quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Orson Welles - “O Mundo a Seus Pés” / “Citizen Kane”



Orson Welles – "O Mundo a Seus Pés" / "Citizen Kane"
(EUA – 1941) - (119 min. - P/B)
Orson Welles, Dorothy Comingore, Joseph Cotton, Everett Sloane.

Se um dia alguém perguntar qual a palavra mais célebre dita um dia num filme, ela será certamente “Rosebud”, pronunciada por essa personagem, “bigger than life”, chamada Charles Foster Kane. Estamos a falar, como já perceberam, de “O Mundo a Seus Pés” / “Citizen Kane”, essa obra intemporal de Orson Welles que abriu, decididamente, novos horizontes no interior da Sétima Arte.
Orson Welles, esse menino-prodígio apaixonado desde tenra idade por Shakespeare, irá realizar em 1941 aquele que é considerado por muitos o mais importante filme de sempre, ao oferecer-nos num prodigioso “flashback”, recheado de labirintos, a vida desse magnata da imprensa chamado Charles Foster Kane.


A morte chegara finalmente para libertar da solidão o conhecido milionário e a bola de cristal, “adormecida” na sua mão, cai e parte-se em estilhaços no chão.
Todos os serviços noticiosos do globo anunciam a morte desse milionário perdido na sua Xanadu, onde as obras de arte enchem a Mansão e os jardins, mas na verdade quem foi esta personagem tão (des)conhecida de todos?
Será isso mesmo que um jornalista irá tentar descobrir, falando com todos aqueles que privaram com ele ao longo da vida.


Iremos assim conhecer o seu percurso através de terceiros. O seu amigo Jedediah Leland (Joseph Cotten), que se encontra a viver num lar e que um dia perdeu a amizade do Magnata quando escreveu a sua crónica demolidora sobre a actuação da segunda mulher de Kane, para quem o marido mandara construir um teatro tentando fazer dela uma vedeta; o seu tutor Thatcher (George Coulouris), que nos irá narrar a história da criança que conheceu e educou; a sua segunda mulher Dorothy Comingore (Susan Alexander), reduzida a um farrapo humano; o mordomo (Paul Stewart) que “melhor conhece” os segredos de Xanadu e o seu amo.


Orson Welles, que tivera carta branca da RKO, depois de ter deixado a América à beira de um ataque de nervos com a sua transmissão radiofónica de “A Guerra dos Mundos” de H. G. Welles, irá defrontar, ao longo da sua vida, um inimigo poderoso chamado William Randolph Hearst, o célebre magnata da imprensa norte-americana que, ao ver-se retratado na película, tudo fará para impedir a exibição de “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés” e depois irá perseguir o cineasta ao longo dos anos, com todos os meios ao seu alcance para demolir a genialidade do “wonder-boy”. Mas, como todos hoje sabemos, os seus esforços foram infrutíferos já que Orson Welles, o maior dos “Mavericks”, como um dia se lhe referiu Martin Scorsese, é um vulto incontornável na História do Cinema.
Conta-se que Orson Welles, antes de realizar o filme, viu quarenta vezes “Stagecoach” / “Cavalgada Heróica” (um filme já aqui falado) de John Ford e só depois se sentiu preparado para se atirar de corpo e alma à criação de “Citizen Kane”.


“O Mundo a Seus Pés”, embora tenha sido derrotado na noite dos Oscars da Academia de Hollywood, permanece uma obra-prima absoluta, onde pela primeira vez descobrimos a profundidade de campo a ser explorada em todo o seu esplendor.

Depois, a forma como nos é narrada a história, utilizando o “flashback” de forma brilhante e inovadora, recorde-se que o argumento é da autoria de Herman Mankiewicz (irmão do célebre cineasta Joseph Mankiewicz) e nunca nos poderemos esquecer da fotografia de Gregg Toland, o maior entre os maiores.
Mas será também Orson Welles, como actor (e a sua voz inconfundível) e os seus fiéis companheiros do “Mercury Theater”, que permanecem no Olímpio da interpretação, nesta obra única e genial que tantos ensinamentos ofereceu à Sétima Arte.


A passagem do tempo, ao longo da película, é uma verdadeira personagem a que Welles deu vida e quando no final do filme vemos esse velho trenó de criança a ser lançado para o fogo, percebemos finalmente o significado dessa palavra pronunciada, num derradeiro esforço humano por Charles Foster Kane... “Rosebud!”.
“O Mundo a Seus Pés” / "Citizen Kane" é a obra-prima absoluta desse génio imortal, tantas vezes incompreendido, chamado Orson Welles.

6 comentários:

  1. Bedita professora de História que tive no secundário que decidiu mostrar este filme. Marcou-me até hoje. Excelente escolha.

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    1. Na vida, por vezes, encontramos professores que nos marcam de forma bem positiva culturalmente falando. "Citizen Kane" é uma das obras-primas da Sétima Arte.
      Obrigado pelo comentário:)

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  2. A primeira vez que vi "Citizen Kane" confesso que não percebi nada. Devia ter uns 10 anos. Quando revi, bem mais tarde, percebi que era efectivamente uma obra-prima do cinema.

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    1. Este filme de Orson Welles mudou para sempre a forma como vimos o cinema, porque decididamente estamos perante a Sétima Arte!
      Obrigado pelo comentário:)

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  3. por mais incrível que possa parecer nunca vi. já há algum tempo que queria ver mas, fiquei ainda mais curiosa.

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    1. Por vezes há filmes que nos escapam e que sabemos que merecem uma visita. Recomendo vivamente este filme inesquecível desse génio, tantas vezes incompreendido, chamado Orson Welles. Na realidade há um cinema antes e depois da feitura de "Citizen Kane" e isso devemos ao seu autor.
      Obrigado pela visita e comentário.

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