segunda-feira, 5 de setembro de 2016

John Ford – “Cavalgada Heróica” / “Stagecoach”


John Ford - "Cavalgada Heróica"
(EUA – 1939) – (96 min. - P/B)
John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell, John Carradine, Louise Platt,  Donald Meek, George Bancroft.

No cinema de John Ford há um antes e um depois, nesse género que ele cultivou como ninguém, chamado o “western”, ficando célebre a sua réplica a Peter Bogdanovich: “My name is Ford, I make westerns.” 
Esse ponto charneira foi um território chamado “Monument Valley”, que ele filmou e amou como ninguém, já a película que marca esse acontecimento é “Cavalgada Heróica” / “Stagecoach”, depois dela o “western” nunca mais foi o mesmo. 
Em Monument Valley, John Ford rodou nove “westerns” ao longo da vida e muitas vezes foi visto como o “pai” que matava a fome aos seus “filhos”, oferecendo-lhes emprego nas filmagens, sendo muito conhecido o seguinte episódio: um dia alguém informou o irlandês da fome que atacava a nação índia e ele não hesitou, foi até lá e rodou mais um “western”.


“Cavalgada Heróica” / “Stagecoach” também é uma obra charneira, porque nela nasce um dos maiores nomes cinematográficos do “western”, um género muitas vezes considerado injustamente menor, falamos de John Wayne que aqui interpreta Ringo Kid. Porém a obtenção do papel afigurou-se extremamente difícil para o então jovem actor, já que Walter Wangler, o produtor, pretendia Gary Cooper para o papel, enquanto o poderoso David O’Selznick desejava o mesmo Gary Cooper, mas com Marlene Dietrich na figura da escorraçada Dallas.

Na época John Wayne ainda andava pela Série-B, porque a sua estreia como protagonista em “The Big Trail”, de Raoul Walsh, foi um verdadeiro desastre de bilheteira e todos sabemos como os produtores são ciosos do seu dinheiro. Quem conheceu John Ford também sabe como ele por vezes era teimoso, levando sempre a dele avante. Assim aconteceu e John Wayne iria assim conquistar o reconhecimento dos seus pares com “Stagecoach”, já Claire Trevor (a bela Dallas) na época era, apenas, a actriz mais bem paga em Hollywood, sendo com naturalidade que encontramos o seu nome antes do de John Wayne, “fruto da época”.



Sean Aloysus O’Fearna mais tarde conhecido como John Ford nasceu a 1 de Fevereiro de 1895 na Irlanda, a sua terra mais amada. A infância foi dura e a fome um elemento preponderante no quotidiano dos irlandeses, motivando a partida de muitos para o Novo Mundo, visto como a Terra Prometida. Seguindo as pisadas dos seus conterrâneos, o jovem Sean partiu para solo americano e pouco depois chegava a essa “granja” na Califórnia, situada num território nascente e repleto de luz, chamado Hollywood, onde executou as mais diversas tarefas no Mundo do Cinema.
Como todos sabemos, nos primórdios,  o Cinema ainda era mudo e o ano de “O Cantor de Jazz” / “The Jazz Singer” vinha longe. Começou a realizar “westerns” para Harry Carey, nascendo um autor com “Iron Horse”, talvez o cineasta com mais filmes perdidos do período mudo. Na época assinava os “movies” como Jack Ford até nascer em 1923, no seguimento da feitura de “Cameo Kirby”, a assinatura que ficaria célebre na História do Cinema: John Ford.


E em 1939, John Ford decide colocar no interior de uma diligência uma mulher expulsa da cidade pela “liga da moralidade”, um jogador de tiro traiçoeiro, a mulher grávida de um oficial da cavalaria, um médico bêbado, que encontra num pacato vendedor de whisky o seu melhor companheiro de viagem, mas este não podia ser o quinteto perfeito porque, às portas da cidade, um novo elemento espera por eles. Nada menos do que o banqueiro, depois de feita a sua golpada. Mais tarde será “pescado” das areias do deserto o “foragido” Ringo Kid. Por outro lado o condutor da diligência leva a seu lado o xerife, constituindo desta forma um número ímpar de mau agoiro. E dizemos isto porque os Comanches de Gerónimo andam pelos mesmos caminhos da diligência, por isso mesmo um destacamento da cavalaria os irá acompanhar até à primeira troca de cavalos no habitual posto das diligências, tantas vezes usado pelos homens da West Fargo. Porém, aí tudo se irá complicar.



Visitamos assim, pela primeira vez, esse universo Fordiano chamado Monument Valley e ao longo dele vamos conhecendo o retrato psicológico de cada um dos passageiros da diligência. Dallas (Claire Trevor) e Doc (Thomas Mitchell) são os indesejados, expulsos da cidade a caminho de outra vida, já Ringo Kid (John Wayne), ao ser recolhido no deserto, fica imediatamente sobre prisão para impedir o duelo desejado com os homens que lhe mataram o pai e o irmão. Enquanto Hatfield (John Carradine) surge como o jogador impiedoso e protector de Lucy Mallory (Louise Platt), esposa grávida de um oficial de cavalaria. No meio desta gente vai o pacato vendedor de whisky Peacock (Donald Meek), ninguém na diligência acerta com o seu nome, que só pretende regressar a casa são e salvo, por outro lado o banqueiro sempre a pregar a moral e os bons costumes, transporta com ele o dinheiro dos depositantes, após a “golpada” bancária.


Ao longo da viagem John Ford irá analisar, um a um, todos os ocupantes da diligência, usando com mestria o grande plano, utilizando esse espaço tão pequeno e fechado, para criar um clima de angústia, sufoco e suspeição, demonstrando como o individualismo, fruto do egoísmo, é a nota dominante naquela diligência.

A forma como, desde o início, Dallas e Ringo são tratados pelos outros passageiros, repare-se na impossibilidade sentida por Lucy em estar em frente de Dallas, uma esposa de um oficial junto de uma mulher do saloon não é possível e a solidariedade oferecida por Ringo a Dallas, companheiro de infortúnio, com a frase “esta senhora também bebe a água pelo copo”.
Durante toda a viagem iremos sendo confrontados pelos aspectos psicológicos constituintes de cada personagem e através deles nos será oferecido o retratado do verdadeiro Oeste. Nele iremos ter a diligência, o foragido, a cavalaria, os índios e por fim o famoso duelo, filmado com uma economia de meios e uma luz próxima do expressionismo, repare-se aliás como aquela noite no “far-west” está tão próxima da noite irlandesa de “O Denunciante” / “The Informer”.


Terão sido, possivelmente, estas algumas das razões que levaram Orson Welles a ver “Stagecoach” / “Cavalgada Heróica” cerca de quarenta vezes, durante a preparação de “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés”. O génio, celebrizado pelo enorme sucesso da transmissão radiofónica de “A Guerra dos Mundos”, tinha Hollywood aos seus pés e procurou, através da visão de outro Mestre, obter todos os ensinamentos necessários à construção da biografia de Charles Foster Kane ou se preferirem Randolph Hearst, uma das mais poderosas figuras da América. Se Orson Welles tivesse ido na diligência conduzida por Buck (Andy Devine), qual seria a personagem que escolheria para interpretar?


Muitos anos depois, ao (re)vermos “Stagecoach” / “Cavalgada Heróica”, no grande écran ou mesmo no conforto do lar, sentimos a nostalgia do Oeste e a memória do “western” termina sempre por nos conduzir a Monument Valley, essa outra pátria de John Ford, que tivemos um dia a felicidade de pisar, sentindo a bela imensidão do espaço, com as suas mesetas vermelhas.

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