quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Clint Eastwood – “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County”


Clint Eastwood – "As Pontes de Madison County" / "The Bridges of Madison County"
(EUA – 1995) – (135 min. / Cor)
Clint Eastwood, Meryl Streep, Anne Corley, Victor Slazak, Jim Haynie.

A forma como nasceu “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County” é já de si uma verdadeira história de amor e respeito por uma mãe. E dizemos isto porque foram precisamente os filhos de Francesca Johnson que, depois de muito meditarem sobre a história de amor da sua mãe, desejaram compartilhá-la com o mundo. Decidiram assim contactar o escritor Robert James Waller, cujos romances e novelas têm grande sucesso nos Estados Unidos e sugeriram-lhe um encontro para conversarem, porque achavam que um amor como aquele devia ser recordado.


O escritor aceitou o desafio e marcaram encontro a meio caminho, porque cada um habitava no extremo oposto do território americano. Robert James Waller gostou de ler a carta de Francesca para os filhos, assim como o seu diário e prometeu que iria fazer as suas próprias investigações sobre Robert Kincaid e depois decidiria se escrevia o livro ou não. Um ano depois arregaçou as mangas e atirou-se à tarefa, criando uma obra extremamente bela e sedutora, cujo sucesso foi imediato. E como não podia deixar de ser o cinema decidiu levá-la ao grande écran.


Mas o que não se esperava era que fosse a Malpaso e o seu patrão Clint Eastwood a abraçarem o romance, quando ainda estavam a saborear o enorme sucesso de “Imperdoável” / “Unforgiven”, porém Clint Eastwood gostou de tal forma  do argumento que decidiu ser ele mesmo a encarnar a figura do fotógrafo da National Geographic.
Desta forma esse pistoleiro implacável, outrora um polícia sem regras conhecido por Dirty Harry, surgia de forma surpreendente nesta maravilhosa história de amor. E o sucesso foi tão grande que houve quem se casasse debaixo dessas mesmas pontes que povoam aquela região do Illinois.


A película começa com a morte de Francesca Johnson e a ida dos seus dois filhos até sua casa, para tratar do funeral e qual não é o seu espanto quando começam a ler a carta que a mãe lhes deixou, pedindo que fosse cremada e as suas cinzas lançadas sobre essa ponte de Madison County, onde ela conheceu e aprendeu a amar esse nómada chamado Robert Kincaid. Junto da carta encontrava-se o seu Diário, em diversos volumes, onde ela narrava o romance de uma semana que durou uma vida e junto a ele encontravam-se as famosas máquinas fotográficas de Robert Kincaid, assim como as fotografias que ele lhe tirou, bem como o exemplar da National Geographic onde foi publicada a reportagem sobre as célebres Pontes de Madison County.

Clint Eastwood e Meryl Streep
durante uma pausa nas filmagens.

Se Carolyn Johnson (Anne Corley) fica espantada com o que vai lendo, já o irmão Michael Johnson (Victor Slazek) não consegue conceber que a sua mãe tenha tido um romance com um desconhecido, estando ainda casada com o seu pai, não conseguindo esconder a sua revolta. E aqui Clint Eastwood passa do presente para o passado, para irmos conhecer o quotidiano de Francesca Johnson, onde encontramos essa espantosa actriz chamada Meryl Streep, a dar vida a uma das personagens mais fascinantes que alguma vez vimos numa Love Story. Iremos assim acompanhar a forma como ela e Robert Kincaid se conheceram, através de uma simples indicação do caminho para chegar às pontes, mas que se revela complexa para um desconhecido meio-perdido naquelas paragens e ela decide então acompanhá-lo até ao local. E será aqui que o pequeno mundo da italiana Francesca se irá desmoronar lentamente, mas sempre de forma apaixonante. Os filhos e o marido encontravam-se ausentes durante alguns dias, pois tinham ido até uma feira de gado no Illinois e ela, sozinha, tinha todo o tempo do mundo por sua conta, porque não usufruir dele?


Clint Eastwood filma estes momentos de primeiro contacto entre as personagens com uma sabedoria e delicadeza que a todos espantou, repare-se quando ele lhe roça com a mão no joelho, ao abrir o porta-luvas e a forma como ela fica perfeitamente extasiada com aquele gesto fortuito. Depois será o convite para jantar, após a primeira sessão fotográfica e quando ela o vê no quintal de sua casa a lavar-se, de tronco nu, começa a ficar seduzida por aquele estranho de voz rouca e arrastada. Durante o jantar conversam animadamente, algo que na vida dela não existia, como vimos no início da película, nessa refeição em que apenas vive o ritual da passagem da comida nas travessas e onde o diálogo com o marido já se encontra ausente há muito do quotidiano.


Como se sabe as palavras são como as cerejas e Robert e Francesca descobrem isso mesmo e, lentamente, a curiosidade que sentem um pelo outro transforma-se em atracção mútua, que irá tornar aqueles dias numa memória viva para sempre no coração de ambos.
A forma como Clint Eastwood filma os pequenos gestos é memorável, ao mesmo tempo que as palavras tomam conta do espectador ao longo da película e depois há esse fascínio que nos é oferecido por Meryl Streep, que consegue transmitir todas as ansiedades e desejos da personagem. Veja-se a forma como ela se sente quando toma banho na banheira onde anteriormente Robert Kincaid tinha estado, amando cada gota de água que ainda corre do chuveiro, como se elas fossem os dedos do homem por quem se encontra perdidamente apaixonada.


Todas as horas são vividas por eles com um carinho muito especial e quando ele a convida para sair e ir dançar todos os medos se apoderam dela, mas ele sabe melhor que ninguém que no local onde vão nunca irão encontrar brancos, porque ali toca-se jazz e ama-se a música, da mesma forma que eles se amam um ao outro e aqui, mais uma vez, Clint Eastwood nos demonstra o seu amor pelo jazz e pelos blues, música que ele adora desde criança.


Quando Richard Johnson (Jim Hainie) regressa a casa com os filhos vai encontrar uma esposa cuja felicidade está estampada no rosto, embora ele nem sempre olhe para ela, fechando-se no seu próprio mundo, limita-se a comentar com ela a presença do fotógrafo na cidade, porque nas “Little Town” é-se identificado de imediato.
Francesca amara durante aqueles dias como nunca tinha amado na vida, mas quando Robert lhe pede para ela partir com ele, ela refugia-se nos filhos para não seguir o homem que a fascinava. E quando pensava que ele tinha partido para sempre, vai encontrá-lo na rua a olhar para ela, debaixo de chuva intensa, num dos momentos mais belos do filme, enquanto ela aguarda a chegada do marido sentada no interior do carro.


Mais uma vez o cineasta Clint Eastwood constrói um clímax espantoso, fazendo-nos quase soluçar perante a evolução dos acontecimentos, durante aqueles últimos minutos, sempre filmando os pequenos gestos de Francesca, como as verdadeiras angústias e incertezas que lhe dilaceravam a alma.
E assim vamos vendo como ela hesita em sair do carro do marido, para correr para a viatura de Robert Kincaid, que se encontra parada à sua frente, com ele já ao volante esperando que o verde do semáforo surja. E aqui Eastwood cria, nesta sequência, um dos momentos mais memoráveis do melodrama no cinema, porque o semáforo fica verde e ele não arranca oferecendo-lhe desta forma todo o seu amor, ao mesmo tempo que coloca o crucifixo de Francesca no espelho retrovisor. Aqueles segundos parecem eternos, aguardando por ela, mas ela hesita, dilacerada pelo amor e quando por fim ele parte, depois de Jim ter buzinado por diversas vezes, Francesca Johnson sabe que irá recordar para sempre aquele amor, que lhe irá preencher a alma para o resto da sua vida.


Ao longo da película, à medida que os filhos de Francesca Johnson vão lendo o seu diário, irão mudar de atitude perante a vida e terminam por entender que a sua mãe sacrificou o grande amor da sua vida por eles. Como iremos perceber ao longo do filme, os filhos de Francesca encontram-se em encruzilhadas perigosas, onde a ruptura dos respectivos casamentos espreita a hora para nascer, mas os ensinamentos obtidos com a leitura daquele diário irá fazer com que ofereçam mais uma oportunidade às suas próprias vidas.


“As Pontes de Madison County” oferece-nos assim mais uma espantosa interpretação de Meryl Streep, ao mesmo tempo que Clint Eastwood, um dos últimos cineastas clássico, realiza uma verdadeira obra-prima do melodrama, onde todo o seu saber navega no intimismo das relações, captando cada gesto com uma sabedoria que deixou muitos surpreendidos.

2 comentários:

  1. Belíssima crónica, Mr V. Fiquei presa até à última palavra e com imensa vontade de rever o filme.
    Bom fim-de-semana! :-)

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    1. "As Pontes de Madison County" é um filme que adoramos e curiosamente no dia em que vi o filme, sai do cinema e entrei na livraria do Apolo 70 e comprei o livro, que me ofereceu muitos mais dados sobre os protagonistas deste comovente romance e da forma como ele nasceu.
      Obrigado pelo amável comentário e bom fim de semana! :)

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