sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Peter Weir – “The Truman Show: A Vida em Directo” / “The Truman Show”


Peter Weir – "The Truman Show: A Vida em Directo" / "The Truman Show"
(EUA – 1997) – (102 min. / Cor)
Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone.

No início dos anos oitenta (séc. xx), o continente australiano assistiu à partida para o Novo Mundo dos seus mais importantes representantes na arte cinematográfica. Peter Weir, Bruce Beresford e os dois George Miller (que tanta confusão espalharam na época, porque ambos assinam as suas obras da mesma forma) e actores como Mel Gibson (“The River”/ “O Rio) e Judy Davies (“Passagem para a Índia”) encontraram no continente americano a sua nova casa. Recorde-se que Mel Gibson nasceu nos EUA tendo ido para a Austrália em criança. Este quarteto de cineastas seria acompanhado por uma estrela cadente chamada Gillian Armstrong, uma cineasta cuja obra necessita de ser descoberta.


Peter Weir, que se iniciou no cinema em início dos anos setenta, começou a dar nas vistas quando assinou “Picnic at Hanging Rock”, surgindo depois “A Última Vaga” / “The Last Wave” e “Gallipoli”, já contando no elenco com Mel Gibson. Seria aliás a presença do actor um dos trunfos de “O Ano de Todos os Perigos” / “The Year of Living Dangerously”, sendo os outros Sigourney Weaver e a extraordinária Linda Hunt, que recebeu o Oscar pela sua interpretação neste filme. E pela primeira vez todas as atenções se debruçaram sobre Peter Weir; três anos mais tarde nasce “A Testemunha” / “Witness”, revelando a outra faceta de actor de Harrison Ford e oferecendo ao mundo do cinema uma loura transformada em morena chamada Kelly McGillis, enquanto penetrávamos no universo da comunidade Amish e na história de amor dessa viúva chamada Rachel Lapp.


Chegamos assim com este filme a um dos trunfos de Peter Weir, a profunda dedicação que oferece aos seus actores e personagens construídas por eles, repare-se como em “A Costa do Mosquito” / “The Mosquito Coast” descobrimos que o homem da cidade nunca poderá vestir a pele do bom selvagem, quando Harrison Ford decide ser um Robinson Crusoe com família, virando as costas à civilização.
Quando Peter Weir realiza “O Clube dos Poetas Mortos” / “Dead Poets Society” já está perfeitamente integrado no sistema dos Estúdios, embora nunca abandonando a sua independência, escolhendo os projectos e trabalhando neles sem pressas. Todos nós desejámos ter um professor de Literatura chamado John Keating, infelizmente Robin Williams nunca se cruzou connosco e muitos anos depois da sua feitura continuamos a admirar este filme. Depois foi o fabuloso “Green Card”, com essa personagem criada de forma soberba por Gerard Depardieu, em luta pelo famoso visto que lhe proporcione viver na América e quando no final ele se perde nas palavras e cai ingenuamente no erro proferindo a frase fatal, somos obrigados a sentir como ele a perda de uma vida e quando um cineasta nos consegue transmitir um sentimento desta forma, só pode ser senhor de uma verdadeira arte cinematográfica


Quando foi anunciado que o próximo projecto de Peter Weir seria um filme chamado “The Truman Show”, nem os Estúdios nem os actores revelaram à imprensa o argumento do filme e só em cima da estreia os executivos dos Estúdios fizeram a respectiva apresentação da película à crítica, exprimindo o desejo de o seu argumento só ser revelado após a estreia. E poderemos dizer que o argumento de Andrew Niccol é espantoso de criatividade, ele mergulha no interior da caixa que mudou o mundo e invade o território das “soap” ou telenovelas se preferirem, apresentando-nos a história de Truman Burbank (Jim Carrey surpreendente), que um dia nasceu nos Estúdios da poderosa “OmniCam Corporation”, uma gigantesca estação de televisão que decide com esse génio da manipulação chamado Christof (Ed Harris soberbo) criar um novo tipo de espectáculo.
A partir do momento em que Truman nasce, ele passará a ser o próprio espectáculo, acompanhando o espectador todos os seus momentos, desde as primeiras palavras proferidas, até aos primeiros passos dados, passando pela adolescência e a amizade com Marlon (Noah Emmerich), até a esse encontro apaixonante com Meryl (Laura Linney) que se irá tornar sua esposa. A vida de Truman Burbank desenrola-se assim na sua cidade natal Seahaven (maravilhoso nome), trabalhando numa companhia de seguros e fazendo da sua vida uma profunda rotina. Todos os dias se cruza com os vizinhos da frente, são sempre as mesmas pessoas que passam por ele e se nos debruçarmos um pouco sobre o quotidiano de cada um de nós, acabamos por descortinar rotinas que partilhamos diariamente com outras pessoas e aqui está um dos segredos do argumento tão bem trabalhado.


Estamos assim no melhor dos mundos, o mundo de Truman Show, como explica nas suas conferências e “talk shows” Christof (Ed Harris), o grande manipulador e o mundo inteiro segue diariamente o quotidiano de Truman, da mesma forma que algumas pessoas colocaram câmaras nas suas casas para transmitirem a sua vida íntima na Internet, mediante um pagamento e todos sabemos como algumas dessas pessoas amealharam boas maquias ou aqueles que gastam horas da sua vida a seguirem a vida de outros no pequeno écran.
Como não podia deixar de ser, “The Truman Show” utiliza, através da personagem criada por Laura Linney, a publicidade indirecta aos diversos produtos que os Truman possuem em casa e ficamos deliciados como tudo se processa, mas como não podia deixar de ser no melhor dos mundos também acontecem tragédias, umas programadas, como a morte do pai de Truman, para lhe criar a fobia do mar, impedindo-o de sair de Seahaven ou outras acidentais como quando o actor que fazia de pai surge a fazer figuração muitos anos depois, na figura de um mendigo e Truman o reconhece como sendo o seu pai, de imediato assistimos à estratégia do Estúdio para controlar a situação, da mesma forma que controla as tentativas de Truman de viajar, seja devido a voos cancelados para esse paraíso chamado ilhas Fiji, seja a impedir o avanço na estrada depois de ter atravessado a ponte.


No mundo secreto de Truman existe um rosto e essa imagem olhada de forma apaixonante por ele transforma-se em realidade. Ela é Lauren (Natascha McElhone) e como não podia deixar de ser as audiências assim o exigem, nasce o dia em que se cruza com ela em Seahaven, só que ela está decidida a mostrar-lhe a forma como o mundo o segue, confessando-lhe que tudo aquilo não passa de uma farsa, sendo a sua existência fruto dos desejos de um homem todo-poderoso. De imediato ela é retirada do Estúdio (despedida) por Christof, numa tentativa de controlar a situação. Porém o público televisivo assistiu a tudo porque “The Truman Show” é apresentado sem interrupções, dormindo muitos espectadores de televisão acesa durante as 24 horas do dia. E aqui será de nos interrogarmos quantas horas passamos em frente aos televisores fazendo “zapping”, até que ponto a televisão não controla as nossas vidas ou como muitos de nós alteramos o nosso dia em função dos programas televisivos. Todas estas equações estão no filme de Peter Weir e quando nos apercebemos como Truman decide saber o que se passa naquele mundo, sentimos também nós essa mesma angústia, quando pensamos no que existe para além da morte, sendo para Truman o equivalente ao que existe para além do mar e quando ele o descobre e encontra o seu criador, descobrimos que estamos perante uma obra-prima dos tempos modernos, esses tempos tão bem caracterizados por Charlie Chaplin em “Modern Times”.
Descobrir este filme de Peter Weir é uma verdadeira aventura, não só para quem já viu a película, como para todos aqueles que ainda a desconhecem e se repararem na estrutura do argumento de Andrew Niccol, acabamos por nos reconhecer neste mundo artificial feito de fibras ópticas.


“The Truman Show – A Vida em Directo” surge assim como a obra-prima de Peter Weir, revisitando o universo de Truman Burbank, tantas vezes idêntico ao quotidiano de milhões de pessoas na sociedade que habitamos, demonstrando, mais uma vez, que neste género cinematográfico denominado comédia também se dizem verdades muito inconvenientes.

2 comentários:

  1. Como diz o Truman:" Good morning! And if I don't see you again today good evening and good night!"
    Um filme fabuloso em que o meu favorito é o Ed Harris!

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    1. Peter Weir realizou um filme que anunciava o mundo dos media no século XXI, revelando-se um visionário dessa infelicidade em que se tornou o audiovisual. Concordo em absoluto com a genial interpretação de Ed Harris. :)

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