sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cecil B. DeMille – “Cleopatra”

Cecil B. DeMille - "Cleopatra"
(EUA – 1934) – (100 min. - P/B)
Claudette Colbert, Warren Williams, Henry Wilcoxon, Ian Keith.

Nos dias de hoje, quando se fala em Cecil B. DeMille, de imediato somos enviados para a sua personagem em “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard” de Billy Wilder, em que se interpretava a si próprio, ou seja ele era Cecil B. DeMille e aqui convém lembrar que o “B” significa Blount. Por outro lado, nesse encontro com Gloria Swanson, tantas vezes dirigida por ele, descobrimos estar perante a rodagem de um épico, género tão querido do cineasta, bastando recordar os célebres “Ben-Hur”, “Os Dez Mandamentos” / “The Ten Commandments” e essa obra de outro género intitulada “Cameo Kirby”, isto no respeitante ao período mudo, para no sonoro, descobrirmos “Sansão e Dalila” / “Samson and Delilah” e o seu “remake de “Os Dez Mandamentos”, com que se despediu do cinema vestindo a pele de cineasta.


Por outro lado Cecil B. DeMille, um dos grandes génios do cinema, foi também um dos maiores apoiantes do senador McCarthy e da sua caça às bruxas em Hollywood, tendo sido ele na mais célebre reunião de cineastas ocorrida na capital do cinema a pedir a cabeça do seu presidente, o cineasta Joseph L. Mankiewicz, tendo então John Ford saído em defesa deste e mais uma vez as palavras do cineasta acima das ideologias salvaram Mankiewicz de ser afastado do cargo e impediram-no de cair nas mãos do então poderoso e impiedoso senador, que um dia irá longe demais, como o cineasta George Clooney nos mostrou a todos ao realizar o fabuloso “Good Night and Good Luck” / “Boa Noite e Boa Sorte”.

Cecil B. DeMille

Cecil B. DeMille, que tratava o cinema por tu desde o tempo do mudo passando para o sonoro com a mesma vontade de vencer, construiu uma carreira única na História do Cinema, mas demos a palavra a Louis Delluc: “Admiravelmente apetrechado, rodeado de mestres, armado de uma equipa notável pela disciplina e pela fotogenia, procura o melhor com uma espécie de audácia que se ignora, uma paciência quase violenta, uma insistência fecunda, onde se preparam os amanhãs brilhantes, confortáveis, práticos, bem maquinizados e belos.”. E em “Cleópatra” vamos encontrar tudo isso e muito mais porque Claudette Colbert nunca esteve tão bela, respirando sensualidade em cada movimento, ardendo de paixão ora por Julius Caesar, ora por Mark Antony e depois temos as suas roupas, tão pouco discretas, reflectindo um corpo onde o desejo é fogo, ao ponto de algumas cenas terem sido retiradas pela sua ousadia, após algumas semanas de exibição, aliás o célebre Código Hays baseou-se nessas mesmas cenas para o seu nascimento, amordaçando durante anos (desde 1934 até aos anos 60) a criatividade de muitos cineastas, embora muitos tivessem contornado as famosas regras, como a do tempo de um beijo, como Alfred Hitchcock fez em “Notorius” / “Difamação”, com os célebres beijos de Cary Grant a Ingrid Bergman.


Mas voltemos a esta “Cleópatra” de uma sensualidade avassaladora e com uma Claudette Colbert a dar cartas, tal como os restantes actores. Muitas vezes quando se fala em “Cleópatra” olhamos de imediato para essa obra que marcou negativamente a carreira de Joseph L. Mankiewicz, em virtude de este ter sido impedido de a apresentar na sua duração original pelos Estúdios, depois somos forçados a comparar a Elizabeth Taylor com Claudette Colbert e descobrimos que nenhuma é superior à outra, podendo-se dizer o mesmo do Mark Antony de Richard Burton comparado com o de Henry Wilcoxon, já o Octavian de Ian Keith é superior ao de Roddy MacDowall, mas o Julius Caesar de Rex Harrison é único na história do cinema. Comparando os dois filmes ficamos sem saber qual a mulher mais bela que sai do tapete estendido aos pés de Julius Caesar, por outro lado nesta história passada no ano 48 depois de Cristo encontramos a Rainha do Egipto a enfrentar uma revolta, oferecendo o seu corpo e o seu reino a Júlio César para melhor o controlar e como uma perfeita sedutora tudo irá fazer para ambos nunca saírem da sua alçada, até ao momento em que César, apesar dos avisos de Calpurnia (Gertrude Michael), irá ao senado para encontrar aí a morte. Perdido o seu guardião Cleópatra oferece o seu amor ao novo enviado do Império Romano, o jovem e inconstante Mark Antony (repare-se na forma como DeMille encena o banquete), manipulando-o a seu belo prazer até à famosa derrota na batalha de Actium.


A “Cleópatra” de Cecil B. DeMille é muito diferente da de Joseph L. Mankiewicz e por isso mesmo é necessário fazer-se uma reavaliação, para não cair no esquecimento, porque nesse ano de 1934 Cecil B. DeMille assinava um dos mais brilhantes filmes históricos e numa época em que este género cinematográfico, através da mão de Ridley Scott, renasceu do esquecimento a que estava votado com filmes como “Gladiador” / “Gladiator” e “No Reino dos Céus” / “Kingdom of Heaven”, será sempre bom recordar as suas origens, para nunca nos esquecermos desses pioneiros que lutaram pela sua grandeza.

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