terça-feira, 13 de setembro de 2016

Roland Joffé – “Terra Sangrenta” / “The Killing Fields”



Rolland Joffé - "Terra Sangrenta" / "The Kiling Fields"
(ING - 1984) - (141 min. / Cor)
Sam Waterston, Haing S. Ngor, John Malkovich, Julian Sands,

O fogo queima os campos,
invade os corpos,
e arde na memória.
O horror da sua cor
ilumina as cinzas das palavras,
transportando a vida
para a obscuridade das trevas.

"Terra Sangrenta"/ "The Killing Fields", da dupla David Puttman (produtor) e Roland Joffé, está ancorado nesse território do mundo contemporâneo, enviando-nos para a história de Sydney Schandberg e Dith Pran. O relato "The Dead and Life of Dith Pran", que serve de base ao argumento da película, valeu a Sydney Schanberg o Prémio Pulitzer.
"The Killing Fields", nome dado ao território cambojano, situa-se na mesma vertente de "Debaixo de Fogo"/ “Under Fire” de Roger Spottiswood (centrado na América Latina) e "Círculo de Mentira" / “Die Falschung” de Volker Schlondorff (abordando a Guerra no Líbano – cristãos versus muçulmanos), em virtude de todos estes filmes possuírem no seu interior a vivência do jornalista no campo de batalha ou teatro de operações. Mas ao mesmo tempo encontra-se distante dos dois filmes referidos, tendo somente em comum o olhar "neutral" (im)possível daquele que transmite os acontecimentos.


Se a película de Roger Spottiswood pecou pelo romance, já a de Volker Schlondorff foi ultrapassado pelos acontecimentos (na data da sua estreia - os massacres nos campos palestinianos em Beirute), tornou-se numa obra de visão esmagada pela História, sendo a sua leitura conduzida pelas imagens posteriores à intervenção Síria no Líbano. Mais tarde, os Sírios "abandonaram" o território embora deixando um país profundamente dividido, sendo até uma das três facções que governa e divide o Líbano, "apoiada politicamente" por Damasco, que irá por sua vez ver o seu país destruído por essa guerra que diariamente invade os écran de televisão todo o mundo.
Um dos problemas com que se debate o cinema é a questão da autoria. E "The Killing Fields" coloca esta questão de uma forma pertinente. Embora a realização seja de Roland Joffé (realizador oriundo da TV), é ao produtor David Puttman que é atribuída a autoria. Não é por acaso que muitos lhe chamaram o Michael Bacon dos anos oitenta.
David Puttman iniciou-se nas imagens através da publicidade, dedicando-se posteriormente ao cinema, fundando a "VPS – Goodtimes Production Company" com Sandy Lieberson.


O cinema americano foi aquele que maior influência transmitiu a David Puttman. Apontado como o principal responsável pelo relançamento do cinema inglês nos anos oitenta (do século xx), já que foi ele o produtor de "Momentos de Glória" / “Chariots of Fire” de Hugh Hudson (e a consequente chuva de Oscars), "O Duelo" / “The Duellists” de Ridley Scott(1), "Foxes" de Adrian Lyne, "Local Hero" de Bill Forsyth(2) e "O Expresso da Meia-Noite" / “Midnight Express” de Alan Parker(3). Se este nome era desconhecido, ele agora já é familiar de todos. E a razão que o levou a não se tornar realizador (4), delegando noutros essa tarefa, foi devido a considerar o seu trabalho como produtor bastante bom, reconhecendo que não conseguiria igualar nos outros campos a qualidade obtida na produção de filmes. Filmado na Tailândia e no Canadá, com um custo de 10 milhões de libras, "Terra Sangrenta" / “The Killing Fields” não é um filme sobre a Guerra e as suas consequências sempre trágicas (não há guerras boas, nem guerras justas!), mas sim o relato jornalístico de um acontecimento e a amizade que liga dois homens.


Sydney Schandberg e Dith Pran
na foto a preto e branco.

Sydney Schandberg (5), correspondente do "The Times" no Cambodja, chegou a esse território em 1972 e lá viveu durante longos anos, travando conhecimento com Dith Pran, seu intérprete e colaborador, até à queda do regime de Lon Nol (17/04/1975) e a respectiva vitória dos Khmers Vermelhos. Se o regime de Lon Nol era mau, o de Pol Pot não se revelou melhor: durante a sua existência três milhões de pessoas foram mortas, numa população estimada na época em sete milhões.
Após a ocupação de Phnom Penh, o jormalista Sydney Schanberg encontra refúgio, com os seus colegas de profissão, na Embaixada Francesa. E a tentativa de fazer passar Dith Pran por cidadão britânico tem o seu início. Mas a imagem não se fixa ao papel, desaparecendo, e quando tudo parece certo, o negro é o único vestígio de um rosto num passaporte para a vida, tragicamente aniquilado. Dith Pran parte para o seu calvário, ocultando a sua identidade.


Somos colocados perante as atrocidades do regime de Pol Pot, onde a construção de uma nova sociedade alicerçada no terror e na loucura se irá revelar um dos maiores campos de extermínio conhecido no mundo contemporâneo, sendo crianças e adolescentes o veículo ideal para a eliminação das gerações anteriores. E isso é bem patente no gesto da criança que na escola elimina a imagem da família. Ao mesmo tempo que os fuzilamentos sistemáticos foram a realidade de uma época, onde não se pertencer ao campesinato era pecado mortal, pago com a morte ou o simples facto de se usar óculos correspondia à condenação da pena capital. O medo e o horror eram a estratégia da vida. E Dith Pran é dela vítima, transportando consigo a fuga sempre adiada.


Como não podia deixar de ser, cedo se revelaram as divergências entre os “senhores da guerra” e a luta entre os diversos grupos é intensificada e todos aqueles que se tentam opor à carnificina são imediatamente eliminados. O dirigente Khmer, que depois de descobrir a identidade de Dith Pran lhe possibilita a fuga, entregando-lhe o filho, representa a impotência, mas ao mesmo tempo a esperança. A criança morre vítima de uma mina, mas Dith Pran consegue atingir a Tailândia e reencontrar Sydney Schanberg. Mas por vezes as vidas têm os seus destinos e Dith Pran, que vai viver para a América, irá morrer às mãos de um assaltante em “Chinatown”.


A força de “Terra Sangrenta” / “The Killing Fields”, não reside só na magnífica fotografia de Chris Menges, na excelente banda sonora de Mike Oldfield, na inesquecível interpretação da dupla Sam Waterston e Haing S. Ngor, na genial realização de Roland Joffé ou no fabuloso trabalho de produção de David Puttman, mas sim no conjunto de todos estes elementos que possibilitam a metamorfose de um filme de ficção assente em factos verídicos num documento cinematográfico, que faz parte da História.


Roland Joffé (o segundo a contar da direita),
com os actores do filme, numa pausa das filmagens.

Neste século XXI, em que vivemos, nunca nos poderemos esquecer que o horror só tem um rosto, seja qual for a sua origem: a Guerra é a sua mãe e as armas os seus filhos.

(1) - O menos conhecido filme de Ridley Scott, que é urgente rever contando com Harvey Keitel no principal papel.

(2) - Quem não se recorda da lindíssima banda sonora de Mark Knopfler, na época líder dos Dire Straits?

(3) – O polémico filme de Alan Parker, muito mal amado na Turquia. Sendo o responsável do argumento, o então desconhecido, Oliver Stone.

(4) – A sombra de David O'Selznick andou sempre por perto, a par da de Michael Bacon.

(5) – Durante muitos anos Sydney manteve-se como correspondente no Sudoeste Asiático, acompanhando a evolução dos respectivos conflitos. 

2 comentários:

  1. Este é um dos meus filmes favoritos neste género. Funciona como um documentário de História, para se ficar a saber mais daquela época!

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    1. Uma película que narra uma das maiores tragédias do século xx. Após a sua visão o nosso olhar será sempre diferente acerca do mundo que nos rodeia.
      Boa tarde!

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