segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Howard Hawks – “Hatari!”


Howard Hawks – "Hatari!"
(EUA – 1962) – (157 min. / Cor)
John Wayne, Elsa Martinelli, Red Buttons, Hardy Kruger, Gerard Blain, Bruce Cabot, Michèle Girardon.

Três dos grandes cineastas do cinema clássico nunca esconderam o seu fascínio por África. Se John Ford realizou essa obra-prima chamada “Mogambo”, já John Huston fez nascer “A Rainha Africana” / “The African Queen” e muito se falou que estes filmes serviam de simples pretexto para os cineastas levarem a cabo as suas caçadas no continente africano, durante as pausas nas filmagens, que muitos anos depois iriam servir de tema a esse fabuloso e pouco conhecido filme intitulado “Caçador Branco, Coração Negro” / “White Hunter, Black Heart” de Clint Eastwood. E como não podia deixar de ser, Howard Hawks também decidiu rodar o seu filme na região do Tanganica, como se ele fosse um “western” como tantas vezes referiu.


E logo na abertura, muito antes do aparecer o genérico do filme, entramos nesse universo de caçadores em busca das suas presas, para depois as enviarem para os respectivos jardins zoológicos, com a célebre tentativa de captura do rinoceronte, a mais perigosa presa para aqueles homens. Eles tratam as viaturas como se estivessem a cavalo, não olhando a meios para atingir os seus fins, embora o sucesso da captura seja nulo, terminando um deles, o Índio (Bruce Cabot), por ficar gravemente ferido.


Estamos assim perante um filme em que o universo masculino impera, apesar da existência de uma mulher, Brandy (Michèle Girardon), que foi nascida e criada naquele território na companhia do pai que liderava aquele grupo destemido de homens, mas que iria morrer numa das tentativas de capturar o perigoso rinoceronte. No entanto ela sempre foi vista por todos como a miúda e sempre tratada como uma filha. Mas os anos passaram e ela cresceu, tornando-se uma formosa mulher, embora todos escondam o que os seus olhos começam a ver, especialmente Kurt (Hardy Kruger), quando esta lhe pede para ele lhe apertar o fecho do vestido.


Com a imobilização forçada do Índio (as alcunhas navegam entre eles), um novo elemento entra na equipa, chama-se Charles, imediatamente tratado por Chips, o francês (Gerard Blain – lembram-se dele em “O Amigo Americano” de Wim Wenders?) e quando menos se esperava este grupo irá ser perturbado pela chegada de um fotógrafo de um zoo chamado A.M. D’Alessandro, que todos pensam tratar-se de um homem, mas que não passa de uma mulher destemida que deseja fotografar a captura dos animais. Também ela será baptizada por eles, ao receber o nome de Dallas (Elsa Martinelli), passando a ser o elemento desestabilizador daquele universo predominantemente masculino, tal como sucede em “Only Angels Have Wings” / “Paraíso Infernal”, também realizado por Howard Hawks.


Nesta película, onde são inúmeras as cenas de comédia, especialmente protagonizadas por Pockets (Red Buttons), iremos assistir ao duelo entre Kurt e Chips pela conquista do coração de Brandy, mas será o irreverente Pockets a ficar com ela, porque Brandy na verdade ama homens mais velhos. E por falar em homens mais velhos, onde se situa John Wayne (o célebre xerife de Rio Bravo) no interior deste grupo de homens? Ele é o líder, que odeia a presença feminina de Dallas, porque ela lhe recorda o passado, esse passado que fora destroçado pela presença de uma mulher que conquistou e depois o abandonou. Por isso mesmo, para ele, o perigo não vem dos animais que caça, mas sim do corpo feminino.


Iremos assim assistir, ao longo das diversas caçadas (filmadas sempre com grande mestria por Howard Hawks), aos avanços sentimentais de Dallas na direcção de Sean Mercer (John Wayne, tinha que ser irlandês!), ao mesmo tempo que ele finge estar desinteressado. Até que depois de caçados búfalos, zebras e macacos (através dessa experiência bastante explosiva de Pockets que leva os indígenas a gritar Hatari! sinónimo de perigo, “fujam todos que o branco enlouqueceu”), iremos descobrir como a caçada ao elefante, apesar de fracassada irá oferecer àquele grupo a chegada de uma cria, imediatamente baptizada de Tembo, que irá seguir Dallas para todo o lado como se ela fosse a sua mãe e imediatamente adoptada por ela, com as inevitáveis complicações para lhe darem leite (de cabra).

Howard Hawks

Mas Tembo tem o condão ou a magia, se preferirem, de fazer surgir no acampamento os seus amigos de infância e de um elefante bebé passamos a ter três, o que complica ainda mais a situação vivida, sempre com Dallas a tratar deles, ao mesmo tempo que continua os seus avanços em direcção a Sean. Até chegar esse dia fatídico em que lhe pergunta como é que ele gosta de ser beijado, a sua armadura fica então destruída e Sean cai-lhe positivamente nos braços.
Se por um lado Sean não irá resistir àquela mulher, já Kurt e Chips percebem que a bela Brandy os pôs fora de combate quando vai socorrer Pockets, que fingiu estar ferido. Surgem assim dois romances em território africano, mas Dallas decide partir após a captura do temível rinoceronte, por Sean não se decidir a casar com ela, fugindo do acampamento. Nasce então um dos momentos mais memoráveis do filme, com Sean e os seus homens em busca de Dallas na cidade para a impedirem de partir acompanhados, imagine-se, pelos três elefantes bebés, que acabam por descobri-la e a alcançá-la após corridas intermináveis pela cidade, incluindo o pequeno elefante a fazer estragos no interior de uma loja… haveria porcelanas por ali?

John Wayne e Elsa Martinelli,
um par perfeito em "Hatari!"!!!

Finalmente encontrada por Sean, Dallas acaba por renunciar à partida de África e, mais tarde, iremos descobrir no acampamento que eles se casaram naquela mesma tarde. Quando se preparam para a sua oficial noite de núpcias, o seu quarto é invadido pelos elefantes bebés que pretendem permanecer junto da sua mãe adoptiva, noutra sequência memorável.
Rever este “Hatari” de Howard Hawks é mergulhar numa das obras-primas do cineasta, onde mais uma vez a mulher irá destabilizar o mundo masculino com a sua presença, tal como sucede no famigerado “Rio Bravo”, também com John Wayne no protagonista. “Hatari” essa célebre aventura africana de Howard Hawks, respira cinema por todos os poros!

2 comentários:

  1. Um dos meus filmes favoritos! Basta ter o Tembo e os seus dois amigos!

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    1. Um dos grandes filmes do Cinema Clássico com interpretações magnificas e uma realização genial de Howard Hawks.
      Bom fim-de-semana!

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