terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Joseph Losey – “O Criado” / “The Servant”



Joseph Losey – "O Criado" / "The Servant"
(ING – 1963) – (115 min. - P/B)
Dirk Bogarde, Sarah Miles, James Fox, Wendy Craig.

No filme “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, de Irwin Winkler, encontramos Martin Scorsese a interpretar a figura do cineasta Joe Lesser que, perante o avanço do famoso comité de actividades anti-americanas do senador McCarty, decide deixar Hollywood, porque sabe que já ninguém lhe irá dar trabalho, por se encontrar na Lista Negra dos Estúdios, decidindo fugir durante a noite para a Europa para evitar ser preso.
Na realidade, a personagem a quem Martin Scorsese dá vida é o cineasta Joseph Losey, que nunca escondeu nos seus filmes um certo olhar sobre a sociedade americana, que incomodava muita gente, bastando recordar essa película extraordinária que é “O Rapaz dos Cabelos Verdes” / “The Boy With Green Hair”, um poderoso filme anti-racista, que trouxe fama ao cineasta na época da sua estreia. Colocado na lista de homens a abater pelo temível senador, Joseph Losey foi obrigado a partir de Hollywood e a refugiar-se em Itália onde, para sobreviver, teve que trabalhar em diversos filmes de Série-B, escondendo a sua identidade debaixo de pseudónimos. E só seria em Inglaterra, o seu destino seguinte, que voltaria a assinar com o seu nome os filmes que então irá realizar.


“O Criado” / “The Servant” oferece-nos de forma contida a luta de classes, utilizando o microcosmo da relação entre um jovem aristocrata (James Fox, então em início de carreira) e o seu “fiel” criado de quarto (Dirk Bogarde, em mais uma excelente interpretação).
Tony (James Fox) é um jovem aristocrata que está para se casar com a bela Susan (Wendy Craig), também ela possuidora do mesmo estatuto social, que um dia decide contratar o denominado “criado de quarto”, surgindo a responder ao anúncio um homem discreto e culto, que acaba por ser aceite.
Porém Hugo Barrett (Dirk Bogarde) é um homem temível a todos os níveis que, com os seus bons modos e pequenas opiniões “sem importância”, começa a influenciar decididamente o patrão, passando rapidamente de assuntos triviais e mundanos, para a vida particular e social do seu patrão, terminando por dominá-lo interiormente, sem este se aperceber.


Para se apoderar melhor do controlo do seu amo, convence-o a contratar a sua “irmã” Vera (Sarah Miles) para os trabalhos de cozinha, escondendo que ela é na realidade a sua amante. E quando Hugo Barrett (Dirk Bogarde) começa a encontrar a oposição de Susan (Wendy Craig), perante a influência que ele exerce na casa, consegue convencer o patrão que ela nunca será a esposa de que ele tanto necessita, para brilhar ainda mais na alta sociedade, terminando, com os seus “bons modos”, por convencer o patrão a deixar a mulher que ama.
Lentamente, esta dupla perigosa, não só irá tomar conta da casa londrina, como irá manejar o jovem aristocrata a seu belo prazer, transformando-o numa personagem decadente, espelho perfeito dessa sociedade que Hugo Barrett tanto odeia.


“The Servant”/ “O Criado” surge assim como uma película que nos oferece um retrato cínico e feroz das relações sociais e a respectiva luta pelo poder (a que não será alheio o facto de o seu argumentista se chamar Harold Pinter), utilizando um olhar profundamente impiedoso sobre as respectivas personagens. Basta reparar na forma como Hugo no início rodeia Tony, o seu amo, de atenções e sugestões, para no final desprezar o farrapo humano que conseguira criar, quando se encontra já na posse plena da casa, verificando-se uma total e (im)perfeita inversão de estatutos, transformando-se ele no verdadeiro dono e senhor.
“O Criado” / “The Servant”, que já se encontra editado em Portugal, no formato dvd é uma obra que merece bem ser (re)descoberta.

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