segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Fritz Lang – “O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”


Fritz Lang – "O Testamento do Dr. Mabuse" / "Das Testament des Dr. Mabuse"
(ALE – 1933) – (122 min. - P/B)
Rudolf Klein-Rogge, Oskar Beregi, Otto Wernicke, Wera Liessen, Gustav Diesel.

A personagem do Dr. Mabuse será talvez a mais “amada” por Fritz Lang, de todas as que surgiram no seu cinema, apesar de ela ser sinónimo do mal, sempre em busca da destruição do mundo em que vive, para melhor estabelecer a sua ordem criminosa. Mabuse irá atravessar a obra de Fritz Lang ao longo das diversas décadas do Cinema, recorde-se que ele surge pela primeira vez ainda no período do Mudo em 1922, na película intitulada precisamente “O Doutor Mabuse” / “Doktor Mabuse der Spieler”, na qual o cérebro do mundo do crime pretende estabelecer o seu império criminoso, encetando uma luta de vida e morte com o Procurador Wrenck que o persegue, terminando este duelo com a prisão do Dr. Mabuse que, “aparentemente”, enlouquece e fica internado num asilo de loucos.



Em 1933, já no período do sonoro, Fritz Lang irá retomar o personagem na película “O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, onde iremos encontrar o perigoso criminoso internado no asilo de loucos, vigiado pelo professor Baum (Oskar Beregi), que vai acompanhando o seu estado de saúde ou loucura se preferirem.
Mas aproveitamos para abrir um parêntesis, para referir que o actor que interpreta o Dr. Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) retoma aqui a personagem a que deu vida no tempo do cinema mudo, sendo um dos actores que fez essa difícil transição. Por outro lado, o célebre comissário Lohmann (Otto Wernicke), também é "um nosso conhecido", pois foi o responsável policial que perseguiu Hans Beckert (Peter Lorre), o assassino de crianças, na película anterior do cineasta, o célebre “M-Matou” / “M”, uma das obras-primas do cinema.


Embora preso no asilo, percebe-se que o Dr. Mabuse prepara o seu regresso ao mundo do crime, através dos seus poderes psíquicos, ao mesmo tempo que vai escrevendo o seu testamento que será cumprido à risca pelos seus cúmplices, restabelecendo com o seu poder mental um novo mundo do crime, cuja única finalidade é a destruição da sociedade e o controlo das massas, devidamente manietadas para cumprirem os seus desejos criminosos e de poder.
Ao conhecermos a organização terrorista, percebemos que os assaltos são comandados do asilo e no meio dos operacionais existe um homem chamado Kent (Gustav Diesel), que irá travar uma outra luta com a sua consciência ao conhecer a bela Lilli (Wera Liessen) e será este mesmo homem que irá denunciar a estratégia do Dr. Mabuse para se apoderar do poder, encontrando neste duelo como parceiro o destemido comissário Lohmann. Mas Mabuse, ao ver descobertos os seus intentos, morre fisicamente, passando os seus poderes e controlo para o corpo do director do asilo prisão, o Professor Baum, manobrando-o a seu belo prazer e roubando-lhe a identidade, no sentido de estabelecer a sua nova ordem.


Se nos lembrarmos que este filme foi realizado em 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, percebemos logo quem Fritz Lang pretendia retratar e, como não podia deixar de ser, do outro lado, todos perceberam o recado e de imediato o filme foi proibido na Alemanha, só voltando a ser exibido em 1951.
Mas isso não impediu o então todo poderoso Dr. Goebbels de convidar Fritz Lang para dirigir esse Império do Cinema Europeu chamado UFA e aqui surge a famosa história contada por Fritz Lang, de como uma lenda se tornou uma realidade. Lang conta nas suas memórias que, depois de ter recusado a chefia do cinema germânico oferecida por Goebbels, de imediato se meteu num comboio, nesse mesmo dia, partindo para França, deixando a mulher Thea von Harbou (que nunca escondeu as suas simpatias pelo regime) para trás. Como sabemos Fritz Lang esteve em França um ano e depois seguiu para a América. Porém a verdade dos factos parece ser um pouco diferente porque Fritz Lang fez diversas viagens entre a Alemanha e a França, após o convite de Goebbels, mas como diria John Ford não há nada como imprimir a lenda, quando ela é mais bela que a realidade. Seja como for, na verdade, este “Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse” não deixa margem de dúvidas sobre os destinatários do filme.


E curiosamente a última película da monumental obra de Fritz Lang, realizada em 1960, “O Diabólico Dr. Mabuse” / “Die Tausend Augen dês Dr. Mabuse”, retoma esta personagem do mal, dando-lhe vida desta vez num hotel onde ele, uma vez mais, através dos seus poderes psíquicos, usa uma rede de televisão para controlar os hóspedes no intuito de reerguer das cinzas o seu império do mal.
“O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, passados todos estes anos, possui uma juventude que nos deixa a todos estupefactos, porque como vemos no início do filme, os seus homens preparam-se para destabilizar o universo monetário, pondo a circular dinheiro falso, no intuito de criar o caos nos mercados financeiros. Tendo em conta a recessão que se vive hoje no mundo, fruto da “crise do célebre défice”, se Fritz Lang fosse vivo, não iria resistir a fazer um quarto filme sobre esse génio do mal chamado Dr. Mabuse, o ser de mil rostos, que só aspira ao poder. Descobrir este filme à luz da história é, na verdade, uma experiência que nos dá muito em que pensar.

2 comentários:

  1. Há filmes absolutamente fantásticos e este é um deles!

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    1. Ao revermos os filmes do Dr. Mabuse, desde o realizado no mudo até este que visitamos neste post, percebemos como Fritz Lang se revelou um visionário.

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