segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Yasujiro Ozu – “Viagem a Tóquio” / “Tokyo Monogatari”

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Yasujiro Ozu – "Viagem a Tóquio" / "Tokyo Monogatari"
(JAPÃO – 1953) – (134 min. - P/B)
Chishu Ryu, Chieko Higashiyama, So Yamamura, Hruko Sigimura

Quando se fala em cinema japonês e nos seus grandes Mestres, de imediato um quarteto surge no horizonte e ele é constituído por Yasujiro Ozu, Mikio Naruse, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi. 


Yasujiro Ozu desde muito cedo mostrou interesse pela Sétima Arte, ele era um verdadeiro cinéfilo, gostando em especial de cinema norte-americano, sendo extremamente curioso o facto de, no início de carreira, assinar os argumentos que escrevia com o pseudónimo de James Miki. Durante a adolescência foi o que se chama um jovem “mal-comportado”, depois ao ingressar nos Estúdios Sochiku, através de um tio, irá passar a dedicar a sua vida ao cinema. Será, aliás, nesses mesmos Estúdios que vai trabalhar ao longo da sua vida, mantendo uma forte amizade com o cineasta Mikio Naruse. Yasujiro Ozu inicia assim a sua vida no cinema, fazendo a habitual tarimba da profissão, primeiro assistente de realização, depois argumentista e por fim realizador, ao dirigir o filme mudo: “Zange no Yaiba” / “A Espada da Penitência”. Depois desta sua primeira obra cinematográfica irá assinar inúmeros filmes, abordando todos os géneros tornando-se nos anos trinta (do século xx), um cineasta profundamente respeitado pela crítica japonesa, mas ainda desconhecido do mundo ocidental.


No ano de 1936 assina a sua primeira obra sonora (recorde-se que o cinema mudo se manteve durante alguns anos no Japão, após o surgimento de “O Cantor de Jazz” / “Jazz Singer” nos Estados Unidos da América), intitulada “Hitori Musuko” / “Filho Único”. Participa na guerra do Japão contra a China, que antecede a entrada do Japão na 2ª Grande Guerra, encontrando-se em Singapura quando as tropas americanas derrotam os japoneses, tendo ficado prisioneiro das forças aliadas durante seis meses. Depois, como todos sabemos, deu-se a ocidentalização da sociedade japonesa e Yasujiro Ozu regressa ao cinema com “Nagaya Shimboroku” / “História de um Proprietário Rural”, mas será com o fabuloso “Banshun” / “Primavera Tardia” (já exibido comercialmente no nosso país), que o grande Mestre Japonês regressa ao lugar que lhe é devido entre os grandes do cinema do seu país. Recorde-se que, após a guerra, os temas abordados por Yasuiro Ozu navegam sempre no interior da família, sendo este o tema de eleição do seu cinema de autor.


Será com o sucesso estrondoso de “Rashomon” / “Às Portas do Inferno” de Akira Kurosawa, vencedor do Festival de Veneza, que o Ocidente irá olhar pela primeira vez para os ventos que sopram da Ásia. E nunca é demais salientar o papel de Donald Richie, um americano a viver no Japão, que irá dar a conhecer através das suas crónicas de cinema esse imenso Universo do Cinema Japonês, ao publicar os seus escritos em diversas revistas cinematográficas no Ocidente. E será durante a década de setenta (do século xx), que a visibilidade do Mestre Japonês surge, através de diversas retrospectivas. Recorde-se que em Portugal ele chegou em 1980, num ciclo memorável exibido na Fundação Gulbenkian; curiosamente, os filmes mais exibidos são os de final de carreira. Ainda recentemente foi possível ver na RTP 2 um ciclo do Mestre Japonês, a par de diversas reposições em sala e edição em dvd. E nunca é demais referir que só em 1958 o cineasta introduziu pela primeira vez a cor no seu cinema, com o espantoso “Flores do Equinócio” / “Higanbana”, sendo a sua última obra o belo “No Aji” / “O Gosto do Saké”. Yasujiro Ozu faleceu a 12 de Dezembro de 1963, tinha apenas 60 anos.


Ao ser descoberto pelo Mundo Ocidental, foram inúmeros os livros escritos sobre a sua obra cinematográfica e método de filmar, com os seus célebres raccord, usando sempre imagens fixas e neutrais para fazer a ligação dos planos, o célebre estilo Ozu, para já não falar nessa particularidade de filmar com a câmara ao nível do chão, quase sempre com a mesma equipa técnica, porque eles formavam a verdadeira família de Yasujiro Ozu, que manteve sempre uma vida muito “pacata”, ao contrário do seu colega de profissão Kenji Mizoguchi. Para além desse trabalho espantoso levado acabo por Donald Richie, será sempre de destacar o livro do cineasta e conhecido argumentista Paul Schrader “Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer”. Recomendamos também a visão da pelicula rodada por Wim Wenders intitulada “Tokyo Ga”, datada de 1985 e dedicada precisamente a Yasujiro Ozu.


Yasujiro Ozu e a forma peculiar 
de nos oferecer o seu olhar intimista.

Em “Tokyo  Monogatori” / “Viagem a Tóquio”, Skukichi (Chishu Ryu – ”alter-ego” do cineasta) e Tomi (Chieko Higashiyama) vivem com a filha mais nova Kyoko (Kyoko Kagawa), uma professora primária solteira. Um dia decidem, já no outono da vida, visitar os restantes filhos que vivem em Tóquio, ficando em casa do filho médico, que tem uma esposa deliciosa e dois filhos bastante irrequietos, já fruto dos tempos, repare-se na forma como eles enfrentam a autoridade da mãe. Mas a vida citadina já não é o que era, Tóquio e o Japão assistem a uma época de desenvolvimento, possuidora de uma industrialização avançada, patenteada por Yasujiro Ozu quando filma as chaminés das fábricas.


Os filhos entregues às suas novas vidas e sempre com muito pouco tempo para os acompanhar, terminam por enviá-los para uma estância de Verão e aqui o idoso casal é confrontado com o comportamento de uma nova geração. De manhã têm sempre oportunidade de olhar o mar, através do seu silêncio contemplativo, mas as noites são mal dormidas devido ao barulho e à música dos jovens veraneantes que se encontram no hotel, acabando por decidirem abandonar o local e regressar a Tóquio. Será nesse regresso forçado que este casal, onde está bem patente o amor que dedicam um ao outro, irá terminar por se despedir dos filhos e regressar a casa.


Nessa viagem de volta a Tóquio, o velho patriarca da família irá encontrar um grupo de velhos amigos e de imediato “o gosto do saké” e as saudades de outros tempos nascem, como uma última despedida da vida na cidade.
Ao regressarem a casa da sua filha solteira, são obrigados a fazer uma paragem em Osaka, porque Tomi Hirayama (Chieko Higashiyama), a mãe daquela numerosa família, sente nascer nela o cansaço da longa jornada e o peso da idade. Por fim chegam à sua casa em Onomiche, mas o seu coração não resiste e parte para sempre.


Será no funeral de Tomi Hirayama que iremos reencontrar toda a família a prestar a sua última homenagem. Nunca será demais salientar a tranquilidade expressa no rosto de Skukichi, o marido, perante os acontecimentos, porque na sua mensagem o cineasta relembra que  todos sabemos que um dia teremos de partir. Ele é o perfeito retrato da serenidade, essa mesma serenidade com que Yasujiro Ozu foi filmando, ao longo da sua vida, os pequenos dramas familiares.
“Viagem a Tóquio”/ “Tokyo Monogatori” é de uma beleza transcendental, uma obra-prima absoluta da Sétima Arte.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. A sensibilidade com que Yasujiro Ozu nos narra os acontecimentos desta viagem a Tóquio e o respectivo choque de gerações e mentalidades, revela-se simplesmente mágico e de uma beleza inesquecível.
      Beijinhos:)

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