segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Joseph L. Mankiewicz – “O Fantasma Apaixonado” / “The Ghost and Mrs. Muir”


Joseph L. Mankiewicz - "O Fantasma Apaixonado" / "The Ghost and Mrs. Muir"
(EUA - 1947) - (104 min. - P/B)
Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders, Edna Best, Natalie Wood.

Será possível amar-se alguém que não existe?
Os mais racionais dirão que não. Eu não me atrevo a contradizer tal possibilidade. Não é verdade que o homem já foi à lua, temos sondas em Marte e os anéis de Saturno estão prestes a revelar os seus segredos (outrora apenas temas de ficção científica)?


Se há um assunto que sempre me fascinou foi a possibilidade de existirem fantasmas. Estes e outros assuntos etéreos e esotéricos sempre tiveram no cinema um eco bastante forte, assim como na literatura, porque nunca é demais recordar esse fabuloso conto de Oscar Wilde intitulado "O Fantasma dos Canterville".


O (re)encontro com este tema, no maravilhoso filme de Joseph Mankiewicz "The Ghost and Mrs. Muir" / "O Fantasma Apaixonado", é uma verdadeira paisagem colorida pelos pincéis do artista porque, se tenho assistido aos mais diversos filmes a preto e branco, nunca um movie a p/b me pareceu tão soberbo nas suas cores, sobretudo na beleza de Mrs Muir (Gene Tierney).


Falemos um pouco do Joseph Mankiewicz, esse cineasta que começou na Paramount, mas em Berlim, como tradutor de intertítulos, pois estávamos em plena época do cinema mudo (1928). Mais tarde, ao regressar aos States, começou a rever diálogos de outros criando um estilo único, onde a arte da palavra respira um novo vocabulário. Inevitavelmente, o seu nome começa a surgir como um dos mais cotados argumentistas e a passagem a produtor não se fez esperar até que, devido a doença do Mestre Ernest Lubitsch, é forçado a substituí-lo (1) e como os prazos são para cumprir arregaçou as mangas e iniciou-se na realização. Gostou tanto que assinou vinte obras, metade delas verdadeiras obras-primas, relembremos algumas: "All About Eve" / "Eva" é o primado da palavra (tal como já tinha sido em "Carta a Três Mulheres" / "A Letter to Three Wives"); o mundo é o do teatro, mas inevitavelmente é do cinema de que se fala e curiosamente Bette Davies e Anne Baxter viram a ficção tornar-se realidade alguns anos depois (2); no "The Barefoot Contessa"/"A Condessa Descalça" é o mundo do cinema que se encontra retratado (3) e Ava Gardner, "esse mais belo animal do mundo", respira sensualidade por todos os poros, enquanto vamos assistindo aos diversos narradores a contar a sua história numa tarde chuvosa, na última morada da diva, o cemitério. Humprey Bogart, na personagem do realizador, envergando a famosa gabardina e o cigarro ao canto dos lábios, está soberbo; "Bruscamente no Verão Passado" / "Suddenly Last Summer", a famosa peça de Tennensse Williams, possui nas interpretações de Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katherine Hepburn toda a sabedoria dessa arte chamada teatro e Mankiewicz constrói aquela que será, certamente, a melhor adaptação cinematográfica do Grande Dramaturgo (3); para fechar este quarteto de luxo, "Julius Caesar"/ "Julio César" uma das melhores peças de Shakespeare e que possui o mais fabuloso elenco de sempre num filme de Mankiewicz ou seja Marlon Brando, James Mason e John Gielgud, entre outros.


Depois o Joseph, que sempre foi um lutador da liberdade, no célebre período da caça às bruxas, viu Cecil B. De Mille pedir a sua cabeça na associação de realizadores, acusando-o de esquerdista e curiosamente foi um Homem conotado com a direita, mas também grande conhecedor dos caminhos da liberdade, que saiu em sua defesa, o nome deste defensor é/foi John Ford e foi graças a Ford que Mankiewicz continuou a sua actividade de realizador / produtor / argumentista, naquele período conturbado da história americana.
Todos conhecemos o desastre financeiro que foi "Cleópatra", que de certa forma foi vítima do romance tórrido entre a Liz e o Burton, que nessa época enchia as páginas dos jornais. No entanto, se olharmos esta película no grande écran, somos obrigados a rendermo-nos à sua qualidade! E assim Mankiewicz é o autor por excelência, segundo a célebre terminologia dos Cahiers du Cinema, mas também é o responsável dessa pérola apaixonante que é "The Ghost and Mrs Muir" / "O Fantasma Apaixonado", cuja história retomamos.


Veja-se uma jovem viúva, com uma filha pequena (a surpresa de ver Natalie Wood a dar os seus primeiros passos na 7ª Arte, ainda criança), que tem que optar por um estilo de vida modesto e sair da cidade onde habita, em casa da sogra e cunhada.
Segue-se a procura de casa nova, em zona à beira-mar.
Hilariante a cena com o agente imobiliário, que insiste em opinar na escolha da casa mais adequada para uma jovem viúva; até que ela, revelando a sua forte personalidade, impõe o seu desejo de ficar com uma casa de preço mais modesto. Visita à casa, magnífica por sinal, com uma vista maravilhosa sobre o mar e rapidamente se descobre o motivo do preço modesto da casa: faz-se sentir, pela primeira vez, uma forte gargalhada e o agente é obrigado a confessar a existência de um fantasma, o anterior dono da casa, o turbulento Capitão Gregg (Rex Harrison).


Desenrola-se então, a partir do desejo de Mrs. Muir, uma bela amizade que cresce para uma belíssima história de amor entre duas personalidades fortíssimas, a de Mrs. Muir e do Capitão Gregg.
Pontuam também os excelentes secundários: o hilariante agente imobiliário Mr. Coombe (Roger Coote), a indispensável criada Martha (Edna Best), o galã Miles Fairley (George Sanders).
Com estreia mundial em 1947 (também em Portugal) este filme pode, de certeza absoluta, ser considerado daqueles a ver e rever, ao contrário de algumas variantes actuais sobre o mesmo tema. "O Fantasma Apaixonado" / "The Ghost and Mrs. Muir" é a magia chamada cinema!


(1) - O filme foi "Dragonwycz" / “O Castelo de Dragonwycz” (1946)

(2) - Bette Davies tinha um show na TV, mas entretanto foi substituída porque ficou grávida e foi substituída por Anne Baxter. Quando mais tarde se apresentou nos Estúdios de Televisão para retomar o seu programa, os produtores disseram-lhe que o público adorava Anne Baxter e que seria uma perda de audiência o seu regresso ao pequeno écran. Assim Bette Davies viu a ficção, de certa forma, tornar-se realidade.

(3) - "Corações na Penumbra" / “Sweet Bird of Youth” e "Gata em Telhado de Zinco Quente" / “Cat in a Hot Tin Roof”, ambos levados ao écran por Richard Brooks. "A Noite da Iguana" / “The Night of the Iguana”, realizado por John Huston com um Richard Burton fabuloso ao lado de Ava Gardner e o pouco conhecido "Algemas de Cristal" / “The Glass Menagerie”, realizado por um dos maiores intérpretes de Williams, Paul Newman que dirige a sua esposa Joanne Woodward, ao lado de John Malkovich e Karen Allen, nessa fabulosa peça que no teatro se chama "Jardim Zoológico de Cristal", já representada por diversas vezes em Portugal.

Mrs. Vertigo & Mr. Vertigo

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Mas que magnifica informação, tenho mesmo que o ler:)

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  2. :-)
    Ontem, estivemos a ver o "Sheltering Sky". Gostei muito. Obrigada pela sugestão. A fotografia é magnífica e adorei os pormenores da vida quotidiana, aquela realidade tal como é (dormir no chão, etc). Também achei os actores muito bem escolhidos para os papéis ( qualquer deles esteve muito bem).
    Um belo filme!
    Bom dia!

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    1. o "Sheltering Sky" é um dos meus filmes favoritos do cineasta e foi através dele que descobri o escritor, Paul Bowles. Concordo em absoluto consigo, os actores oferecem-nos interpretações inesquecíveis, depois a fotografia do Storaro capta de forma perfeita as cores e consegue transmitir o calor da paisagem, recordo-me que quando chegou o intervalo no cinema tive que ir beber uma água, estava cheio de sede:)
      Uma boa semana:)
      Boa tarde

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