terça-feira, 8 de novembro de 2016

Paul Auster – “A Vida Interior de Martin Frost” / “The Inner Life of Martin Frost”



Paul Auster – "A Vida Interior de Martin Frost" / "The Inner Life of Martin Frost"
(EUA/PORTUGAL – 2007) – (97 min. / Cor)
David Thewlis, Irene Jacob, Michael Imperiolo, Sophie Auster.

Desde já gostaria de confessar que Paul Auster é um dos meus autores de cabeceira, desde “A Trilogia de Nova Iorque”, o seu primeiro livro a ser editado em Portugal, estávamos no ano de 1990 e uma das histórias desse livro até deu origem, anos mais tarde, a uma banda desenhada famosa, mais concretamente “A Cidade de Vidro". 


Mas façamos um pouco de história, cinematograficamente falando, da carreira de Paul Auster no interior da Sétima Arte, na qual teve o seu” baptismo” em 1995, ao assinar o argumento e a co-realização com Wayne Wang dos filmes “Smoke” / “Smoke – Fumo” e “Blue in the Face” / “Fumo Azul”. Se o primeiro filme desta dupla era uma história profundamente Austeriana, com os seus personagens marginais (uma constante na sua obra) a terem o seu ponto de encontro na loja de “Auggie” Wren, um Harvey Keitel espantoso, que termina o filme com chave de ouro contando a sua história de Natal, já “Blue in the Face” surge como um divertimento dos dois realizadores, que nos contam mais algumas histórias deste pequeno grupo de “outsiders” e não nos esqueçamos que Auster é um fumador compulsivo, sempre com aquelas belas cigarrilhas “à mão de semear”, basta recordarem-se dessa noite temática que o canal franco-alemão “Arte” lhe dedicou.


Desta forma Paul Auster entrou pela porta do cinema com o pé direito, tendo até o seu livro “Música ao Acaso” / “The Music of Chance” sido realizado por Philip Haas, com James Spader no protagonista, filme este que nunca chegou aos nossos écrans. Mas seria com o fabuloso “Lulu on the Bridge”, que todo o universo criado pelo escritor ao longo da sua obra literária saltaria para o écran, oferecendo-nos uma obra espantosa e como teria sido bom termos tido o Salman Rushdie a interpretar a personagem que foi dada a Wilhem Dafoe (que, como sempre, deu muito bem conta da personagem). Paul Auster pensou em Salman Rushdie e o escritor mais perseguido no mundo até aceitou, mas como ainda estávamos perante aquele pesadelo kafkiano criado pelas autoridades iranianas, ambos desistiram da aventura conjunta, para anos depois Rushdie ter o seu baptismo cinematográfico ao lado de Bridget Jones, quem diria?


Depois desta aventura a solo, bem sucedida, Paul Auster retomou a sua vida literária até que, passados precisamente dez anos, decidiu regressar ao cinema, o projecto era precisamente “The Inner Life of Martin Frost”, mas na América nenhum produtor se interessou em financiá-lo e seria em Lisboa que o escritor iria ver nascer o seu filme, através do produtor Paulo Branco (ele continua a gostar de arriscar), depois de muitos anos antes ter visto um projecto seu cancelado no nosso país por falta de verba.


Com a pré-produção a correr, Colares foi o local escolhido para as filmagens, ao mesmo tempo que os protagonistas seriam David Thewlis (uma segunda escolha) e Irene Jacob, essa actriz Suiça que ficou conhecida de todos nós através do polaco Kieslowski e os seus filmes “A Dupla Vida de Véronique” e o espantoso “Vermelho”. A esta dupla, com créditos firmados, juntaram-se Michael Imperioli e a filha do cineasta, Sophie Auster.
“A Vida Interior de Martin Frost” relata-nos a história de um escritor que, terminado o seu livro, decide ir repousar para casa de uns amigos no campo, que se encontram no estrangeiro a passar férias (recorde-se que a mulher de PaulAuster é sueca). Naquela casa e com aquela paisagem magnifica, ele pensa que irá encontrar o “justo repouso do guerreiro” mas, ao acordar no dia seguinte, tem a dormir a seu lado uma bela rapariga, que depois de acordada parece saber mais da sua vida do que ele próprio. De onde ela veio é um profundo mistério, embora ela diga que é amiga do casal e desta forma decidem compartilhar aquele espaço profundamente bucólico.


Porém ela é uma verdadeira musa, de nome Claire (Irene Jacob) e de imediato surge a Martin (David Thewlis) uma história para escrever, retomando o trabalho e criando aquela que seria a sua obra-prima, o trabalho avança a olhos vistos e quando está a terminá-lo a sua musa inspiradora adoece, o frio começa a invadir a casa, na lareira nada há para queimar e a vida parece fugir dela, o escritor num gesto derradeiro começa a queimar as páginas da sua obra, uma a uma, até que as chamas regressam e ela acorda. Sabemos então quem é ela na verdade e o que faz ali.
Até este preciso momento, o filme de Paul Auster surge como uma espécie de filme perfeito, sem um fotograma a mais ou uma palavra a menos, tudo nele se encaminha para a obra-prima absoluta do universo Austeriano no cinema, criada apenas com dois actores perfeitos, mas o cineasta-escritor não quis seguir por esse caminho e introduz duas novas personagens que irão alterar o rumo da história.


Jim Fortunato (Michael Imperioli) e a sua “sobrinha” Anna (Sophie Auster), parecem ter fugido das páginas de um outro argumento e ao introduzirem-se na vida exterior de Martin Frost para fazerem a ponte com a sua vida interior e apaixonante compartilhada com a sua musa, irão seguir por uma outra estrada demasiado sinuosa, criando uma espécie de vazio cinematográfico, apesar desse espelho retrovisor por onde ele pode ver e amar a sua musa. Na verdade Paul Auster esteve à beira de realizar o seu melhor filme de sempre, mas a segunda parte da película termina por anular toda a magia que tinha conquistado o espectador.
Numa das muitas entrevistas dadas à imprensa escrita do nosso país, após a feitura do filme, Paul Auster confidenciou que este poderia ser o seu último filme, no entanto aquele que é o seu livro mais triste e um dos mais belos, “No País das Últimas Coisas” / “In The Country of The Last Things”, já se encontra em pré-produção, sendo o cineasta escolhido Alejandro Chomski. Esperamos que esta adaptação cinematográfica nos faça reencontrar com Paul Auster no grande écran, até lá não há nada como reler o seu maravilhoso “Livro das Ilusões”.

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