domingo, 11 de setembro de 2016

Os Livros, a Livraria e o Livreiro.


A livraria era um daqueles espaços em que se descobriam autores, mas também um lugar em que era possível fazer amizades, incluindo o próprio livreiro, que nos recomendava livros e nos abria os horizontes. Guardo na memória com saudade a Livraria Opinião do Hipólito Clemente, mesmo ali ao lado da Cervejaria Trindade, hoje pertencente aos Livros Cotovia. Por ali descobri os surrealistas e muito mais, porque as pequenas edições de autor tinham ali sempre um lugar disponível, para sorrirem ao visitante. Depois eram as conversas que se tinham e as descobertas que se faziam sempre em maravilhosos diálogos que guardo na memória para sempre, porque quem se encontrava por detrás do balcão tratava os livros por tu e porque também ele era um leitor apaixonado.


 A histórica "City Lights Bookstore" em S. Francisco,
do outro lado da Rua (Jack Kerouac Street)
situa-se o "Vesúvio", o mítico café da geração Beatnick!

Hoje, ao entrarmos numa Livraria, quase sempre a resposta nos é dada pelo computador e a sua famosa base de dados. Não há tempo para conversas e ficamos quase sempre restritos às novidades, embora se não houver o livro em stock, existir sempre essa possibilidade de o pedir ao editor. Os chamados fundos de catálogo não têm o direito a habitarem as livrarias, eles dormem sossegados nos Armazéns e só conhecem a luz do dia para conviver com os leitores quando chega a Feira do Livro.


 A fabulosa Livraria Tropismes em Bruxelas,
onde o Livreiro conhece tudo o que mora por ali.

Quando nos apaixonamos pela escrita de um escritor temos o desejo de conhecer a totalidade da sua obra, mas muitas vezes é quase impossível descobrir as edições mais antigas, especialmente se ele for um desses habitantes, não dado às famosas novidades, nem a esse marketing editorial, que exige um livro por ano.
Por outro lado a chamada crítica literária nos jornais debruça-se principalmente sobre as novidades do Mercado, esquecendo-se desses livros que já viram a luz dos dias em anos passados e que se encontram esquecidos umas vezes nas estantes, outras nos armazéns das editoras.


 A "Barnes & Nobles" em Santa Monica (na 3ºStreet),
L.A./California, onde sentimos o respirar dos livros.

Resta-nos assim essa aventura que se chama Alfarrabistas onde muitas vezes descobrimos aqueles livros que ouvimos falar aos nossos pais e avós, mas que nunca nos chegaram às mãos e quando os descobrimos perdidos nesse sótão, por vezes, dos Alfarrabistas é na verdade o prazer da leitura que ilumina as nossas almas.



 A maravilhosa "Shakespeare & Company" em Paris,
por aqui passou Ernest Hemingway,
a alugar livros a Sylvia Beach.

Quando entrava na Livraria Byblos em Lisboa, recordava-me sempre da “Barnes & Noble” de Santa Mónica, pelo espaço e pelo número de títulos disponíveis, incluindo os chamados “fundos de catálogo”. Mas, infelizmente, esta enorme e magnífica livraria terminou também por fechar portas, tal como muitas outras, na cidade e ao longo deste pequeno país de telemóveis e i-phones, ainda este fim-de-semana encontrei mais uma livraria encerrada (para sempre) num Centro Comercial.


 A "W. H. Smith" em Paris, na Rue do Rivoli.
uma das nossas livrarias favoritas, 
(para adquirir livros em inglês).

E como não podia deixar de ser a memória leva-me a essa época em que a censura existia e os livros eram apreendidos, e muitas vezes os seus detentores eram detidos, ainda me lembro desses tempos (início dos anos setenta, século xx) em que lia no café o bem divertido “O Dinossauro Excelentíssimo” do José Cardoso Pires, com desenhos do Júlio Pomar, devidamente forrado, para ninguém ver a capa ou essa obra monumental intitulada “Os Subterrâneos da Liberdade” do Jorge Amado, que mão amiga tinha emprestado à minha mãe.


 A cativante "Gibert Joseph" do Boulevard Saint-Michel,
(onde não resistimos ao Amor de Perdição dos livros!)

Ler faz parte da vida e um universo sem livros corresponde inevitavelmente a uma passagem cinzenta pela vida e quando nos lembramos desses copistas da Idade Média que nos ofereciam o seu labor, tantas vezes à luz das velas, queimando a vista para que a cultura não se perdesse, só poderemos olhar os livros com toda a ternura do mundo, fazendo deles o nosso melhor amigo, porque quando regressamos à leitura de um livro amado, estamos perante esse reencontro, que tantas vezes nos transforma o olhar que temos, do mundo em que vivemos.

2 comentários:

  1. Os livros são eles próprios um universo tão vasto que o que consigo humanamente ler corresponde a um pequeno átomo... Isso por vezes pode ser desesperante. :)

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    1. Concordo em absoluto. Mas a descoberta de novos autores, seja qual for a área, revela-se bastante gratificante e a troca de impressões sobre o que lemos, vimos e escutamos também nos oferece novos universos.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Uma Boa Semana

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