quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Michael Radford – “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice”


Michael Radford - "O Mercador de Veneza" / "The Merchant of Venice"
(EUA/LUX/ITA/ING 2004) – (138 min. / Cor)
Al Pacino, Jeremy Irons, Joseph Fiennes, Lynn Collins.

Al Pacino, o maior actor americano vivo, é o protagonista do filme “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice” e ao seu lado temos esse outro grande actor chamado Jeremy Irons e como se não bastasse, o realizador é Michael Radford, o cineasta de “O Carteiro de Pablo Neruda” / “Il Postino”.
Muitos dirão que esta é a peça mais polémica de William Shakespeare, na verdade uma peça (arriscamos a palavra) anti-semita, devido à personagem do judeu Shylock (Al Pacino no cinema e outrora Dustin Hoffman no teatro), mas Michael Radford tem o grande cuidado de, numa espécie de introdução da obra, retratar a forma como eram tratados os judeus na Veneza do século XVI e assim podemos de certa forma entrar com outro olhar nos meandros da peça de William Shakespeare.


Mas, antes de falarmos na peça, falemos um pouco no cineasta Michael Radford. Cineasta Britânico nascido, no entanto, em Nova Deli, descobriu o cinema aos 15 anos sendo Truffaut, Godard e Resnais os seus heróis, foi assim natural a sua ida para a National Film School, depois foi o chamado “caminho do costume” dos cineastas britânicos da geração pós Free-cinema, televisão/BBC (“The White Bird Passes), seguindo-se o Documentarismo e por fim o Cinema de Ficção, diremos assim que “Van Morrison in Ireland” foi o seu documentário de estreia (1981) seguindo-se depois “Another Time, Another Place” muito aclamado nos inícios de oitenta numa época em que o cinema Britânico surgia com uma nova pujança e novos realizadores, quase todos autores com o seu próprio universo (Peter Greenaway, Richard Eyre ou Mike Leigh) ao mesmo tempo que David Puttnam tentava criar uma “indústria, verdadeiramente, cinematográfica”.


Surgiu assim com certa naturalidade o convite para realizar “1984”, filme baseado na célebre obra de George Orwell. Curiosamente a banda sonora da película era para ser feita por David Bowie, mas seriam os Eurythmics a serem os responsáveis pela música, na qual se iria incluir o célebre “Sex Crime”. Mas esta fabulosa película ficaria também marcada como a última obra de Richard Burton. Nunca nos esqueceremos das cores usadas por Michael Radford, simplesmente únicas e tenebrosas, tal como a sociedade em que as personagens vivem, sempre vigiadas pelo “Big Brother”.
Depois do êxito da película, Radford mudou-se para outras paragens e levou consigo o par Charles Dance e Greta Scacchi, nascendo “White Mischief” / “Adeus África”, contando ainda com a presença de John Hurt.


Assim chegamos a “Il Postino” / ”O Carteiro de Pablo Neruda”, sem dúvida alguma o maior sucesso comercial de Michael Radford, mais de um ano em exibição no nosso país, o livro escrito por Antonio Skarmeta narrando o exílio do célebre poeta chileno e o seu encontro e a amizade com o carteiro, que lhe leva notícias do seu país distante, comoveu toda uma população cinematográfica, infelizmente o actor Massimo Troisi, que nos sensibilizou até às lágrimas interpretando Mario Ruoppolo, não chegou a ver a película porque a morte chegou demasiado cedo, mas aquela bela questão da célebre metáfora, é na verdade inesquecível, tal como Philippe Noiret na personagem de Pablo Neruda.
Seria com Michael Radford que Asia Argento, filha do célebre cineasta italiano Dario Argento daria nas vistas com “B. Monkei”, um thriller, seguiu-se depois um daqueles filmes que poucos viram, intitulado “Dancing at the Blue Iguana” / “Iguana Azul” sobre o mundo do strip e contando com uma Darryl Hannah no seu melhor (passou despercebido do grande público no cinema Mundial).


Nasce então “O Mercador de Veneza”/”The Merchant of Venice” e mais uma vez Shakespeare é adaptado ao cinema. É claro que todos nós temos as nossas peças favoritas do Bardo, mas para mim a melhor será sempre “Os Livros de Próspero” / ”Prospero’s Books” e a adaptação que o Peter Greenaway fez da peça, (sobre o qual já escrevemos aqui), com um John Gielgud fascinante na figura de Próspero, e depois ainda temos Michael Nyman e essa voz chamada Sarah Leonard, também é verdade que esta peça teve no cinema uma adaptação moderna realizada por Paul Mazurski, sendo o papel de Próspero entregue a John Cassavetes.
Mas voltando ao que nos interessa “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice”, teve nos palcos um Dustin Hoffman histórico na figura de Shylock e este, quando teve conhecimento da produção do filme, “correu” em busca de Michael Radford, mas o papel já estava entregue a outro grande actor, Mister Al Pacino. Admirados!? Espero bem que não! Porque uma das poucas vezes em que Al Pacino passou para detrás das câmaras foi precisamente para realizar “Working For Richard” (exibido no saudoso cinema Quarteto), baseado na peça “Ricardo III”, no qual ele demonstra a sua paixão pelo "Bardo", ao mesmo tempo que nos fala do seu fascínio pelo personagem Ricardo III, na película ele encena a peça, mas também nos oferece as discussões dos ensaios, ao mesmo tempo que questiona amigos e colegas de profissão acerca da paixão que William Shakespeare desperta sempre nos actores. Aliás nunca nos poderemos esquecer do Ricardo III que vimos no Teatro da Cornucópia com um Luís Miguel Cintra, três horas em palco, simplesmente soberbo!


Será desta que chegamos ao amor que Bassanio possui por Portia, mas cujo dinheiro não possui para tentar conquistar o seu amor através do jogo e do enigma dos três cofres e a riqueza neles adormecida. Será assim que “O Mercador de Veneza” Antonio de seu nome (Jeremy Irons), aceita pedir emprestado ao judeu Shylock (Al Pacino) três mil ducados para emprestar a Bassiano (Joseph Fiennes) e este poder assim disputar o seu amor. Shylock, em tempos escorraçado pelo Mercador e a viver num verdadeiro ghetto em Veneza, aceita fazer o empréstimo, mas caso a dívida não seja saldada no prazo acordado (3 meses), poderá exigir em troca um pedaço da sua carne.
Se o amor e a revelação do mistério são favoráveis a Bassanio, já António recebe a trágica notícia da perda dos seus navios e das mercadorias que transportavam, impedindo-o de saldar a dívida. Então, o inamovível Shylock exige a cobrança da dívida perante o tribunal de Veneza e aqui temos um verdadeiro One Man Show chamado Al Pacino, na pele de Shylock e ele é o filme!

Jeremy Irons, como sempre, está igual a si próprio, excelente! Mas o duelo de Shylock com o tribunal que o levará a tudo perder é, na verdade, uma sequência cinematográfica única, devido à forma como Michael Radford a trabalha, mas Al Pacino é a alma do Filme, porque “O Mercador de Veneza” / “The Merchant of Venice” oferece-nos a Arte do Maior Actor Norte-Americano vivo Mr. Al Pacino!!!!

Nota: o dvd do filme possui um excelente documentário.

2 comentários:

  1. Magnífico filme e excelentes interpretações, sobretudo do grande Al Pacino!

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    1. Concordo em absoluto, Shakespeare possui aqui uma das mais belas adaptações cinematográficas da sua obra.
      Bom Feriado!

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