quarta-feira, 9 de novembro de 2016

David Lynch – “Mulholland Drive” / “Mulholland DR.”


David Lynch – "Mulholland Drive" / "Mulholland DR."
(EUA/FRANÇA – 2001) – (147 min. / Cor)
Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux, Ann Miller.

“Mulholland Drive”, a célebre Estrada que circunda Hollywood, ofereceu o título a este filme, onde mais uma vez o cineasta convida o espectador a entrar nesse seu universo tão peculiar, em que o sonho e a realidade se cruzam de forma profunda, abrindo estradas para o desconhecido ou se preferirem “road to nowhere”.


Esta película, que inicialmente foi pensada como uma série televisiva para a cadeia ABC, apresentava-se como a aventura seguinte de David Lynch no pequeno écran, após o enorme sucesso de “Twin Peaks”, mas a estação televisiva após ver o episódio piloto, ficou positivamente em estado de choque e os executivos, argumentando com os custos da produção, desistiram da série condenando o ambicioso projecto do realizador. E seria o produtor francês Alain Sarde a sugerir a Lynch que ele transformasse “Mulholland Drive” num filme, aceitando o cineasta o difícil desafio, transformando o projecto numa película surpreendente, que deixou o espectador deliciado com a sua arte.


Quando a noite vai alta e a cidade dos anjos ainda dorme, uma limusina percorre a Mulholland Drive a alta velocidade, levando no seu interior uma mulher bela e sensual (Laura Harring), desconhecendo que em breve a tragédia irá surgir O acidente de viação que nos é oferecido por David Lynch, em todo o seu horror, irá vitimar todos os intervenientes excepto a bela morena que, apesar de se encontrar ferida, consegue sobreviver, embora perca a memória, não sabendo quem é nem onde está.
Após descer as colinas com dificuldade, Rita (Laura Harring) irá refugiar-se no apartamento de Betty Elm (Naomi Watts) que, após a conhecer, irá tentar ajudá-la a recuperar a memória.


Mas David Lynch, mais uma vez, irá trocar as voltas ao espectador ao jogar com as identidades das personagens, conduzindo-nos até Camila (Laura Harring) e Diane (Naomi Watts), entrando no território dos sonhos, onde habitam os pesadelos transformadores da realidade, abrindo portas e fechando janelas, que nos irá conduzir a um olhar amargo sobre o mundo que gira em redor do cinema ou não estivéssemos em Hollywood, essa terra de sonhos em que todos aspiram a ser estrelas.
Por aqui se convoca a memória de mitos do cinema, desde a “Gilda” de Rita Hayworth, até às célebres louras Hitchcockianas, passando pelo “film noir”, para se desembocar na magia da sensualidade.


Seguir o percurso destas duas mulheres e a sua duplicidade é a proposta de David Lynch, que joga uma vez mais no território do sonho com um saber único, ao mesmo tempo que conta com interpretações de tirar o fôlego, muito especialmente de Naomi Watts, que revela aqui todas as suas potencialidades de actriz, basta vermos com atenção a sua prova de “casting”, para ficarmos simplesmente boquiabertos.


“Mulholland Drive”, depois de ser um projecto falido, transformou-se num dos maiores sucessos do cineasta, onde mais uma vez é fundamental o contributo na banda sonora de Angelo Badalamenti, que pontua as sequências com um saber belo e transgressor.

Onde termina a realidade e começa o sonho e o desejo é o território eleito por David Lynch para transformar “Mulholland Drive” numa película fascinante, enigmática e perturbante, que convida o espectador a mergulhar na essência do surrealismo Lynchiano em toda a sua beleza.

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