domingo, 6 de novembro de 2016

Stephan Elliott – “Virtude Fácil” / “Easy Virtue




Stephan Elliott – "Virtude Fácil" / "Easy Virtue"
(ING – 2008) – (97 min. / Cor)
Colin Firth, Kristin Scott Thomas, Jessica Biel, Ben Barnes.

“Virtude Fácil”, de Stephan Elliott, baseia-se na famosa peça de Noel Coward “Easy Virtue”, esse genial autor que cultivou o famoso estilo do Englishman, como todos sabemos. Ele foi, na verdade, o homem dos “sete ofícios”: dramaturgo, actor, escritor, compositor, cineasta, poeta e pintor. Escreveu cerca de 140 peças e centenas de canções, tendo surgido nos palcos com apenas seis anos, para aos dez escrever a sua primeira peça. No cinema, para além das diversas personagens que interpretou, co-realizou com David Lean “In Which We Serve” / “Sangue, Suor e Lágrimas” e muitas das suas peças deram origem a filmes: “Tonight at 8,30”, que se transformou no grande écran na obra-prima de David Lean, “Breve Encontro” / “Brief Encounter” e “Design for Living” / “Uma Mulher para Dois”, essa deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, só para referirmos duas, que deram origem a duas obras cinematográficas incontornáveis na História do Cinema.



“Easy Virtue” / “Virtude Fácil” já tinha sido adaptada ao cinema, no período mudo, pela mão de Alfred Hitchcock, conseguindo o australiano Stephan Elliott, que ficou famoso quando realizou “Priscilla, A Rainha do Deserto” / “The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert”, oferecer-nos de forma perfeita os sofisticados diálogos de Noel Coward, na sua nova adaptação cinematográfica, sendo sempre de realçar o fabuloso duelo entre duas gerações de actores: Kristin Scott Thomas (a sogra) e Jessica Biel (a nora), uma dupla de parentesco que, conforme reza a tradição, nunca se irão dar bem. E se Kristin Scott Thomas e Colin Firth vestem de forma perfeita os seus personagens, Jessica Biel não lhes fica atrás, conseguindo deliciar-nos com essa Larita, corredora de automóveis e oriunda de Detroit, com o seu típico sotaque, que de imediato irá chocar a conservadora e snob Mrs. Whittaker.


A película começa ao melhor estilo da época que retrata, finais dos anos vinte, quando vemos uma corrida de automobilismo em Monte Carlo, na época já um famoso circuito, a ser ganha por uma mulher, a loura e sensual Larita (Jessica Biel) que, depois de ser levada em ombros, será desclassificada pelo simples facto de ser mulher. No entanto será nesse circuito que irá conhecer o jovem John Whittaker (Ben Barnes – “Crónicas de Nárnia”), com quem irá desfrutar uma vida de luxo e ócio em Paris, terminando por se casarem em segredo. Com o matrimónio consumado, John Whittaker deixa o Continente e parte para Inglaterra, para dar a conhecer a sua jovem e bela esposa americana à aristocrática família.


O encontro não será o melhor do mundo, porque de imediato Mrs. Whittaker (Kristin Scott Thomas), ao se aperceber que a nora pertence a essa nação que nem duzentos anos tem, decide abrir uma guerra sem tréguas com Larita (Jessica Biel), que é seguida com interesse por Mr. Whittaker (Colin Firth), que apesar de ser desprezado por todos e viver num mundo à parte, começa a simpatizar com a jovem nora. Por outro lado teremos sempre o fiel Fuber (Kris Marshall), com os seus comentários “silenciosos”, o mais-que-perfeito mordomo da família Whittaker.



A estadia de duas semanas que Ben prometera a Larita, irá ser estendida naquela casa por tempo “indeterminado”, porque ao contrário dos desejos da jovem americana, que pretende viver com o marido em Londres, a sogra decide que eles deverão ficar a viver naquela enorme casa, no famoso countryside inglês, onde a tradição se encontra sempre presente, desde a famosa festa de Natal, passando pela caça à raposa e o inevitável convívio entre famílias, tudo elementos que irão chocar com a forma de agir de Larita. E, se com a passagem do tempo, ela consegue conquistar a simpatia do sogro (Collin Firth), acabando por conhecer as razões do seu auto-isolamento, irá também descobrir que quem veste calças naquela Mansão é Mrs. Whittaker (Kristin Scott Thomas), a quem todos devem obediência. Mas por outro lado iremos também saber que graves problemas económicos atingem os Whittaker, que se preparam para vender parte da propriedade a um vizinho, amigo da família.


Hilda e Marion (Kimberley Nixon e Katherine Parkinson), as filhas mais novas dos Whittaker, que inicialmente receberam a jovem Larita com curiosidade, rapidamente se transformam em suas inimigas, especialmente depois da célebre dança de can-can. Mas o pior ainda está para vir ou seja essa célebre cereja no topo do bolo do escândalo, será servida quando os Whittaker têm conhecimento que Larita pousou nua para um pintor espanhol chamado Picasso, no dia em que o quadro irá dar entrada na Mansão.
A forma como a luminosidade de Larita ofusca os elementos femininos da casa começa a pesar entre sogra e cunhadas e assim as irmãs de Ben decidem pedir a um tio, a viver na América, informações sobre o passado da famosa Larita de Detroit. E quando essas informações chegam todas ficam à beira de um ataque de nervos. 


Noel Coward, the gentleman!

“Easy Virtue” / “Virtude Fácil” possui todos aqueles condimentos que fizeram o sucesso das produções oriundas da BBC, onde o rigor da realização aliada a uma boa direcção de actores dá cartas. Embora aqui o que nos fascina mais nesta divertida película sejam os fabulosos diálogos de Noel Coward, que oferece de forma soberba o seu conhecido humor, retratando de forma perfeita uma aristocracia falida, que luta com todas as suas forças para não cair ao rio da vulgaridade.
Certamente que uma peça destas nas mãos de James Ivory iria ter um registo bem diferente, respirando cinema por todos os poros, mas se olharmos bem para o trabalho que nos é oferecido por Stephan Elliott, também poderemos dizer que ele levou este projecto a bom porto. E se gostam desse refinado humor britânico, que durante anos nos invadiu os lares através do pequeno écran (e estou a recordar-me dessa série de culto intitulada “Sim Senhor Ministro!”), tentem ver este “Easy Virtue” / “Virtude Fácil”, porque estamos perante um dos mais brilhantes Noel Coward Movies!!!

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