domingo, 27 de novembro de 2016

Fred Schepisi – “Plenty – Uma História de Mulher” / “Plenty”


Fred Schepisi - "Plenty - Uma História de Mulher" / "Plenty"
(ING/EUA - 1985) – (121 min. / Cor)
Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Sam Neil.

A maior dificuldade que temos para escrever acerca de um filme com Meryl Streep, é nunca conseguirmos evitar essa frase já célebre e por vezes "estafada", mas real, de que ela é a maior actriz viva do cinema norte-americano e um filme com a sua participação é um êxito assegurado. Foi o próprio Fred Schepisi (1) que confessou esta sua fraqueza, reconhecendo a influência benéfica trazida por Meryl ao filme “Plenty”. Este australiano, que conheceu o sucesso em 1976 no Festival de Cannes, com a película "The Devil's Playground" / “O Recreio do Diabo”, surge-nos aqui numa obra baseada no romance do sempre excelente David Hare, "Plenty" – e todos conhecemos a complexidade das obras de Hare, sejam elas romances, peças ou argumentos cinematográficos.


Realizado por um australiano e com uma actriz norte-americana na protagonista, "Plenty" é uma obra profundamente britânica, com todas as qualidades e fraquezas desta cinematografia. No entanto, como sempre, há algo que falta, e ao fim de dez minutos de visionamento sentimos essa falta, verificando na realização a fraqueza da película. Mas se "Plenty" é possuidor deste ponto negativo, ele tem um trunfo que anula as fraquezas que possam existir. Esse trunfo chama-se Meryl Streep e a jogada está ganha.
O corpo do actor/ actriz é um elemento, por vezes preponderante, num filme ou na carreira de uma estrela, mas no caso de Meryl Streep a sua arte reside no rosto. E não há nada melhor que esta película para nos demonstrar isso mesmo.
Quantos rostos possui a Susan Trasherne (Meryl Streep) deste filme? Quantos sorrisos, quantas alegrias, quantos prazeres??? Susan tinha tudo para oferecer a um mundo novo em construção, mudando o estado das coisas. Quantas gerações gritaram "nós vamos mudar o mundo!" e tudo ficou na mesma ou pior ainda? Como dizia Burt Lancaster em "O Leopardo" de Luchino Visconti: "tem que se mudar as coisas, para que tudo fique como dantes" (cito de memória).


A Susan de "Plenty" é uma mulher que "nasce" com a Segunda Grande Guerra, vivendo na resistência a seiva da vida, e o seu encontro em território francês com Lazar (Sam Neil) irá marcá-la para sempre. Sendo essa estranha recordação de uma noite que a irá acompanhar ao longo da vida. Tony, o companheiro de luta, é um ponto de passagem e Raymond (Charles Dance) não é mais do que o marido que a ama perdidamente, oferecendo-lhe um certo conforto social que Susan não suporta, quase a aniquilando, mas que também por amor tudo suporta ou aceita, se preferirem. Já Mick, o amante, (Sting) (2), não passa de um caso por culpa da paixão inexistente. Susan é um pássaro preso na gaiola dourada, que lhe ofereceram num abrigo, para não ser devorada pela fúria das águias.


No final Susan dorme no quarto em busca do repouso da vida, perdida mas liberta do seu cárcere ,sonhando de forma tranquila, enquanto Lazar parte para a ordem social do caos a que pertence. "Plenty - Uma História de Mulher” oferece-nos uma Meryl Streep senhora dessa Arte de transfiguração do rosto. As suas metamorfoses ao longo da película transformam este filme num puro jogo de olhares interiores de uma actriz, para o exterior de uma vida perdida ou vencida, consoante a visão de cada um, na certeza de oferecer a imagem da passagem dolorosa desse tempo que apaga lentamente a chama da resistência, consumindo os sonhos de uma juventude sem idade.
"Plenty" é um filme de Meryl Streep onde, pela primeira vez, o seu rosto assume a totalidade da representação. Naquela face sentimos o cansaço, a alegria, o amor, o medo, a angústia e o desejo de uma actriz chamada Meryl Streep.


(1) - Ele é o cineasta do bem famoso "A Casa da Rússia", em parte rodado no nosso país, com Sean Connery, Michelle Pfeiffer e James Fox.

(2) - Demonstrando mais uma vez as suas qualidades de actor.

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