segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Steven Soderbergh – “O Bom Alemão” / “The Good German”



Steven Soderbergh – "O Bom Alemão" / "The Good German"
(EUA – 2006) – (105 min. - P/B)
George Clooney. Cate Blanchett, Tobey Maguire, Beau Bridges, Jack Thompson, Christian Olivier.

A História do Cinema está cheia de frases que fizeram história e, curiosamente, Steven Soderbergh é autor de uma delas, proferida quando em 1989 surpreendeu tudo e todos ao vencer a Palma de Ouro do Festival de Cannes: “a partir de agora é sempre a descer” e assim aconteceu.

Steven Soderbergh

Como todos sabemos, Steven Soderbergh entrou pela porta grande do cinema com uma produção independente, feita com poucos recursos e intitulada “Sexo, Mentiras e Vídeo” / “Sex, Lies and Videotape” e ainda hoje, ao revermos o filme, somos obrigados a reconhecer toda a sua genialidade e talvez por isso mesmo ele tenha partido na sua obra seguinte para a então Checoslováquia, para aí realizar essa película espantosa intitulada simplesmente “Kafka” com um Jeremy Irons e uma Theresa Russell inesquecíveis, num denso preto e branco, passando a imagem a cores quando o protagonista entra no célebre “Castelo” de Franz Kafka, de onde é retirado o argumento.
O falhanço comercial desta obra ditou o destino de Steven Soderbergh e durante cerca de nove anos o seu nome caiu no esquecimento, assim como as obras que rodou durante esse período: “King of the Hill”(93), “Underneath”(95), “Gray’s Anatomy”(96) e “Schizopolis” (96); seria em 1998, quando juntou no écran George Clooney e Jennifer Lopez (em “Out of Sight” / “Romance Arriscado”), que o seu nome voltaria à ribalta, para além dos excelentes resultados de bilheteira.


Steven Soderbergh é, hoje em dia, o cineasta que melhor se movimenta no interior da Indústria e dos grandes Estúdios, embora nunca renegue a sua filiação ao cinema independente, onde nasceu. Será o seu conhecimento perfeito tanto da indústria, como do movimento “indie” que, conjugados por ele, lhe possibilitam filmar com uma total independência de todos. E repare-se como, após o sucesso de “Out of Sight” / “Romance Arriscado” (aqui nasceu a amizade com Clooney), se lançou a fazer uma obra-prima independente convocando como protagonistas grandes actores esquecidos pelos Estúdios Americannos, referimo-nos a Terence Stamp e Peter Fonda em “The Limey” / “O Falcão Inglês”, em que temos um ex-presidiário inglês em busca do homem que lhe matou a filha nos Estados Unidos, uma obra com uma direcção de actores sem mácula e uma realização acima de qualquer suspeita. Estava lançada a estratégia de Steven Soderbergh: fazer filmes para os Estúdios ao mesmo tempo que realizava as suas obra mais pessoais e estilísticas e assim tem acontecido com Óscares, grandes receitas, público fiel e reconhecimento crítico generalizado.


Desta forma nasceu “Erin Brockovich”, um veículo perfeito para Julia Roberts ganhar o Oscar, para mais tarde, com “Traffic” / “Traffic – Ninguém Sai Ileso”, o cineasta sair em ombros. A partir desse momento Steven Soderbergh toma as rédeas do seu destino e depois de realizar o estrondoso sucesso de “Ocean’s Eleven” / “Ocean’s Eleven – Façam as Vossas Apostas” para os Estúdios, convoca alguns dos actores desta película, nos quais se incluíam Brad Pitt e Julia Roberts e roda um filme de baixíssimo orçamento intitulado “Full Frontal” / “Vidas a Nú”, uma pequena surpresa para todos, incluindo os próprios actores quando foram informados que não haveria carros nem motoristas para os ir buscar a casa e teriam de contracenar com as suas próprias roupas e todos assim fizeram, incluindo Julia Roberts, um pouco contrariada..
Quando Steven Soderbergh decidiu fazer o “remake”  de “Solaris”, uma das obras-primas de Andrei Tarkovsky, ninguém temeu o pior porque todos sabiam estar o “remake” ou melhor a homenagem a Tarkovski, em muito boas mãos e George Clooney e a maravilhosa Natasha McElhone não o desmentiram, o “Solaris” americano é soberbo, embora os resultados não tenham sido os desejados pelo Estúdio. Talvez por isso mesmo nasceu  “Ocean’s Twelve” / “Ocean’s 12”, com a eficácia habitual e que arrastou multidões e mais uma vez o cineasta decidiu experimentar as leis do mercado, numa aventura até aí única, revelando-se como um pioneiro ao realizar “Bubble”, com actores amadores e fazendo o seu lançamento comercial, simultaneamente, nos cinemas, televisão e DVD. E assim chegamos a “The Good German” / “O Bom Alemão”.


Estamos em Berlim no ano de 1945, na véspera da Conferência de Paz de Postam e vamos encontrar essa cidade destruída, olhada por um correspondente de guerra, Jacob Geismer (George Clooney), Jake para os amigos, mas será que os tem?
A cidade para ele possui um passado, um passado feito de trabalho e de amor, amor por uma alemã que teve ao seu serviço como “freelancer” como ele gosta de dizer, não a secretária e será ao olhar para a cidade em ruínas que irá tentar descobrir o paradeiro de Lena Brandt (Cate Blanchett).
Quando ele entra no jipe que o vai esperar ao aeroporto somos confrontados pelo motorista que lhe foi destinado, um Tully (Toby Maguire) igual a milhares de GI que por ali andam, só que este possui dois defeitos que Jake (George Clooney) irá descobrir, primeiro é corrupto “até à ponta dos cabelos”, traficando todo o género de material e depois anda com Lena, a bela e misteriosa Lena, tão desejada por todos.


Como sabemos, nesta Conferência realizada ainda com o Japão a combater, o futuro da Europa foi traçado numa mesa como se fosse um Tratado de Tordesilhas entre Truman, Churchil e Estaline e se na época os russos estavam era interessados em expandir a sua influência definitiva aos territórios debaixo do seu controlo, já os americanos tentavam a todo o custo passar para o ocidente os cientistas alemães, tivessem eles ou não ligações ao terror do Terceiro Reich. Será nessa luta pelos cérebros que Jake (George Clooney) irá ser envolvido ao tentar proteger e auxiliar Lena Brandt (Cate Blanchett), porque ela é a mulher de um desses mesmos cérebros pretendido por ambos os lados, Emil Brandt (Christian Oliver), ao mesmo tempo que se revela uma personagem incómoda, porque o seu passado revela que não é propriamente “o bom alemão” que diz ser.


Ao realizar este filme, Steven Soderbergh decidiu homenagear o cinema do pós-guerra e o seu melodrama, sendo bem patentes as filiações do cineasta. Por um lado temos, logo à partida, quando encontramos a Berlim em ruínas a memória de “Alemanha Ano Zero” / “Germania anno zero” de Roberto Rossellini, depois a personagem de Lena Brandt que trabalha no cabaret, recorda-nos a Marlene Dietrich de “A Sua Melhor Missão” / “A Foreign Affair” realizado por Billy Wilder em 1948, ao mesmo tempo que a memória de “O Terceiro Homem” / “The Third Man” de Carol Reed paira no firmamento, de forma permanente e muitas vezes, ao olharmos para Cate Blanchett ,encontramos Alida Valli, da mesma forma que no final no aeroporto descobrimos a Ingrid Bergman de “Casablanca”, repare-se na derradeira sequência entre Lena e Jake e só encontramos nela a memória do cinema.


Mais uma vez Steven Soderbergh foi o director de fotografia, “escondido” debaixo do nome de Peter Andrews e convém referir que “O Bom Alemão” / “The Good German” foi filmado a cores com posterior tratamento digital para a sua passagem a preto e branco e ao olharmos para as imagens da película ficamos de imediato agarrados à cadeira pela forma como todo o processo funcionou, repare-se no início como se estivéssemos perante um daqueles jornais de actualidades do período da guerra para depois descobrirmos George Clooney a descer as escadas do avião em Berlim.
“O Bom Alemão” / “The Good German” surge assim como a homenagem ao cinema saído da Segunda Grande Guerra, desde o período em que os Estúdios entraram na batalha, contribuindo com as suas películas para o esforço da guerra, como no cinema nascido no pós-guerra, incluindo o reconhecimento do neo-realismo através dessa obra charneira que Rossellini foi filmar à Alemanha ainda em ruínas, intitulada “Alemanha Ano Zero” / “Germania anno zero”..




Steven Soderbergh, nesta obra cinematográfica, deu uma importância enorme à matéria estilística do filme, já que o argumento de Paul Attanasio, baseado na novela de Joseph Kanon, não possui matéria suficiente para nos apaixonar à intriga/suspense, como sucedia nessa obra intitulada “Cortina Rasgada” / "Torn Curtain" de Alfred Hitchcock.
Quanto à associação George Clooney / Steven Soderbergh ela poderá ser olhada como a dupla perfeita do cinema norte-americano, recorde-se que o cineasta produziu dois dos projectos do actor, o maravilhoso “Syriana” e o “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck”, ambos interpretados por Clooney, sendo o último também realizado por ele.
“The Good German” / “O Bom Alemão” surge assim como uma obra que merece ser (re)descoberta, para sermos confrontados pela Arte dos seus intervenientes, saindo o Cinema mais uma vez vencedor deste desafio cinematográfico.

2 comentários:

  1. Para além de ser um excelente filme, é uma bela homenagem ao Cinema!

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    1. Este filme de Soderbergh respira na verdade cinema por todos os poros!
      Boa Tarde!

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