terça-feira, 15 de novembro de 2016

Fernando Lopes – “Lá Fora”



Fernando Lopes - "Lá Fora"
(PORTUGAL - 2003) - (107 min. / Cor)
Alexandra Lencastre, Rogério Samora, Ana Zanatti.

Depois de ter feito a excelente adaptação para o cinema do romance "O Delfim" de José Cardoso Pires, o cineasta Fernando Lopes partiu para um outro "género", de seu título "Lá Fora". E dizemos "género", porque ele surge como uma outra forma de olhar o cinema, a que não é alheio o facto de o autor do argumento ser o crítico João Lopes, possuidor de uma das mais singulares escritas cinematográficas. Será esse trabalho desenvolvido ao longo de décadas pelo João Lopes, na imprensa escrita, que respira no seu argumento, em que dois seres que se amam, acabam por nunca se tocar.



Fernando Lopes, ao confessar a sua paixão Godardiana numa entrevista, ofereceu as pistas que levaram à conjugação de esforços para a feitura deste filme, já que poderemos dizer que estamos perante uma dupla do género Wim Wenders/Peter Handke. Mas deixemo-nos de introduções e vamos ao filme. Curiosamente, em "Lá Fora", voltamos a encontrar os mesmos protagonistas de "O Delfim", Rogério Samora e Alexandra Lencastre e se haveria o perigo de a sombra das personagens anteriormente trabalhadas habitarem a película, ela está ausente, já que a figura de Rogério Samora no corretor da bolsa José Maria Cristiano, surge como figura singular e não tipificada. Já Alexandra Lencastre, na personagem de Laura Albuquerque, a bem sucedida apresentadora/jornalista de televisão, está como peixe na água.


José Maria e Laura vivem no mesmo condomínio fechado, direi antes trancado a sete chaves e com dezenas de "big brothers" vigiando a sua segurança, ao mesmo tempo que invade a privacidade das suas vidas. E se ela possui o desejo de o conhecer, ele é já o olhar que a espia terminando por se encontrarem "casualmente" numa entrevista na televisão. Aqui Fernando Lopes, um conhecedor profundo do meio, introduz no filme o elemento de ligação com o actual cinema português, através dos excelentes desempenhos de Maria João Abreu, Miguel Guilherme e Rui Morrison, com as suas histórias paralelas, Estamos assim perante o universo das imagens e das comunicações (net/telemóvel), repare-se no início da película na conversa de Laura Albuquerque no carro.


Depois há a outra matéria de que é composta esta obra, a citação cinematográfica, assim encontramos, sem sombra de dúvidas, o Antonioni de "O Eclipse" e o par Alain Delon/Monica Vitti, o universo Godardiano, mas também a cinematografia americana e a citação directa a "Roda da Fortuna" / "The Band Wagon"de Minnelli, com Rogério Samora a imitar Fred Astaire, perante o olhar surpreendido da filha. Estamos nesse preciso instante no território do musical e recorde-se como a obra "Crónica dos Bons Malandros" de Fernando Lopes pretendia homenagear o "Eles e Elas" / "Guys and Dolls" de Joseph L. Mankiewicz, depois mergulhamos no par Ana Zanatti e Alexandra Lencastre numa "conversa psicanalítica", nascida apenas num longo take, numa homenagem a esse filme extraordinário de Ingmar Bergman chamado "Persona".

Mas perguntará o(a) leitor(a) de que trata "Lá Fora"? É simplesmente uma fábula sobre a "era do vazio", que nos oferece personagens à beira do abismo, que procuram no sucesso a fuga das suas existências condenadas ao fracasso dos sentimentos. Tanto José Maria como Laura são divorciados, embora ambos tenham filhos e a geração que criaram encontra-se no mesmo beco sem saída. A filha de José Maria com uma gravidez indesejada, com um namorado completamente nulo e o filho de Laura um acusador implacável na sua relação com a mãe. Para finalizar, regressamos ao momento Bergmaniano do filme e a essa grande actriz chamada Ana Zanatti, onde as marcas do tempo apresentam uma beleza e tranquilidade que nos deixam perfeitamente maravilhados. Se o(a) leitor(a) perguntar, vale a pena ver este filme? A resposta é Sim! Se não é cinéfilo, aqui está uma excelente oportunidade para mergulhar no mar da cinefilia, se conhece mal o cinema português contemporâneo, este é um excelente ponto de partida para a sua descoberta.

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