segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Two For The Road


Pertenço a essa geração que elegeu nos anos setenta o café como segunda habitação. Por ali passava os meus dias, mais a ler os livros que amava, do que a estudar e como não podia deixar de ser tinha os meus cafés favoritos, onde me encontrava com os amigos e colegas de liceu. As conversas iam da literatura ao cinema, passando pela música, e sempre que surgia um novo livro ou disco na mesa, entre as bicas que consumíamos, de imediato surgiam maravilhosas trocas de opinião. Curiosamente nunca nasciam discussões entre nós e todos usufruíamos dessa liberdade de exprimir os nossos pontos de vista, ao longo dos dias e das noites.

Hoje, ao regressar a um desses cafés de que fui habitante, encontrei um velho amigo de liceu, na habitual mesa que tantas vezes nos serviu de encontro. A sua fisionomia era diferente, mas o característico brilho do seu olhar permanecia no seu rosto, como se o tempo não tivesse passado por ele e quando me viu saudou-me efusivamente.
Enquanto conversávamos percebi, ao olhar o café e os seus habitantes, que por ali pouco mudara. Os empregados eram os mesmos, carregando a passagem do tempo nos seus ombros e até alguns dos clientes mais antigos ali permaneciam, agarrados a um jornal, que devoravam na passagem das horas, aguardando por esse momento de recolher ao lar, como os pássaros fazem ao regressarem ao topo das árvores que lhes dão abrigo no final do dia.

O meu amigo interrompera com a minha aparição a leitura das entrevistas da “Paris Review”, que em boa hora viu a luz do dia no nosso país e embora eu pretendesse saber a sua opinião acerca do livro, ele preferiu colocar-me ao corrente da sua nova aventura.
Tudo começara num dia igual a todos os outros e como habitualmente saíra de manhã cedo de casa, apanhando o autocarro de sempre, rumo ao emprego.
Ao entrar no gabinete, reparou que durante o fim-de-semana alguém andara a mudar os móveis, transformando-o num verdadeiro acampamento e após ter sido posto ao corrente das mudanças em curso, decidiu arrumar melhor algumas das pastas e dossiers que, adormecidas pelo chão, aguardavam que alguém lhes oferecesse um lugar condigno. Mas o trabalho como sempre estava atrasado e ele percebeu que poderia viver no meio daquele caos, dando início a mais um dia de trabalho, rodeado por pilhas de papéis a aguardarem despacho. No cimo do móvel frágil, que cobria por completo uma das paredes, alguém decidira colocar diversos monitores de computador sem uso, à espera dessa última viagem rumo à sucata.

Os minutos foram passando e ele por diversas vezes olhava para o cimo do móvel, tentando perceber a razão porque tinham eleito este, já de si tão carregado de pastas, como a nova casa daqueles monitores, certamente uma razão que a própria razão desconhecia. Quando Inês entrou no gabinete, para o convidar para o habitual café das 10 horas, ele aceitou de imediato, levantando-se da cadeira para ir beber a bica na companhia da sua colega preferida e nesse preciso momento os monitores começaram a cair do móvel, que finalmente cedera ao peso, atingindo um deles precisamente a cadeira onde ele segundos antes estivera sentado, partindo-a de imediato, ao mesmo tempo que os dossiers começavam a cair como se tratasse de um terramoto. Ainda foi atingido por uns, mas sem gravidade e depois ficou colado ao chão sem dizer palavra enquanto um mundo de papéis e pastas de arquivo voava pelo espaço.

Alguns colegas entraram na sala ao ouvirem o barulho e foi a muito custo que evitaram o desabamento total das estantes. Inês, branca como a cal da parede, não articulava palavra e só passados uns minutos, que mais pareciam horas, ambos voltaram a falar. Se ela não tivesse ido convidá-lo para beber o habitual café matinal, como fazia todas as manhãs, já lá iam um bom par de anos, ele naquele preciso momento estaria morto.

O afecto que ambos sentiam um pelo outro, mas que sempre se mantivera escondido, veio ao de cima durante o almoço e dias depois ambos pediram a demissão e encetaram uma nova vida, em comum, ao som dessa bela canção intitulada “two for the road”.

Ao escutar esta história, fui obrigado a pensar como a vida por vezes é feita de acasos, que nos levam a trilhar rumos diferentes, dos que tão cuidadosamente planeamos para a nossa existência, ao mesmo tempo que senti como é ténue o fio invisível que separa a vida da morte. 

in "Contos"

Mr. Vertigo

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