terça-feira, 1 de novembro de 2016

Jean Renoir – “A Grande Ilusão” / “La Grand Illusion”


Jean Renoir – "A Grande Ilusão" / "La Grande Illusion"
(FRANÇA – 1937) – (109 min. - P/B)
Jean Renoir, Eric Von Stroheim, Pierre Fresnay, Marcel Dalio, Dita Parlo.

Dois anos antes de realizar um dos seus filmes mais célebres, “A Regra do Jogo”, Jean Renoir decidiu em 1937 oferecer-nos um olhar sobre a primeira guerra mundial, através dessa obra-prima intitulada “A Grande Ilusão” / “La Grand Illusion”, que na época foi recebida com grande entusiasmo por uns e olhada de lado por outros, recorde-se que o filme foi proibido na Alemanha e mesmo quando surgiu no Festival de Veneza não lhe concederam o galardão máximo, sendo no entanto criado um prémio especial para o galardoar e nunca é demais referir que o filho de Mussolini era a entidade mais preponderante nos meios cinematográficos italianos, protegendo os cineastas e críticos de cinema de ideologias opostas à do seu pai, por outro lado o público francês não viu com muito bons olhos o retrato que o cineasta oferecia da convivência entre militares franceses e alemães, porque a memória da primeira guerra mundial ainda estava bem presente, ao mesmo tempo que o regime nascido entretanto na Alemanha já trazia o mundo bastante atormentado.


Curiosamente, este filme sobre a guerra, constrói uma visão do conflito vista através do campo de concentração, ao mesmo tempo que nos oferece um olhar atento sobre a relação de classes.
O tenente Maréchal (Jean Gabin), piloto da força aérea francesa que trabalha numa patrulha de reconhecimento, é chamado pelo seu superior hierárquico, capitão Boeldieu (Pierre Fresnay), para partir em missão sobre as linhas inimigas, porque as fotografias que este tinha obtido na sua anterior missão não eram suficientemente nítidas sobre os movimentos das tropas alemãs. Nunca é demais recordar que esta guerra foi acima de tudo uma guerra de trincheiras, onde milhares serviram de carne para canhão. E será durante essa missão nocturna que serão abatidos pelo aristocrático capitão Von Rauffenstein (Eric Von Stroheim), que os irá receber com toda a cordialidade, enviando-os depois para o respectivo campo de concentração, mas estes homens irão por diversas vezes tentar evadir-se do cativeiro.


Mal chegam à camarata, descobrem que os seus companheiros estão à longo tempo a escavar um túnel para encetarem a fuga. Iremos assim entrar na atmosfera do campo de concentração, para descobrirmos que eles até recebem encomendas de casa com comida, chegando por vezes a estarem mais bem alimentados que os seus próprios carcereiros.
Mas perante as suas diversas tentativas de fuga, sempre sem sucesso, são enviados para uma fortaleza comandada por Von Rauffenstein, que entretanto vira o seu avião abatido em combate e passara a ser o responsável por essa prisão de alta segurança, o único contributo possível que ele ainda poderia dar ao seu país, depois de ferido gravemente, como ele afirma no filme ao encontrar-se com Maréchal e Boeldieu, tratando-os sempre com a maior cordialidade, especialmente Boeldieu que ele considera um aliado de classe.


Como sempre, o desejo de fuga permanece vivo e quando Maréchal e Boeldieu voltam a encontrar o capitão Rosenthal (Marcel Dalio), decidem preparar uma nova evasão, mas daquela fortaleza é quase impossível fugir e será Boeldieu (Pierre Fresnay) a arquitectar um novo plano oferecendo-se como mártir, para os seus dois companheiros de cárcere encetarem com sucesso a fuga. Temos assim esse acto heróico de um aristocrata que irá morrer às mão de outro aristocrata, porque será precisamente o capitão Von Rauffenstein a disparar a bala fatal que irá ferir mortalmente o oficial francês que, ao despertar as atenções sobre si de toda a guarnição alemã, irá possibilitar a fuga de Maréchal e Rosenthal (que por sinal até é judeu), o qual durante a fuga nocturna pelos campos rumo à fronteira Suiça irá torcer um tornozelo o que lhe irá impossibilitar caminhar, surgindo então um diálogo entre os dois homens que alguns viram como anti-semita.
Maréchal decide então abandonar o seu companheiro de fuga à sua sorte, para não perder mais tempo, mas acabará por regressar ao lugar onde ele se encontra, para o ajudar e mais tarde se refugiarem numa casa habitada por uma camponesa alemã (Dita Parlo) que, em vez de os denunciar, os irá ajudar porque para ela a guerra não faz qualquer sentido, já que o marido fora morto na frente de combate e ela só deseja o final do conflito.


Durante a estadia na quinta, Elsa (Dita Parlo) e Maréchal (Jean Gabin) percebem que aquilo que os une é muito mais forte (o amor) do que o que os separa (a guerra), mas tanto ele como Rosenthal têm um destino, o de atingir a Suiça, país neutral, para depois seguirem para França para retomarem o combate e terminarem com aquela guerra que para eles só existe para exterminar de vez a existência de todos os conflitos, porque aquela será na sua opinião decididamente a última guerra, uma grande ilusão que a história irá comprovar em 1939, mas aqueles homens em 1917 ainda não sabiam o futuro que lhes estava reservado.
Jean Renoir, com “A Grande Ilusão”, oferece-nos um olhar sobre um conflito onde ainda existiam cavalheiros e honras de conduta mas, como todos sabemos, a célebre linha Maginot criada pelos franceses durante o período que decorreu entre os dois conflitos de nada irá servir, já que a poderosa máquina de guerra alemã irá atravessar as Ardenas e invadir a França pela Bélgica, numa Segunda Guerra Mundial, em que já não havia lugar para Convenções de Genebra.


Rever “A Grande Ilusão” / La Grand Illusion” de Jean Renoir, passados setenta anos sobre a sua feitura, é na verdade uma maravilhosa aventura cinematográfica, onde o desejo de sobrevivência anda de mãos dadas com os sentimentos e os ideais.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Uma película que nos leva a interrogar o sentido da guerra.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Boa Noite.

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