quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Fritz Lang – “Feras Humanas” / “Man Hunt”



Fritz Lang – "Feras Humanas" / "Man Hunt"
(EUA -1941) – (102 min. - P/B)
Walter Pidgeon, George Sanders, Joan Bennett, John Carradine.

Quando Goebbels convidou Fritz Lang para dirigir o cinema do Terceiro Reich, Fritz Lang não disse que não nem que sim, percebendo perfeitamente o pretendido e nesse mesmo dia partiu de comboio para França, deixando para trás tudo e todos, incluído a sua mulher e colaboradora de tantos filmes, a famosa Thea Von Harbour. Mais tarde partiu para a América, em busca de um refúgio mais seguro.

Fritz Lang

“Feras Humanas” / “Man Hunt”, realizado em 1941, foi o seu primeiro filme anti-nazi seguindo-se logo depois o famoso “Os Carrascos Também Morrem” / "Hangmen Also Die" em que Brecht colaborou, o célebre Brecht que tão mal se deu em Hollywood, que até teve de depor perante uma das célebres comissões do senador McCarthy, afirmando por três vezes que não era nem nunca fora comunista, o segredo de Brecht era um bilhete que tinha no bolso para partir da América, o que fez no dia seguinte. A guerra já tinha terminado e a RDA esperava por ele.


Regressando a “Man Hunt” / “Feras Humanas”, encontramos na película de Lang o jogo da caça, só que neste caso concreto a caça é humana. Quando, no início do filme, o capitão Thorndike (Walter Pidgeon) aponta a sua carabina de precisão com mira telescópica a Hitler, sente um prazer absoluto ao ter o poder de eliminar o homem que irá mergulhar o mundo em guerra. Esse mesmo homem que em jovem pretendia seguir o curso de belas-artes e que viu chumbado o seu acesso à escola de belas-artes, se tivesse sido admitido a história do mundo talvez tivesse sido diferente. Quando Thorndike dispara, verificamos que nada aconteceu simplesmente porque não tinha colocado nenhuma bala na arma, estava perante o prazer supremo do caçador com a presa em seu poder, somente esse prazer não se prolongou por muito tempo, porque quando decidiu colocar a bala na arma e disparar era tarde demais. A guarda de Hitler tinha-o descoberto e imobilizara-o, levando-o preso.



Vamos conhecer então o famoso vilão do filme, outro caçador amante da caça, mas também amante fervoroso do Terceiro Reich, Quive Smith (um George Sanders no seu melhor) tenta convencer Thorndike a assinar um testemunho onde este confessa ter sido enviado pelo governo britânico para assassinar Hitler, a fim de a Alemanha ter um motivo plausível para declarar guerra à Inglaterra. O duelo de palavras entre os dois homens é simplesmente sublime. Mais tarde, Thorndike consegue evadir-se e fugir para Inglaterra, dando-se início à célebre caça ao homem pelos agentes alemães, onde para além de George Sanders, que é o cérebro da operação, encontramos o então ainda jovem John Carradine.


Perseguido no seu próprio país, Thorndike até parece ser uma presa fácil, mas o seu encontro com uma rapariga que ganha a vida nas ruas, chamada Jenny (Joan Bennett), tudo irá alterar. Ela será o seu amor e a sua salvadora nos momentos mais difíceis, acabando por se oferecer como cordeiro às mãos dos seus perseguidores. Será sempre de referir que Joan Bennett, que sempre vimos no início de carreira loura, surge aqui morena e morena permaneceu depois ao longo da carreira, por obra e arte do seu marido, o produtor Walter Wangler, um dos responsáveis de “Cleópatra” e obreiro da carreira da actriz, até ao momento em que a apanha em pleno adultério e dispara sobre o amante, tendo sido preso. Mas regressemos a “Man Hunt”, nunca um título conseguiu descrever melhor uma película como este de Fritz Lang.


Thorndike acaba por ser encurralado no seu refúgio por Quive-Smith e quando este lhe passa a pequena seta que ele tinha oferecido a Jenny para ela usar na boina, com a confissão para ele assinar, descobre como a arte da caça do alemão se reside apenas ao puro assassínio, sem olhar a meios para atingir os seus fins. E será essa mesma seta que será depois de forma artesanal lançada contra o alemão, vingando desta forma o amor perdido. No final do filme, encontramos o capitão Thorndike a lançar-se de pára-quedas em pleno território alemão com a sua carabina de precisão, partindo em busca da presa deixada fugir no início do filme, ao mesmo tempo que a mensagem de propaganda aliada se faz ouvir na luta contra o nazismo.


Fritz Lang entra assim na história do cinema anti-nazi, de “mansinho”, para depois nos oferecer um testemunho muito mais eloquente com “Os Carrascos Também Morrem” / “Hangmen Also Die”. No entanto, “Man Hunt” oferece-nos de forma perfeita uma imagem do terror que iria cobrir o mundo durante 1939-45, tão perfeita e sublimada como o seu “M” / “M - Matou”. Curiosamente Fritz Lang não foi a primeira escolha para a dirigir a película, o nome falado anteriormente foi o de John Ford, mas devido à impossibilidade deste, seria o alemão a contribuir com o seu talento para o esforço de guerra, a que os Estúdios Americanos ofereceram obras de primeira grandeza. Esquecido por muitos nos dias de hoje, “Man Hunt” / “Feras Humanas” ensina-nos como muitas vezes o animal acossado é muito mais perigoso do que o caçador, quando este se torna a verdadeira fera humana.

2 comentários:

  1. Este filme é fantástico! Mostra bem como se pode perder uma oportunidade que vai mexer com a História!

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    1. Fritz Lang oferece-nos um filme inesquecível que nos leva a interrogar a História, através do célebre "SE"!
      Boa Tarde!

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