segunda-feira, 12 de setembro de 2016

John M. Stahl – “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven”


John M. Stahl – "Amar Foi a Minha Perdição" / "Leave Her to Heaven"
(EUA – 1945) – (110 min. / Cor)
Gene Tierney, Cornel Wilde, Jeanne Crain, Vincent Price, Ray Collins.

“Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven” é um melodrama ou um “film noir”? Quando encontramos Ellen (Gene Tierney) no comboio, o primeiro sinal da sua presença são as suas belas pernas, depois lentamente a câmara sobe-lhe literalmente pelo corpo num movimento repleto de erotismo e quando descobrimos os seus olhos cor de esmeralda ficamos profundamente apaixonados por aquela mulher e ela ainda nem abriu a boca, embora os seus lábios vermelhos falem por ela. Terá sido tudo isto que levou Richard Harland (Cornel Wilde) a “meter conversa” com a estranha, ela até estava a ler um livro escrito por ele.


E dizemos “film noir”, apesar de todo o esplendor do Technicolor porque, num comboio, nunca sabemos quem é o desconhecido e se o “train” for o Norte-Expresso, será necessário ter muito cuidado, que o diga Farley Granger. Mas deixemos Alfred Hitchcock e vamos a John M, Sthal (o “M” é de Malcolm) esse cineasta tão pouco falado que morreu em 1950, tendo realizado no período mudo o bonito número de 24 películas, mais do que no sonoro, onde ficou pelas 19, embora seja por esse período que ele seja sempre recordado, principalmente devido ao trabalho do Mestre do Melodrama Mr. Douglas Sirk, cineasta tão admirado por Fassbinder e homenageado recentemente por Todd Haynes na película “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”.


Convém recordar que Douglas Sirk fez três “remakes” de obras de John M. Stahl, “Magnificent Obsession”, “Imitation of Life” e “When Tomorrow Comes”, seriam precisamente estes “remakes” que iriam chamar a atenção dos cinéfilos para John M. Stahl, encarado como um dos génios do melodrama.

“Leave Her to Heaven” será assim um melodrama? Só se considerarmos “A Place in the Sun” / “Um Lugar ao Sol” de George Stevens um melodrama e se nessa película, até por razões que a própria razão desconhece, tentamos fazer uma leitura do comportamento da personagem interpretada por Montgomery Clift, após ele ter deixado afogar no lago Shirley Winters, assistindo à sua morte. Já em “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven” é o medo que se apodera de nós ao vermos até onde o ciúme pode levar Ellen Berent (Gene Tierney).


Mas como chegamos nós a esse lugar chamado Back-of-the-moon, tínhamos deixado Ellen e Richard na estação de comboio a descobrirem um amigo comum. Voltemos então atrás para sabermos as razões que levam a família Berent, e Ellen em particular, ao Novo México. Cumprir o último desejo do falecido Mr. Berent, que consistia em espalhar as suas cinzas numa colina. Esse mesmo pai que viveu prisioneiro do amor da filha, esse mesmo amor extremo que ela irá dedicar ao escritor Richard Harland ao longo da vida.



Estamos assim em perfeito território do melodrama, principalmente quando Russell Quinton (um fabuloso Vincent Price) descobre ter perdido a noiva para o escritor apaixonado, que vê anunciado o seu casamento ainda antes de pedir a mão a Ellen, embora a imagem dela a cavalo espalhando as cinzas do pai, respirando uma sensualidade estonteante, o tenha perturbado profundamente. Ficamos assim no melhor dos mundos, Richard conquista uma esposa dedicada e feliz, até ao dia em que esta se apercebe que a existência do irmão deste, surge como “persona non grata” no interior da sua vida familiar, devido à forma como cativa a atenção do marido. Irá pois, num dos momentos mais negros desta maravilhosa película a cores, provocar o seu “desaparecimento”. A partir de então ela tudo fará para ter Richard só para ela, não olhando a meios para atingir os seus fins e quando descobre que o último livro escrito pelo marido foi dedicado à sua irmã adoptiva (Jeanne Crain), estabelece um plano profundamente maquiavélico para condenar todos ao “inferno”. Anteriormente tinha provocado um aborto, matando desta forma a criança que trazia no ventre, ao se aperceber como ela iria cativar a atenção do marido, esse papel só poderia estar destinado a ela, por essa mesma razão a criança nunca poderia nascer e num acidente provocado, Ellen recupera todas as atenções de Richard.


Estamos assim perante uma Gene Tierney que nos oferece uma interpretação bem distante da Mrs. Muir de Joseph Mankiewicz, mas muito próxima da figura que Joseph Von Sternberg lhe ofereceu em “Shangai Gesture”, para já não falarmos no seu filme mais célebre, o famoso  “Laura” de Otto Preminger, e aqui somos forçados a interrogar-nos como a personagem de Richard teria muito mais espessura se o seu criador fosse Dana Andrews, recordam-se dele consumido pela beleza do retrato de Laura?


Como seria ele neste filme de John M. Stahl, reparem nas parecenças com Cornel Wilde e imaginem “Leave Her To Heaven” com Dana Andrews no protagonista. Mulher de uma beleza estonteante, Gene Tierney foi designada para o Oscar pela sua interpretação em “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven”, mas Joan Crawford acabaria por ficar com a estatueta, apesar de toda a sensualidade transportada por Gene Tierney para o grande écran, o que na vida da actriz não lhe ofereceu o prazer desejado, tendo sido imensos os desgostos amorosos e as subsequentes depressões.


Mas voltemos ao filme e a Ellen, o seu plano macabro irá encontrar em Russell um aliado à espera de vingança e aqui a prestação de Vincent Price no tribunal é genial, porque nem só de Edgar Allan Poe “viveu” o actor, procurem ver a sua carreira nos anos 40/50 e ficarão surpreendidos. Terminamos não a contar o final da história, nem a explicar a teia construída por Ellen no ajuste de contas final, mas a falar de Ruth, a irmã adoptiva, porque ela será o anjo perturbador do paraíso desejado por Ellen para o seu casamento. Ruth, a rapariga que vive “invisível” no tempo, descobre em Richard sentimentos até então desconhecidos e a sua presença começa a fazer-se sentir no (in)consciente daquela casa. Chegamos assim à questão inicial, “Amar Foi a Minha Perdição”  é um melodrama ou um “film noir”?


Para já é uma obra-prima do cinema, depois o “Technicolor” é tão perfeito nas suas cores, que nos apetece chorar e por fim se vestirmos a pele de cada uma das personagens, descobrimos que todas elas tinham as suas razões. Helen certamente teria gostado muito de na sua vida ser a rapariga do ancinho, mas ela era demasiado bela e possessiva para desempenhar esse papel, o ciúme e o desejo ditaram as suas escolhas na vida e por essa mesma razão, amar foi a sua perdição.

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