sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Peter Greenaway – “Os Livros de Prospero” / “Prospero’s Books”


Peter Greenaway – "Os Livros de Próspero" / "Prospero's Books"
(ING. – 1991) – (121 min. / Cor)
John Gielgud, Michael Clark, Isabelle Pasco, Michel Blanc, Erland Josephon.

“Os Livros de Prospero” é a minha peça favorita de William Shakespeare. Já a vi encenada em palco, onde as regras do jogo eram alteradas, ou seja Prospero era uma mulher e Ariel surgia interpretado por Diogo Infante oferecendo-nos o actor uma voz de barítono até então desconhecida de todos nós. Depois, no cinema, encontrei uma versão em território contemporâneo, dirigida por Paul Mazurski e tendo John Cassavetes na figura de Prospero e Raul Julia na de Caliban. A figura de Prospero já teve nos palcos o rosto e a voz de Alan Rickman, Michael Gambon, Derek Jacobi, Christopher Plummer, Ralph Fiennes, Peter Fonda e Patrick Stewart, já foi romance, western e ficção-cientifica no cinema, ao longo dos anos e invadiu o território da Pintura ao longo dos séculos. Mas a mais feliz adaptação de “A Tempestade” ao “Cinema” é a de Peter Greenaway.


Não foi por acaso ou erro que cinema surge entre aspas, porque a linguagem criativa de Peter Greenaway não possui fronteiras, partindo do cinema para as outras artes, sejam elas a pintura (a sua formação inicial), escultura, teatro, literatura e medias. Porém esta adaptação de Shakespeare é obra também de um dos maiores actores de sempre do teatro e cinema inglês, referimo-nos a Sir John Gielgud (lembram-se dele no “Júlio César” de Joseph L. Mankiewicz?) e à sua voz imponente.


Desde muito cedo que John Gielgud desejava recriar no cinema a sua personagem de Prospero, tantas vezes levada ao palco e assim, durante a rodagem de “Falstaff” de Orson Welles, em que participou como alguns devem estar recordados, apresentou a proposta ao Génio sabendo dos seus amores pelo Bardo. E Orson Welles viu-se de imediato na figura de Caliban mas, como sempre, a falência bateu à porta do maior “maverick” da Sétima Arte e tudo ficou em esboço.


No entanto, John Gielgud não desistiu e falou com outro apaixonado pela obra de William Shakespeare, o cineasta japonês Akira Kurosawa (“Ran” – “Os Senhores da Guerra” é um dos mais belos épicos Shakespeariano) e mais uma vez nada foi concretizado. Mais tarde foi a vez de Ingmar Bergman andar a ler a peça, pensando também ele em John Gielgud para interpretar a personagem de Prospero e Albert Finney iria dar corpo e voz a Caliban e mais uma vez não saiu fumo branco. Até que, cansado de tanto esperar para interpretar o tão desejado papel de uma vida, Sir John Gielgud apresentou o projecto ao cineasta Peter Greenaway e o inglês, com os produtores holandeses de sempre, partiu para a aventura desconhecendo que este filme iria registar a última presença desse enorme e inesquecível actor chamado John Gielgud no cinema. “Os Livros de Prospero” / "Prospero's Books" iriam transformar-se assim no seu maravilhoso e inesquecível Testamento Cinematográfico.


Peter Greenaway, como já referimos, é oriundo da pintura mas curiosamente a sua primeira exposição intitulou-se “Eisenstein no Palácio de Inverno”, já no cinema a sua obra de estreia foi a curta-metragem “A Walk Through H”. Depois, lentamente, foi criando um estilo próprio onde todas as Artes vivem num écran chamado cinema, até ao momento em que criou a revolução com “The Pillow Book” / “O Livro de Cabeceira”. Mas voltemos um pouco mais atrás para encontrarmos em “O Contrato” / “The Draughtsman’s Contract” a obra que o deu a conhecer ao mundo, transformando-o em autor de culto, ao mesmo tempo que o cineasta criava uma equipa constante e dedicada aos seus projectos, fossem eles para o grande écran ou destinados à caixa que mudou o mundo (neles encontramos momentos únicos dos media, tal como sucedeu com o incontornável “A Morte em Veneza” / "Death in Venice" de Tony Palmer).


Após “O Contrato” seguiram-se “A Zed & Two Noughts”, “The Belly of an Architect” / "As Cólicas de um Arquitecto" e “Drowing By Numbers” / "Maridos à Água", todos eles já editados em DVD no nosso país, Será no entanto com o célebre e controverso filme "O Cozinheiro, O Ladrão, A Sua Mulher e o Amante Dela" / " The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover", que Peter Greenaway vai acordar o bom povo cinéfilo português para a sua Arte, que me recorde nunca uma película foi tão amada e odiada, o jornal “Público” até incluiu uma pergunta sobre o filme num inquérito de Verão, mas ninguém ficou indiferente a ele e mais uma vez a música de Michael Nyman surgia, impondo o compositor britânico como uma das mais brilhantes personagens da música contemporânea.



Seria assim, com imensa curiosidade, que “todo o mundo” foi ver a abordagem da obra de William Shakespeare pelo Mestre das Belas-Artes e terminamos por descobrir apenas a melhor obra cinematográfica da sua vasta filmografia.
Sir John Gielgud estava soberbo, a música de Michael Nyman navegava naquele mar revolto onde a voz de Ariel nascia através da maravilhosa voz da soprano Sarah Leonard, iluminada pelo enorme saber da fotografia de Sacha Vierney. A Sony ofereceu todos os meios para o cineasta combinar o cinema com as técnicas mais modernas de televisão, permitindo-lhe uma montagem genial, onde a cor é um dos intérpretes, para já não falar nos famosos travellings, acompanhados das geniais coreografias de Karine Saporta, que os transforma num ballet que se movimenta ao som da música de Michael Nyamn e onde se deve destacar o seu saxofonista John Harle, que marcam decididamente toda a película de forma brilhante, que nos deixam sem respiração, mas será a voz de Prospero (John Gielgud) a invadir-nos a alma para nos narrar o seu exílio e nos falar dos seus livros, apresentando-os um a um, ao mesmo tempo que nos convida a visitar e conhecer esse território único e maravilhoso chamado Biblioteca.

“Os Livros de Prospero” / “Prospero’s Books”, representa o apogeu da Arte de Peter Greenaway, nele encontramos a erudição de um Mágico, que nos oferece um outro universo nascido do seu olhar sobre esse vasto universo da Arte, indicando-nos diversos caminhos para encontrarmos a sua casa, onde habita uma mala que percorreu os séculos da cultura, para depois partimos com ela para a célebre ilha de Prospero.

P.S. – Se um dia fosse desterrado como Prospero para uma ilha e só pudesse levar uma peça de Teatro, ela seria inevitavelmente “A Tempestade” de William Shakespears!

Bom fim-de-semana!

4 comentários:

  1. Fiquei cheia de vontade de ver este filme. Vou procurar. Bom dia!

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    1. Vi este filme já por duas vezes no grande écran e tenho o dvd, (edição nacional da Midas) é uma obra-prima do cinema.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Bom fim-de-semana

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  2. Nunca vi este filme, mas gosto muito de John Gielgud.
    Vou tentar ver brevemente.
    Obrigada pela sugestão.
    Bom fim-de-semana! :-)

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    1. John Gielgud é um actor extraordinário, ainda recentemente estivemos a rever em dvd, a série "Reviver o Passado em Brideshead", em que ele participa, a sua voz é inesquecível e na figura de Prospero está soberbo.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Bom fim-de-semana:)

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