terça-feira, 4 de outubro de 2016

Stanley Kubrick – “De Olhos Bem Fechados” / “Eyes Wide Shut”


Stanley Kubrick – "De Olhos Bem Fechados" / "Eyes Wide Shut"
(EUA – 1999) – (159 min. / Cor)
Tom Cruise, Nicole Kidman, Sydney Pollack, Todd Field.

Stanley Kubrick nasceu em Nova Iorque, em 1928, passando a sua infância no Bronx, tendo sido o pai a incutir-lhe o interesse pelo xadrez, tornando-se um jogador exímio, ao mesmo tempo que despertava para a arte fotográfica, começando a trabalhar na revista “Look”, nascendo rapidamente o seu interesse pelo cinema.
E será graças ao apoio financeiro paternal que irá realizar o seu primeiro filme, “Fear and Desire” (1953), em que os actores tinham a particularidade de desempenharem dois papéis diferentes, devido aos meios precários existentes.


Dois anos depois aparece “Killer’s Kiss” mas será no ano seguinte, com “The Killing”, que chama as atenções sobre si, devido à forma perfeita como o filme foi estruturado, sendo o actor Kirk Douglas uma das pessoas que se interessou pelo trabalho do jovem cineasta, nascendo esse testemunho anti-belicista intitulado “Paths of Glory” / “Horizontes de Glória”, sobre o qual já aqui falámos, baseado num facto ocorrido durante a Primeira Grande Guerra (1914-1918), na célebre guerra de trincheiras, que levará soldados inocentes a serem fuzilados devido aos erros estratégicos do alto comando, que os irá usar como bode expiatório para o seu fracasso no campo de batalha. O filme foi de tal forma polémico em França, que esteve proibido durante largos anos .


Iniciava-se assim uma frutuosa colaboração entre Stanley Kubrick e o actor/produtor Kirk Douglas, que se irá cimentar com a feitura de “Spartacus”, após o despedimento de Anthony Mann pelo produtor, descontente com as opções do veterano cineasta. Como todos sabemos, esta amizade de trabalho irá romper-se após a conclusão da película, apresentando cada um a sua versão. Mas Stanley Kubrick não pára e inicia a preparação da adaptação ao cinema do livro-escândalo, na época, de Vladimir Nabokov, o famoso “Lolita”, que irá oferecer a James Mason uma das mais notáveis interpretações da sua carreira.


Em plena guerra-fria, Stanley Kubrick decide utilizar um humor profundamente mordaz para caracterizar o perigo de um conflito nuclear, onde a irracionalidade e a estupidez andam de mãos dadas com os políticos e os militares, oferecendo a Peter Sellers diversas personagens, que o actor britânico irá compor de forma inesquecível, prendendo o espectador ao écran do primeiro ao último minuto. Estamos a falar, como já deu para perceber, de “Dr. Estranho Amor”, cujo título original é “Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”, tendo a Academia de Hollywoood nomeado pela primeira vez o cineasta para a categoria de Melhor Realizador.


Inicia-se então uma época em que o cineasta trabalha até ao pormenor todas as vertentes dos seus filmes, cultivando uma perfeição que o irá tornar célebre, dando-se em 1968 o nascimento daquele que é, para muitos, o mais belo e perfeito filme de ficção-cientifíca de sempre, o célebre “2001 – Odisseia no Espaço” / “2001: A Space Odyssey”, utilizando o formato de 70 mm de forma inesquecível.
Ao entrarmos na década de setenta o cineasta fixa-se em Inglaterra, abandonando a sua pátria americana, realizando em 1971 “Laranja Mecânica” / “ A Clockwork Orange”, baseado no livro de Anthony Burgess, onde mais uma vez a música irá desempenhar um papel fundamental, tal como sucedera no filme anterior, sendo desta feita convocado Beethoven e a sua célebre 9ª Sinfonia, muito em especial o seu quarto andamento, a famosa “Ode à Alegria”, onde a psiquiatria é questionada como modelo para combater a violência gratuita.
“Barry Lyndon”, a sua película seguinte, traduz-se como a sua abordagem ao filme histórico, partindo do romance de Thackeray, onde o cineasta leva a perfeição a limites inimagináveis, chegando a rodar uma sequência à luz de velas, que ficou célebre. Curiosamente, hoje em dia, “Barry Lyndon” é um dos filmes menos abordados da sua filmografia.


Na década de oitenta, Stanley Kubrick oferece-nos dois trabalhos de géneros bem distintos: “Shining”, abordando o cinema de terror e “Nascido Para Matar” / “Full Metal Jacket”, o filme de guerra, situando a acção na guerra do Vietname, onde assistimos primeiro ao período da recruta, muito copiado em filmes posteriores e depois ao conflito em si, com a entrada no campo de batalha, esse território em que uma companhia vai sendo dizimada por um atirador emboscado.
1999 marca a chegada da última película da sua espantosa filmografia, “Eyes Wide Shut” / “De Olhos Bem Fechados”, adaptando para os dias de hoje o famoso romance de Arthur Schnitzler, intitulado “Traumnovelle”.


Na época da feitura da película, os actores Tom Cruise e Nicole Kidman eram um dos mais célebres casais de Hollywood, sempre com os holofotes dos “media” centrados nas suas vidas e, ao aceitarem o convite do Mago do Cinema, irão permanecer durante largo tempo em Inglaterra, em virtude da rodagem se ter prolongado para além do que estava previsto, tendo o cineasta até substituído uma das actrizes, descontente com o resultado final, filmando de novo as sequências com outra actriz, tudo sempre debaixo do maior segredo, como é habitual nos seus filmes.
Anunciado como um filme choque e com cenas explícitas, a publicidade da película aguçou de imediato o apetite de milhares de espectadores, que ansiavam por ver “Eyes Wide Shut”


Iremos assim conhecer o quotidiano perfeito, à superfície, de um casal da alta sociedade nova-iorquina: William Harford (Tom Cruise), um médico cujos clientes pertencem ao mesmo meio, sendo um deles o poderoso Ziegler (Sydney Pollack, numa interpretação brilhante), com quem mantém uma forte amizade, que o levará a percorrer caminhos bem perigosos, onde o sexo e a morte são o cocktail explosivo de uma orgia bem perigosa para o protagonista.
Mas os alicerces do mundo perfeito habitado por Harford (Tom Cruise), serão abalados também quando a sua esposa Alice (Nicola Kidman) lhe confessa esse segredo mortal do adultério, praticado de forma (in)consciente em “sonhos”, que podem ser bem reais, camuflando desta forma a traição e o seu desejo.
O que irá levar William Harford (Tom Cruise) a sentir também o desejo de pecar, com uma prostituta, acabando por dar um passo atrás nesse momento em que a perdição lhe bate à porta, partindo numa longa viagem pela noite, que o levará até um bar onde irá reencontrar um antigo amigo que toca piano no local.
Será através dele que irá conhecer a senha que irá conduzi-lo até uma luxuosa Mansão, onde se reúnem pessoas em busca do prazer sem limites, como se pertencessem a uma seita, escondendo a identidade por detrás de máscaras, participando após os rituais em orgias que ele, William Harford (Tom Cruise), o marido dedicado, o pai perfeito e o médico das altas esferas, irá acompanhar, até ser descoberta a sua identidade.


Estamos assim perante uma obra onde o desejo, o ciúme e a traição originam um cocktail explosivo, a que não está ausente a morte, que irá alterar por completo a vida deste casal dito perfeito, tornando-o prisioneiro da memória da dúvida, apagando assim para sempre a chama da paixão. E se no final os encontramos felizes, num centro comercial em plena época natalícia, na companhia dos filhos, sabemos bem como esta imagem é superficial, servindo apenas para ser consumida pela sociedade, porque as marcas do passado recente dilaceraram para sempre a presença do amor.



Stanley Kubrick com “Eyes Wide Shut” / “De Olhos Bem Fechados” concluiu uma das mais brilhantes filmografias de toda a História do Cinema.

Sydney Pollack, Stanley Kubrick e Tom Cruise

Nota: Stanley Kubrick era conhecido como perfeccionista e teve conhecimento que “Eyes Wide Shut” estava a ser projectado num cinema de Londres de forma incorrecta e assim decidiu um dia bater à porta da cabine de projecção, para explicar ao surpreendido projeccionista como devia colocar a janela, para exibir de forma correcta aquele que viria a ser o seu filme derradeiro. 

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