quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Cédric Klapisch – ”Paris” / “Paris”



Cédric Klapisch – 
(FRANÇA – 2008) – (130 min. / Cor)
Roman Duris, Juliette Binoche, Fabrice Luchini, François Cluzet, Karin Viard, Gilles Lelouch.

Todos nós fixámos o nome de Cédric Klapisch quando foi estreado em Portugal “O Albergue Espanhol” / “L’Auberge Espagnole”, que nos contava a história de Xavier (Roman Duris) por terras de Espanha aproveitando as facilidades desse programa escolar chamado Erasmus. Meia-dúzia de anos depois voltamos a encontrar Roman Duris a ser novamente dirigido por Cédric Klapisch, nesta bela viagem pela vida no interior da maravilhosa cidade de Paris.


Desta feita aos actores junta-se como um novo protagonista essa cidade das luzes chamada Paris, que nos surge em todo o seu esplendor, ao mesmo tempo que sentimos o pulsar da sua população. Pierre (Roman Duris) é um bailarino que um dia é informado estar doente do coração, ficando impossibilitado de exercer a profissão, ao mesmo tempo que sabe que a única solução para a doença é fazer um transplante. Enquanto espera na sua casa irá conviver com a perspectiva da morte, acabando por passar a dar uma maior atenção a todos aqueles que se cruzam com ele.


Iremos assim descobrir as pequenas histórias dessa gente comum que se cruza diariamente connosco na cidade que habitamos, ao mesmo tempo que vamos descobrindo as pequenas histórias do quotidiano que comandam a vida. Com um elenco de primeira água, Cédric Klapisch irá entrar pela porta da vida de Pierre (Roman Duris) que, inevitavelmente, começa a olhar o passado para melhor compreender o presente, ao mesmo tempo que iremos conhecer a vida da sua irmã Elise (Juliette Binoche, mais uma vez excelente), uma assistente social divorciada com três filhos e que está, como ele, cansada da vida e das vidas que se lhe deparam diariamente.


Por outro lado iremos assistir ao sonho que acalenta a vida de muitos africanos que, no seu continente, esperam uma oportunidade de partir clandestinamente para um mundo melhor (ou seja oito anos após a sua feitura esta película é de uma enorme actualidade) acompanhando uma dessas histórias que se irá transformar em tragédia, porque embora o sonho comande a vida, como muito bem nos demonstrou o cineasta André Téchiné no seu filme “Longe” / “Loin”, nem sempre o desejo se transforma em realidade. E nesta Paris que tão bem conhecemos e amamos, ela é decididamente a nossa cidade, iremos cruzar-nos com as vidas de gentes oriundas dos mais diversos extractos sociais, desde o professor (Fabrice Luchini) que se apaixona pela aluna, numa tentativa de recuperar essa juventude perdida, até ao arquitecto (François Cluzet) que deseja ardentemente ter um filho, depois de enfrentar a morte do pai.


Andamos assim por esta cidade tão amada e mergulhamos no Mercado para descobrirmos a vida dos vendedores que se encontram por detrás das suas bancas e conhecemos a sua vida difícil, que começa muito mais cedo do que a da maioria como irá descobrir a modelo, nessa noite em que decide conhecer esse lado tantas vezes esquecido da Paris que dorme.
E tal como Pierre (Roman Duris) entramos naquela boulangerie para comprar essa baguette que adoramos e descobrimos a proprietária (uma Karin Viard sempre espantosa, lembram-se dela em “A Nova Eva”?) com o seu discurso xenófobo, por vezes tão comum em terras gaulesas. Nada escapa ao olhar de Cédric Klapisch, que nos oferece um retrato de Paris que nos fascina por um lado, mas também nos atemoriza, com esses lugares a evitar, enquanto por outro nos convida a conhecer personagens criadas com um amor absoluto, oferecendo-nos os seus defeitos e qualidades, com uma candura extrema, usando o “scope” sempre de forma precisa e bela, uma constante do cinema francês, que continua a revelar-se, felizmente, um eterno apaixonado pela Sétima Arte.


Esta “Paris” de Cédric Klapisch merece ser (re)descoberta, porque nos convida a meditar sobre a nossa passagem pela vida. E quando no final Pierre (Roman Duris) entra no táxi que o irá levar ao hospital para fazer o transplante, viajamos com ele e acompanhamos a câmara do cineasta, não no adeus perfeito à cidade, mas sim numa contemplação serena por essa cidade da nossa vida chamada Paris.

 Nota: A edição em DVD respeita o formato e possui excelentes extras.

2 comentários:

  1. A cidade vista com olhos de quem gosta dela! Vale a pena!

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    1. Concordo em absoluto, já que estamos perante um olhar sobre a cidade das luzes, o seu quotidiano e a vida dos seus habitantes:)

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