quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Wong Kar-Wai – “O Sabor do Amor” / “My Blueberry Nights”


Wong Kar-Wai – "O Sabor do Amor" / "My Blueberry Nights"
(HONG-KONG/FRANÇA – 2007) – (90 min. / Cor)
Jude Law, David Strathairn, Rachel Weiiz, Natalie Portman, Norah Jones.

Quando todos nós descobrimos “Chungking Express”, decidimos fixar o nome do cineasta Wong-Kar Wai. A partir de então foram muitos os que seguiram a carreira do realizador, cujos filmes têm tido estreia nas nossas salas, ao mesmo tempo que a sua obra foi tendo a respectiva edição em dvd, possibilitando-nos a descoberta de um verdadeiro autor, nesse sentido em tempos traçado pelos “Cahiers du Cinema”.


E basta ver o início do filme para identificarmos a sua autoria, apesar do seu habitual colaborador, o director de fotografia Christopher Doyle, ter sido substituído por Darius Khondji. A cor e os elegantes movimentos de câmara continuam a fascinar e, mais uma vez, o cineasta decide contar-nos diversas histórias no mesmo filme, como já tinha acontecido em “Chungking Express” e “Anjos Caídos” / “Fallen Angels”. E se muitos temiam o pior, pelo facto de o filme ser rodado na América com actores ocidentais, verificamos que isso não foi impedimento para a sua marca continuar bem patente.


E não será demais referir que Wong Kar-Wai consegue oferecer a Rachel Weitz a sua melhor interpretação de sempre, transformando-a numa personagem à beira do abismo, nesse território complexo que se chama o amor, onde a batalha se trava com David Strathairn (um dos maiores actores norte-americanos, que é urgente descobrir), ambos estão na sua história de amor em perfeita sintonia, oferecendo-nos uma verdadeira pérola cinematográfica.



Já Jude Law revela ter chegado a esse momento em que o actor se transforma em estrela, numa interpretação espantosa. Surgindo aqui em todo o seu esplendor, numa personagem que nos cativa desde o primeiro momento nesse bar repleto de néons, em busca da chegada desse célebre cliente que um dia irá provar a sua tarte de mirtilo.
Por outro lado, quando se teve conhecimento que a cantora Norah Jones (filha do célebre músico indiano Ravi Shankar) iria participar na película, estreando-se assim na Sétima Arte, muitos temeram o pior, mas ela acabou por cumprir o papel que lhe foi destinado, alguém que passa por nós sem darmos por ela, perdida no anonimato da multidão que caminha pelo universo. Quanto a Natalie Portman, ela veste a pele de Leslie, essa jogadora viciada no bluff, que faz da vida um verdadeiro jogo de apostas onde se perde muito mais vezes do que se ganha, esperando sempre que esse dia magico em que tudo irá mudar está para chegar.


Jeremy (Jude Law) possui no seu bar um pote de vidro onde vai depositando as chaves que os clientes esquecem nas mesas. E Elizabeth (Norah Jones) será mais uma cliente a deixar as suas chaves ali perdidas para sempre, de forma premeditada, porque sabe que chegou o momento de partir, porque o amor se encontra em fuga, e confessa isso mesmo a Jeremy (não as quer de volta), transformando-se ele no seu guardião de memórias. E, como muitos, Elizabeth sabe que a melhor forma de esquecer um amor é fugir para longe, deixando Nova Iorque e partindo para a costa do Pacífico.
Ao longo da sua viagem irá atravessar a vida de outras pessoas, numa deambulação que irá terminar com o seu regresso ao ponto de partida, descobrindo em Jeremy esse desejo de amar, no interior da noite.


A forma como Wong Kar-Wai nos narra o seu percurso e a história das diversas personagens que ela vai encontrando pelo caminho, oferece-nos uma profunda meditação sobre a redenção do amor, transformando “My Blueberry Nights” / “O Sabor do Amor” numa película que merece ser vista e comparada com a sua obra anterior, apesar de nela não encontrarmos essa família de actores que ele nos foi oferendo ao longo do tempo.


Optando pelo “scope” o cineasta oferece-nos um filme profundamente intimista, filmado com um saber único, repare-se como ele nos oferece o encontro entre Rachel Weitz e David Strathairn no bar, com uns diálogos de uma beleza e simplicidade absolutas. “My Blueberry Nights” / “O Sabor do Amor” respira cinema por todos os poros, convidando-nos a olhar, mais uma vez, os percursos sinuosos desse sentimento a que decidimos chamar Amor.

Sem comentários:

Enviar um comentário