a surgir, o cineasta Luís Filipe Rocha era uma das pessoas que ali se encontrava, bem como o Manuel Cintra Ferreira, na época já conhecido como crítico de cinema, mas que ainda não trabalhava na Cinemateca. O meu amigo, com o seu humor habitual, confessava a um colega de trabalho, também espectador habitual, que estávamos perante a angústia do cinéfilio perante o cinema, “citando” o título de um conhecido filme de Wim Wenders, “A Angústia do Guarda-Redes Perante o Penalty”. Já Manoel de Oliveira permanecia tranquilo no meio de nós, a aguardar serenamente o desenrolar dos acontecimentos.


A sessão que desejávamos tanto ver era composta pela curta-metragem “Eles Apanharam a Barcaça” / “De Naaede Foergen”, uma curta-metragem muito pouco vista de Carl Dreyer e a sua obra-prima “A Paixão de Joana D’Arc” / “La Passion de Jeanne D’Arc”, um dos filmes que Manoel de Oliveira mais admirava e sobre o qual já aqui escrevemos. E para aqueles que desconhecem convém dizer que naquela época a sala da Cinemateca era muito mais pequena do que a actual sala Félix Ribeiro.
Ao longo de uma hora assistimos atónitos ao levantamento dos bilhetes desses eleitos que foram enchendo a sala. Até que, já com a sessão a começar, surgiu o Dr. João Bénard da Costa que, dirigindo-se a Manoel de Oliveira, o convidou a entrar. Mas o cineasta, depois de agradecer o convite, disse: “só entro se estas pessoas que aqui estão também entrarem”. O barulho que se fazia deu lugar a um profundo silêncio e João Bénard da Costa, percebendo de imediato que Manoel de Oliveira era um homem de palavra, respondeu que havia pessoas que só tinham ido ver apenas a curta-metragem e como havia um pequeno intervalo entre as duas películas, quando elas saíssem poderíamos entrar. Assim esperámos todos pelo final da curta-metragem, na companhia de Manoel de Oliveira.


Um quarto de hora depois saíram alguns espectadores (muito poucos), entre os quais reconhecemos o João César Monteiro e o António Pedro de Vasconcelos e pouco depois, essas duas dezenas de espectadores, em que eu me encontrava, entraram para a sala para verem o tão desejado filme de Carl Dreyer. Manoel de Oliveira, tal como outros espectadores resistentes, viu os 98 minutos da película em pé, no fundo da sala, encostado à parede, enquanto eu e o meu amigo nos sentámos no chão. Quando a sessão terminou percebemos que tínhamos acabado de ver um dos mais deslumbrantes filmes da História do Cinema.

Como a vida é feita de pequenas memórias que nos enchem a alma de ternura, aqui deixo, passados 33 anos, na data do seu aniversário, o meu sincero e comovido Obrigado a esse homem chamado Manoel de Oliveira, cuja magnifica obra cinematográfica fala por si. E termino como comecei, recordando a frase da minha avó: são os pequenos gestos que, muitas vezes, definem um grande homem.

2 comentários:

  1. Um momento desconhecido da vida de Manoel de Oliveira! Assim se mostra a diferença!

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    1. Foram inúmeras as vezes que encontrei Manoel de Oliveira na Cinemateca, aguardando a sua vez para comprar bilhete na bilheteira.
      Boa tarde!

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