terça-feira, 29 de novembro de 2016

Julien Duvivier – “Pépé o Moko” / “Pépé Le Moko”

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Julien Duvivier – "Pépé o Moko" / "Pépé Le Moko"
(FRANÇA – 1937) – (94 min - P/B)
Jean Gabin, Mireille Balin, Lucas Gridoux, Marcel Dalio, Line Noro.

“Pépé Le Moko”, ao ser revisto nos dias de hoje, consegue resistir à passagem do tempo surgindo um pouco como uma obra que antecipava o famoso “film-noir” e depois temos sempre esse grande actor chamado Jean Gabin que, como ninguém, deu vida às personagens que protagonizou no cinema, quase sempre à beira do abismo. E neste filme, bem inserido na denominada corrente do realismo poético francês (onde pontificaram cineastas como Jean Renoir, Marcel Carné, Jacques Feyder e René Clair), oferece-nos a história de um gangster que, perseguido pelas autoridades francesas, se refugia na célebre Casbah de Argel, cujas vielas tortuosas conhece como ninguém, continuando a sua actividade de gangster fascinado por jóias, mas não serão as jóias a sua perdição final e sim uma turista que irá conhecer.


Julien Duvivier, o cineasta que realizou a película com enorme saber, iniciou a sua actividade no cinema ainda no tempo do mudo e seria com o nascimento do sonoro que ele iria despertar a atenção de muitos, realizando ao longo da sua carreira mais de cem filmes, onde abordou os mais diversos géneros e cuja qualidade nunca esteve em causa, sendo "Don Camillo" o seu maior êxito a nível mundial, com a sua assinatura.


A Casbah de Argel, construída em Estúdio por Jacques Krauss, surge assim como o território de eleição do protagonista, onde ele se movimenta como peixe na água e será curioso comparar esta Casablanca com a surgida anos mais tarde no filme de Michael Curtiz. E, como não podia deixar de ser, também Pépé Le Moko se sente prisioneiro naquele ambiente, como Rick (Humphrey Bogart) no seu célebre café em Casablanca, ambos profundamente feridos pelo passado e ambos a sonhar com a sua Paris.


A vida de Pépé Le Moko (Jean Gabin), feita de pequenos roubos e sempre com a polícia no seu encalço, será um dia alterada quando se cruza com uma turista chamada Gaby (Mireille Balin, de uma beleza estonteante), cujas jóias o fascinam inicialmente, mas se ela possui uma curiosidade infinita pela vida naquelas ruas labirínticas, ele rapidamente irá substituir o desejo do roubo pela paixão que sente por aquela mulher, que o irá acompanhar durante a sua estadia, sempre vigiada pelo inspector Slimane (Lucas Gridoux), que espera encontrar ali uma óptima oportunidade de capturar finalmente o famoso gangster. Mas o fascínio de Pépé pelas jóias irá extinguir-se rapidamente, quando o olhar límpido dos olhos dela se cruza com o olhar sedutor de Jean Gabin, nascendo de imediato no gangster um desejo profundo de possuir aquela mulher, porque vê nela esse amor que nunca tinha encontrado na vida. E será esse amor que irá começar a nutrir por ela que o levará à perdição.


Percebendo que ela irá partir rumo a França, ele sabe que finalmente chegou o momento de abandonar tudo e partir com ela, mas a mulher que o recebeu de braços na Casbah e sempre cuidou dele sente-se profundamente traída e, como não podia deixar de ser, irá revelar à polícia as intenções de Pépé Le Moko.
Olhando sempre o mar como essa fronteira que o separa da liberdade, Pépé le Moko parte rumo ao cais para se juntar à sua amada, expondo-se assim à polícia que só espera por esse passo fatal para o prender mas, ao contrário do que é habitual nos filmes de gangsters, ele não será morto pelas balas da autoridade, nem irá entrar em confronto com ela, porque quando chega ao cais de embarque percebe que é tarde demais porque o navio já tinha partido, esse mesmo navio em que Gaby sempre esperou reencontrá-lo, porque também ela se sente apaixonada por esse homem cujo olhar a fascinou para sempre. Cercado pela polícia, Pépé Le Moko prefere gritar pelo nome dela e depois num gesto apaixonado decide morrer ali, cortando os próprios pulsos, junto dessas grades do cais que o separam desse mar, sinónimo da liberdade.


(Re)descobrir “Pépé le Moko” de Julien Duvivier, nos dias de hoje, é a melhor forma de conhecermos a Arte desse grande actor chamado Jean Gabin, num filme verdadeiramente apaixonante.

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