quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Carol Reed – “O Terceiro Homem” / “The Third Man”



Carol Reed - "O Terceiro Homem" / "The Third Man"
(ING - 1949) - (104 min. - P/B)
Orson Welles, Joseph Cotton, Alida Valli, Trevor Howard.

Já pensei, várias vezes, existirem alguns instrumentos musicais que nos aproximam daquela noção de divindade que, de uma forma ou de outra, nos ocorre de vez em quando.
E se violino e piano são dos meus instrumentos favoritos, a harpa e a cítara são dos que acho que nos conseguem enlevar. Não, não me vou alargar mais nesta questão musical. Vou sim falar do "The Third Man" / "O Terceiro Homem" que, quer na abertura, quer ao longo do filme, tem uma cítara de som deslumbrante a acompanhar-nos.


Imagine-se americano (Holy Martins - Joseph Cotten) a chegar a uma Viena destruída pela guerra, com zonas territoriais bem demarcadas (americana, francesa, russa, britânica e internacional - "tudo ao molho e fé em Deus"), para encontrar o seu melhor amigo (Harry Lime - Orson Welles) e descobre que este morreu.
Em vez de encontrar uma recepção de braços abertos e uma solução económica para uma carreira de escritor de westerns falido (com títulos dos quais se destaca o “Oklahoma Kid”), vê-se a braços com uma ida ao cemitério.
Claro que americano que se preze gosta de um belo mistério e basta uma belíssima e intrigante mulher para o estabelecer (Anna Schidt - Alida Valli).
Começa a investigação e cedo ela se estende por toda uma cidade na qual se começam a notar uns pequenos sinais de reconstrução.


Algumas das cenas são antológicas, sobretudo as que marcam o (re)aparecimento de Harry Lime (Orson Welles), na ombreira de uma porta sem iluminação, apenas se conseguindo ver quem é quando alguém abre uma janela; ou então a fuga nos esgotos da cidade de Viena, rota conhecida por todos os traficantes de algo, nem que fosse um maço de tabaco, incluindo Harry.


Dizem os entendidos que a realização de Carol Reed tem, na sombra, a influência do genial Orson Welles e para quem viu, por exemplo, "Citizen Kane" / "O Mundo a Seus Pés", consegue perceber o que está para lá das câmaras. Aliás, toda a sequência da perseguição nos túneis/esgotos em Viena, tem sido atribuída a Welles, limitando-se Reed a seguir as indicações dadas pelo actor/realizador. E na verdade descobrimos um filme dentro do filme. Mas quem foi Orson Welles?


Amante desde pequeno do teatro de Shakespeare, Orson Welles encenou e interpretou o mestre britânico. Aos 19 anos era já um actor famoso em Nova Iorque. Fundou com John Houseman o "Mercury Theatre". Seria no entanto com a célebre emissão de "A Guerra dos Mundos" / “War of the Worlds”, que se tornaria famoso em todo o mundo.



Aos 23 anos (1939), obtém da RKO total liberdade criativa e monetária para a feitura de "Citizen Kane"/ “O Mundo a Seus Pés”, seu primeiro filme, sem dúvida um dos marcos da História do Cinema e considerado ao longo dos anos, pela crítica especializada, o melhor filme de todos os tempos! Mas os resultados não foram os pretendidos pelo Estúdio, devido ao boicote e perseguição que o magnata Randolph Hearst e a sua imprensa lhe moveu, em virtude de se ter visto retratado na figura de Charles Foster Kane e as dificuldades começaram a surgir. Apesar de ter perdido o Oscar para "O Vale Era Verde" / "How Green Was My Valley" de John Ford, iniciou a produção de "The Magnificent Ambersons" / "O 4º Mandamento", tendo optado por permanecer apenas atrás da câmara, sendo essa a principal razão, segundo alguns, do fracasso comercial do filme e também não podemos esquecer que Orson Welles apesar de continuar com o controlo total sobre os filmes que realizava, optou por visionar a montagem de forma indirecta, tendo partido para o Brasil para filmar "It's All True", o que levou a RKO a entregar a Robert Wise a película, o qual remontou "The Magnificent Ambersons", segundo as indicações dos patrões do Estúdio..


A aventura brasileira saudou-se por um fracasso devido à morte do pescador que dava vida ao primeiro segmento do filme, mas Orson Welles não se deixa abater e imparável começa a trabalhar em "The Stranger" / "O Estrangeiro", regressando como actor ao lado de Edward G. Robinson e Loretta Young.
Casa, entretanto, com a estrela Rita Hayworth, e convida a imprensa para assistirem ao célebre corte de cabelo da vamp, transformando-a na célebre "The Lady from Shanghai" /  "A Dama de Xangai", ao mesmo tempo que mantém intensa actividade nos mais diversificados campos. Ele é o realizador, o actor, o encenador, o compositor ou, simplesmente, um Génio que admira intensamente outro Génio chamado Shakespeare e nasce assim "Macbeth", realizado para uma pequena produtora, a Republic, mais tarde responsável pelo célebre "Johnny Guitar" de Nicholas Ray.


A falta de dinheiro para os seus projectos leva-o a aceitar todo o tipo de papéis a fim de obter as verbas necessárias e curiosamente foi essa a razão que o levou até "O Terceiro Homem" / “The Third Man” do cineasta britânico Carol Reed.
1952 é o ano de "Othello", premiado em diversos festivais. "Ulisses", de James Joyce, é um dos muitos projectos que nunca foram concretizados e "Don Quixote", apesar de concluído, nunca foi distribuído. Durante as suas viagens pela Europa (França, Espanha, Alemanha e Itália) no ano de 1955, nasce "Confidential Report/Mr.Arkadin" / "Relatório Confidencial".
No entanto as dificuldades económicas continuam a persegui-lo e Charlton Heston impõe o nome de Orson Welles para a realização de "Touch of Evil" / "A Sede do Mal" e nessa obra reside um dos mais espantosos planos sequência iniciais da História do Cinema e ao lado desse enorme Génio do Cinema temos a Dama Marlene Dietrich transformada em cigana.



Nos anos sessenta realiza "The Trial" / "O Processo"", baseado na obra de Franz Kafka, com um Anthony Perkins espantoso e inesquecível. Depois, como não poderia deixar de ser, regressa ao seu Mestre Bem Amado e realiza "Falstaff" / "As Badaladas da Meia-Noite", baseado em diversas peças de Shakespeare. Por fim, em 1967, adapta ao cinema um conto da então desconhecida escritora dinamarquesa Karen Blixen (autora de “África Minha”), "Une Histoire Immortelle" / "História Imortal".



Na década seguinte, a sua actividade incansável é uma autêntica História Imortal e apenas "F For Fake" consegue ver a luz do dia. A sua vida desenrola-se entre o velho e o novo continentes, continuando a trabalhar em diversos projectos mas todos eles, infelizmente, nunca chegaram até nós. Ficam assim por concluir, para além de "It's All True", as películas "The Deep" ou "Dead Calm", devido à morte do intérprete principal (Laurence Harvey), cujo argumento seria filmado muitos anos depois pelo realizador australiano George Miller e contando no elenco com Nicole Kidman e Sam Neill, certamente muitos estão recordados do filme que em Portugal teve o título de “Calma de Morte”.

John Huston, Orson Welles e Peter Bogdanovich

"The Other Side of The Wind", o mais célebre filme inacabado de Orson Welles contava no elenco com o cineasta John Huston,  Oja Kodar (esposa de Welles), Norman Foster (1) e Peter Bogdanovich (2)."Never Trust an Honest Thief" e "Is It You?", foram outras películas que não viram também a luz do dia.



Se Orson Welles foi determinante para o sucesso do "The Third Man", pela intriga que se desenvolve à volta da sua personagem, não se pode esquecer a bela Alida Valli e a sua Anna e como também todo o enredo passa pela sua paixão por Harry (Orson Welles) e não paixão por Holly (Joseph Cotten).
Essenciais também os secundários, sobretudo o sargento que atribui à "obra literária" de Holly Martins uma dimensão que a mesma não possui.
(Re)vejam, se puderem, "O Terceiro Homem", sobretudo em écran de cinema e dêem atenção à cítara que nos acompanha em todos os momentos deste belíssimo filme.


Orson Welles faleceu a 9 de Outubro de 1985, disseram os órgãos de informação da época. Mas a verdade, por vezes, está falseada porque quem conquista a imortalidade nunca parte com a morte.



(1) - Norman Foster é responsável pela obra "Journey Into Fear" / "Jornada Para o Medo" sendo atribuída parte da realização também a Orson Welles, que a abandonou para se dedicar a "It's All True".

(2) - Peter Bogdanovich é um dos mais importantes e menosprezados cineastas de Hollywood, sendo uma das razões o facto de durante a sua actividade como crítico de cinema ter convivido com Orson Welles, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e John Ford e de os tratar por tu! Além disso é também autor do melhor livro sobre Orson Welles (e não me estou a esquecer do livro de Andre Bazin), assim como o que escreveu sobre John Ford. Se desejarem conhecer o Peter Bogdanovich crítico de cinema, procurem "Nacos de Tempo" e, já agora, que tal (re)verem "O Miar do Gato" / “The Cat’s Meow”, uma das obras-primas do Cinema, em que Peter Bogdanovich ajusta contas com Hearst em nome de Orson Welles!!!!!

Mrs. Vertigo & Mr. Vertigo

2 comentários: