quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Billy Wilder – “O Inferno na Terra” / “Stalag 17”




Billy Wilder – "Inferno na Terra" / "Stalag 17"
(EUA – 1953) – (120 min.-  P/B)
William Holden, Don Taylor, Otto Preminger, Robert Strauss.


“Stalag 17” é um dos inúmeros campos de concentração espalhados pela Alemanha durante o período da Segunda Guerra Mundial e Billy Wilder vai-nos oferecer o seu retrato desse campo, partindo como em “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”, através dessa voz-off que nos vai relatar uma das muitas histórias ocorridas naquele campo, porque o narrador que está vivo e não é William Holden, mas sim o seu jovem colega de camarata, farto das histórias que o cinema tem oferecido dos campos de concentração alemães.



Com uma entrada destas, Billy Wilder situa o espectador nesse território tão amado que é o “Lubitsch touch”, com a célebre referência ao cinema: mas também descobrimos que a forma como ele nos retrata os alemães é bem diferente do habitual. Até mesmo o Coronel von Scherbach (Otto Preminger) nos surge não como um terrível sanguinário, mas sim um dos oficiais da cavalaria que tinha combatido na Primeira Grande Guerra. Essa mesma cavalaria que via os seus elementos mais novos a serem enviados para as divisões “Panzer”, enquanto os mais velhos, como ele, ficavam a comandar os Campos de Concentração. Por outro lado são inúmeras as semelhanças entre este oficial e o protagonizado por Erich von Stroheim em “A Grande Ilusão” / “La Grande Illusion” de Jean Renoir e poderemos dizer que certamente não é por acaso, porque Billy Wilder, como todos sabemos, é dos Grandes Mestres do Cinema!


Estamos em pleno Inverno no início do filme e de imediato vemos dois homens a preparar uma fuga do campo, fuga essa que não será bem sucedida, terminando estes por ser mortos. E na camarata todos se interrogam como é que os alemães sabiam dos passos deles, iniciando-se um clima de desconfiança entre todos os sargentos que ali se encontram, embora seja Sefton (William Holden) quem se irá encontrar na corda bamba, já que ele apostou que eles não iriam conseguir escapar do campo.


O sargento J. J. Sefton (William Holden) é um homem amargo, que tenta sobreviver o melhor possível no campo, não acreditando em heroísmo e boas vontades, ele melhor do que ninguém sabe como o mundo é cínico e tenebroso e por isso mesmo a sua mordacidade não é muito bem aceite. Depois a facilidade com que ele circula no campo levanta imensas suspeitas e todos pensam que ele é o delator. Mas para complicar mais as coisas os alemães sabem tudo o que se passa naquela camarata, ora é o rádio que é descoberto, ou o tenente-aviador James Dunbar é denunciado ao comandante do campo como o responsável pela sabotagem de um comboio alemão que transportava munições. E aqui, Sefton quase é linchado pelos seus companheiros de infortúnio.


Mais azedo e ácido do que nunca, Sefton (William Holden) jura a si mesmo que irá descobrir quem é o delator, porque naquele lugar só dois homens sabem que ele está inocente: ele próprio e o denunciante.
Escorraçado e ignorado por todos, Sefton tem pela frente a sua mais perigosa missão, descobrir o traidor ou talvez não seja um traidor, mas simplesmente um soldado alemão que se encontra ali infiltrado, para assim transmitir de forma mais segura aos seus superiores o que se passa no campo de detenção.


Billy Wilder oferece-nos o quotidiano do campo, sempre com aquele toque que celebrizou Lubitsch, mas se pensam que estamos perante uma comédia, estão bem enganados. Porque apesar dessa atracção que o Animal (Robert Strauss) sente por Betty Grable, ou pelas prisioneiras bolchevistas que se encontram no campo de concentração feminino, iremos descobrindo lentamente como naquele pequeno mundo o ódio circula por entre os barracões e apesar das diversas atitudes de solidariedade que o cineasta nos retrata, tão comuns nos filmes desta temática, Billy Wilder oferece-nos a sua visão através do sargento Sefton, uma inesquecível interpretação de William Holden, que lhe irá dar o Óscar da Academia de Hollywood, assim como o cineasta Otto Preminger nos surpreende a todos com a sua interpretação, veja-se bem o seu encontro com o enviado da Cruz Vermelha e a forma como ele desdenha a famosa Convenção de Genebra.
Mais uma vez Billy Wilder nos dá uma obra profundamente cativante, neste seu retrato dos campos de concentração. “O Inferno na Terra” / “Stalag 17”é uma película que merece ser recordada por todos.

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