sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ingmar Bergman – “A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”



Ingmar Bergman – "A Força do Sexo Fraco" /  “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”
(SUÉCIA – 1964) – (80 min. / Cor)
Jarl Kulle, Eva Dahlbeck, Bibi Andersson, Harriet Anderson.

Quando vimos pela primeira vez este filme de Bergman, ficámos na verdade surpreendidos, nessa época em que nos cinemas de Lisboa tínhamos quatro a cinco filmes do cineasta todos os anos (entre estreias e reposições). Falamos, claro, desses anos setenta, em que a cinéfilia vivia nas salas e fora delas, com intermináveis discussões nos cafés, após as sessões.
Muitos anos depois, ao revermos “A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor” em dvd, voltámos a sentir essa mesma surpresa, porque o cineasta nos oferece uma obra em que o burlesco está bem presente, basta reparar na banda sonora de certas sequências, ao mesmo tempo que descobrimos uma homenagem a esses tempos do cinema mudo.


Também é do conhecimento geral que Ingmar Bergman, nas suas memórias, demonstra não ter grande apreço pela obra, a qual foi um insucesso comercial e da crítica. Mas se olharmos bem para “A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”, iremos descobrir um filme que nos oferece momentos únicos, na obra do grande cineasta sueco.
Tudo começa no velório desse grande músico, mestre do violoncelo, que vivia recluso na sua casa acompanhado por sete mulheres, sendo Adelaide (Eva Dahlbeck) a oficial e as restantes, suas amantes, desde a pupila eleita e desprezada, até à criada (Harriet Andersen). Todas elas irão, no início do filme, prestar a sua homenagem ao falecido músico, pronunciando todas a mesma frase. Por seu lado o crítico musical Cornelius (Jarl Kulle, fabuloso) prepara-se para fazer o seu elogio fúnebre, ele que até pretendia ser o seu biógrafo oficial.


Surge então o flash-back, que nos irá contar os três dias que antecederam a tragédia. Iremos assim descobrir que o crítico visita o célebre músico com o pretexto de pretender escrever a sua biografia, embora a verdadeira razão seja convencê-lo a interpretar uma obra de sua autoria. Uma daquelas obras mais que menores, que caiem no esquecimento após a primeira audição. Cornelius inicia, durante esses três dias, uma longa caminhada para aceder a Félix, do qual nunca vimos o rosto, mesmo quando ele decide hipotecar a sua arte e interpretar a obra do crítico, morrendo nesse momento de ataque cardíaco, porque na verdade tinha decidido vender a sua genialidade e os Deuses não lhe perdoaram o gesto.


Ao longo desses dias, Cornelius irá descobrir o mundo em que Félix vive, à medida que vai conversando com as respectivas mulheres que habitam a casa, ou escondendo-se pela casa para escutar os seus segredos mais íntimos, que navegam pelos quartos e corredores daquela majestosa mansão, percebendo que estas musas inspiradoras existem apenas para oferecer os seus prazeres carnais. Mas o que lhe interessa verdadeiramente é que o músico interprete a sua pequena peça musical.
Por outro lado, a figura do crítico surge aqui também como uma espécie de desmistificação dessa personagem que habita todas as Artes.
“A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor” surge assim na obra de Ingmar Bergman como uma espécie de “ovni” recorde-se que o seu filme anterior foi “O Silêncio” / “Tystnaden” e o posterior essa obra-prima intitulada “Persona” / “A Máscara”, ao mesmo tempo que nos oferece uma meditação sobre o papel do crítico perante a Arte. Uma verdadeira lufada de ar fresco, com um sorriso nos lábios.

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