terça-feira, 15 de novembro de 2016

Robert Bresson – “Uma Mulher Meiga” / “Une Femme Douce”



Robert Bresson – "Uma Mulher Meiga" / "Une Femme Douce"
(FRANÇA - 1969) – (88 min. / Cor)
Dominique Sanda, Guy Fragin, Jane Lobre.

O cinema de Robert Bresson é rigoroso e cada plano é a prova concreta da aplicação da teoria à prática, devidamente explicitada nas suas “Notas Sobre o Cinematógrafo”. “Uma Mulher Meiga” / ”Une Femme Douce”, datado de 1969, o seu primeiro filme a cores, é a prova do seu olhar sobre o Cinema e a sua interpretação, esse mesmo olhar que Dominique Sanda e Guy Fragin são possuidores durante a representação da tragédia de Hamlet, como se se tratasse das imagens de um futuro próximo.


Nós, que sempre ficámos deslumbrados pela beleza de Dominique Sanda, vamos encontrá-la aqui na sua obra de estreia, despida de artifícios, onde essa mulher meiga possui já o olhar profundo e silencioso que a irá acompanhar ao longo da carreira.
Por outro lado o suicídio dela, logo no início da película vai estar presente ao longo do filme como se ela estivesse no limbo, tendo em conta a narração feita pelo marido em "flasback", enquanto olha pela última vez o corpo amado. Este suicídio está longe da morte de “Mouchette”, que se enrola num velho cobertor e rola pela encosta abaixo em busca das águas do rio. Em “Uma Mulher Meiga” / “Une Femme Douce” estamos perante um desejo de morte, fruto da desistência da vida, precisamente no momento em que tudo iria mudar, pelo menos assim pensa o marido, planeando a partida daquela casa sufocante, onde os livros e os discos, único amparo da mulher, já tinham deixado de respirar. Mas naquela casa há outra presença “incómoda” e vigilante, na figura da silenciosa criada, fiel às ordens do marido, que até a impede de ter férias, apesar da dor que ela sente pelo suicídio da “menina”, essa mulher meiga e submissa.


Durante muitos anos Robert Bresson habitou um dos muitos prédios das margens do Sena e teve oportunidade de assistir a diversas tentativas de suicídio acolhidas pelas águas do rio, só que no caso de “Uma Mulher Meiga” / ”Une Femme Douce” será o asfalto a receber aquele corpo translúcido na dureza da sua forma e estado. Pouco sabemos sobre as origens dos personagens, principalmente dela, que vivia em casa de familiares que a desprezavam, vendo-se obrigada a vender numa casa de penhores os poucos bens que possuía; será aí o encontro com a “salvação”, mas o destino da sua curta vida já estava traçado, porque os pobres não tem o direito de sonhar, como refere Dostoievsky no seu romance, apenas são detentores dos escassos meios para sobreviver e quando essa pequena chama no fundo do túnel da vida se apaga, nada lhes resta… apenas partir para um outro universo em busca de um mundo melhor.
Dominique Sanda
uma actriz inesquecível!

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