terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Frio e a Neve

Claude Monet, La Pie (1868-1869) - Museu d'Orsay, Paris.

Ele não queria acreditar, ao acordar, na paisagem que os seus olhos viam. A neve invadira por completo os telhados das casas e as ruas estavam brancas, cobertas por uma fina camada de neve, que ainda não se tinha derretido. Arrumou calmamente os seus pequenos haveres na velha mala que sempre trazia consigo, depois de a esconder no local habitual da casa abandonada que lhe servia de abrigo.

No jardim da cidade duas crianças brincavam com a neve acompanhadas dos pais e ele, ao vê-las, recordou-se dos seus tempos de infância. Também ele fora criança e a memória que guardava dessa época aqueceu-lhe por breves instantes o seu corpo, do frio que sentia.
Desceu a rua lentamente e ao ver um automobilista em dificuldade decidiu ajudá-lo. Aproximou-se do veículo e ofereceu os seus serviços, começando a empurrar o veículo, esperando que uma moeda lhe acabasse por cair na mão. Mas o condutor, em vez disso, após ter conseguido sair da zona onde se acumulava uma enorme quantidade de neve, acelerou e desapareceu pela estrada fora, sem o mínimo gesto de agradecimento.

Ainda era cedo para ganhar as pequenas moedas que lhe iriam possibilitar sobreviver mais um dia, na sua vida triste e solitária. Com a passagem dos anos aprendera a não confiar em ninguém e depois desse dia trágico em que lhe roubaram os sapatos no albergue, decidira que se encontrava mais seguro a dormir sozinho, na pequena casa abandonada.

A televisão já andava pela cidade, para entrevistar as poucas pessoas que se aventuravam a sair de casa naquele domingo gelado e quando ele se aproximou da jornalista, ela olhou para ele, espantada com a sua figura, mas rapidamente lhe virou as costas, seguida pelo colega para o outro lado do passeio, para fazer a tão desejada reportagem. Não desistindo, também ele atravessou a rua e aproximou-se da jovem para lhe pedir uma moeda, mas foi de imediato afastado pelo colega, que lhe gritou para ele desaparecer dali. Ao ver que não iria servir de material noticioso, decidiu regressar a “casa”, subindo a rua novamente, transportando nos ombros o duro peso da solidão.

Lentamente, os farrapos de neve que ainda caíam foram dando lugar a uma chuva miudinha, que começou a limpar as ruas da sua camada branca e fria.
Nesse domingo gelado, o sol decidira fazer folga e apenas o frio se iria apresentar ao trabalho.

in "Contos"

Mr. Vertigo

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