quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Michelangelo Antonioni – “Profissão: Reporter” / “Professione: Reporter”



Michelangelo Antonioni -  "Profissão Reporter" / "Professione Reporter"
(ITA/FRA/ESP/EUA-1975) - (126 min. / Cor)
Jack Nicholson, Maria Schneider, Jenny Runacre, Ian Hendry.

Michelangelo Antonioni é um dos nomes incontornáveis da História do Cinema. Oriundo da burguesia, iniciou-se no documentário com “Gente del Pó” (1947) e nunca sentiu perto de si o célebre apelo do neo-realismo, tão em voga no após-guerra, e em toda a sua obra apenas “O Grito” / “Il Grido” se filia nessa tendência. A pouco e pouco o cineasta foi criando o seu próprio espaço, no qual a comunicabilidade irá ter um papel preponderante, estamos assim longe de um homem que elege a palavra como forma de arte, nada disso, já que será o estudo do(s) silêncio(s) um dos principais motores da sua obra, recorde-se o célebre final de “Blow-Up” e a partida de ténis imaginada pelos seus participantes e espectadores, que convidam o protagonista a participar no “jogo” quando lhe pedem para devolver a bola ao corte de ténis.


Tal como Josef Von Sternberg elegeu Marlene Dietrich como a sua musa, também Michelangelo Antonioni encontrou em Monica Vitti e na sua voz rouca e sensual a imagem perfeita da mulher que desejava para a sua obra cinematográfica, culminando a sua participação nessa obra-prima intitulada “O Mistério de Oberwald” / “Il Mistero di Oberwald”. Nunca é demais recordar que será através da película “A Aventura” / “L’Aventura” que o cinema de Antonioni irá passar as fronteiras do seu país em 1960, alcançando um sucesso enorme a nível internacional, seguindo-se nos dois anos seguintes “A Noite” / “La Notte” e “O Eclipse” / “L’Eclipsse” constituindo assim a célebre trilogia do silêncio, aliás, repare-se no destino final de Marcello Mastroianni e de Alain Delon em ambos os filmes, rodeados de solidão. Essa mesma solidão que esmaga Monica Vitti em “Deserto Vermelho” / “Il Deserto Rosso” , o primeiro filme a cores do cineasta, que irá trabalhar a cor até ao mais pequeno pormenor, num desejo extremo de atingir a perfeição absoluta.


Depois Michelangelo Antonioni parte para Inglaterra e em plena capital londrina conquista o seu maior êxito comercial, através da história de um fotógrafo, “Blow-Up” mostra-nos como é limitado o nosso olhar, no interior do mundo que nos rodeia. Com este sucesso internacional, foi com naturalidade que nasceu o convite para rodar duas películas nos Estados Unidos. A “contracultura” fascinava o cineasta e os tempos estavam propícios a isso, com as revoltas estudantis e o movimento hippie em alta, nasce assim “Zabriskie Point” / “Deserto de Almas” e o cineasta decide assumir-se como autor até às últimas consequências. Primeiro rejeitou as estrelas propostas pelos executivos dos Estúdios, optando por dois actores estreantes no cinema e depois inflacionou estrondosamente o orçamento, ao insistir em fazer explodir o avião no Aeroporto, o que obrigou a que o tráfego na zona de Los Angeles fosse interrompido. “Zabriskie Point” / “Deserto de Almas”, comercialmente foi um falhanço, mas permanece como um documento perfeito de uma época em que a revolta estava na ordem do dia. Como curiosidade não nos esqueçamos das polémicas sequências no Vale da Morte e da colaboração dada na feitura do argumento do filme por Sam Shepard.


Como os contratos são para cumprir, o segundo filme de Antonioni em solo americano seria “Profissão Repórter”, que irá ter o título americano de “The Passenger” e desta vez o cineasta convocou para o seu filme Jack Nicholson que na época como sabemos era um fervoroso defensor do cinema de autor e Maria Schneider, que poucos anos antes tinha dado muito nas vistas em “O Último Tango em Paris” / “Ultimo Tango a Parigi”, ao lado de Marlon Brando, sob a direcção de outro italiano, Bernardo Bertolucci.
Chegamos assim a uma das questões mais prementes na obra de Michelangelo Antonioni, a questão da identidade e o subsequente desaparecimento, já presente em “A Aventura” / “L’Avventura”, a surgir aqui, não em todo o seu esplendor, porque isso será muito mais tarde em “Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione di una donna”, mas na forma mais simples e intrigante, já que as pistas oferecidas serão sempre muito reduzidas.


David Locke (Jack Nicholson) encontra-se no Norte de África a fazer pesquisa para um documentário, recorde-se como na época o fervor terceiro-mundista estava na ordem do dia, as superpotências mantinham o confronto através dos países não-alinhados e em África o território estava em disputa constante, não por razões ideológicas (a falsa questão), mas sim pela riqueza do continente africano, como ainda hoje sucede, sem qualquer tipo de cauções. David Locke pretende entrar em contacto com um grupo guerrilheiro e na aldeia onde se encontra, pernoitando num hotel em condições muito pouco saudáveis, cruza-se com outro homem de seu nome David Robertson, assumindo-se ambos como “outsiders” numa terra estranha. Uma manhã, ao procurar o desconhecido, o jornalista encontra-o morto deitado na cama. Decide então trocar de identidade com ele e fugir dos seus problemas pessoais (a esposa) e do trabalho na televisão, cada vez mais perdido e inconsequente para ele. Porém, a curiosidade em saber mais sobre a vida do morto, leva-o a seguir o seu percurso, descobrindo que se trata de um contrabandista de armas. Vê-se assim perseguido pelos compradores, mas também pela sua própria mulher e pelo produtor do documentário que não acreditam na sua morte.


Será durante a vivência dessa nova vida, sempre em sobressalto, que David Locke (Jack Nicholson) irá encontrar uma estudante de arquitectura em Barcelona, que decide partir com ele à aventura, sem destino preciso, nascendo aqui o “road-movie” de Michelangelo Antonioni, oferecendo total liberdade às suas personagens, cuja viagem irá terminar como começou, num quarto de hotel, nascendo aqui um dos mais famosos planos sequência da História do Cinema, com David Locke deitado na cama. São sete minutos em que a câmara nos envolve lentamente no desenrolar final dos acontecimentos, demonstrando mais uma vez como o cinema é uma Arte. Poderíamos ficar aqui a mencionar outros planos-sequência célebres como é o caso do plano inicial de “A Sede do Mal” / “”Touch of Evil” de Orson Welles, um verdadeiro prodígio ou falar dos de Alfred Hitchcock ou Brian de Palma. Porém o que nos interessa aqui é na verdade deixar claro como nesta obra de Michelangelo Antonioni estão bem patentes os caminhos por onde navegava o cinema de autor nos anos setenta (do século passado) e nada melhor como tentar (re)ver este filme do cineasta italiano, com um olhar isento de memória, partindo para ele da forma mais virgem (cinematograficamente falando) e escutar a música psicadélica dos Pink Floyd.


Cineasta da incomunicabilidade Michelangelo Antonioni, apesar do problema de saúde que o incapacitou no final da vida, insistiu sempre, até nos deixar, no desejo de comunicar com o seu público e “Eros”, o seu derradeiro trabalho cinematográfico, onde assina com Steven Soderbergh e Wong Kar-Wai a realização, é a testemunha perfeita de um cineasta que encontrou no interior do corpo feminino a mais bela forma de comunicar ou não fosse essa a história da sua obra cinematográfica.

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