domingo, 27 de novembro de 2016

John Irvin – “O Quarto Anjo” / “The Fourth Angel”


John Irvin – "O Quarto Anjo" / "The Fourth Angel"
(ING/CANADA – 2001) – (97 min. / Cor)
Jeremy Irons, Forest Whitaker, Jason Priestley, Briony Classco, Charlotte Rampling.

John Irvin é um experiente realizador inglês, oriundo da televisão, já com uma longa carreira no cinema, tendo dado nas vistas quando no início dos anos oitenta assinou “The Dogs of War” com Christopher Walken e Tom Berenger nos protagonistas. “Hamburguer Hill”, sobre a guerra do Vietname, iria revelar ao mundo o talento do então desconhecido Don Cheadle, mas seria a versão deste realizador de “Robin Wood”, com um Patrick Bergin a vestir a pele do célebre Robin dos Bosques, uma das suas melhores obras, oferecendo-nos um lado negro, até então ausente das diversas adaptações levadas ao cinema, tanto por Michael Curtiz como Kevin Reynolds, para além desse verdadeiro divertimento, muito british intitulado "Widows Peak" / “A Colina das Viúvas”, com uma Mia Farrow inesquecível.



“O Quarto Anjo” / “The Fourth Angel” possui um elenco que à partida prometia muito, mas o argumento de Allan Scott, baseado no livro de Robin Hunter, acabará por nos trair a todos devido a certas facilidades e redundâncias que se revelam fatais ao longo da película, porque na verdade nem todos podem ter a mestria de um John Le Carré.
Jack Elgin (Jeremy Irons) é um editor do “Economist” que gosta de juntar férias com trabalho e, depois de ter prometido à mulher (Brioony Classco) e aos filhos umas férias de sonho em Corfu, decide alterar os seus planos e optar pela India, porque pretende fazer uma reportagem nesse país. Mas, devido a uma falha técnica, o avião onde seguiam é obrigado a aterrar na ilha de Chipre e quando menos se esperava o avião é tomado por um grupo terrorista denominado 15 de Agosto, que pede um resgate de 50 milhões de dollars pelos passageiros.


E até aqui tudo é perfeito no filme de John Irvin, desde o quotidiano dos Elgin, até à operação levada a cabo pelas forças anti-terroristas, que termina em tragédia, com 15 mortos, onde se incluem a mulher e as duas filhas de Jack Elgin.
Três dos terroristas sobreviveram e, por razões desconhecidas, acabarão por ser libertados para grande espanto do editor, que fica chocado com a inoperância do seu governo. Entretanto ficamos a saber que o dinheiro do resgate também foi pago aos assaltantes. E aqui começa na verdade a derrapagem do filme a nível de argumento.


Jack Elgin decide fazer justiça pelas suas próprias mãos, estabelecendo contactos com amigos privilegiados, que se movimentam no interior dos serviços secretos e será assim que iremos encontrar Kate Stockton (Charlotte Rampling), uma ex-operacional que o avisa que os terroristas são simples mercenários que apenas pretendiam dinheiro. Em “O Quarto Anjo” / “The Fourth Angel” encontramos Jeremy Irons num filme de acção, a interpretar uma personagem que poderia muito bem pertencer a Charles Bronson. E, na verdade, a forma como tudo se passa possui uma credibilidade muito reduzida, principalmente quando percebemos que Jack Elgin (Jeremy Irons) apenas está a ser manipulado à distância pelo estratega da operação, que o vai usando para eliminar os seus colegas de golpe.


No meio de tudo isto, ainda temos o habitual duelo entre operacionais da CIA (Jason Priestley) e Forrest Whitaker (FBI), o primeiro a fazer o seu jogo, o segundo na pista dos milhões e claro pelo meio temos esse quarto anjo de que fala o filme em busca de justiça. Os assaltantes são provenientes dos Balcãs, temos por aqui sérvios e bósnios fazendo lembrar um pouco quando foi feita a adaptação ao cinema de “A Tia Júlia e o Escrevedor”, do escritor Mário Vargas Llosa, em que Hollywood decidiu trocar os argentinos por albaneses, para que não houvesse um protesto diplomático por parte da Argentina, alterando profundamente o sentido do maravilhoso livro escrito pelo escritor peruano. Para terminar poderemos dizer que este filme de John Irvin, com bons actores e uma realização escorreita, termina por se revelar um fracasso, vítima de um argumento que parece ter sido escrito como se fosse uma manta de retalhos, na verdade um pecado imperdoável. Tanto os actores como o cineasta mereciam melhor sorte!

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