sábado, 12 de novembro de 2016

António da Cunha Telles – “Vidas”

Maria Cabral intérprete de "Vidas"
em "O Cerco" de Antonio da Cunha Telles

António da Cunha Telles – "Vidas"
(PORTUGAL - 1984) – (120 min. / Cor)
Júlia Correia, Pedro Lopes, Maria Cabral, Virgílio Castelo.

Todos nós que amamos o Cinema temos essa dívida, por muitos esquecida, de que António da Cunha Telles foi o principal Produtor do Cinema Novo. Depois foi o responsável pela Distribuidora Animatógrafo, que ofereceu a todos a possibilidade de descobrir nomes como Nagisa Oshima, Glauber Rocha, Andy Warhol/Paul Morrisey, Alain Tanner e o novo cinema Suíço, o Novo Cinema Alemão, o Jean-Luc Godard de “Número Deux” ou Serguei Eisenstein, entre muitos outros nomes que fomos encontrando nas salas do cinema Quarteto, para mais tarde ele ser também o exibidor naquela sala da Rua da Beneficência intitulada nesses tempos de Cinema Universal. Mas para além de todas estas actividades, António da Cunha Telles também é o Cineasta! 

"O Cerco", seu filme de estreia, ofereceu-nos um dos mais belos rostos/intérpretes do jovem cinema Português, de seu nome Maria Cabral. Seguiu-se "Meus Amigos" nas vésperas de Abril de 1974 e em 1976 surgiu "Continuar a Viver – Os Índios da Meia-Praia”, que recentemente foi restaurado, mas o que nos trás aqui é o filme "Vidas", que será extremamente importante rever e comparar com "Kiss Me", a sua última película.

António da Cunha Telles

"Vidas" de António Cunha Telles é isso mesmo que o título representa, mas poderíamos também mudá-lo para "Vidas da Cidade", em virtude do retrato citadino em que se situa a película. Temos assim a imagem de uma cidade, Lisboa, olhada através do par Pedro e Lina e do triângulo Sérgio, Diana e Vítor, o qual apresenta muitas vezes um carácter documental, marco de uma época recheada de modas e comportamentos. É o caso concreto de Pedro e Lina (Pedro Lopes e Julia Correia), invadindo o quotidiano que desfila vertiginosamente ao longo dos fotogramas, E não é por acaso a inexistência de "pontos mortos" na película, tal como sucede também em "António, Um Rapaz de Lisboa", de Jorge Silva Melo, fruto de dois cineastas bem conhecedores da matéria cinematográfico com que trabalham.

Marisa Cruz em "Kiss Me" de Antonio da Cunha Telles

Enquanto o par Pedro e Lina é o presente em vida, percurso de uma estrada inevitável, o triângulo Sérgio, Diana e Vítor representa o passado para sempre esgotado. E a fuga de Diana, mãe de Pedro, situa-se na memória, com os seus cruzamentos e sinais vermelhos. Por outro lado a fuga de Vítor é encontrada no mar, como os antigos navegantes, mas ela é constantemente adiada pelas amarras que o ligam ao corpo da cidade. Vítor é a partida eternamente adiada, já Sérgio encontra o seu refúgio na escrita, devido à impossibilidade de reviver a sua anterior passagem pela cidade. Tudo mudou nela e a peregrinação pelos lugares de ontem termina na frustração, enviando-o para os sinais do vocabulário da sua escrita.

"Vidas", de António da Cunha Telles, ofereceu-nos o regresso de Maria Cabral ao grande écran, esse rosto inesquecível do Cinema Português, mas também é o filme que nos oferece o retrato de uma geração e de uma época. Um filme que merece ser (re)descoberto!

Sem comentários:

Enviar um comentário